terça-feira, 24 de junho de 2014

Praça de alimentação e política.

Ir ao Shopping numa tarde de domingo, só para andar à toa e fazer companhia à filha. Fiz isso. Já não tenho tanta paciência como antes. Felizmente, não estava superlotado. Resolvi dar feriado a mim mesma. Zero cozinha, panelas vazias por hoje. Ia comer um nhoque ( brasileiro ). Sentei-me, misturada ao mar de gente com mesinhas coladas, e perdigotos dançando pra lá e pra cá. Explico pra quem tá com preguiça de ir ao dicionário: perdigoto pode ser, também, saliva que alguém lança quando fala. Pronto. E tinha um rapaz bem ao nosso lado que berrava para o amigo; há metros se ouvia o seu papo furado. Não muito longe dali, um outro homem, bonitão ( pra ser bem sincera) cabelos grisalhos, não tão belo quanto o Giannechini ( não sei se coloquei enes demais no sobrenome do ator, ou no lugar errado, mero detalhe), se fazia acompanhar por dois adolescentes. Devo dizer ainda que ele lançou um olhar para mim. Claro, não foi pelos meus belos olhos, (tenho plena consciência da minha idade, não me tornei uma idosa ridícula) acho que ele se certificava se tinha plateia, sabe o Narciso? Pois é. E ouvi-o fazendo uma reprimenda. " No meu dia, não quero saber de frescura!" Mais ou menos nesse termos. As crianças pareciam desconfortáveis. Típico pai separado, no dia de ficar com os filhos. Paciência, como a minha cozinha de domingo: zerada.
Hoje, reabro minhas mensagens, o computador, aproveitando a folga do Feriado de São João. Não me incomodo com horários, tão raro acontecer. As notícias não são boas. Há a linguagem de sempre, os recadinhos amáveis, as fotos de todos nós assistindo ao jogo do Brasil e Camarões. Mas o que me preocupou mesmo foram declarações várias sobre nossa política. Nosso país anda a passos largos para uma ditadura ou seriam especulações pré-eleições? O fato é que me abalei com aterrorizantes informações que li. O mundo, mais do que nunca, anda de pernas pro ar. Tantas guerras, tantos terroristas fazendo a "farra" , tantos estadistas e ditadores, rompendo a barreira do verossímil, não dá para ter sossego, não dá pra deitar à noite sem imaginar que futuro é reservado aos filhos e netos. Há um clarão no final do túnel? Infelizmente, acho que não.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

TORCIDA.

Todos ligados na Copa, claro. Eu também. Sou humana e brasileira, como não torcer pelo Brasil? Antes do jogo, a apresentação ( não tão  rica nem exuberante como esperava, apesar de termos Cláudia Leite e Jennifer Lopes) no Estádio, no que pude prestar atenção mesmo, foi no povo. O brasileiro transmite uma emoção que não se encontra em lugar nenhum do mundo. O povo cantando o hino nacional então, é imbatível, convenhamos. E fiquei pensando em como está sendo injustiçado esse povo tão bonito, tão carismático e tão brasileiro! Ser brasileiro não é pra qualquer um, não. Sofrer, enfrentar a violência e ainda continuar sorrindo, lutando. As autoridades presentes no Estádio, causaram em mim um misto de mágoa e revolta. Como alguém consegue não se emocionar, vibrar e, antes de tudo, respeitar um povo que traz em si uma alegria tão espontânea, tão verdadeira e que, apesar dos pesares, veste a camisa do Brasil de forma tão apropriada, não dá pra entender. É cinismo, ou será sadismo? Ou as duas coisas juntas? Torcer contra meu país, de jeito nenhum. Mesmo sabendo dos salários altíssimos dos jogadores, em completo contraste com os  salários de outros patriotas que fazem um trabalho digno, salvando vidas, por exemplo, ensinando as primeiras letras, que serão a base de toda e qualquer profissão, lidando com bandidos pra nos proteger, são tantas que ficaria horas citando-as. No mundo inteiro o valor dado a esses esportistas é o mesmo. São absurdos da humanidade. Se quisermos entender a cabeça do ser humano, entraríamos em total parafuso. Impossível. Mas me reporto ao Estádio da Copa, onde se iniciaram as contendas desse esporte que mexe tanto com o povo do Brasil. O gol contra, que ameaçou o brilho da partida, serviu para estimular os jogadores que lutaram bravamente pela vitória, afinal é pra isso que ganham salários astronômicos. E a torcida pela Seleção brasileira foi focalizada também nos altos escalões, nas arquibancadas privilegiadas, se é que me entendem. Mas eram gritos e gestos  de quem objetivava seus próprios interesses. Não era o desejo de vencer pelo povo, não. Era o desejo de quem visa alcançar outras vitórias. O povo, em segundo plano, em último, talvez... Vem outro dia de luta, de torcermos pelo nosso time, do hino cantado, com peito aberto, com emoção. Precisamos resgatar a beleza de nossa gente, da mistura de raças, representada pelo negro, pelo índio e pelo branco. Vamos voltar a ter orgulho de nossa terra, de nossa gente, que é a maioria honesta, que trabalha e quer continuar a ser feliz, ouvindo o narrador esportivo no seu grito, saído do fundo do coração: "- É gol, é gol, é gol!

sábado, 7 de junho de 2014

RISOS E AGULHAS.

Hoje, lembrei-me de minha avó. Amanheceu um dia bonito, sol brilhando lá fora. Mas eu não me via muito bem. Sentimento indefinível, meio parecido com tristeza. E lembrei-me dela, minha avó; sua figura chegou de repente, e imaginei suas dores e seus rancores. Por que seria tão difícil para ela o simples fato de viver? Era corpulenta, gorda mesmo, seus braços cobertos por celulite e as pernas que tinham dificuldade para carregar todo o peso daquele corpo que, antes, deveria ter sido o de uma mulher muito bonita, já que seu rosto ainda mantinha traços de beleza inconfundível. Era culta, falava francês e um conto seu fora publicado numa revista que não me lembro o nome. O tempo me distanciou das lembranças. Mas por que  a sensação de desconforto me invadiu enquanto  preparava o café e arrumava um resto de louça que ficou de ontem? Revivi muito de perto a agonia da avó, tão robusta e tão magoada com a vida. Sentia um certo receio em desagradar minha avó, devo dizer. Quantas vezes a vi agitada, brava, falando alto e, em muitas outras, ficava sabendo que ela havia sido internada com problemas neurológicos. Mas foi ela quem me deu a primeira aula de tricô. Lidar com as duas agulhas que, num passe de mágica, transformava a lã em um bonito pulôver ou numa echarpe ou em sapatinhos de bebê. Nunca consegui fazer nenhuma dessas coisas com habilidade. Apenas dá pro gasto, e algumas investidas, resultaram em uma blusa não muito bem acabada. Enfim, o propósito é dizer sobre a mistura de admiração e medo que sentia por minha avó. Eram vizinhos dela dois rapazes muito bonitos. Um, moreno de praia, cabelos de um louro exagerado em contraste com a pele, seu nome acho que era Marcos e o do irmão não me lembro. Quando coincidia na descida do elevador estar um dos dois, era motivo de um comportamento meio sapeca e de timidez. Devia ter quinze anos ou menos nessa época. Meu avô comprara dois apartamentos e os ligara num só. Ficava de frente ao mar da praia do Saco de São Francisco. A visão dos moços queimados, com shorts me deixava inebriada. Era uma realidade diferente da minha, de menina-moça do interior, que não prendia o riso, no elevador. Situação constrangedora, infantil, mas inevitável. Muitos fatos aconteciam, as danças em casas de família ou no play de um apartamento vizinho. Nós íamos, eu e minha irmã, um pouco mais velha que eu, acompanhadas da amiga carioca que fizemos, no mesmo edifício do meu avô. Minha irmã se encantara com um jovem que conhecera na praia e frequentava a Academia Militar das Agulhas Negras, chegaram a trocar cartas. Eu me apaixonei por um lindo moreno, que tinha o nome mais estranho que nunca ouvira falar: Berilo. Agora, escrevo  e me vem tantas outras lembranças. Dançava com o meu príncipe, com nome de pedra preciosa e ele me perguntava se eu não falava. E eu continuava mais quieta ainda. Foi bom. Preciso espantar esse sentimento traiçoeiro que às vezes me acomete. O passado deve ser deixado onde está, lá atrás, até porque não volta mais. Só que veio hoje, pra me fazer reagir, pensar no que aconteceu e relembrar alguém que foi jovem, envelheceu, sofreu e como todos nós enfrentou momentos tristes. Saudades da minha  avó  Tatau...