Nada muda, a não ser o que já
acontece, às vezes. De repente, uma louça que quebra ( aquela que você curtia
tanto, não sei se prato ou copo, dizem que dá sorte) ou pior, uma amizade que
estremece, ou um aborrecimento que vem, sem pedir licença, claro! Mas pode
acontecer de você se alegrar à toa, só porque o sol está quente ( tem gente que
não gosta) e o velho calor traz alegrias e expectativas. Hoje, vou a um baile de
Reveillon. A companhia é boa, minha irmã, meu cunhado e algumas amigas, tudo
junto numa mesa de 10 lugares. Música. Adoro. Mas aquele tempo em que eu
esperava por esse baile, já vai longe. Parecia ser o acontecimento do ano. Só
ficava meio tímida ( pra não dizer totalmente) quando começava música de
carnaval. Eu tinha vergonha de dançar, me achava sem jeito. E era. Mas as paqueras,
os olhares, os amores (tive um proibido, que deu sal à minha vida) era romântico. Eu sofria; mas quando dançávamos (
mesmo sabendo que meu pai me levaria embora daí a pouco) parecia o Romeu e Julieta,
abraçados no meio do salão, ao som de boa música. Se ele curtia esse amor como
eu, não sei mas, parecia que sim. O
tempo passou. O baile passou. Alegria, essa vem em doses homeopáticas, não por
falta de esforço. Sou bem humorada até demais. Chuto os problemas pra debaixo
da mesa e vou dançar, sorrir. Meu cabelo
tá feio. Cortei e me arrependi, agora, espero que cresça rápido, mas é detalhe.
A euforia, “o melhor da festa é esperar
por ela” já era. Entusiasmo se converteu em obrigação de se distrair. Tem que sair,
dizem uns, ficar em casa não é bom. Discordo. Tem vez que ficar em casa é verdadeiro
bálsamo. Acompanham-me uma boa leitura, um livrinho de palavras cruzadas, ou
até mesmo ficar olhando pro teto, pensando na vida, me dá gosto.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
NATUREZA VERSUS PAIXÃO.
Quando leio um livro onde o autor
descreve cenas, a paisagem, relatando minúcias, às vezes, dá preguiça. Explico:
não consigo “pular” pedaços do texto, tenho o hábito (não sei se é maluquice)
de ler cada palavra. Sou fiel leitora, devo dizer. Fiel a quem? É que não sei
fazer diferente. Li o primeiro volume de “Os miseráveis”, de Victor Hugo.
Fantástico. Mas há trechos chatíssimos, que me perdoem os mais cultos. As batalhas
do Napoleão, por exemplo, dão um nó na paciência. Pra que tanto detalhe? Já o
exemplo do bispo é maravilhoso; do personagem Jean Valjean, que foi preso por
roubar um pão e apesar de se tornar um benfeitor, bem mais tarde, acaba crucificado
do mesmo jeito. Fez-me lembrar o Nelson Mandela. Os heróis se repetem de uma
forma ou de outra. Mas volto a dizer sobre as falas de grandes autores, quando
descrevem a Natureza. Eu também, me deleito, por exemplo, com o por do sol. Calma,
gente, não estou me incluindo entre os “grandes”,
apenas gosto de escrever. Alguns amigos mandaram fotos pelo Facebook, de netos
com a família, avós babando ( como na música da gloriosa Anita) no mar
soberano, com águas claras, despoluídas ( ainda existem milagrosamente) e, com
o calor que faz no meu apartamento, bem de frente para o sol, deu vontade de
sacudir a inércia, colocar meu maiô e correr para a praia e mergulhar de
cabeça. Mas uma das minhas paixões é justamente ver o sol se pondo, colorindo
minhas tardes. É uma coisa da qual não abro mão. Não sei porque, prefiro o calor, não gosto de frio.
Talvez porque tenha alergia, sou meio asmática ( não sei se existe meio
asmática, o fato é que melhorei muito com a Homeopatia) e friagem, repito, não
me faz bem. Mas o que quero dizer, mesmo, é que compreendo quando alguém se
prolonga ao descrever uma cena dentro de uma história. É o amor pelas coisas
que admiramos. A Natureza é a maravilha que nos foi dada de presente. Mas não a
usufruímos com respeito, nem valorizamos essa dádiva de Deus.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
PANCRÁCIO.
Genial o conto do Roberto Pompeu
de Toledo, na última Veja: “Conto de Natal”. Costumo ler seus artigos, toda
semana e gosto demais. Só que o conto me surpreendeu. Incrível como ele colocou
com humor e realidade o comportamento das pessoas nos dias de hoje.
Com a figura do Pancrácio ele nos presenteou com uma engraçada historinha mas, acima de tudo, um retrato fiel do que
acontece. As pessoas robotizadas, hipnotizadas com as maquininhas infernais,
ainda que úteis, incríveis, modernas. Não quero ser retrógrada, se caminha é
pra frente mesmo. Mas é de dar nó em pingo d’água, melhor, nas cabeças dos não
tão jovens (como eu e meus contemporâneos). Até nomear a gama enorme de
aparelhinhos que acontecem todos os dias, fica difícil para essa geração que,
digamos, está mais pra lá do que pra cá. Quem puder, leia o conto do Roberto. Olha a intimidade,
mas me familiarizei com o que ele escreveu, e me diverti horrores! Leiam! É
imperdível!
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
CEBOLA, AÇAFRÃO,GENGIBRE
Além de alho, limão, tudo batido
no liquidificador. Peguei a receita de um famoso programa de TV. Era para ser
usado temperando o arroz, que deveria ser fervido na água com uma pitada de sal
e escorrido, como fazemos para cozinhar o macarrão. É mais saudável, segundo a
nutricionista do programa. Experimentei. O arroz, realmente, ficou ótimo,
soltinho. Mas o molho, benza, Deus!
Ficou muito forte! Para quem gosta de coisas picantes, aconselho, mas não é o
meu caso. Resultado: não coloquei no arroz. Apenas “morenei” uns dentes de alho
e misturei. Por que falar disso agora? Não sei. É a vontade de dizer alguma
coisa que me persegue, desde que
amanhece o dia. A missa do galo, tentei ver pela televisão, não tive tempo de ir à
igreja, a cozinha me deu trabalho. Queria ver o papa Francisco, celebrando a
missa para homenagear quem é o verdadeiro Natal: Jesus. E papa como Francisco é
coisa rara! Mas cochilei, de cansaço. Tem um filme, “Vestígios do dia”-
lembrei-me mais por causa do título. É o que ficou de ontem. É o que fica da
vida: vestígios; tudo é efêmero... Tudo é incerto. Viver o presente é o que
devíamos fazer. Mas o mau hábito de visualizar o futuro nos impede. Parece
vício. Hoje, todos descansam. Restaurantes fechados, mercados, comércio em
geral. Fechados para balanço. Mas a vida continua marcando as horas, os
minutos. Vamos vivendo, de uma forma ou de outra, o nosso presente.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
A EUFORIA DO NATAL.
Que sentimentos
ocupam nossos vazios nesta época: Natal, fim de ano. Parece um rio que vai dar
no oceano. Chega o tempo em que achamos acabou uma etapa da vida e outra vai
começar. Nada disso. Não sinto assim. Cada pessoa deve ter um modo de
visualizar os meses do ano. Penso nisso às vezes. Olho como se fosse uma
escada, culminando no mês de dezembro. Lá no topo, ele, de repente, faz uma
parada súbita e com a contagem regressiva em que todos gritam até que alcancem
o número 1 , seguida pelo espocar dos fogos de artifício, luzes
brilhantes, cascatas, demonstrações de alegria, quando todos se abraçam, numa
confraternização meio mecanizada, sinalizando que aquele ano terminou. Para
uns, tristezas escondidas no mais profundo da alma. Vem a sensação de recomeço. Mas é só uma falsa
idéia. Antes, as compras, as filas intermináveis nos caixas. A pressa das pessoas pelas ruas, pelos
shoppings, por todos os lugares, expressões de angústia, onde o tempo é curto
para tantas atividades. As despesas extras com a ceia de Natal, frutas
escolhidas, castanhas, nozes, as iguarias que só são preparadas nessa época. A
humanidade se prometendo dias melhores, cheia das melhores intenções. Os
cartões de felicitações, entraram em
compasso de passado, meio que perdidos
entre as modernidades dos tablets, ipods e outros que tais. As mensagens
instantâneas pelo Facebook, e-mails... E lá de cima, Alguém nos olha com olhos
de ternura, de amor. Tem missa para Ele, sim. Mas é detalhe. Todos rezam um
pouquinho mas correm para dar os presentes que, colocados sob a enorme árvore,
vão trazer surpresas ou mesmo decepções, quando o presente não for o que se
esperava. Enfim, é o dia da ilusão maior, de esperança.Tudo vai dar certo,
todos terão saúde e a vida será cor de rosa, só porque é Natal.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Escrever ou não escrever, eis a questão...
Amanheci com vontade de dizer alguma coisa. De escrever, na verdade. Gosto imensamente quando bate inspiração. Não bateu. Só que é importante para mim deixar algum pensamento, ou crônica, sei lá, qualquer coisa, com a esperança de que alguém vai ler. Vaidade. Deve ser. Mas preciso exercitar o que descobri não faz muito tempo: essa tendência a escrever. Está um dia nublado, chuvoso. Não gosto. Me dá tristeza. Adoro ver o sol brilhando, queimando nossa pele, incomodando mesmo. Traz alegria, vontade de fazer coisas...Dá preguiça, o corpo fica meio mole, mas tem suas compensações. Ando meio devagar...literalmente. A idade vem deixando suas marcas, dificuldades que não percebia, antes, claro. E aí, dá vontade de aproveitar os momentos que me são dados. Aprender ainda é tempo, por que não? Estudar e principalmente, ler, ler muito. Ontem, uma amiga me perguntou: " Que hora você costuma ler?" A qualquer hora, respondi; às vezes pela manhã, assim que acordo. É sossegado. Às vezes, à noite, mas dá sono...E às vezes, a qualquer hora. Ler é bom. Acho que se tornou meu melhor prazer.
sábado, 9 de novembro de 2013
Informação aos leitores...
Comecei um pequeno romance com "A casa da felicidade"; o segundo capítulo, " A triste descoberta de Matilde". Quem leu e gostou comente, por favor. Já tenho muitos capítulos prontos à espera da aprovação dos leitores. Obrigada. Neuza.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Aos amigos que leem meus textos.
Oi, gente! Gostaria muito que comentassem sobre os textos que escrevo, ainda que falem mal, mas falem de mim...(brincadeira). É bom saber o que acham e ao mesmo tempo ver quem leu e saber a opinião.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Escrevendo um conto...depois te conto
Ler Clarice Lispector é no mínimo instigante. Pois é, estava
eu lendo Laços de Família. E me aventurei em escrever também um conto. Tenho
feito crônicas. Acho uma delícia quando me bate inspiração e, do nada, andando
nas ruas, principalmente, vou imaginando o que escrever. Agora, me bateu uma vontade, sugestionada pela grande autora.
E aí vai.
“Para, para”! Ouvi esses gritos no meio
da noite. Era bem tarde. Gosto de ver alguns programas ou filmes na televisão,
isto quando não estou lendo. A violência anda tão inserida no nosso dia a dia
que não me abalei o suficiente para chegar até a janela. –“ Deve ser briga de namorados”,
pensei ,num primeiro momento. Não era. Depois fiquei sabendo pelo porteiro que
era um assalto mesmo. Minha filha que se abalara com os gritos viu, pela
varanda do apartamento, a jovem de quem os bandidos tinham acabado de levar o
carro. Encontrava-se sentada, na calçada, amparada por um rapaz, talvez seu
namorado, disso não tive informação. Ou fora daquele jovem o carro roubado.
Este não é o ponto. São frequentes as
notícias de casos como esse. Pensei que o melhor seria estar quieta no meu
canto. Até chegar da varanda pode ser um ato de coragem... Vai que uma bala
perdida... Na manhã seguinte, mais detalhes do acontecido. De qual
apartamento, de quem era filha a moçoila que gritava. Sorte dela e do rapaz,
seu acompanhante. A violência se resumiu ao bem material. Não foram feridos, só
a lesão moral e o pavor daquele momento de insegurança.
Para bem da verdade, não me tocou muito.
O momento em que uma coisa assim acontece pode nos abalar de forma mais intensa
ou não. Estou me tornando insensível ou tudo se resume a uma acomodação
nefasta, que nos deixa egoístas ao ponto de
imaginar que estamos a salvo. Não foi comigo, pelo menos naquela hora,
estava eu tranquila, no meu canto. Caminhamos para o caos. As autoridades
apenas preocupadas em ganhar as próximas eleições. O povo que se dane. Até
porque polícia nas ruas não é certeza de segurança. Deveria ser. Mas o que
vemos são pessoas sendo baleadas, sequestradas e torturadas por policiais. Cada
vez mais me surpreendo feliz por estar em casa, lendo meus livros, até fazendo
as tarefas diárias, tão chatas e cansativas. Vou passar algumas roupas,
acumuladas da semana passada. É o que mais detesto fazer. E vou adiando. Vou
adiando a vida. Como se estender roupas numa tábua de passar fosse a coisa mais remota entre os afazeres;
estendo idéias, estas, sim, me dão prazer. Me dão necessidade de botar pra fora
o que me ficou preso por tanto tempo. No sofá da sala, alinhavava meus
pensamentos e percebi emergirem lágrimas. A menina de ontem se transformou na
mulher decepcionada; com o peso da idade, vem-me as frustrações. Não há nada
que me dê mais tristeza do que ver que todos os sonhos, todos os planos, até os
mais inconscientes, foram jogados fora.
O prazer de uma sala de cinema, por exemplo, se transformou em impaciência, o
rufar dos pacotes de pipocas, com sacudidelas para misturar o sal, me dão
calafrios. A tela e a projeção tão modernas, o som altíssimo e vibrante me causam enorme transtorno. A sala
de cinema perfeita foi a de tempos atrás, de filmes cortados, cenas decepadas,
e som irrisório. Mas a magia estava lá. Os atores e atrizes inatingíveis,
representando as figuras românticas, me transportando para um espaço e um tempo
que não eram meus. E ao mesmo tempo tão próximos a mim porque eram os legítimos
representantes dos meus sonhos, das minhas escapadelas da realidade, que me
transformavam na mocinha que era salva pelo herói. Chorei. O herói se esvaiu
com o andar da carruagem. O tempo se nega a voltar. A vida me machuca e me informa
que é o presente a única instância. É agora. Não há mais porque sonhar. E isto não perdoo. Isto não aceito. Passou depressa
demais. As fantasias se esgotaram. Sinto nos ombros, não só o peso da idade. A
carga, o sobrepeso são a realidade, sem desculpas;
não pedem licença, só passagem. E esse conto, que pensei contar, não tem heroína
nem mocinho. Tem a vida como autora famosa, já que com tantas obras. E os
galantes personagens já morreram. Eu os enterrei e levei flores...
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
CINEMA: A gravidade da coisa.
O filme em 3D me pareceu assustador num
primeiro momento. Tenho um problema sério de estômago fraco ou sei lá o quê;
sinto náuseas facilmente, tanto andando de carro, ou de avião, quando não
consigo ler, seja qual for o veículo em movimento. Desde menina sou assim,
antes, bem pior. Quando fomos comprar os ingressos para o filme, Gravidade, o
rapaz da bilheteria nos informou que o filme era em 3D e que teríamos de usar
os tais óculos para acompanhar a projeção com legendas. Ele riu ainda da
aflição das duas coroas que se informavam sobre as condições da fita. Filme atual, com incríveis efeitos especiais, devo
dizer e ainda com a vantagem de se apreciar a figura linda do George Clooney. É
claro que não vou entrar no mérito do
realismo. Cada cena mais impossível de se crer do que a outra. Mas valeu a
pena. Estou abismada com a visão da nossa Terra, vista daqueles ângulos. Aliás, cada ângulo de tirar o fôlego, já que
em 3D. Pensei que não deveria me atrever a assistir a um filme que pudesse dar um nó no meu estômago, já que
sou propensa a me nausear. Jamais frequento teleféricos e coisas assim, nem sob
tortura. Pensei também que deveria
deixar de ser ridícula, medrosa, parecia coisa de velha, afinal. Criei coragem
e já comprados os ingressos ( fui com minha irmã) me senti a própria
astronauta, quando num primeiro impacto, ao colocar os óculos, numa aventura fantástica, via objetos
flutuarem em minha direção! Eu parecia participar das peripécias dos astronautas. Devo dizer que um certo “frisson” aconteceu, claro. Mas amei
as imagens do nosso planeta; aconselho a todos a darem uma olhada no filme. Não é
todo dia que podemos ver as maravilhas da tecnologia assim tão perto. E mais:
com o George Clooney de brinde! Pena que ele ficou perdido no espaço... que desperdício!
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
MEDO DE CACHORRO
Voltava eu da minha aula diária de ginástica para velhos. Velhos, sim. Nada desse negócio de substituir a palavra por idosos, melhor idade, essas coisas que só servem para humilhar mais. Aliás, não propriamente humilhar... Credo! Por que eu disse isso? Não é ridículo ficar velho, apenas acontece, é até motivo de orgulho, não é mesmo? Mas, continuando, vinha eu toda faceira, na minha bermuda cinza, combinando com a camiseta verde e tênis. Chegando à esquina próxima da minha rua, percebi um amontoado de pessoas; duas senhoras seguravam pela coleira dois cachorros: um menor, metido a besta, rosnando para o maior, que parecia mais feroz e agressivo. Tive que passar por eles. Sempre observo a campanha que muitos fazem a favor de animais. Sou totalmente a favor; dei até em sentir certo remorso ao comer uma coxa de frango ( a parte que mais gosto) ou quando mastigo uma carne moída e penso no pobre boi, tão grande tão forte e imponente, que acabou sendo triturado tristemente. Até rimou. Se ele soubesse a força que tem talvez reagisse. E os peixes então, morrem pela boca, mas se Jesus liberou... Enfim, volto a dizer que sou a defensora dos animais, contanto que fiquem longe. Não sei explicar e não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto: morro de medo, principalmente, de cachorros pois estão sempre no meu caminho, no meu prédio, na rua...em todo lugar. Os outros, dos quais tenho tanto medo como cobras e lagartos, estão mais distantes, obviamente. Quero que todos os cachorros se deem bem. Chego a invejar aqueles que os tem como bichinhos de estimação e os tratam com o carinho devido. Só que o contato com eles me dá uma tremenda aflição, vai entender. Aí, precisei passar pelos dois “dogs” que latiam um paro o outro ameaçadoramente. Minha reação foi automática, desviei-me como pude e quando dei pela coisa, estava segurando a camisa amarelo-alaranjada do lixeiro que se encontrava junto às duas senhoras e respectivos cachorros. Ele riu do meu súbito medo e disse, com ar divertido: -“ Tá com medo dos cachorros?” E eu segui meu caminho, já agora, rindo muito também, percebendo a estranheza da situação. Que vergonha! Uma senhora já avançada na idade (digamos assim) e tão cheia de chiliques!
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
VIVENDO A PAISAGEM
Saí de casa. Ia viajar. Meu filho me deu carona até a
Rodoviária. Coisa rara. Filho nunca tem tempo para a mãe. Conseguia não levar
uma bagagem enorme, como costumo fazer. A maturidade realmente nos transforma
um tantinho, ou talvez nos dê mais praticidade. Sentei-me diante da plataforma
que estava marcada na passagem de ônibus. Detesto avião. Não era o caso, felizmente.
A viagem era para um lugar não tão distante. Carregava apenas minha bolsa
nova, cheia de compartimentos, presente da filha; toda vez que precisava de
alguma coisa, necessário abrir o zíper de um lado e depois do outro, até
encontrar o que queria. Intimamente, sentia saudades da velha bolsa vinho. A roupa, chinelos e outras utilidades, apenas
alojados numa mochila de listras brancas e azul-marinho, que a filha me
emprestara. Sentia-me moderna, prática.
Feliz por estar viajando sozinha. Feliz não é exatamente o termo mas me via satisfeita por estar ali. Todo o
ritual cumprido: a ida ao banheiro, principalmente, me deixava mais segura. Não
seria necessário equilibrar-me, rezando para não acontecer alguma curva e
também que não ficasse presa dentro do banheiro do ônibus. Muita gente não vai
entender a minha apreensão. Outros, sim. Finalmente, chegou o carro e
embarquei, não sem antes perguntar ao chofer sobre o horário certo da chegada à cidade para a qual me destinava. Estava
confortável, digamos assim. Não havia ninguém na cadeira ao meu lado. Melhor.
Não teria que conversar, se não
quisesse. Nem precisava ser gentil com ninguém. Comecei a pensar em fazer novas
viagens. Depois que me dediquei a escrever, fico observando tudo o que se passa
ao meu redor. Vou fazer uma crônica sobre o que estou vendo, logo imaginei.
Passei a fazer uma descrição detalhada de cada pedaço da estrada. As cores
normalmente me encantam. Acho que faço um estudo imaginário, pensando na
mistura que faria na paleta se fosse fazer um quadro, já que aprendo mais por
observação que outra coisa. Assim também dei em fazer, ao descrever uma
paisagem. A cor do barranco de nuances variadas, do marrom avermelhado, ao mais
opaco, dependendo da área e da vegetação. Os verdes então, tamanha era a profusão de tons que me
encontrava maravilhada. A natureza imponente. O céu não estava propriamente bonito.
Uma chuvinha fina tinha acabado de acontecer. Apesar disso, a claridade era
grande. As cores, vivas. Passei um bom tempo naquele esforço em fixar na
memória as imagens bonitas que iam desfilando através da janela larga, abrangente. Cansei-me depois de algum tempo e muitos
quilômetros. Pensei que as pessoas iriam achar enfadonho ler uma descrição,
como as que fazíamos nos tempos de escola, orientados pela professora de
Português. Cópia e ditado ou um cena a ser descrita, geralmente o que ela pedia
como exercício obrigatório em aula. Resolvi parar. E a viagem seguia, eu cheia
de orgulho por estar sozinha, empreendendo uma viagem que me deixara ansiosa
uma semana antes. Hoje, resolvi colocar aqui as impressões sobre a estrada,
sobre os riachos, morrinhos e montanhas azuladas pela distância, bois nos
pastos, planícies, com seus casebres ao
longe, pequenas florestas teimando em aparecer, apesar do contínuo desmatamento
e inconsciência dos homens. Alguns pássaros, galinhas, a majestosa ave branca,
nos alagados, flores em profusão, já que
estamos na primavera e gente também. Mas
o que me motivou mesmo foi a aventura em si. Eu, sem depender de companhia,
indo simplesmente, vencendo os obstáculos, os medos. Querendo ser mais
confiante. Querendo exercer mais a minha liberdade. Querendo ser feliz só de
olhar para a vida que se expõe diante de meus olhos, que passa rapidamente,
cada vez mais. Quero desfrutar meus momentos de paz. Aproveitar a solidão
calma, às vezes tão necessária...
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
ENTRE FANTASIAS E UM TELEFONEMA...
Hoje, dia
4 de outubro, de uma sexta-feira do ano 2013, estava costurando uma roupa que
improvisei para ir ao aniversário de uma
amiga, amanhã. Imaginei uma melindrosa. Arranjei uma camisola acetinada de cor
gelo. Saí para comprar, num armarinho próximo, as franjas, que iria colocar na
dita camisola. Será uma festa à fantasia, claro, nem precisava dizer, mas disse.
Isto porque sempre gostei desse tipo de festa. Voltei animada mas só
consegui uma cor mais ou menos próxima à cor da camisola, agora elevada à
categoria de roupa de festa. Então , como dizia, voltei entusiasmada para
costurar minha roupa. Devo dizer, infelizmente, que tive de usar um pouco de Bepantol
no joelho direito e também na coxa esquerda e já explico: assim que comecei meu
trabalho de costura, vi logo que não seria tarefa muito fácil. Minha mãe foi
uma grande costureira, eu diria mesmo um talento para a confecção de roupas. Eu
confesso que não puxei esse lado artístico de minha mãe. Bem que gostaria, mas
é preciso muita paciência. Acho que não me dou muito com as ciências exatas,
porque acho que o corte de uma roupa, com suas medidas certas, não fazem a
minha cabeça. É isso. Gosto muitíssimo de desenhar, pintar, ler e até escrever,
como faço agora. Mas costura tem tudo a ver com a tal da matemática. Devo
terminar a explicação sobre o uso da pomada curadora. É que o tecido acetinado
da camisola escorregava a cada alinhavo que eu tentava dar. Passei a dar um
susto na agulha colocando-a sobre a parte do meu corpo que melhor se adaptava à
posição de costurar. Só que o que dava maior suporte era o pobre joelho direito
e a coxa esquerda. Estava sendo verdadeira guerra a confecção daquele novo
traje. Para piorar tudo, percebi que os dez metros de franja não seriam suficientes
para cobrir a área destinada para eu me transformar numa verdadeira melindrosa.
Tive que voltar à loja. Não encontrei a medida suficiente, com a mesma cor.
Optei por um tom de cinza, parecido com a cor gelo da (já agora) ex-camisola.
Ainda bem que a festa será à fantasia. Continuei minha árdua tarefa. Não estava
saindo como eu queria. Finalmente, a máquina de costura me deu o cano e pifou.
Tive que terminar com um trabalho feito à mão e mais uma vez, agulhadas pelo corpo... Espero
que pelo menos eu me divirta, com a música, inspirada nos anos 60, conforme
prenunciou minha amiga e aniversariante. Acho que não terei coragem, no final
das contas, de usar minha fantasia. Vou me contentar em comprar alguns colares
de havaiana e os usarei sobre um traje estampado. Confesso que me frustrei.
Gastei meus ricos tostões, querendo economizar, gastei tempo, querendo ser
competente e criativa. Estou morta de cansada. Mas só tenho uma certeza, nesse
final de noite estressante: tão cedo, inventarei de segurar qualquer agulha e linha. Por um bom tempo, estarão
suspensas de meus afazeres domésticos. Mas ia me esquecendo de contar o que
aconteceu e que não deixei de lembrar o resto do dia: alguém me telefonou. Saí
das agulhas e linhas e corri para atender a mais um telefonema. A campainha
insistia, à medida que eu me desvencilhava da bendita costura, dos furos nas
pernas e joelho. Atendi meio arfante. Do outro lado, uma voz me surpreendeu. Há
tempos não a ouvia. Fiquei feliz. Não me
perguntem quem foi, não direi. Só sei que foi bom, muito bom. Se ficou sentindo curiosidade,
deixo para contar numa outra vez...
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
SANDALINHAS "HAVAIANAS".
Será normal uma saudade tão
grande de alguém que você acabou de ver e, mal essa pessoinha virou as costas,
você se sente arrasada? É assim que fico quando meu netinho vai embora, depois
da visitinha semanal. Deixei-o na casa da mãe. Fomos de táxi. Ele chegou, já
dormindo no meu colo. Voltei no mesmo táxi. A cidade anda tão perigosa que não
me atrevo a voltar de ônibus, às vezes. Entrei e não havia ninguém em casa. Fui
para meu quarto ver o jornal pela TV ou a novela que terminava; deparei- me com
a minúscula sandália, com desenhos infantis, no chão. Aí, o nó na garganta:
mais sete dias sem ver o meu menino. A banheira azul no box do meu banheiro, a
cueca azul-marinho e o par de meias sobre a pia, que ficaram para eu lavar.
Esta, outra etapa deliciosa; sorrio a
cada esfregadela, nunca tenho prazer maior ao lavar uma peça de roupa. Cada
coisa sua me deixa com este sentimento. É um carinho tão grande que chega doer.
Deus me deu este presente: não imaginava que o amor por um neto fosse tão
imenso. Não é como o amor pelo filho, não. É apenas diferente. Há mais
paciência. Há mais permissão. Há mais satisfação ao acariciar a mãozinha
infantil, ao massagear o pezinho que coça. Há, no final das contas, mais noção
de que, com a idade, com os problemas que naturalmente enfrentamos, a vida é
compensada com esse pequenos prazeres.
Não dá para medir. E fico esperando pelo próximo encontro, trabalhoso, sim, mas que transborda ternura,
que me faz feliz...
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Bom dia, pedreiro...
É preciso ser gentil. Ser solidária, ser humana, enfim. Hoje, mais uma vez, colocando em prática o ato de me humanizar mais, de ser uma pessoa melhor, dei um caloroso bom- dia, quando passava em frente a uma obra, ao lado do meu edifício. Sempre estão ali: pedreiros, operários de modo geral, engenheiros, presumo, com seu traje mais afinado e com a pose de quem se acha superior. Que me desculpem os que são mais humildes e não se enquadram na descrição. Voltando ao que dizia, eu me achei no dever de, ao passar pelo grupo de trabalhadores, dar-lhes um bom-dia, afinal, estão ali trabalhando dignamente. Então. Assim que os cumprimentei, claro, segui meu caminho ( estava indo para minha ginástica diária, na pracinha, a poucos metros dali) ouvi nitidamente: "Bom-dia pro cê também..."! Só não ouvi direito o nome do pobre citado. Era um senhor que havia me respondido ao cumprimento. Deboche puro. Riam. O que fazer depois disso? Devo continuar na minha expectativa de bons fluidos, de um retorno do Universo, diante de minhas boas intenções ou devo admitir que ando meio fora da realidade? Acho melhor seguir a primeira ideia, afinal me sinto bem assim...Que se danem os gozadores, aqueles que não captaram minha mensagem carinhosa e respeitosa. Um dia, quem sabe, ele passará a responder ao cumprimento de uma senhora idosa, que passa pela calçada, com mais respeito, mas para que isso aconteça, ele terá aprendido com a vida, com o tempo, se souber aproveitá-lo.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Segurem esta senhora fujona!
De tanto insistir, desisti. De tanto amar, esfriei. De tanto sofrer, me acostumei. De tanto tentar, parei. Vou levando a vida. Mas há um preço: Sinto-me meio apática. O que se consegue, sendo racional, analisando que não vale a pena, é isto. O que não posso mudar me deixa ansiosa. Saber que, faça o que fizer, não vai adiantar. Não sei o que é pior: esperar muito por algo e sofrer quando não se obtém o que se quer ou não esperar mais, aceitar sem lutas. Sentimentos diferentes. O primeiro me torna viva. O segundo me deixa morna, sem vontade.
Tenho lido muito sobre o poder mental que possuímos. Que o Universo conspira a nosso favor, se dirigimos a ele bons pensamentos. De volta, ele atua para que nossos desejos se tornem reais. E mais: agradecer, antes mesmo de ter concedida a graça. Tem lógica. Quando interpretamos de maneira correta e entendemos, finalmente, sentimo-nos cheios de esperanças, achando que tudo vai dar certo. É exercitar. É praticar todos os dias - ser positivo- não existe data para a realização. Volta e meia fico assim. Não é bom: falta de estímulos, de sensações que me dão prazer. É comida sem tempero. É não comer a sobremesa. É sair antes do fim do filme. Não é quente, não é frio. Dizem que o meio termo é o ideal. Será? Aprender a viver sozinha é arte. Contentar-se consigo. Não ter necessidade de ninguém. Mas, e os aplausos? E a platéia ? E a aprovação do outro, a admiração? Os monges tibetanos, enclausurados em sua própria solidão, serão mais livres, mais sábios? Parece que sim. O conceito de liberdade é tão subjetivo...Cada um sabe onde o calo lhe aperta. Para alguns a vontade de estar só prevalece. Para outros é castigo dos céus não estar com alguém, não ter companhia.
Quando ando pelas ruas, esbarrando nas pessoas, sinto o verdadeiro peso da solidão. Estou rodeada de gente e, ainda assim, só. Que sofrimento, que vazio...
Tenho lido muito sobre o poder mental que possuímos. Que o Universo conspira a nosso favor, se dirigimos a ele bons pensamentos. De volta, ele atua para que nossos desejos se tornem reais. E mais: agradecer, antes mesmo de ter concedida a graça. Tem lógica. Quando interpretamos de maneira correta e entendemos, finalmente, sentimo-nos cheios de esperanças, achando que tudo vai dar certo. É exercitar. É praticar todos os dias - ser positivo- não existe data para a realização. Volta e meia fico assim. Não é bom: falta de estímulos, de sensações que me dão prazer. É comida sem tempero. É não comer a sobremesa. É sair antes do fim do filme. Não é quente, não é frio. Dizem que o meio termo é o ideal. Será? Aprender a viver sozinha é arte. Contentar-se consigo. Não ter necessidade de ninguém. Mas, e os aplausos? E a platéia ? E a aprovação do outro, a admiração? Os monges tibetanos, enclausurados em sua própria solidão, serão mais livres, mais sábios? Parece que sim. O conceito de liberdade é tão subjetivo...Cada um sabe onde o calo lhe aperta. Para alguns a vontade de estar só prevalece. Para outros é castigo dos céus não estar com alguém, não ter companhia.
Quando ando pelas ruas, esbarrando nas pessoas, sinto o verdadeiro peso da solidão. Estou rodeada de gente e, ainda assim, só. Que sofrimento, que vazio...
Procuro caminhar sempre que posso. Faz bem para a saúde. São afirmações que ouvimos dos médicos, dos vizinhos, das amigas, dos parentes, até os inimigos sabem disso. Um dia, estava assim, andando sem muita convicção, só porque devo. De repente, olhei para todas aquelas pessoas e me veio um sentimento bom. Raro, é verdade. Pensei e senti não estar sozinha. Quantas histórias, e, cada uma delas recheadas de acontecimentos tristes, de decepções, desamores, perdas, enfim... Ah, de felicidade também. Ela existe, sim! Passa por nós tão rapidamente, que, quando nos damos conta, ela já sumiu na curva da estrada.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O TOMBO.
Naquele momento, já me sentia cansada e o suor escorria pelo
rosto. Era bom pensar que os exercícios só iriam me beneficiar. Que bom estar
ali, fazendo um bem para a minha saúde. De repente, vejo uma senhora,
aparentando bem mais que setenta. Ela vem cambaleante, rente à mureta que
sustenta um tipo de palco, de onde a professora de ginástica nos proporciona
ótimas aulas. Vinha meio de lado e seus passos descontrolados a fazem tropeçar
numa barra de madeira (tipo cabo de vassoura, com borrachas pretas nas pontas)
que usamos. Ela cai. Bate com os joelhos e as costas, que, violentamente, se
chocam contra a parede; a cabeça também fora atingida. É um quadro alarmante.
Todos corremos para acudi-la. Um senhor,
o mais simpático e agradável, que sempre nos cumprimenta a todas com um abraço
carinhoso e palavras doces, vem rapidamente e a segura, assim como aquelas que
estavam mais próximas da pobre senhora caída no chão. A professora desce
pressurosa e é uma solidariedade geral. E os “achismos” surgem de todos os
lados: deve ser pressão baixa, ou labirintite, arriscavam também... E o nome de minha mãe se fez ouvir,
pois alguém pronunciou o nome daquela mulher caída no chão. Senti um nó,
apertando minha garganta. Fiquei mais tocada ainda. A pobre, muito pálida, não
dava mostras de melhorar; o homem simpático que a amparava tentou ajudá-la a se
levantar. Nada. Ela não conseguia. A irmã da infausta senhora, muito assustada,
foi socorrida também com um copo d’água. Tentaram ligar para o marido e diziam
que ela morava perto, na rua Itaperuna,
no Pé-pequeno. Ele não atendia. A cada minuto, uma sugestão. “Afastem-se, ela
precisa respirar!” Alegava alguém. E foi chamado auxílio profissional. Uma outra, mais nova entre nós, chega com aparelho de
pressão, constatando que a pressão da senhorinha estava mesmo muito baixa.
Sugeri que água de coco, poderia ajudar e corri ao mercadinho próximo à
pracinha, e comprei uma caixinha com o líquido “milagroso”. Já li muito sobre a
eficácia dele, até em tempos de guerra. A tampa de uma garrafinha d’água,
serviu de copo e ela tomou a água de coco. Parecia se recuperar aos poucos, as
cores voltavam. E ela, tímida: “Que vergonha!” Cada uma de nós e os poucos
homens que também participam, tentavam animá-la. Eu também já levei um tombo horrível no Plaza, bati de
cara no chão – dizia eu. Ela já se encontrava sentada num degrau da escadinha
que leva ao “palco”, escorada no colo prestimoso de uma jovem senhora que
também faz exercícios neste grupo e que sempre se faz acompanhar por sua filhinha
de uns três a quatro anos. Algumas vezes, ela leva também o seu bebê, no
carrinho. Surge um rapaz moreno, bonito, aparentando uns quarenta anos, se
tanto; vem da rua próxima e também se toca e quer ajudar, diz que ele também
tem labirintite. Enfim, é uma bela demonstração de que o ser humano é
solidário, é bom, no final das contas. O
guarda-de –trânsito se faz
presente entre nós. Eu escuto aquele senhor simpático dizendo para uma de
nossas companheiras que se esquecera da receita. –“Voce é médico? “ Perguntei
–“ Não”, se apressou ele. “Era uma receita de licor para minha amiga, é um
santo remédio, completou”. E rimos. A
gravidade do tombo, aparentemente, se afastava. Ela já dava sinais de melhora,
sorrindo suavemente. Neste momento, surge o carro de bombeiros, com sua sirene,
avisando que o socorro chegava. A professora, em tom brincalhão, dizia que
seria bom que viesse um “gato” entre os paramédicos. Já se desenhava um ar de
alívio entre todos. Uma moça bonita, morena, jovem, aparece rapidamente, vestida
com uniforme bege daquela magnífica corporação, que é o Corpo de Bombeiros.
Em seguida, um rapaz que parecia também
médico, se aproxima. Estava salva nossa amiga. Seu marido, já avisado, também
estava chegando, soubemos. Saí, vindo
para casa. É bom estar no meio deste grupo amigo. É bom, muito bom...
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
O COMEÇO E O FIM.
Todas as manhãs tenho ido
à pracinha onde, junto com outros da mesma faixa etária (digamos
assim...),faço exercícios; por sinal, muito saudáveis: praticamos equilíbrio,
fazemos alongamento, além da aeróbica, acompanhando o ritmo da música. Há um
momento em que paramos, rapidamente, para tomar água. O sol é implacável a essa
hora e a ginástica bem puxada. Observei então um menino, brincando na grama;
para ser mais exata, um bebezinho,
talvez no primeiro ano de vida. Os pais atentos ao lado. Inevitável a
comparação. Ele no comecinho e eu já me encaminhando para o desfecho final. Não
estou sento trágica, apenas, naquele instante, constatei o encontro de
gerações, naquele exíguo espaço de lazer, a realidade que me fazia pensar na
brevidade da vida. Como passou depressa... Agora me vejo imaginando o amanhã
daquela criança. E forçosamente, me deparei com o meu próprio futuro, já tão
limitado. Há alguns truques, além do conhecimento avançado da medicina que
proporciona às pessoas que, como eu, tiveram
o seu quinhão, que alongam o nosso tempo no planeta. Mesmo assim, me vejo acometida por uma sensação
parecida com decepção. Ou incompletude. Parece que ficou faltando algo a
fazer. Parece que o tempo passou e não te deu a melhor opção. Parece que suas
escolhas não foram as ideais. Enfim, parece que a vida ficou te devendo um
troco. Tudo isso se passou pela minha mente naquele instante fugaz. Tão fugaz
quanto a vida.
domingo, 1 de setembro de 2013
OLHANDO O PASSADO
Era uma reunião familiar. Irmãs e
cunhados conversando. Eu, uma delas. A conversa costuma correr solta e, vez ou outra,( estou sendo
condescendente) falamos ao mesmo tempo, quando fica confuso o entendimento.
Mas, mesmo assim, um encontro bom. Além do que se fala da atualidade, dos
problemas de cada um, das fofocas de modo geral, passamos uma revista no
passado. Como é salutar e doído paradoxalmente. Rever situações agradáveis,
lembranças da infância e adolescência e ainda visualizar o tempo das decisões
certas, erradas e tudo que se passou para mudar nossas vidas. Um acaso, um
acontecimento que uma lembra e a outra já nem se lembrava mais. O espanto das
descobertas tardias. O ciúme também tardio e meio fora de propósito que um dos cunhados
demonstrava, quando a irmã mais velha falava dos ex amores, do primo cobiçado, essas coisas. Um deles,
era uma mistura de Fábio Júnior com Antônio Fagundes (nos seus áureos tempos,
claro), o que trazia um certo deboche e picantes observações desse cunhado meio
incomodado com as nostálgicas visões de minha irmã e de seus galãs de um tempo
que não volta. Ela tem o dom de deixar qualquer conversa interessante. Desde
menina, monopolizava nossas atenções de criança, quando contava histórias
incríveis, criando personagens e descrevendo cenários de cinema, em suas
narrativas surpreendentes; era quando nos sentávamos à sua volta e a fitávamos
com olhos infantis e maravilhados. E ainda ela consegue ser essa mulher
incrivelmente criativa e que consegue atrair atenções. Mas eu falava também das
coisas que não foram alegres, a vida é entremeada de sabores e dissabores.
Falávamos da irmã caçula que, distante, morando numa das três Américas, a
Central, para ser mais exata, se fazia presente através de fatos rememorados
por nós; alguns, como já disse, nem
sempre agradáveis. Algum sofrimento ficou pairando naquela conversa. No dia
seguinte, o aniversário da neta de quinze anos da irmã primogênita nos proporcionaria, de novo,
outro encontro, além de mais primas, primos,
sobrinhos e o “funk” imprescindível numa festa para os amigos e parentes da
menina, desabrochando para a vida de adulta, de moça, enfim. Comentários de
vestidos e sapatos, uns com preços exorbitantes, outros, com a surpresa de uma
roupa confeccionada por costureira barateira do interior ( que, por pura
competência, deixava nada perder, se comparado aos modelito das lojas de grife)
e esses momentos têm sabor de quero mais. Nem sempre nos reunimos assim. É a
distância. São os problemas. A vida que não mede esforços em nos mostrar que
devemos nos reunir mais e mais. E planejamos mais encontros, talvez em
Guarapari, no aniversário dessa irmã querida. E ela segue; agora, falo de novo
da vida. Inexorável, certeira, rumando ao futuro incerto, nebuloso, que nunca
saberemos qual será. Que Deus olhe por nós, irmãs, cunhados, filhos e filhas,
netos e netas...nessa roda constante que nos surpreende a cada esquina, a cada
nascer do sol.
domingo, 25 de agosto de 2013
Quem está escrevendo?
Tem vez que me sinto outra pessoa. São
sentimentos novos. Quem sabe, talvez, eu deixe os mais antigos descansando,
enquanto me brotam idéias. Sou essencialmente nostálgica, devo confessar. Mas,
de vez em quando, preciso escrever, assim como preciso tomar água para me
hidratar... Não sei se quero dizer alguma coisa, apenas sinto que deveria estar
colocando para fora o que já guardei por tanto tempo. Desperdicei o precioso
momento que é o ato de viver. Sem exagero, percebo claramente isso. Adiei a
vida, na esperança de algo fosse acontecer, independente do meu desejo. E como
tive desejos, e como os sabotei! Como anulei minhas vontades e deixei de
crescer. Não devo culpar senão a mim mesma. A vida é o que temos de mais irreal
e abstrato. Não sabemos nada dela, mesmo lendo muito, vendo e vivenciando
coisas, sei lá... Dizem que é o dom mais precioso. Deve ser. Mas também sofrido
é o viver. E isso é para todos. O que nos consola. Será? Agora, alcancei aquela
fase do tudo ou nada. Mas ficou meio tarde, acho. Apesar das grandes frases,
dos bons exemplos, dos grandes pensamentos, filosofia e tudo o mais, o tempo
passou e me deu uma rasteira. Bem feito! Quem mandou esperar...bobeou, dançou...!...
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
A casa da Avenida Fassbender
Quando nos mudamos, eu mal podia
acreditar. Era a casa dos meus sonhos. Havia dois andares. Um portão menor
servia de entrada à varanda que meu pai reformou e a transformou numa mais
bonita. Pilastras grandes sustentavam o lindo terraço, cercado de grade de
ferro, desenhada. Existia um pomar ao redor de quase toda a extensão da casa.
Ao lado, já se avistavam quatro frondosas mangueiras, que costumavam estar
carregadas; um singelo pé de abacate e de pinha eram quatro; mais atrás,
onde ficava a varanda da cozinha, havia um imponente pé de jambo. Um tapete
colorido de carmim se formava, quando as flores caíam. Havia ainda pés de
goiaba, bananeiras, mamão, um pé de abiu -da -terra e, majestosa jabuticabeira; essa, sim,
dava gosto de se ver. Jabuticabas colhidas
do rés do chão, até o último galho. Esse lado do pomar era dividido por
um muro não muito alto, coberto de hera. Pequenas aranhas se confundiam com a
folhagem verde.
Na varanda, duas
portas: uma que dava para a sala de visitas, para onde meu pai comprara um belo
conjunto de sofá, com quatro lugares e duas poltronas. Lindamente estampado com
uma cor entre marrom e vinho, com flores grandes. Depois, vinha uma outra sala
grande, de jantar. Foram colocados ali alguns móveis que vieram da São Tomé. Lembro
bem: umas poltronas menores, de veludo estampado de amarelo e azul-marinho,
uma escrivaninha de jacarandá preto, mais uma cadeira de escritório que girava.
Quando menores, costumávamos nos sentar naquela cadeira e o outro irmão a
rodava até nos sentirmos tontos. Não sei
porque fazíamos isso, se nos deixava
enjoados, com náuseas. Um outro quarto,
contíguo a esta sala, mais tarde, foi transformado em quarto de costuras da
minha mãe. Em vez de porta, havia um arco entre esses dois cômodos. Mais uma
porta dava entrada a uma copa, com lavabo, que se resumia em pequena pia
branca. Depois, vinha a cozinha, onde a Zé ( cozinheira da casa e minha amiga
inseparável) fritava suas batatas e nos dava petelecos, quando a importunávamos.
Subindo ao segundo andar, havia um pequeno hall de distribuição. O primeiro
quarto, o maior, era do casal. À direita da escada um pequeno corredor nos
levava a outros dois quartos e um banheiro enorme. As construções daquela época pecavam por isso. Meu pai, então, resolveu
construir mais um. Reduziu pela metade a varanda de trás da cozinha e fez mais um quarto de banho, nesse espaço. Ficou bonito, todo de
azulejos azuis, com banheira, completo. Uma beleza.
A escada que nos levava ao segundo andar
era toda de madeira Vejo-me encerando cada degrau e dando lustre com um pesado
escovão. Sob a escada, uma portinhola de madeira arrematava e
fechava aquele espaço oco. Ali se guardavam vassouras e todos os trecos
da casa. Não era raro, ao abrirmos a pequena porta, que nos deparássemos com desagradáveis e inamistosas aranhas do
tipo caranguejeira. Só de falar, me dá arrepios. Para matá-las o “corajoso”
usava álcool e riscava fogo. Elas corriam incendiadas.
Lembro-me ainda de quantas e quantas vezes
nos sentávamos no balanço de ferro, pintado de branco, na varanda. Normalmente,
as visitas se acomodavam ali para uma prosa informal. Noutras vezes, o meu
sobrinho era embalado no vai-e-vem da cadeira de fazer dormir. Era agradável
ficar olhando as roseiras, tinhorões e margaridas, no canteiro próximo.
Meu pai, uma vez, recebia um famoso
jogador do Rio de Janeiro. Conversavam ele e mais alguns admiradores do astro
do futebol, que dava o ar de sua graça. A varanda servia de cenário para a troca de informações sobre pênaltis, melhor defesa
ou ataque, essas coisas da arte com a bola nos pés. Precisávamos atravessar
aquela área, não de impedimento, mas passagem obrigatória para quem vinha da
sala, eu e minhas irmãs. E ouvíamos “
-Vocês não vão cumprimentar as pessoas?” Interpelava-nos o pai, percebendo que
saíamos de fininho, entre risinhos tímidos e sem jeito...
Aquela varanda foi entrada para grandes
alegrias mas também para grandes tristezas. Não era fácil para mim, quando
pessoas chegavam com a intenção de ver a casa. Eram elas interessadas em
comprá-la. A casa seria vendida, sim. Isso me fazia sofrer. Teríamos de deixar
aquele lugar encantado. Ali, minhas grandes descobertas. Ali, onde, aos poucos,
fui percebendo meu corpo se transformar, como borboleta libertando-se do
casulo. E a alma de menina desabrochando para os sentimentos de mulher. Onde as
primeiras lágrimas de amor me
surpreenderam e foram derramadas.
Fiz quinze anos na casa da Fassbender.
Minha mãe, ela mesma, fazia um bolo de três camadas, coloridas com anilina:
azul, rosa e branco. Depois, mandava para dona Inah,
que o confeitava com bonitos trabalhos de glacê. Não houve festa. Apenas
meus irmãos e, algumas vizinhas com quem
repartíamos o bolo, docinhos e guaraná. Meu vestido era estampado de azul.
Minha mãe o costurara. Apesar de morarmos naquela casa
grande e bonita, a situação
financeira de meu pai inspirava cuidados. Não se podia fazer uma festa de quinze
anos. Não como se devia. Como a que fizeram para minha amiga e colega de
escola, Ângela. Participamos dessa festa para dançar a valsa, eu e mais outras
quatorze meninas. Eu ainda usava sapatos baixos, com os meus quinze anos
incompletos. Nesse dia, sofri uma decepção amorosa. O rapaz que eu espreitava
da bay-window, no meu quarto, se encantava por outra mocinha. Eu me
senti um zero, feia. Era o amor da minha vida. O que faria, depois daquilo... Mas
as coisas mudaram. O namorico deles nem chegou a começar, para o meu alívio.
Foi muito bom quando a avistei, na pracinha, dando voltas com outro rapaz, com
a benção de Deus e a minha. Mais tarde, os dois se casariam.
Tive duas amigas de infância que moravam
em frente à nossa casa: eram irmãs. Fomos inseparáveis. Brincávamos ainda na
rua. Lembro-me de que pegávamos um barbante e o esticávamos de um lado ao
outro, para fazer pedágio, quando os carros passavam.
Um belo dia, como nos contos de fada, o
meu amado se aproximou de mim, enquanto dávamos voltas pela praça. Pensei que fosse ter um treco.
Era emoção demais, dentro de um coraçãozinho apaixonado e romântico. Mas isto é
outra história.
Quando a casa da Fassbender foi vendida, o
novo comprador, Seu Júlio – o mesmo que me vendia picolés de uva – transformou-a,
literalmente, num caixote. Junto com a beleza da casa, meus sonhos desmoronavam
A bonita e aconchegante varanda virou um
cômodo fechado, assim como o terraço. E, para piorar tudo, algumas mangueiras
cortadas. O meu cantinho secreto, em forma de janela mágica, ruía. Sem ele meus
mais íntimos desejos flutuavam perdidos, sem um porto seguro. Portas e janelas,
antes enfeitadas, lapidadas, davam lugar a um monstrengo de linhas retas e
frias. Recortes de vidro, com contornos de madeira. Não mais olhos escondidos,
apaixonados, procurando vida lá fora, por detrás das venezianas.
Saíamos da casa para morar num
apartamento. Sem elevadores. Nessa ocasião, minha mãe tinha vindo a Niterói,
socorrer minha avó, que se encontrava doente. Eu e minha irmã Vânia fizemos a mudança, não sem a ajuda de Dona
Irenita, a nova vizinha. Regina, sua filha se tornaria uma das grandes amigas
que tive. Minha vida mudava radicalmente.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
INDO AO TEATRO POR ESTRANHOS CAMINHOS.
Outro dia, eu e minha irmã
estávamos indo ao Rio. O combinado era que nos encontraríamos com meu cunhado
que participava de um congresso médico e depois iria até o Shopping da Gávea
para uma peça de teatro ou cinema. Esperamos o ônibus no Ingá, bairro onde ela
mora.
Nossa conversa é sempre
interminável, desde solteiras somos assim, muito unidas, apesar de irmãs. E
falávamos, falávamos... Então vem o ônibus e eu pergunto se era aquele, já que
minha visão não anda das melhores. É, respondeu ela e acrescentou: O Galeão.
Distraída com o papo, não me liguei muito à sua resposta. E fomos, apreciando o
sol refletido na água da Baía, barcos e navios, uma bela tarde de inverno, dia
ameno. Ela que adora viajar, olhava em direção à Ilha do Governador, dizendo do
prazer de estar numa provável viagem. E assim, naquele molejo de nossa
condução, eu descansava de um dia exaustivo. Só dava trabalho mesmo à língua,
tanto eu quanto ela, num papo ativo,
nosso assunto é extenso. Aí, depois da travessia pela Ponte, o carro seguiu,
desceu o Viaduto e minha irmã comentou que nosso trajeto deveria ser pela Lapa.
Mas, olhando para fora, ela se espantou: “Ué, estamos passando pelo Cemitério?”
Então, de súbito, percebi que algo
errado acontecia e exclamei: “ Estamos indo para o Galeão!” Foi um
sufoco! De repente um pânico se alojou, mas que deu lugar a um riso intenso.
Ela então, ligou para o celular do marido, avisando do acontecido: “ Voce não
sabe o que aconteceu! Duas velhas loucas! “ Continuava ela.” Estamos indo para
o Galeão”... Ele não gostou, claro! Resolvemos ir até ao Aeroporto; a região
onde estávamos não é lá muito segura, todos sabem... Tiramos proveito da
situação para nos distrairmos com a burrada, em vez de nos lamentarmos. Quando,
finalmente, chegamos ao fim da linha, descemos e nos aproximamos de um táxi, no
desembarque. Ela se adiantou: “ Quanto dá para irmos até a zona Sul?” E ele: “
Não deve passar de cem reais. Mas sou de Niterói, não sei bem”... rimos mais ainda com a coincidência. De
Niterói! Fomos. O trânsito estava um espanto, quase não havia movimento e em
alguns minutos, aportávamos seguras, ao Shopping. Assistimos a uma peça
interessante, onde o ator de “Rain man” comandava o espetáculo, numa atuação
soberba!
Numa próxima ida ao Teatro, vamos
ser mais atenciosas. Outro dia, minha irmã que tem memória privilegiada, se
gabava de ter lembrado o nome de alguém só com a lembrança da primeira letra.
Desta vez, a letra G de Galeão, deu um nó sua cabeça e ela fez uma confusão dos diabos com o G de Gávea! Acontece...
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
UM HOMEM, UMA MULHER E DOIS FILHOS.
Ele vestia uma camisa cor de laranja, uma bermuda preta, um tanto gasta; ela uma blusa
de malha cinza, calça jeans e usava óculos discretos; aparentava estar um pouco
acima do peso ideal mas , mesmo assim, uma mulher bonita, bem feita de corpo.
Entre o casal, dois meninos. Um, aparentando uns dez anos e o outro, talvez,
uns quatro. Sentados à minha frente, no banco da igreja. Missa das seis. O
padre já anunciava sua pregação. Mas eu, devo confessar, não tirava os olhos
daquela família bonita, principalmente, do garotinho menor, postado em frente a
mim. Ele se voltava para trás, observando os gestos de uma senhora que rezava
com mais convicção que eu ( pelo menos aparentava isso, com seus molejos de
braços e um canto com volume bem acima do meu). E a criança olhava, e eu ria
para ela, toda vez que se virava. Estava
literalmente encantada com o menino, que batia palmas e tentava cantarolar os
hinos religiosos, imitando a mãe e o pai. Num dado momento, esse pai carinhoso pegou-o
ao colo e ele se aninhou de forma aconchegante. Eu percebia suas mãozinhas
pequenas batendo palmas ao redor do pescoço paterno. Era um encanto. E mais
encantador era perceber o carinho do irmão maior que observava o caçula com olhos ternos e sorria para a mãe,
mostrando as atitudes do pequeno. Passei todo o tempo da missa assim: sem tirar
os olhos daquela cena bonita. Até que o pai colocou o menininho no banco,
novamente. Daí a poucos minutos, ele cochilava, embalado pelas canções e pelo
coro dos fiéis, naquele compasso lento. Dormiu. O irmão mais velho se apressou
em avisar aos pais. O homem, de novo, pegava a criança ao colo, com extremado
cuidado. Em poucos minutos, a mãe trocou de lugar com o filho maior e tomou
para si o menor que dormia. Uma cena simples mas comovente. Quando a celebração da
missa chegava ao fim, não me contive e perguntei à jovem mãe a idade do menino
menor. “_Quatro anos”. Respondeu ela, com um sorriso. E eu: “- Tenho um neto
com essa idade”. Ajoelhei-me para me despedir de Jesus e saí da igreja; coração
leve.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Alegrias e tristezas
Hoje é dia 07 de novembro de 2010.
Escrevo
numa folha em branco do computador, mas sob ela, escondida, está uma enorme
tristeza. É um sentimento de perda, frustração. Há um pouco de irritação também,
afinal sou humana. Minha autoestima está em jogo. E o outro time ganha de
lavada! Estou perdendo o meu orgulho. Era mais “banqueira”, como costumávamos
dizer na época dos namorados. A desvantagem aumentou. Hoje estou velha. Não vou
aliviar, dizendo melhor idade, essas coisas... Fiquei velha mesmo e isso faz
toda a diferença. Os exemplos são muitos, incontáveis, de pessoas que se dão
bem apesar da idade, do tempo. Mas comigo não é assim. Porque soaria falso. Se fosse jovem, as
coisas seriam diferentes, com certeza. Teria todo tempo do mundo para bancar a durona. E a
concorrência, menos desleal. A cada dia, sinto mais uma ruguinha aparecendo; a
imagem que costumava admirar no espelho, deu lugar a uma senhora;
como costumam dizer:” você está muito bem!” Esse bem não quer dizer
bonita, jovem, apenas quer dizer que não despenquei de vez. Dá pro gasto... Não há nada que eu possa fazer para
mudar as coisas. Aliás, tentei. Fui às últimas conseqüências, me arrisquei,
falei dos meus sentimentos, fiz declarações, que nunca pensei conseguisse fazer
um dia. Fui além: me humilhei, dei a cara a tapa. De nada valeu. E aí vem
essa sensação de derrota, de batalha perdida. Sou o Napoleão na ilha de Santa
Helena. Daqui a alguns dias, faço 65 anos. Se somar mais cinco, setenta. Velha,
velhinha. Como as avós que eu olhava
antigamente, quando me achava tão distante daquela realidade. Velhinha assim,
só depois de milhões de anos! Não
chegaria tão cedo. Mas chegou. Outro dia, entrava no ônibus e pensava que em
poucos dias não pagaria mais passagens. São algumas poucas vantagens que
adquirimos com a idade. Vantagens? Que nada! Já me vejo encabulada, sem saber
se entro pela porta da frente ou se compro a passagem para não pagar esse mico!
Oh, céus, o que fazer?
Devo
então dizer que são alegrias tristes, é possível? É. São adjetivos
contraditórios que acabo de inventar, uma nova nomenclatura para qualificar os
substantivos...
Pensando
bem, quando falei de uma época em que podia me dar o luxo de brincar com o
tempo, de botar banca, porque podia blefar... Estava meio que me
enganando...Vieram-me à lembrança enormes frustrações e derrotas por que
passei. Como não havia pensado nisso, antes de escrever tamanha bobagem? É
claro que a idade pesa. É claro que não sou mais cobiçada, a não ser pelos
serviços de tele- marketing, oferecendo um novo cartão de crédito ou mesmo um
novo celular, ou provedor e todos aqueles por quem somos metralhados todos os
dias. Então. Quando era jovem, bonita, desejada, também tive grandes decepções.
Confiava em sair vitoriosa, já que desfrutava de tantos privilégios, dados de
bom grado pela mãe Natureza. Sairia vencedora, como não? E quebrei a cara,
mesmo assim. Impotência total e fatal. Por que não consegui os meus objetivos
já que celebrava todas as benesses? Daí a dor maior. Apesar de tudo, dos
benefícios, como por exemplo a juventude
e beleza, apanhei da sorte. Levei a pior, sim. Fui massacrada por outros
fatores alheios à minha vontade. São palavras que consolam, num momento em que
as alegrias são tão pequenas, tão fugidias...
quarta-feira, 31 de julho de 2013
MOCINHO DE CINEMA
Cinco e vinte e três da manhã, mostrava
o relógio. Acordei com a tosse
incessante da minha filha. Levantei-me, fui à cozinha e lhe trouxe um chá bem
quente, camomila, maracujá e erva-cidreira, “Boa noite”, escrito na caixinha.
Recomendei-lhe que aproveitasse os vapores, para desobstruir as narinas. Surtiu
efeito. Em alguns minutos, a tosse se acalmou. Voltei a me deitar e olhei pela
janela. Nuvens brancas se misturavam com o negror da noite, que já se despedia,
dando lugar ao amanhecer. E eu fitava com tristeza aquele céu, cheio de
mistérios. E chorei. Fiz uma oração, pedindo à Virgem Maria que intercedesse
junto a seu Filho por minha filha, pensei em como ela estaria só, quando eu não
mais estiver aqui. As lágrimas corriam soltas. Pensei em como ela gostaria de
um companheiro, de ter filhos e, como as mocinhas do meu tempo, constituir a
sua própria família e da dificuldade de se realizar esse desejo nos dias que
correm. Aí, pensei também em minha prima, que entre risos de galhofa e vontade
de fazer graça, nos dizia que abandonara seu último companheiro, cansada que
estava de seus arroubos sexuais ( isto dito em termos bem mais instigantes).
Naquele momento, rimos disso, todas nós. Agora, não sei porque, me lembrei
dela. E continuava olhando o céu, com o coração pesado. Inevitável pensar no meu “ mocinho de cinema”.
Deveria ele estar com algum novo amor. Isso não me fez ter ciúmes, apenas muita
tristeza. E me dei conta de que sua figura se apagava, com o acender das luzes, como na sala do
cinema. Permanecia na tela branca, se desvanecia junto, tanto quanto meus
sonhos. Fitava ainda o céu, agora mais claro. As nuvens se dissipando. Uma
pequena estrela teimava em brilhar. Ou seria um satélite? Prefiro acreditar que
era uma estrela. E não era só uma. Mais uma e mais outra agora brilhavam.
Deviam ser estrelas, sim. É que preciso do seu brilho; como preciso das
estrelas nesse momento! O moço dos filmes dorme satisfeito, sem se preocupar
com os sentimentos da mocinha. Ela se perdeu no tempo e no espaço. Só sobraram
seus sonhos. Esses, ela não os perderá jamais.
domingo, 28 de julho de 2013
Porco espinho abstrato
O que se deve fazer quando a vida perde a graça? Todos dizem que devemos agradecer a Deus por acordarmos com saúde para mais um dia. Claro que concordo com essa idéia. Não deveria ser ingrata, mal-agradecida. Não quero ser. Só que o que venho sentindo ultimamente é um desconforto muito grande, um tipo de infortúnio a longo prazo. E me pego torcendo para ter maior aceitação, para ter mais paciência, enfim, para estar lado a lado com a solidão, se é que me entendem. Porque eu mesma não consigo. Vejo pessoas calmas, acomodadas e que estão sozinhas. Moram sozinhas, vivem consigo mesmas. É como se conseguisse apertar num abraço essa figura estranha, sorrateira e sempre presente: a solidão. Mas ela incomoda, é como abraçar um porco-espinho. Às vezes, sinto-me totalmente só, mesmo entre várias pessoas. E me impaciento; na verdade, prefiro estar sem ninguém ao meu lado. Como entender esse sentimento tão nocivo que me deixa irritada até com minha própria presença? Quero estar tão terrivelmente só que gostaria de não pensar. Acostumei-me a lembrar com certa satisfação os sonhos que tenho. Não falo dos sonhos, daqueles desejos que temos de alcançar alguma coisa difícil, ou mesmo ter paz. E, sim, falo daqueles inexplicáveis e meio sem sentido que, quando acordamos queremos entender, ter uma explicação para eles. É quando não tenho idade, não há um tempo real, não há nexo. Mas venho me alimentando deles. Chegar a um nível de conformismo que não necessitasse da presença de ninguém mais seria impossível acontecer, pois não se vive sem a presença do outro, ainda que seja incômodo, irritante, já que não se consegue moldar uma personalidade, porque idealizar alguém tem sempre sabor de frustração. A expectativa de ver realizados os mais íntimos desejos resulta nessa eterna insatisfação, a vida não dá troco. E o que pagamos pra ver se esvai nesse também eterno labirinto, sem que possamos decifrar tal enigma. Por que as coisas acontecem dessa ou daquela maneira? Por que reajo mal se, antes, tentei incutir como norma de comportamento ser mais serena, acatar melhor as diferenças do outro e ser mais tolerante? Não se ensaia para viver. Não há tempo para treinar é agora ou nunca. E me surpreendo cada vez mais com as iniciativas do destino, às vezes, tão mal traçado, tão perturbador e tão sem cerimônia.
terça-feira, 23 de julho de 2013
"Amor-agarrado"
Acordei mais cedo. Normalmente,
durmo bem tarde; entretanto, ontem, o sono me derrubou logo depois da
novela. Hoje, não que estivesse muito animada, mas já que estava de pé, resolvi
fazer algumas coisas ( chatas) inadiáveis: lavar a louça acumulada de ontem,
colocar roupa na máquina, guardar as lavadas... Em seguida desci para minha
aula de ginástica na pracinha, próxima de onde moro. As “velhinhas” se
assustaram com o tempo frio, e com o prognóstico de possível chuva. Não
compareceram. Voltei para casa, pensando que fora melhor pois
eu não estava lá muito bem. Passei pela mesma fila para o
recadastramento do título eleitoral, que se postava em frente ao estádio Caio
Martins. Pessoas cumprindo seus deveres, trabalhadores, alguns idosos, gente
simples a maioria, todos na esperança de que seu voto possa mudar esse país. A
descrença também na cabeça de muitos, como eu. Mas lembrar de políticos ( salvo
raríssimas exceções) me causa transtorno emocional, um incômodo grande,
principalmente quando via pela televisão a chegada do nosso querido Papa
Francisco, recebendo cumprimentos desses mesmos políticos que deveriam estar na
cadeia, ou pagando pelas falcatruas cometidas. Pena que ele, representando a
Igreja, tivesse que seguir normas e protocolo
impostos e não pudesse como fez Jesus, espantar os vendilhões do templo de
Deus. Apenas um era digno de estar ali. Todos devem imaginar a quem me refiro,
até porque foi o único a ser aplaudido. Sintomático. Só que não é esse o assunto que me leva a escrever
esse texto. Como dizia, voltava da frustrada ida à aula de ginástica. Dobrei a
esquina e caminhava observando as poucas casas que ainda teimam em ficar de pé
na rua, já “infestada” pelo número desproporcional de edifícios altos, que não
deviam estar ali, já que é uma rua
pequena. Olhei para a casa, com uma
varandinha na frente, sustentada por um arco, que lhe dá um certo encanto. Um carro estacionado, ladeado
por um muro todo coberto pela trepadeira verde, com flores delicadas, miúdas,
de cor rosa. Veio-me o nome pelo qual conhecia aquela plantinha viçosa:
amor-agarrado. Não deve ser científico; mas me reportou a uma época da
infância, mais exatamente o muro da casa da minha tia, onde floria o ano todo.
Aí, também, pensei na dona daquela casa, que já não se encontra entre nós.
Fiquei sabendo outro dia, apesar de não a ter conhecido. Acho que alguém que
fora sua amiga havia comentado, num desse encontros de professoras, que costumo
frequentar. E pensei, naquele momento, que ela fora jovem, teve sonhos, planos,
amara, se casara e vivera uma vida inteira naquele cantinho, onde alguém devia
estar sentindo sua falta. Senti saudades de uma pessoa que nunca vi. É normal
isso? Muitos acharão que não é. Sei que ando sensível demais. Não sei se é bom.
Amar as pessoas é, sim, um ato que nos foi ensinado pelo Criador, representado
pelo filho ilustre, humilde e santo, que não discriminava ninguém. Emocionei-me
ao ver a figura imponente do Papa Francisco, paradoxal à
postura singela, franca. Impõe a nós respeito e o torna merecedor de
todo amor que a ele é devotado. E pensei na plantinha que combina com o jeito
do povo brasileiro: “amor – agarrado”.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Depois de " Cheiros divinos" : A Zé e outras histórias é recomendável.
Para os meus amigos leitores: sugiro a leitura de "A Zé e outras histórias", que seria como um fecho e melhor entendimento do texto "Cheiros divinos". Além de retratar uma infância rica de lembranças, algumas boas e outras nem tanto, explica o artigo A, antes do nome (que se supõe masculino) - Zé. Percebo que não foi muito lido e é um dos que mais me motivaram a seguir escrevendo. Façam bom proveito."Enjoy it" - conforme os ingleses...
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Cheiros divinos
O mesmo pedaço de chão abrigava chifres e asas. Cascos de animal e
passadas infantis ecoando no mesmo espaço. Pessoas amontoadas, formando
círculos, pagando para assistir a violência gratuita contra o touro indefeso e
ameaçador. Crianças e adultos formando retas enormes, em procissão, louvando
num ato de fé e adoração ao Senhor que, doando amor, foi condenado. Tudo isso
acontecia na Barra, pequeno distrito a poucos quilômetros da fazenda.
Não sei qual o sentimento mais
forte: medo do bicho feroz ou satisfação de acompanhar o pai. Mesclados num só
invólucro. Num mesmo coração de menina.
A fumaça se misturava com o
barulho da multidão. Era dia de tourada. Meu pai costumava nos levar. Sentia um certo pavor e dificuldade
para respirar, quando o touro arremetia
contra as pernas finas das estacas que balançavam a cada investida. Não parecia
seguro. Eram arquibancadas, armadas em círculo, rodeando a pequena arena. Não
me esqueço daquele cheiro enfumaçado, embolado com o das fezes verdes e quentes
do animal assustado. Instigado, se defendia. Barbaridade dos homens. Cheiros,
sabores e dissabores. Mas ali também acontecia a festa do Divino. Eram ocasiões
diferentes. A procissão de adultos e crianças louvando, num ato de fé e glorificando ao
Senhor Jesus. Íamos eu, minhas irmãs e a prima, que morava perto de
nós. Ela se vestia de anjo, com as asas
enormes presas às costas. Era a
filha única, entre os dois irmãos. Uma
vez, ela quebrou a perna e eu sentia inveja daquele gesso, todo cheio de nomes.
E ela usava óculos: - minha prima tem sorte – pensava eu. E lá íamos nós,
seguindo a procissão. Eu e minhas irmãs vestidas de Virgem: roupas brancas e véu na cabeça, preso por uma singela
coroa de flores, também, brancas. Segurávamos velas, que exalavam cheiro do
pavio gorduroso, cantando os cânticos de louvor. Uma vez, descuidei-me com a
vela acesa que levava. Só me dei conta do que acontecia, quando percebi as
beatas senhoras apagando as chamas que crestavam de leve os cabelos de minha
irmã, que caminhava à minha frente.
Resultado: cabelo cheirando a chamusco. Terminávamos o cortejo numa
pequena igreja, situada num plano mais alto da minúscula praça. Depois,
corríamos para as barraquinhas, armadas ao redor do passeadouro. Era uma
alegria comprarmos aqueles docinhos, cheirando
a mel e açúcar, balas de coco, pequenos brinquedos pendurados, bolas de soprar...Havia
também a padaria, com as fornadas cheirando a pão quente, cujo dono tinha o
mesmo nome da minha mãe: desses que servem para o masculino e feminino – Nelly.
Mais adiante, subindo um morrinho, encontrava-se o grupo escolar, tão pequeno
que só existiam duas salas de aula. Dona Noêmia, segunda mulher do padrinho de minha irmã, seu Djalma, o
farmacêutico; ela tinha função dupla: professora e diretora. Ele dera à minha
irmã um presente de aniversário que nunca pude esquecer: um bezerrinho: novilho
com cheiro de leite. Como eu queria um padrinho assim!...O meu era meu tio
Paulo, que morava em Niterói. Solteiro e só pensava em seus carros velhos, que
ele estava sempre consertando. Tinha enorme prazer em estar lambuzado de graxa
e óleo. Sempre me lembro dele, sem camisa, usando shorts largos e sujos,
cheirando a óleo queimado. Como poderia ele dar presentes à afilhada tão
distante?Seu carro: um Buick preto e,
como esse, muitos outros que comprava e vendia só para reformá-los, deitado
debaixo do motor velho, desgastado.Além
disso, inveterado mulherengo.Não poderia culpá-lo por não se lembrar de mim...
Havia poucas casas no vilarejo
e uma ponte que servia para se chegar à praça principal, das arenas e
procissões. Parada obrigatória do ônibus
a meio caminho andado para a cidade maior, Bom Jesus. Quando eu viajava,
sempre acompanhada por minha mãe, que ia experimentar modelos novos na
costureira da cidade, dona Leonor, mal entrava naquele ônibus e meu estômago
dava voltas. O cheiro da gasolina, misturado ao calor causticante, deixavam-me
enjoada. E eu ia cheirando limão para aliviar a ânsia. Diziam que era bom. Para mim não fazia
diferença: sentia-me gelada, com o mal-estar crescendo a cada curva da estrada
empoeirada. Olhar as flores do vestido estampado de azul e branco, saia rodada, enviesada de minha mãe, fazia piorar
a situação. Cada pedaço de chão parecia não acabar nunca. O cheiro do capim da
beira da estrada, dos eucaliptos era forte. Sabia de cor cada detalhe do
caminho e torcia para avistar logo as primeiras casas que denotavam o fim do
meu martírio, na chegada à cidade. A recompensa vinha logo depois, quando minha
mãe me levava à loja do Zé Cabeça, com suas enormes pilhas de caixas, cheirando
a sapatos novos e ela me comprava sandálias brancas. Saía dali, feliz,
caminhando nas nuvens, como se todos reparassem nas sandálias novas que eu
ganhara. Ainda hoje, preciso viajar olhando reto, em frente e qualquer tipo de
leitura me é proibida, vem a sensação de desconforto, de enjôo. O nome do dono
da loja me fez lembrar a Zé.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
VIDA VERSUS COMPUTADOR
O limite para a paciência
esgotou-se. Não se pode mais viver sem
esses aparelhinhos infernais, cada um com um nome diferente que não consigo
decorar. Na verdade, praticamente, não há comunicação com alguém sem depender das
geringonças via internet, satélite, sei lá mais o que. Ontem, caiu um pedaço
dessas “maravilhas” lá nos confins do Maranhão, que o homem joga ao espaço, em
nome da modernidade, do conforto (?) através das ditas geringonças, que nos
proporcionam “bem-estar”, facilidades e tudo o mais. Não é de bom tom dizer que “no meu tempo” não era assim... era bem melhor
(tenho certeza), afinal ainda estou aqui, ainda que com a carcaça em plena
decomposição e caminhando para o inevitável. Ui! Ainda bem que há livros, com
folhas de papel, com capa, que podemos
segurar, abrir, pegar os óculos (amigos dos idosos) , usar marcadores(
no meu tempo de escola, fabricávamos esses marcadores na aula de desenho, lembram?)
quando precisamos interromper por algum motivo, como se costumava fazer no meu
tempo ( me desculpem, mas como era melhor!) nos fazem acreditar que existe uma
forma sadia e maravilhosa que é a boa leitura de um livro. Hoje, minha rotina
virou essa: trabalhar muito, ler bons livros (graças a Deus!) e preencher os
momentos de solidão com coisas úteis, como por exemplo, arrumar gavetas, doar o excesso de tralhas, de
roupas (essas que guardamos para um possível evento que nunca chega); via pela
televisão uma entrevista com a Danuza Leão ( antes, já havia lido o seu livro )
que dizia justamente sobre o hábito
saudável de nos desvencilharmos do que não faz a menor falta e que só serve
para ocupar espaços. Ontem, fiz isso. Costumo também ficar olhando a obra
enorme que se avolume bem diante dos meus olhos pesarosos e explico: não é só o
fato de estar sendo construído um edifício bem em frente ao meu, não.
Simplesmente, pelos meus cálculos, daqui a um pequeno tempo, haverá uma
barreira gigantesca que cobrirá o meu por do sol. Muita gente pode não entender
o que significa para mim
perder a visão do nosso astro rei ( ou será estrela?) que nos dá luz e
calor. É uma das coisas que me encantam, quando vai caindo a tarde e acontece esse esplendoroso,
espargir de cores, de luzes, com nuances majestosas ( vou ver no dicionário se
é com j ou com g);acertei! Majestosa é com j... Mas, continuando, aí me pego acompanhando
o trabalho intenso (e barulhento) dos funcionários da obra. Parecem
formiguinhas, se movendo, cada um com sua atribuição, além das poderosas
máquinas que carregam pesos inimagináveis e as betoneiras e caminhões que se
postam estacionados, atrapalhando o caótico trânsito. E é uma distração a mais.
Vejam a que ponto cheguei! Outro dia, pedi ao síndico do
meu prédio a planta do edifício do qual estou falando (sei que ele comprou uma
das unidades) para conferir se realmente o edifício em questão vai atrapalhar o
que considero um dos meus agradáveis momentos: ver o por do sol. Ele,
gentilmente, me emprestou o folder com todas as imagens e dimensões. Fiquei
arrasada, constatando que o “monstro” vai me tirar a privilégio de ver um
espetáculo tão grandioso da natureza. Sinto-me lesada. Tentei a janela da
cozinha para ver se o estrago não vai ser completo. Talvez ainda possa com um pequeno
esforço e esticando o pescoço, admirar o que Deus nos dá de graça. Mas há uma
opção ainda: o famoso computador. E eu me entrego à busca ansiosa por uma
mensagem, um e-mail que me fará feliz. Mas o danado, friamente, manda, sem
nenhuma cerimônia, a mensagem dizendo: “não há nenhum e-mail em sua caixa de
entrada”, mais ou menos assim. E eu corro atrás, de outra tarefa, que preencha
o vazio que me acompanha de perto. Penso que deveria agradecer, porque tenho coisas muito importantes, sim. Sei que
tenho. Meus filhos com saúde, meu neto querido ( que consigo ver com muita
dificuldade, devido a alguns empecilhos
que prefiro não comentar agora) mas me sinto recompensada quando o abraço e
ouço-o me pedindo para brincar de “pego”( prego) uma brincadeira que temos,
quando o caminhão dele passa na estrada e fura o pneu! Viro criança e o abraço
e beijo a cada gracinha dele. Vou vivendo assim.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Dois amores
As coisas mudam. Mas em
que momento isso acontece? O dia vira noite, quando o sol se põe, porque a
Terra gira: óbvio. E os sentimentos? Quando e porque mudam? Existe um exato
momento ou é gradativo como o dia virando noite? Não consigo precisar como
aconteceu comigo. É imperceptível ou há um pequeno sinal? Há.
Quando o meu amor de menina se aproximou,
tive a sensação de que ia morrer de alegria. Emoção única, misturada com ansiedade. Não saberia o
que dizer. Como me comportar. Esperei tanto por aquele momento, que não parecia
real. Seria um tempo curto. Ele estava indo embora estudar. Queria ser
engenheiro. Também não sei o exato momento, quando começou o meu amor por ele.
Sei que foi um sonho bonito. Durou muito
tempo até que, finalmente, ele me
notasse. Eu o quis tanto que, parece, o atraí. Por que, entre tantas mocinhas
tão ou mais bonitas, ele acabou se interessando por mim?
Depois do encontro tão esperado, tudo
começou a mudar. Quando, não sei. A primeira lembrança que me vem, nitidamente,
é essa: nós dois na praça. Era manhã de domingo, depois da missa. Estávamos
sentados numa mureta, numa ruela que descia até a pracinha. Do outro lado, na
esquina, o velho Big Hotel. Há pouco tempo, havia se mudado uma família, se instalando
na primeira casa, no alto dessa pequena rua. Um dos rapazes, descia em direção à praça e passava em frente
a nós. Cumprimentou-nos, sorrindo. Meu coração deu um salto e me senti, de
repente, desconfortável. O que estava acontecendo? Não sei. Um sentimento
estranho se apossou de mim. Parecia estar presa. Senti uma sensação
de angústia. De culpa. Por que me perturbava tanto o fato de estar ao lado de
quem eu, antes, tanto cobiçara? Minha vontade era não estar ali. Santa ingenuidade
de menina, me vi como se estivesse presa
a um compromisso. Com aquela idade? Pobre de
mim... Não me entendia. Queria estar livre. Invejei minhas amigas,
passeando descontraídas, pela pracinha.
Ficamos de escrever cartas um para o
outro, afinal, ele estava indo embora e éramos namorados. Não senti sua falta, depois da partida. Nos meus pensamentos outra pessoa já ocupava todos os espaços.
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