segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Teatro na fazenda.

Morei na fazenda São Tomé até os dez anos, pelo que me lembro. Éramos cinco: quatro irmãs e meu único irmão, o Chico. A irmã mais velha, Teresa Maria, pediu e vou tentar colocar nesta pequena crônica, alguns acontecimentos daquela época da nossa infância. Nas férias, tínhamos o privilégio de receber duas primas da cidade em nossa casa: Lívia  e Branca. Faziam parte da "troupe", já que nos intitulávamos artistas. Sim, artistas de teatro, que significava a escola, ao lado da casa da fazenda, como base das nossas apresentações. Então a pretensa diretora seria a irmã que, desde muito cedo apresentava uma enorme tendência artística, digamos assim. Lembro-me dela contando histórias para nós, que a rodeávamos, encantados com suas invenções. Como Teresa sabia descrever ambientes, lugares, casas deslumbrantes, com piscinas,como as dos artistas de cinema, de cujas revistas ela copiava as idéias e colecionava: Revista do Rádio, Cinelândia, Filmelândia e tantas mais. Sentados a sua volta, hipnotizados, viajávamos em suas fantasias. De leitura acho que nossa  mãe foi a incentivadora maior. Teresa era a neta queridinha da vó Doninha, mãe de meu pai. Nosso teatro encontrava público que nossa avó, generosamente, nos enviava. Fretava ônibus, recolhendo todos os possíveis colonos, amigos e quem mais ela achasse conveniente. Junto com a assistência, tínhamos doces, bolos,latas com sonhos e iguarias que ela acrescentava para animar a plateia. A confecção das fantasias era uma festa também, Lembro-me muito de uma delas ( capim do Grande Otelo) que Vania, a segunda das irmãs costurou. Tudo tirado dos filmes brasileiros que nosso pai nos permitia, às vezes, no cinema Monte Líbano de Bom Jesus. A "diretora" costumava ficar brava comigo porque não conseguia cantar alto, como seria de se esperar. "Chiquita bacana" eu teria que interpretar galhardamente, mas não acontecia. E ela gritava comigo. Mas em compensação havia outras "artistas" que eram um espetáculo à parte. Vania e Branca. Uma, vestida de calças compridas e camisa, com um cavanhaque feito a lápis, e a outra encenando a mocinha, de saias longas, femininas. A música "Oh", nem sei se era esse  o título, só sei que começava assim:-  " Eu digo oh! Que coisa louca quando vejo meu bem..." e seguiam, caminhando sobre dois longos bancos escolares, que se uniam de ponta a ponta. O palco, na verdade, a mesa da professora. Foi colocado um galho grande de um arbusto qualquer para enfeitar, bem atrás do nosso tablado. As carteiras escolares, serviam para acomodar a plateia. E os outros primos também assistiam ao nosso teatro. Teresa era sem dúvida a principal atração. Devia interpretar músicas de nossa musa, Emilinha Borba, de quem éramos fãs. No final do espetáculo, quando a regente desse acontecimento anunciava que a "sessão" havia acabado, o primo Marco Antônio, que sempre adorou uma festa, gritava lá de trás: -" Mentira, não acabou nada!" Devo lembrar que ele era irmão das primas, Lívia e Branca que nos prestigiavam com suas participações. Foram momentos inesquecíveis. A memória não capta tudo, lógico, mas nos dá a dimensão de uma infância sadia, de muita festa improvisada, da arte que sempre nos encantou e que não vamos esquecer jamais!

domingo, 15 de dezembro de 2019

Uma camisa estampada.

Uma aragem fresca e suave entrando pela porta da varanda. Hora da preguiça. Deitada no meu sofá, como ontem. Na pequena estante, onde habita meu aparelho de TV, há também alguns porta-retratos. Eu com a filha, eu com as irmãs, eu com a prima, eu com o amigo de infância e vizinho. Aí, olhei para a camisa estampada que meu colega de mocidade usava: branco no fundo, com flores de um azul escuro e minúsculas ramagens amarelas. Nossa, gente! O que acontece? Meu passado de volta. Ai, ai, de novo? Sim! De novo. Hoje, quando há uma festa comemorando casamentos ou aniversários, os gastos são imensos. Não me conformo com o desperdício. É coisa demais para um ser humano normal degustar...! O bolo majestoso, a mesa com os mais variados doces, além do jantar e salgados, na saída, uma mesa de café, chocolates, chás, biscoitos e tudo o  mais que se possa imaginar. Música contratada é outro gasto imprescindível. Por que falo disso? Explico. A camisa de verão, estampada do meu amigo me lembrou um vestido com a estampa bem parecida : usei nos meus quinze anos. Minha mãe costurou um modelo bem simples. Uma saia rodada, um pequeno decote na blusa e sem mangas. Minha terra natal é quente! Quente demais! O tecido não posso afirmar de onde ela comprou. Havia uma rua de maior comércio. A loja do Zé Salim, me lembro bem, tinha de tudo um pouco: sapatos, algumas roupas na vitrine, roupa de cama e mesa, sombrinhas e tecidos. Na loja dos Borges ( me esqueci o primeiro nome do dono), eram vendidos os mais variados tecidos também. A loja da Enid era de aviamentos, botões, fechos, colchetes de gancho e de pressão, fitas, rendas, e muita coisa que se precisasse para a confecção de uma costura. A loja era do seu Dario Borges, me veio, de repente - aquele de quem não lembrava o nome - e algumas lojinhas mais que não vem ao caso. Voltando aos meus quinze anos: não faltou um bolo de camadas ( uma com anilina  rosa ou azul) e confeitado por dona Inah. Alguns docinhos, canudos, doces de leite e cajuzinhos ( aqueles que o Falabella costuma debochar) e doces de coco. Os convidados não havia tantos. Apenas as minhas irmãs e meu irmão. Não me lembro se soprava velinhas. Que diferença dos aniversários de agora...!  Éramos mais felizes? Também não sei. O fato é que me lembrei de uma época da vida (por um simples gatilho, a camisa estampada no retrato) quando eu ansiava pelo meu príncipe encantado. E  confesso,já havia um, sim. Não vou contar quem era, só sei que, uns dias antes do meu aniversário, fui convidada para a comemoração de quinze anos de uma amiga e colega de escola. Ela ganhou quinze presentes e foi uma festa e tanto. Darei uma pista: seu irmão era quem fazia meu coração acelerar, descompassadamente. Pena que este meu órgão, tão sofrido, só bate mais forte quando me esqueço do remédio de pressão ou a ansiedade vem me visitar. Enfim, " Cést la vie" !

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O passado me encontrou.

 Veio de mansinho. Deitada no sofá, lutando com a lombar, que mal me deixava virar de lado, acessei pelo celular uma mensagem e que grata surpresa: com quem me deparo!? André Rieu e seu mágico violino, orquestrando um Danúbio Azul. As imagens de tirar o fôlego! Dançarinas com seus vaporosos vestidos brancos rodopiavam num salão iluminado, nos braços de seus pares, todos vestidos para uma noite de  gala. Aí, gente, fui invadida por lembranças do tempo de adolescente. Costumava ler romances. As histórias eram envolventes. Os mocinhos, perfeitos ( risos) ... naquela ocasião era possível de se acreditar. Eu podia sentir até os cheiros da infância, dos tempos teenagers. Sim, foi o que me aconteceu. O inconsciente ou sei lá que nome dar ao que me causava esta estranha sensação. O passado se alojou e atingiu a corrente sanguínea... Era assim mesmo. Desnecessário dizer, mas lágrimas brotaram com facilidade. A música sublime e bem tocada era um bálsamo  recebido. E me deixei ficar. A idade não representava o sentimento que pude experimentar. Naquele descanso, no meio da tarde, consegui rever aquela menina cheia de ilusões, de sonhos. Foi bom. Estou aprendendo a tirar alegria das menores coisas, e me agarrei num tempo longínquo para desfrutar recordações que me fizeram bem. Que venham outras tardes como esta. Acabei dormindo ali. 


 

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

¨Deus escreve certo...

Quem não tiver religião talvez não se anime a ler o que escrevo agora. Pois é, gente. Depois de muito tempo sem digitar uma linha, resolvi reativar meu blog. Não sem um "empurrãozinho". Acreditem se quiser. Estava eu no meu canto, enfrentando um rotavírus que  está a fim de me derrubar ( mas que pretendo não permitir: vou nocauteá-lo), quando recebo mensagem de uma amiga da ginástica; ela me lembrava do curso que fiz, no Rio: "Meu primeiro livro". Foi através deste anúncio, no Jornal do Brasil,  em folhas de papel, ainda não digital, que me atrevi a me inscrever. Consegui. Foi a melhor coisa que fiz. Encontrei um jovem professor, cultura saindo pelos poros ( e ainda  lindo, charmoso) que me jogou lá pras alturas, que me incentivou e deu coragem para escrever. Aprendi, no pouco espaço de tempo, muita coisa útil. Resultou, no primeiro livro que escrevi, sim. Volto a colega da ginástica: ela precisava do endereço ou informações para ajudar sua amiga, aposentada, poeta. Procurei em agendas ( guardo todas) e lá encontrei tudo. Arrisquei o telefone que havia e acrescentei um 9 ao número. Deu certo. No WhatsApp veio a resposta. A dona da sala me respondeu. Ficou feliz de saber do meu livro e até me pediu um volume - queria comprar. Daí, resumindo, me animei a reabrir meu blog. É o que faço e por isso, escrevo. Deus tem seus caminhos, né? Foi preciso andar pela estrada com curvas, sem saber o que haveria, se descidas ou subidas, para uma das poucas coisas que gosto de fazer e aqui estou " de volta pro meu aconchego!" Como diria o cantor... Em tempo: a dona do curso, Cristina, me convidou para um café, quando for ao Centro do Rio. E claro, não vou cobrar o livro pois, sem aquele cursinho maravilhoso não teria virado escritora, mesmo que só tenha uma obra  em forma de livro. Quem sabe me animo e faço outro!?