quinta-feira, 24 de março de 2016

Nas calçadas da vida.

Ia para minha ginástica matinal, verdadeiro encontro de amigos, além das vantagens para o físico, claro. Na esquina, parei. Sinal fechado, teria que atravessar com segurança. No chão, um homem se agasalhava, apesar do calor ainda de outono, com um cobertor sujo, dormia, na calçada.Percebi que ao seu redor, dormiam também, num profundo sono, três cachorros vira-latas. Tranquilos, poderia dizer. O sol já ia alto, e nem a escuridão da madrugada os protegia. Ou escondia, como queiram. O sono é o mais alentador dos confortos. É quando nos desligamos dos problemas, do sofrimento, da vida dura. Enfim...aquela cena é trivial, num país em que se deu a idéia falsa de que os pobres saíram vencendo, que tem melhores salários, que podem comprar mais coisas, mais eletrodomésticos, tudo que a classe média e rica, segundo os informantes do governo que aí está, afirma.  Santo Deus! Dá vontade de ajudar, de resolver o infortúnio daquele ser, tão humano quanto eu, mas, ali, jogado, parecendo ter desistido de lutar. O que fazer? Não tenho a resposta. Mas tenho a pergunta que fica latejando e insistindo em aparecer: por que ele porque fora escolhido e não eu, por exemplo? Deus escreve certo por linhas tortas. É o que repetimos sempre. Mas, gente, tem hora que dá muita pena de olhar aquela cena e não ter solução para uma pessoa ali, na minha frente, deitada no chão imundo. Impotência é o mais próximo do que senti. Quanta oportunidade perdida, quanto emprego tirado, quanto dinheiro desperdiçado em obras superfaturadas, quando roubalheira, corrupção! Os que estão no poder não devem avistar uma figura como aquela, ladeada de seus amigos mais fiéis, os cachorros vira-latas pois helicóptero e avião passam no alto, lá, bem longe, onde a miséria humana não pode ser vista, porque eles não querem! Fazem vista grossa e ainda vão para os meios de comunicação, alardear suas benesses, seu interesse pelo povo tão sofrido! Atingi a idade em que não verei muitas mudanças...desde que o mundo é mundo há miseráveis e ricos. Mas quando avistamos tão próximos a nós uma pessoa como aquela, vista numa manhã bonita de outono, mas ignorada pela maioria que passa por ela, e não enxerga um irmão, desvalido da sorte, apenas se desvia para não ser atacado ou mordido por um vira-lata que é o único a participar da sorte cruel que foi destinada ao homem, sem rosto, pois coberto por um pano sujo. Um irmão, segundo Jesus, um irmão. Doeu...

sábado, 19 de março de 2016

Cheiro de mãe.

Hoje, dia de São José, santo homem, pai de Jesus, glorificado por sua dignidade, humildade, trabalhador, amoroso, pai do filho de Deus. Homenagem ao Pai é o que deveria fazer. E fiz, mais cedo, nas minhas orações. Mas senti-me compelida a falar de minha mãe. Sentada no sofá, dia preguiçoso, cabeça pesada, levantei o braço para melhor apoio e, foi aí, que me veio à lembrança o mesmo cheiro que muitas vezes percebia em minha mãe. Os hormônios vão nos abandonando com a idade, sei bem. Já não necessito de desodorantes, após o banho, do qual fazia uso há alguns bons anos. Muitos. Sinceridade acima de tudo. Lembrei-me do cheiro de minha mãe. E mais: a nitidez com que a visualizei, através do inconsciente ou sei lá de onde. Ela, sentada bem defronte  ao  "étagere", pequena cômoda da sala, como costumávamos nominar aquele móvel, onde havia um rádio e sua enorme pilha, fonte de seu funcionamento, já que não havia eletricidade em nossa casa, na Fazenda São Tomé. Herdei de minha mãe o gosto por novelas, livros, revistas, cinema, teatro, assim como meus irmãos. Não é a primeira vez que falo disso. Perdoem-me se me faço repetitiva. Mas memórias vem e vão. É assim que aproveito para escrever minhas pequenas crônicas. Outra coisa que me chamava a atenção era que, sendo hora do almoço, às vezes, ela arrumava um prato, comida da roça, com verduras, frango, arroz e feijão, angu, farofa, e poderia ser  outra carne qualquer. Mas o que gostava de apreciar mesmo era vê-la embrulhando na pequena folha de alface, alguma porção de tudo, que virava uma trouxinha. Na minha infância não fui afeita a comer legumes, muito menos aquelas folhas verdes que sempre faziam parte do alimento de minha mãe;ela que cultivava uma bela horta, no quintal próximo da casa. Rabanetes, eu os achava bonitos, pequenas bolas de cor viva,  entre um tanto vermelho e meio arroxeadas. E me veio à memória, repito, o cheiro de minha mãe, agradável, cheiro de pele, não exatamente como nenhum perfume, não. Indefinível. Mas para mim agradável. A presença da mãe, ouvindo o "grande teatro de novelas", vendo-a embrulhando as trouxinhas de comida, me conduzindo a um mundo mágico, das histórias das novelas. Como esquecer esta imagem daquela mulher amada e que me ensinou tantas coisas boas, apenas com seu exemplo, sem muitas lições faladas, apenas mostradas. Será que onde ela está haverá um rádio à moda antiga, com pilha e novelas? Pessoas boas e puras como ela devem estar bem acompanhadas. Espero que São José seja noveleiro porque a companhia é a melhor...Saudades, mãe querida!!!

sábado, 5 de março de 2016

Sobre cores.

Sempre fui entusiasmada com relação a cores e explico: desde menina, gostava de desenhar, fazer uma bailarina, pano de fundo uma cortina vermelha, no meu caderno de desenho; mais tarde, fiz alguns quadros com tinta a óleo, sem muita técnica, devo confessar, pura intuição e gosto pelas cores, volto a dizer. Nunca tive professor de pintura, nesta fase da vida, o que não me impediu de fazer algumas obras. Singeleza pura;lembro-me de uma menina sentada sobre grama verde, margaridas ao redor, tudo feito numa pequena tela de cortiça. Fiz ainda uma menina tocando piano, um belo vaso de flores sobre o instrumento, tudo muito colorido. Acho que minha prima o guardou por um tempo. Tirei do Tesouro da Juventude, um quadro lindo, de um famoso pintor: menina sentada, vestido rosa, fundo verde escuro. Nenhum deles, obra de arte, não fiquei famosa mas amo pintar, o gosto não diminuiu. Só que as cores a que me refiro, hoje, fazem parte da nossa bandeira. Verde, amarelo, azul e branco. O branco bem sabemos é a reunião de todas as cores, em rotação veloz...Agora, constantemente, temos visto, através da mídia, de todas as formas, a cor vermelha gritante de um partido político que nos deixou órfãos de um pai digno, onde os valores estão sendo trocados. Um aviltamento sem fim. Sempre me emocionei ao ouvir o nosso hino Nacional, além do Hino à Bandeira, que costumávamos cantar nas escolas de outrora, um orgulho sem medida! Então, gente, apesar de o vermelho ser uma cor maravilhosa, intensa, não é para nos representar. Só mesmo nos belos quadros, com o óleo dos incríveis pintores a quem tanto admiro. Quero continuar chorando ao ouvir o nosso hino e me emocionar com as nossas cores...o verde, amarelo,azul e branco! Gostaria de deixar para meus filhos e neto um país grandioso, onde ainda existam homens brilhantes, honestos e que não queiram trocar as cores mágicas de nossa bandeira!

terça-feira, 1 de março de 2016

"Se esta rua fosse minha..."

Sinto-me privilegiada por morar  numa rua onde há duas igrejas: uma Capela de São Lucas e a outra uma igreja Evangélica. Ambas cultuam e glorificam Jesus. Somos irmãos de fé. Isto não é ótimo? É.Então. Além disso, há dois teatros também. Um é o famoso Teatro Abel, onde já pude apreciar e assistir a várias encenações, peças e artistas famosos se apresentando. Entretanto, faço uma ressalva: as fileiras são muito estreitas e quando alguém chega, toda a fila tem que se levantar para dar passagem. Outro agravante é que, no fim de cada uma delas, não há saída. Deus nos livre de algum tumulto. O outro teatro é pequeno e faz parte da Associação Médica, pelo menos está no mesmo espaço. É novo, relativamente, reformado, apesar de pequena a sala, é confortável. Mas infelizmente, já me deparei com uma big barata circulando por entre as poltronas! Ai que aflição!.. E aí me pergunto: não é bom ter Arte e Religião tão próximas? Seria. Respondo eu mesma. E há um motivo para duvidar de que moro muito bem. É que, quando chove por mais de dez minutos, viramos uma Veneza brasileira, sem exagero. Não se pode sair e nem entrar em casa, a não ser que improvisemos um bote ou boia. Afinal, vimos reportagens várias mostrando pessoas remando em plena Avenida, aquela mesma que tem o nome de um nosso conterrâneo famoso  e que foi Governador, Roberto Silveira. Sinto saudades da época em que vinhamos a Niterói, ainda menina-moça, eu, meus irmãos e nossos pais. Havia praia limpa e violência, só no cinema, assim mesmo vendo filmes de mocinhos e bandidos, nos faroestes de outrora,  algumas flechadas de índios e mocinhas salvas pelos heróis de plantão. Faz tanto tempo que me esqueço do nome dos artistas, aqueles que idolatrávamos e recortávamos suas fotos das revistas. E me veio a música, também inesquecível, dos bons tempos. E penso em completar seus versos á minha maneira, pois ficaria  mais ou menos assim: " Se esta rua, se esta rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar...com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes e proibia algum político passar!" Que me perdoem os poetas... mas não resisti!...