quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

As quatro estações da vida.

Primavera, quando acordamos para a vida, literalmente,  os bebês, olhos se abrindo para   o mundo, aprendendo, descobrindo coisas, a beleza dos sentidos. O perfume das flores, os cheiros, do leite materno, da primeira sopinha, do feijão com arroz, o gosto da manteiga no pão, da fruta arrancada do pé. E o medo que já vem no DNA, este que também nos assombra à noite, medo do escuro. Ou medo da ausência materna, solidão. A delícia de conviver com os primeiros amigos, colegas da escola, dos primos (estes dariam um capítulo à parte).E seguimos. Verão, tempo quente, hormônios em ebulição, novas descobertas, adolescência prazerosa e de insegurança paradoxalmente. Amores camuflados, amores não correspondidos, escondidos, bandidos. Tudo mesclado com a alegria da percepção do corpo, bonito, pele lisa, olhos brilhantes, coração em brasas. Há exceções. A vida é repleta delas. Mas não quero exceções. Quero falar da vida borbulhante, dos amores para sempre, das ilusões, do sofrimento de se perder o "amor da minha vida" que não é tão para sempre assim... Realizações, frustrações, tudo muito intenso. A idade das grandes paixões, das escolhas das profissões, ou o desafio de enfrentar o mundo de peito aberto, num "deixa a vida me levar" e ver o que vai dar. Casamento, união, hoje, tão mais liberal, homossexual, heterossexual;  apenas afetiva, não importa mais. De repente, não mais que de repente, o Outono. Clima ameno, nem quente nem frio. Ah! esse,sim! Achamos ter atingido a maturidade. A idade da razão, de todas as certezas, de experiência plena. Para as mulheres, a menopausa. Época de ver a beleza se esvaindo com a inexorabilidade do tempo, para os homens, insegurança, a virilidade sendo posta à prova. E finalmente, o Inverno que vem arrastando as esperanças, visualizando um tempo de despedidas. Um tempo em que os planos já foram seguidos e feitos ou se decepcionou com o que se esperava e não se obteve. Antes, quando alguém atingia  centenário de vida, saia em jornais, como fenômeno, raridade. Já celebramos a longevidade nos dias atuais. A medicina previne doenças, alcançou níveis de conhecimento que podem conservar por muitos anos mais uma pessoa dita na "melhor idade". Aposentadoria. Palavra assustadora para muitos. O que fazer? A vida não deve e não pode perder a graça. Sentir-se inútil não faz bem. Amanhecer se torna um ato de rebeldia. Os carpo, metacarpo e dedos, tarso, metatarsos  já não são tão obedientes. Correr para o banheiro não é tarefa das mais fáceis, controlar a bexiga cheia, mesmo que a distância seja pequena, é obra pra super-herói. As amigas de última geração costumam aparecer, sem convite, sem avisar que vem:  dor na coluna, incontinência ( êta palavrinha chata!) além da osteoporose, osteopenia, e ficamos amigos íntimos dos médicos. O doutor cardiologista, o ortopedista, o oftalmologista. E, os psicólogos, psiquiatras, quando bate a amiga mais mortal de todas- a depressão. Aprendemos um linguajar médico de primeira. Não quero desanimar ninguém, não. Mas, seguramente,  é o passo a passo para a eterna alegria ou para os que não creem em nada. Para o  eterno descanso... Durmam com esse barulho e acordem celebrando o sol a brilhar na imensidão, mesmo que esteja chovendo, gente!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A laranja mecânica.

Quando vi esse filme, havia algumas boas salas de cinema em Niterói." Laranja mecânica" tinha cenas em que uma bolinha preta cobria uns "particulares" dos atores e era um verdadeiro terremoto a natureza da história, violento, instigante e forte. Foi impactante o lançamento da película. Não vou dizer mais sobre o filme. O que realmente, me levou a lembrar daquele tempo, foi o fechamento de todas as telas, cinemas famosos, onde vivi boa parte do encantamento que me levava a assistir a um bom filme. O fato de terem reformado e reaberto o Centro de Artes da UFF me deixou animada. Além de ter valido a pena a espera. Demorou. Ficava eu olhando os tapumes e esperando ansiosa para o término da obra que durou alguns anos. Valeu a pena, volto a dizer. As salas de cinema sumiram do mapa. Foram todas transferidas para os grandes Shoppings, onde o festival de pipocas, refrigerantes, celulares piscando ( alguns, mais desrespeitosos, fazendo um barulho indevido) filas enormes na entrada e tudo o mais que causa transtorno ao invés de prazer. Havia um ritual para se escolher  um cinema, para admirar nossos artistas preferidos. Nos dias atuais, o que se vê é um verdadeiro parque de diversões, com direito a lanche, não mais o interesse verdadeiro em apreciar a sétima arte. Há ainda algumas salas onde a platéia escolhe bons temas, com artistas que representam seu verdadeiro talento. É preciso atravessar a baía. No Rio, há boas salas com um auditório seleto, onde se respeita o ouvido do outro. Como no teatro, acho que o cinema é um lugar para se apreciar a interpretação dos atores, há que se ter respeito pelo silêncio, necessário para a concentração, para que se possa ver e ouvir claramente o que se é apresentado nas telas. Já verifiquei de perto, pois assisti a um filme numa das salas do Centro de Artes, além de uma peça teatral, na sala ao lado. Maravilha, tudo novo, espaço suficiente para acomodar as pernas, sem se sentir espremida, som perfeito, e o melhor: pessoas civilizadas à procura de verdadeira diversão, respeitando o limite do outro.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Criança é criança.

Aí, chegamos ao mercado meu neto e eu. Tudo bem que complica um pouco fazer compras com uma criança. Então resolvi que, se ele me ajudasse ficaria ocupado e se distrairia ao mesmo tempo. Na mosca. Ele ajudou e muito. Pedi que separasse três limões para colocar no peixe que faria para ele. Eu com as mãos cheias ficava difícil. Quando me voltei pra ver se ele pegara os limões...ele pegou mas não exatamente limões. Eram laranjas. Tudo bem, afinal tudo com vitamina C e da mesma família. E ele continuava com a ajuda. Levou as duas beterrabas para o "moço" pesar. Depois os ditos limões. "Você de novo, rapaz?" Disse o atendente brincando com ele. Até que, depois de muitas idas e vindas chegamos ao caixa para pagar. E aí, se deu o grande encontro. Uma menina linda, toda vestida de rosa, fita no cabelo da mesma cor, gritou o seu nome. Meu neto quase se enfiou embaixo das cestas. Pegou um folheto ilustrativo no carro de compras e cobriu o rosto, parecendo ler os preços das ofertas que, de baratas não tinham nada. A amiga e colega de turma sorria pra ele, acompanhada do avô. Eu avisei que ele estava meio tímido, envergonhado. E ela, prontamente: " Mas na escola ele não é assim...!" Rimos todos. A menina saiu com o avô. Avistamos o carro deles estacionado em frente ao mercado e o vistoso vestidinho rosa. Olha, sua amiga está indo, dê um adeus pra ela...Disse eu para meu neto. Ele se aventurou em olhar e viu a menina bonita entrando no carro. Paguei o que devia e separei pouca coisa para levar pra casa, pouco peso, o restante seria entregue por uma taxa obscena, já que moro tão perto. Enfim... Saímos e de repente, na calçada, vi a garotinha em prantos, na porta do veículo do avô. Nos aproximamos depressa, outra mulher com um cachorrinho, tentava acalmar a menina." Onde está sua mãe?" perguntava. Eu falava com ela pra não se preocupar, o vovô já devia estar chegando. E estava. Logo ele veio. A menina, antes corajosa e brincalhona, agora, se via perdida, abandonada , apenas alguns segundos sem a presença do avô. E pensei que, não importa a situação, criança é criança, e toda a beleza dessa época reside aí. A pureza é a tônica, pena que, às vezes, acompanhada de grande insegurança.