terça-feira, 27 de setembro de 2016

Gritos, pobres e gente no chão.

Quero escrever sobre coisas alegres...o tempo não ajuda, está frio, um frio danado e surpreendente, já que a primavera acontece, desde vinte e dois deste mês de setembro. Aliás, é o mes (dizem que não mais com acento, na dúvida, escrevi um com e outro sem) de muitos aniversários na família. Isso é bom. O normal seriam flores em profusão, um ar morno, ou temperado. O planeta dá suas cambalhotas. O homem e a Natureza se enfrentam. Acho, é o que acontece. Enquanto alguns lutam para salvar o planeta, outros pretendem ou não se importam se o destroem : em primeiro, seus interesses, o preço a pagar é incalculável.Mas a vida não é feita só de flores, sabemos, há os espinhos. Hoje, apesar do frio indesejável, fui à ginástica. Na calçada, o que vejo todos os dias? Pessoas deitadas no chão, sujas, enroladas em cobertores imundos, rodeadas de seus amigos fiéis, uns dois cachorros vira-latas. Ficam alojadas num dos portões grandes,  sempre fechados, do Estádio Caio Martins.  Há um vão ali que parece acolher aquele morador de rua. A miséria o acolhe também. Triste de se ver...o que fazer pra ajudar? A quem recorrer, num país de desigualdades tamanhas? Segui meu trajeto, fiz exercícios, encontrei-me com amigos queridos do Projeto Gugu e já não me incomodava o frio, a professora acelerava nos exercícios e a música animada nos fazia bem. Depois do alongamento, finalizadas as atividades, cada um tomou o seu rumo. De repente, ouvi gritos. Olhei como todos os colegas e passantes da rua; eram gritos desesperados. Havia alguém gritando: " Pai, pai, pai! Não eram gritos, simplesmente, eram a tragédia explícita naquela voz enlouquecida. A moça, ainda jovem, não olhei muito pra trás, confesso que por medo. Ela parecia drogada ou coisa assim. Olhava para o céu, para o chão e dizia, repetindo " pai e também Deus"! Aquilo me deixou mal. Por que alguém passa por esse sofrimento, vinha pensando. O motivo não saberei. Continuei andando, mais rápido. E, aos poucos, os gritos cessaram ou a distância os ia  apagando. Passei, de novo, pelo local costumeiro, pela calçada do Caio Martins. Não havia mais ninguém deitado naquele canto do portão. Tampouco, vi os cães. Onde estaria o homem pobre, desamparado e com aparência doentia? E, aí, meus problemas ficaram pequenos. Agradeci a Deus pelas dádivas que tenho. É preciso olhar para os lados, e muito mais para o céu. Cheguei em casa, mesa do café posta, com pão esquentando no forninho elétrico, feitos por minha filha. Coisa boa, pensei. E me lembrei das palavras do padre Fábio de Melo que,no mesmo Caio Martins - refúgio daquele homem pobre, miserável - dizia sobre Zaqueu, que Jesus acolheu,  privilegiando-o com sua amizade, sendo o seu escolhido, dando-lhe palavras de conforto. A música cantada pelo padre ainda soava forte ,agora,  nas minha lembranças, quando chorei de emoção, das arquibancadas do Estádio. Quantos espaços, para shows lindos como ao que assisti, quanta grama  verde para uma partida de futebol e quão poucos espaços para os pobres e doentes, alijados da sorte como aquele ser humano por quem passo, todos os dias, e quanto me sinto inútil, não fazendo nada para ajudá-lo.