terça-feira, 31 de outubro de 2017

DIA DAS BRUXAS.

O mês de outubro traz essa pecha horrenda: ser o tempo das bruxas, pelo menos na América do Norte, quando crianças saem às ruas, de porta em porta pedindo prendas, doces e tudo a que tem direito: "gostosuras ou travessuras", segundo o costume de lá. No Brasil, como de costume, imitamos os americanos do Norte. Macaquice de brasileiros, querendo um modernismo que não é nosso.Enfim, cada terra com seu uso, melhor seria. Mas não é. Para mim esse não é um mês de alegrias. Perdi meu pai num fatídico dia nove. A bruxa, passeando pelo apartamento, no prédio dos Bancários, levou com sua vassoura obscena aquele homem tão querido, o meu pai, tão novo, tão precocemente que nem esperou meu primeiro filho chegar. Eu, grávida, ali pelo quarto mês, recebi a pior notícia, naquele momento.Agora, no último dia deste outubro, andei sentindo uma tristeza grande, que, mesmo depois de tanto tempo, me faz doer a alma( aprendi que ela dói,sim) porque não é físico é emocional, é um sentimento indefinível de perda. O tempo anda correndo demais pro meu gosto. A vida machuca a todos, independente de raça, cor ou condição financeira.Convalescente ainda, não me acostumo com a incapacidade física, aquela que me restringe os movimentos, que não me dá o direito de dar uma arrumadinha na casa ( antes, reclamava tanto, hoje sinto saudades das faxinas, troca de móveis de lugar,  um almoço a fazer, compras no mercado) e tudo o mais que fazia. Repouso é uma coisa de gente velha e doente. Voltei a fazer ginástica, forçando um pouco a barra. O encontro com os amigos na pracinha, os abraços, as palavras de incentivo, tudo me faz muito bem. Só que, hoje, senti-me um tanto fraca e voltei antes do alongamento final. Depois, haveria a comemoração dos aniversariantes do mes, as "moças" levam quitutes, bolos, salgadinhos e os "meninos" levam sucos ou refrigerantes, e cantamos parabéns, numa roda onde de mãos dadas, pedimos a Deus por cada um deles, além das lembrancinhas distribuídas. Amanhã, quero ir e me sentir reconfortada, mais segura. O feriado de dois de novembro, vão emendar com a sexta-feira, que até parece o Tiradentes, tamanha a forca que costumam estipular para esse último dia, imprensado. Ainda bem que o Dia de Todos os Santos vem compensar a celebração nefasta do Dia das Bruxas. Que eles nos afaguem com suas intercessões pedindo a Jesus por nós...Em tempo, meu aniversário cai, justo, no dia de Araribóia. E o coitado do índio deve estar envergonhado com tanta corrupção no país que ele ajudou a erguer. As prais sujas e poluídas da baía, são  a demonstração de que o homem moderno devia voltar a procurar a sabedoria indígena para manter o nosso planeta. O país mais evoluído, poderoso, dos mais ricos vota pior que nós, povo deseducado e pobre: quem não estremece ao observar o seu presidente, um tal  Trump,  que parece aparentado com as bruxas das quais eu falava no comecinho deste texto? Talvez, seja de mau augúrio um presidente, cuja primeira letra seja o T... Pra quem sabe ler um pingo é letra...

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Herança.

Hoje, queria ser criança. Comemora-se o dia da Mãe de Deus,Nossa Senhora Aparecida e das crianças: a pureza representada em todas as medidas. Aí, me lembrei de dois presentes que minha mãe me deu. Um árvore da felicidade, que trouxe num pequeno saco de plástico com muita terra molhada,  meio barrenta e que resiste ao tempo, há quase dezessete anos.Plantei-a num vaso grande e já alcança o teto da sala. No Natal, coloco, ali, bolas coloridas para comemorar o nascimento de Jesus. O outro presente ela me deu para a casa de Búzios. São pratos e uma bandeja com o desenho de um peixe azul. Guardo-os como relíquia. Mas a melhor lembrança da minha mãe, seu  exemplo. Mulher dócil, de fácil convivência, amante dos livros, de cinema, de arte, enfim. Da infância na fazenda, veio-me a imagem da janela de madeira,  pintada de vermelho, quando aproveitando a luz do dia que se apagava, ela lia contos de fadas para mim. Eu olhava o contorno dos morros que rodeavam a casa e voava alto com as histórias.  Acho que, pela idade, eu era a companhia mais constante quando íamos a Bom Jesus, de ônibus. Andávamos mais ou menos um quilômetro da casa até o ponto de ônibus, à beira da estrada. Para mim, uma alegria; mas tinha o lado ruim: eu sentia enjoo: o cheiro do combustível, misturado à poeira  da estrada me faziam  mal. Costumava levar um limão pra ir cheirando. Diziam ser bom. Mesmo assim, chegava "mareada" ao destino final. Ainda que a condução não fosse um navio. Três vestidos de minha mãe ficaram das mais tenras recordações. Um estampado de azul e branco, saia godê mangas curtas, outro bege com um tipo de bainha enfeitada, em toda a volta e ainda o verde claro. Todos de muito bom gosto, que assentavam lindamente na mulher elegante e bonita que foi. Lá na cidade, ela me comprava sandálias brancas na loja do Zé Cabeça. Era a melhor hora...eu saía pisando como se fosse a gata borralheira no sapatinho de cristal. As sessões de cinema, no Cine Monte Líbano, eram indescritíveis. O sonho maior. Como eu e as irmãs, nos regalávamos com os filmes românticos, as séries de domingo! Era um tempo mágico. Minha mãe recebia as nossas amigas com muito carinho, ouvia os assuntos e confidências como ninguém. Numa época em que as mães não eram tão participativas, ela tinha um comportamento diferenciado. Nossas roupas ela as costurava. Aprendi a fazer bainhas, arremate tudo com ela,vendo-a  cortar os moldes sobre a mesa da copa. Tenho saudades, sim. Sou nostálgica ao extremo. Agradeço a minha mãe o fato de gostar de novelas ( naquela época, do rádio.) Não herdei dinheiro dos pais. A maior dádiva é pensar que, se me fosse dado escolher, seriam eles os escolhidos - seus defeitos irrelevantes, diante de tanta alegria que souberam me proporcionar. Liberdade. Ela, principalmente, soube dar sentido a esse substantivo nada abstrato, visto que posto em prática e concretizado pela mãe excelente que Deus me deu.















sexta-feira, 6 de outubro de 2017

De volta para casa.

As imagens se multiplicam. São tantas informações que fica difícil precisar a hora e em que situação aconteceram. Só sei que, em seis dias, pude avaliar de verdade o quanto é bom gozar de  boa saúde. A rotina de nossa vida passa a ter uma importância que não via antes. O fato de ter alta do hospital parecia ser meta inalcançável, quando você se percebe num emaranhado de fios, agulhas, soro, antibióticos, remédios para a dor, exames, furos de todos os lados para exames de sangue , na ponta dos dedos para glicose e  outras  coisas desagradáveis. O fato de não se ter os movimentos livres, de dormir na mesma posição ( se é que se dorme amarrada a um leito de Unidade de Terapia Intensiva)  é insuportável.Voltando, de quando tudo começou: a sugestão do médico  era que deveria procurar a Emergência do hospital para exames. Fui. Como eu, várias pessoas a espera de atendimento, numa sala que parecia o freezer de geladeira. Horas de angústia e apreensão. Finalmente, meu nome gritado pelo funcionário: tomografia. O soro já fincado numa das veias me espiava, incrédulo. Até que não foi tão desgastante, não demorou muito. Aí, a espera dos resultados. Depois, já passadas horas de friagem, fui chamada para a "sentença" final. Pelo menos era o que eu esperava; um laudo para me orientar e esclarecer o que me acometera de forma cruel.Não quero descrever. Nisso tudo, sempre há pessoas amáveis, solidárias; uma jovem que se encontrava na mesma "sala verde"e terminara sua avaliação e tomografia, me vendo tiritar de frio, ofereceu-me uma manta que usava, cobrindo-me gentilmente. Deu-me seu endereço para quando fosse devolver, sem pressa, simples assim. Aí, meu nome foi ouvido, já no final da fila. Fui para uma outra sala, muito bem equipada, computadores à frente dos jovens médicos, movimento de técnicos de enfermagem, algumas camas, separadas por cortinas. Fiquei ali, já com a atenção do cunhado médico e minha irmã. Ouvi o resultado: -" A senhora vai ter que ficar em observação. Há alguns problemas detectados pela tomografia. Tem que se manter no CTI por esta noite, para melhor avaliação e cuidados". Pareceu-me um pesadelo. Quando imaginei que ficaria retida!? Meu ex-marido e meu filho acabavam de chegar na Emergência. Conversaram com o técnico da enfermaria, um gentil homem que não media esforços para não me constranger. Mesmo depois de certa idade, há esse fator, não sei se de vaidade ou de pudor mesmo. Talvez, as duas coisas juntas. Mas me colocaram aquela vestimenta horrenda que declara: você virou uma paciente ( não é à toa essa denominação). Daí a algum tempo, subiram para o andar de atendimento intensivo. Deitada na maca, corri pelos corredores enormes, gelados. Depois de acomodada naquela cama que sobe e desce, ferramenta essencial para convalescentes ou incapacitados de se mexer. Aí, avistava, de um lado, o soro pingando devagar, de outro, aparelho que mediria a pressão, " enforcando" meu braço de tempos em tempos. Verdadeira armadilha. Ainda por cima, aliás, por baixo, uma fralda descartável que era trocada a cada precisão. Coisa horrível, gente!Humilhante para quem nunca havia passado por tal experiência. Médicos, enfermeiras, técnicos, ajudantes, todos eram vistos de onde eu estava. Eles falavam alto, falavam de tudo. Por um lado, sentia-me protegida. Entretanto, cedo demais, percebi que não estaria confortável diante daquela falação toda. Não nego que o atendimento era de primeira; a todo e qualquer chamado meu alguém acorria. Quando criança, fui ensinada, a duras penas, que na cama, não devia fazer minhas necessidades. Agora, diante de médicos ( alguns charmosos e bem jovens) teria que liberar minhas  fisiologias...Dá pra acreditar!? Dois dias, sem dormir, sem comer, só com o soro me sustentando e antibióticos, remédios pra dor. Toda hora, um apertão no braço direito, acoplado ao medidor de pressão.:Uma notícia alvissareira, finalmente:-" Hoje, a senhora vai para o quarto." Parecia animador. Pensei que, dali, seria liberada. Ledo engano, ainda permaneci mais quatro dias. O braço, em petição de miséria, com furos e furos. Uma enfermeira, preocupada em voltar para sua casa, longe, em Itaboraí, saía do seu plantão e me garantiu que tudo estava bem. Os dedos da mão apresentavam enorme inchaço. Resumindo, as substitutas do plantão detectaram que a veia estava sem o silicone que conduzia o soro e remédios. Outra Odisséia: procurar uma veia mais prestativa. Não foi fácil. Agora, a mão direita, comprometida, sem seus movimentos, ficou mais difícil. Foram mais três noites insones. Escovar dentes com a esquerda é tarefa para heroínas. Cada vez que ia a banheiro, uma confusão daquelas... Enfim, quando o doutor cirurgião que me daria alta adentrou o quarto, parecia a visão do Criador! Só ele poderia autorizar a saída. A notícia boa ele trouxe mais uma: não seria necessário cirurgia. No dia seguinte,  a libertação. Quando me foi tirado aquele fio da mão, senti-me liberta. Como era bom poder usar as duas mãos! Tomei um banho, agora normal, sozinha. Diferente daquele dado na própria cama, com um saco de água morna, álcool sem poder me mexer, quando estava na terapia intensiva. Sentia-me limpa. Liberta.Agora, em casa, conto com o auxílio da filha que me acompanhou o tempo todo. Verdade que, algumas vezes, teimando comigo. Mas ela ficou firme. Difícil ficar num quarto de hospital, trancafiada. Hoje, já em casa, continuo com muitos remédios, sim, ( substituídos por comprimidos ao invés da veia, por mais sete dias)o que me deixou muito enfraquecida. Mas um sonho, o caminho de volta. Chegar em casa foi um presente de Deus. Agradeço por cada momento usufruindo a rotina da minha vida, tendo contas a pagar, compras a fazer e tudo o mais. Só damos valor à saúde, de verdade, quando a vemos nos abandonar. Afinal ela também gosta de férias...Quero continuar sua amiga, sempre.
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