Estou tão
cansada. Sinto um peso enorme nas
costas...tenho necessidade de sossego
mas não vejo a menor possibilidade de que aconteça : encontrar a paz. Parece
que o mundo fica hostil, que as pessoas estão enormemente atarefadas, que há
mil obrigações a serem cumpridas, e que tudo se resume nessa desabalada
carreira. Em busca do quê? Por que corremos tanto? Há sempre datas,
festividades, comemorações... não se tem mais tempo para não se fazer nada.
Quero dizer que não podemos ficar sem compromissos. Sem nada e nem ninguém nos
cobrando. Parece que um vampiro invisível costuma nos visitar e vem
diariamente, nos sugar o sangue. Por que a pressa? Vamos a lugar nenhum. Dá antipatia a quantidade de feriados e datas
que nos obrigam a sair, participar, quando na verdade, prefiro estar quieta no meu canto. Será que é crime
estar em casa, sem fazer nada? É como um
rodízio de pizzas, que se come porque o garçom te obriga, num oferecimento
excessivo e você acaba se entupindo de massas. Ou mesmo numa churrascaria que emprega
o mesmo sistema. É comer, comer e comer... E aí? Onde fica o seu direito de
vadiar, de não querer nada além de
calmaria, de sossego, de estar à toa?Emenda-se o Reveillon, sem antes,
se ter comemorado o Natal? Claro que não! Segue-se o mês de férias, praia
abarrotada, congestionamentos, e vem o Carnaval! Ah, dias de folia! Quem se
diverte de verdade, sem se programar e gastar um monte de dinheiro? Mal
sacudimos a poeira, Semana Santa, como não? Mais programação. Aonde ir? Praia
ou montanha? E assim o ano vai acontecendo recheado de outras tantas comemorações,
Dia das Mães, Ih, já ia esquecendo tem
dia de tudo e de todos. O dia Internacional da Mulher, do Homem, do Médico, da
Secretária. Só de pensar em tantas datas, cansa. Meio do ano já se aproximando e vem o dia dos Namorados, mas que namorados?
Ninguém quer mais namorar! Isso não existe... Só sexo!!! É ruim? Não era. Agora
se barbarizou. Perdeu a graça por acúmulo de demanda. E a lista não acaba, São
João, São Pedro, Santo Antônio... Obrigatório lembrar os balões proibidos
causadores de incêndios, acompanhados de prejuízo e perigo de vida.
Inconseqüência total. Antes, parecia que as coisas demoravam mais a acontecer.
Agora, o tempo ficou curto e a minha paciência mais ainda.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Escrever é arte ou o quê?
Não dá pra
saber. Não sei se escrevo porque sei ou se, de repente, vem alguma inspiração. Mas não acho que seja assim, não.
Quantas vezes, como agora por exemplo,
começo simplesmente e a coisa vai fluindo, sem planos, nem nenhum pensamento
preconcebido. É apenas o ato de ir escrevendo, sem imaginar de verdade o que as
próximas palavras irão definir. Transforma-se
no mais completo acaso. E as idéias vão surgindo espontaneamente. As
palavras saem de forma extemporânea. De forma inexplicável, elas vão surgindo
em minha mente e as jogo, nesta tela em branco. Ou faz parte da inconsciência, porque, de fato, acho que
todas elas estão lá, guardadas, esperando para serem expostas. E nesse momento,
precisaria de uma definição melhor para o que acontece, quando, abruptamente,
me vem essa vontade de escrever, ainda que não tenha a menor noção do que
escreverei. E então, o que me leva a lançar de forma aleatória, o que meus
dedos digitam? Poderia escrever numa folha em branco, com caneta ou lápis, mas
com a opção do computador, mais moderna
e prática, não me furto a esse prazer. Sim, já posso definir como prazer, pois
me tornam motivada, me estimulam a concluir o que tenho tanta vontade de fazer:
escrever um livro. Ou simplesmente, escrever um texto, pautado em nada, apenas há esta compulsão em liberar o que sinto,
impregnando de emoção, de sentimentos,
ou até mesmo, sem nenhum propósito as minhas falas; é inevitável e acontece esta
necessidade premente de colocar minhas idéias. Antes, não conseguia escrever
nem uma boa carta. Parecia sempre que formulava frases sem o menor entusiasmo, sem
efeito, levada somente pela necessidade, quando precisava dar notícias ou
comunicar algum acontecimento importante. Mas aquele tempo vai longe, tudo se modernizou
de maneira tão meteórica que parece há séculos se usava uma carta para se dizer
alguma coisa, o tempo virou um engolidor de léguas, tão rápido, que sempre
estamos em dívida com ele. Acompanhar a tecnologia é um ato de extrema coragem e boa vontade. Isto
porque, haja fôlego. É tarefa para os mais jovens. Li esta semana um livro bem
interessante onde a autora dizia do
cuidado em não confessar que não se
consegue acompanhar os iPads ou iPods da vida. Isto porque se dá um verdadeiro
atestado de velhice e ignorância. Isto não
pode, forçando um trocadilho bem infame...
Os últimos raios de sol
Da janela, podia avistar o sol se
indo, não antes de mostrar uma
luminosidade amarela, brilhante, por trás dos edifícios altos. Tudo se
transformando em sombra, para receber a noite que traz consigo um sentimento de
tristeza muito grande. Observava aquela
paisagem bonita sem poder olhar para tanta luz que me cegava. É o momento do
dia que mais gosto de apreciar. Não são
poucas as vezes, que deixo o que estou fazendo para me deleitar com o por do sol. Nas tardes de
outono então são de tirar o fôlego. E me transporto. Deixo a alma flutuar entre
as cores mágicas no céu. Entretanto,
todo esse esplendor, misturado às mais belas emoções, me levam a uma comparação
inevitável. A minha vida atingiu um momento de finalizações. A Terra dá voltas,
em círculos infinitos que causam os dias
e as noites. As pessoas, não. Apesar de fazerem parte de um planeta que gira
sem parar, têm um tempo finito. É o ocaso que acontece, inexorável. É como se
estivéssemos da janela de um trem veloz, que nos deixa vislumbrar paisagens, as
mais intrigantes e mutáveis, mas que apreciamos tão rapidamente. É como a vida
que, costumamos dizer, passa tão depressa. Mas, na verdade, não é assim. Os
minutos, as horas estão sempre no mesmo compasso. Nós é que não conseguimos
cultivar o hábito saudável, de vivenciarmos apropriadamente, cada momento que nos é dado. Se pudesse cavalgar
num daqueles clarões coloridos eu me reportaria a um tempo de felicidade,
melhor dizendo, de esperança. Do porvir instalado em frente à mim, quando era a
menina sonhadora, cheia de gosto pela vida. Não que eu não sorria mais, não.
Mas é tão diferente. O riso de antes era aberto, descontraído, irresponsável.
Hoje, é um riso temperado, mais valorizado até. E me dou conta de que tenho a
graça infinita de possuir um bom humor invejável. Como os negros escravos
acostumei-me com as chicotadas da vida e, como eles, ainda consigo cantar e dançar, apesar das marcas
deixadas pela chibata, ao redor da fogueira, que acendiam, para queimar suas
frustrações e zombar da má sorte que lhes fora dada. Também eu quero atiçar o fogo que queimará
minha amargura, e que, pretensamente transformará em cinzas todo o sofrimento e
decepções que me atingirem. Quero me valer das coisas boas que andam paralelas,
disputando lado a lado com o tristeza e
a dor. É uma luta feroz, onde os soldados do bem não se acovardam, mesmo
sabendo que as armas inimigas são mais poderosas. Ainda há alguma luz, ainda
vejo o ouro e púrpura flamejando no
horizonte. Além do mais, sempre haverá um novo dia e, enquanto eu puder, farei
parte daquele exército que ainda acredita em dias melhores e que valorizam pequenas vitórias, porque é delas que, se
somadas, extrairemos a vitória e, aí, sim, entendemos que vale a pena viver.
Baile na fazenda
Depois de algum tempo, para alguns a vida
melhora e o contrário acontece a outros.
Não é uma regra.
É constatação. Dos dez filhos do meu
avô, nem todos foram agraciados com a melhor parte. E qual seria ela? Dinheiro,
uma herança cobiçada, saúde, alegrias, viagens? Quem sabe...
Qualquer dessas suposições são, relativamente, proporcionais ao desejo de
cada um. Penso que aquele que recebeu muita grana, ou terras, uma mansão com
carro na garagem – só para citar alguns – talvez não tenha se sentido satisfeito,
feliz, recompensado. Há também a
possibilidade de não ter sabido aproveitar, melhor, não ter usufruído de forma racional, inteligente, o que lhe foi
dado de bandeja. Por que essas reflexões? É que me lembrei de um fato engraçado e que se passou na
fazenda das Areias, algum tempo depois da morte dos meus avós. Nem todos
souberam administrar bem a parte que lhes coube da herança. Prefiro não citar
nomes. Não é meu objetivo julgar ninguém. Então. Não sei bem porque, houve uma
época em que uma das tias precisou ir
morar lá.Talvez, por estar atravessando situação financeira
desfavorável, digamos assim. O
casal se instalou provisoriamente, até que o vendaval se afastasse. Só que essa
tia era uma pessoa muito alegre, de bem com a vida, talvez, um tanto despreocupada demais. Seu marido,
apesar de enormemente simpático, agradável, gentil com todos, era despreparado
para gerenciar o tanto que havia
recebido. Mas formavam uma dupla imbatível no que diz respeito a animar uma
festa, com alegria e descontração. Gostavam de música, boa bebida e de receber
os amigos. Um dia, promoveram um baile na fazenda. Convidaram alguns vizinhos
das fazendas próximas e pessoas do vilarejo, também perto da casa. Naquele
tempo, em plena adolescência, eu, minhas primas e irmãs assistíamos encantadas à chegada dos convidados, num misto de euforia
e timidez.E formávamos grupinhos de risonhas e serelepes mocinhas. O toca- discos
tocando alto, jovens tirando moças para dançar. Um deles, na sua simplicidade
de moço da roça, ostentava uma escova de
dentes, num dos bolsos da camisa. Era o Aldo. Nunca nos esquecemos disso, eu e
todas as outras meninas, com risinhos de deboche e com a maldade característica
daquela idade. Corríamos dele, com medo de que convidasse uma de nós para
dançar.E seguia a festa.
terça-feira, 21 de maio de 2013
A Zé e outras histórias.
A Zé e outras histórias.
Alzira morreu. Levou um choque
elétrico, quando passava roupa. Fora um relâmpago. Alzira atingida por um raio
que caiu do céu. Só sei que, com essa lembrança, puxei uma outra:
a figura da Zé, que era irmã da Alzira.
Seu nome Maria José. Claro, ninguém se chama Zé.
Não era uma pessoa comum. Não sei se
de nascença, o fato é que seu rosto era deformado: sua boca parecia subir em
direção à orelha atrofiada, também defeituosa. A Zé era feia. Quando falo do
físico, sim, devo descrever uma pessoa desprovida de beleza. Mas, se me refiro
à bondade, ao caráter, ao espírito simples e afável, então sim, este é o perfil
da Zé. De uma beleza incrível.
Era outra época. Outra vida. Não se
corria contra o tempo. Apenas se vivia, deixando as coisas acontecerem sem
pressa, sem ansiedade, sem o afã de viver com o fim exclusivo de se obter bens
materiais, isto considerado fundamental, nos dias de hoje, muito mais
importante do que o ser.
Atividade febril. Histeria coletiva.
Vemos pessoas, e me incluo nessa,
correndo, se agitando num frenético ir e vir. As voltas do planeta já não dão
conta do tempo. Este virou um senhor lerdo, envelhecido, “démodé”. Ninguém tem mais tempo
para o tempo.
A Zé trabalhava em nossa casa; desde que passei
a me entender por gente, contava com sua zelosa companhia. Companheira que me
viu desabrochar da meninice para a adolescência. Ela carregava o peso de uma
deformidade. Não quero registrar sua imperfeição. Ao contrário, preciso exortar
sua condição de ser humano revestido de coragem. Ela não se deixou vencer.
Simplesmente, de maneira inconteste, se resignou com o que a lhe coube nesta
vida. Cultivava a vaidade de mulher, sim. Como qualquer outra que tivesse tido
melhor sorte, que tivesse sido dotada de beleza exemplar, a Zé tentava
disfarçar sua fealdade com recursos de que dispunha: por exemplo, colorir
os cabelos, com uma mistura de água oxigenada e cebolas, encobrindo aquele seu
lado defeituoso.
Zé cozinhava e fazia outros serviços da casa,
incluindo a roupa que lavava e passava.
Meu pai, amante inveterado do
futebol, era o “técnico” do Olímpico, um dos poucos times da pequena cidade,
que dividia os dois estados do Rio e Espírito Santo.
Algumas vezes, chegou a abrigar em nossa casa jovens jogadores, que
vieram de Minas. A Zé cuidava da roupa deles também. Acontece que um dos
rapazes, o Fábio, que mais tarde se
tornou goleiro reserva da Seleção, querendo fazer-lhe um agrado, em retribuição
ao favor que ela lhe prestava, comprou-lhe um singelo par de brincos. Que
infeliz idéia! Logo ela que não contava com as duas orelhas...
Mas ela era feliz. Contentava-se com
pouco. Chegou a ter alguns namorados, lembro-me disso.
Minha mãe foi uma mulher moderna. Já
naquela época, lidava com as empregadas de maneira delicada, com humanidade.
Muitas costumavam visitá-la. Uma delas, Maria Amélia se casou, tendo ido embora
por esse motivo; lembro-me bem dela:
moça bonita, cabelos louros, compridos, olhos verdes, corpo bem feito. Ficou
grata à minha mãe, que sabia cativar as pessoas. Não se importava, quando a Zé
ralhava com um de nós, se invadíssemos sua cozinha para roubar batatas fritas,
antes do almoço.
- “Foge daí, menina!”- gritava ela,
enquanto nos aplicava um tapinha nas
pontas dos dedos... sem machucar.
Nasci na fazenda do meu avô. Mas, na
verdade, as minhas mais tenras recordações
são da outra fazenda, a São Tomé, onde vivi até os dez anos de idade.Meu
avô, homem de muitas terras, de lavouras
de café, deu ao meu pai uma fazenda para administrar. Fui acostumada a conviver
com os colonos, que trabalhavam lá e viviam em casas simples, espalhadas ao
nosso redor. Íamos, sempre, eu e meus irmãos à casa deles. Dona Ana – a quem
todos chamavam de Inhana – senhora de cabelos brancos, amarrados pra trás,
sempre em desalinho, usava saias compridas, franzidas. Sua aparência era um
tanto misteriosa; vivia com seu filho, “Sodira,” não sei se era
a junção de senhor com Dira. Era velho
também. Faltavam-lhe os dentes. Lá, na casa deles, havia colméia. Havia
favo de mel. Galinhas correndo soltas pelos terreiros, bananeiras.
Havia também dona Chica. Devo
confessar que tinha medo quando íamos à casa dela. Existia um paiol, onde eram
guardados cachos de bananas, para madurar. Havia ratos também.
Colhíamos folhas de taioba ( ou de
inhame, não sei bem ) que nos serviam de aparo para bebermos água da mina que
brotava nos fundos do quintal. Dona Chica era negra, magra, desdentada. Usava
um lenço branco na cabeça: era feia. É a imagem que guardo dela. Parecia uma
bruxa, daquelas saídas das histórias que minha
mãe costumava ler para nós.
Mas a Zé também era feia. Muito feia: tinha
uma orelha atrofiada e a boca repuxada para um lado só, num constante esgar. No
entanto, sua feiúra nunca me causou medo. Ao contrário, nada impediu que ela
fosse a minha grande amiga. Morava em nossa casa e ajudava nos serviços. Sua
mãe, dona Maria, às vezes aparecia para nos visitar e ver a filha, a Zé. Lembro-me
bem dela: baixa estatura, cabelos curtos, ondulados artificialmente, brincos de
argola e rouge, muito rouge; duas rodas vermelhas, mal espalhadas pelo rosto.
Sentia um certo nojo ( Deus me perdoe), quando ela
sorria: a gengiva enorme sobressaía na dentadura mal feita.
A Zé nos acompanhava nas pequenas excursões pelas estradas da São Tomé,
quando resolvíamos visitar os colonos ou, simplesmente, andar pelas trilhas no
meio do mato, para recolher da paineira o recheio dos nossos travesseiros. E
debulhávamos a paina, que fazia meu
nariz coçar.
A escola, sediada na
fazenda, não ia além da 4ª série primária. Meu pai então, viu-se forçado
a se mudar para a cidade. Precisávamos
estudar. Quando isto aconteceu, a Zé nos acompanhou. Viu nascer meu primeiro
sobrinho, filho da irmã mais velha que se casara cedo demais. Ela escolheu a Zé
como madrinha. Justa homenagem para a grande companheira de quase onze anos,
vivendo com nossa família.
Lembro-me da Zé cozinhando angu, no fogão aceso por palha de café. A
tarde, ainda visitada pelos últimos raios de sol, deixava-nos meio sonolentos,
preguiçosos. A vida na fazenda começava cedo. E, àquela hora já nos
preparávamos para o jantar. Não havia luz elétrica em nossa casa. A geladeira
funcionava a querosene. O rádio era à pilha, uma dessas enormes; não me esqueço
do desenho de um gato preto e uma imitação de raio, também preto, desenhados na
superfície vermelha. Eu, na minha mais pueril inocência, ficava imaginando que
os personagens moravam lá, dentro daquela pilha grande, escondida atrás do
rádio. São fragmentos da infância.
Um dia, ficamos sem a
nossa querida Zé, quando ela resolveu vir embora para o Rio. Ficava no alto, Santa
Teresa, bairro em que morava Teresa, a irmã da Zé. Seu marido piloto, lhe conferia importância. Afinal, avião era
sinônimo de status. Foi a primeira vez que comi angu à baiana. Gentileza paga
com gentileza. Meu pai fizera questão de
levar de carro,aquela que passara um bom tempo de sua vida entre nós.
Considerada pessoa da família...Teresa,
que tivera melhor sorte, situação financeira definida, acolheu a irmã do
interior. Fomos todos, em comitiva recebidos com fidalguia pela dona da casa.
São percepções impregnadas em nossa alma. Não saberia explicar o porquê de acorrerem tais
lembranças. O que me teria motivado a escrever sobre ela? Uma indagação que vem
se juntar a muitas outras. Daquelas que
não mudam em nada nossa vida. Não sei se ela ainda vive. Prefiro conservá-la
num lugar mágico, onde as pessoas ficam
eternizadas. Porque para mim a Zé é imortal.
Não teria como saber por
anda a Zé. Talvez, já tenha morrido. Mas não quero pensar assim. Dentro da
minha caixinha para pessoas especiais, há um lugar reservado para ela. Dali
não vou tirá-la. È uma jóia rara que guardarei para sempre.
ESTRANHO SONHO
Ontem, 20 de
abril, era a data do aniversário do meu pai. Lembrei-me dele com saudades. Tive
um sonho ao mesmo tempo estranho e recorrente. Não é a primeira vez que consigo
voar, quando sonho; uma sensação inexplicável e boa. Via-me na praça de Bom Jesus. Só que não havia quase ninguém.
Estava escuro e as portas das casas fechadas. Quase ninguém. Avistei,
atravessando no meio da praça o meu tio Nido, acompanhado de algumas pessoas.
Meus parentes. Entrei no Bar Lider mas
não havia ninguém lá também. Saí em direção à Avenida Fassbender, onde morei.
Era tudo muito sombrio, uma noite escura. Mas como não se segue uma sequência
lógica nos sonhos, já me encontrava num ambiente, dentro de uma casa, onde
havia uma pequena escada. De repente, a sensação que poderia voar me dava uma
alegria e um sentimento bom e alcei voo. Era tão simples, bastava me lançar e
conseguia planar na altura desejada. Não foi a primeira vez que tive essa
sensação nos sonhos, aliás, costuma acontecer vez em quando. Então vi meu pai
lá do alto e eu dizia para ele da capacidade que eu possuía, estava voando e
mostrava isso a ele de forma alegre e descontraída. Acordei com um barulho no corredor, alguém no
banheiro ou uma porta se fechando. Fiquei pensando naquele sonho por muito
tempo. Agora, escrevo, antes que se torne nebuloso e não mais me lembre do sonho que tive. Foi um encontro
com meu pai, provavelmente, diriam os que creem em espíritos. Tomara estejam
eles certos.
domingo, 19 de maio de 2013
Explicando...explicando e explicando
EXPLICANDO...explicando e explicando.
Sinto-me
devedora. Será que todos são assim? Carregando uma dívida que nunca pode ser
paga? Talvez, não. Uns tem o poder de estarem quites com a vida, ou, pelo
menos, se iludem com a própria autonomia diante dos fatos. Coragem, e
enfrentamento, dois substantivos poderosos, fortes. O que transfere às pessoas
esse dom, o de agir com certeza do que
fazem? Acham que estão cobertos de razão e vão adiante, independente do que possa acarretar a atitude
tomada. Comparando-me a essas pessoas, devo admitir que minha nota média varia entre cinco e seis, no máximo.
Ontem,
presenciei uma cena bizarra: mais uma vez, acorria ao Shopping, onde existe um
único banco para remessa de dinheiro ao exterior, o Western Union. Não
quero me vejam como a “boazinha” que manda um dinheirinho para a
pobre coitada da irmã.Não, mesmo.O que ganho fazendo isto é maior do que
qualquer reconhecimento que possa ter. Não há medida para a satisfação que sinto ao perceber que,
apesar da ínfima quantia que mando, estou compartilhando da vida dessa irmã,
tão querida e tão longe.E nem ela necessita disso para sobreviver pois que é
uma lutadora e sabe enfrentar seus
problemas estoicamente.Mas vamos lá, eu
falava do fato, no mínimo engraçado que assisti, não de camarote, pois encarava
uma fila, de pé,nenhum banquinho, nada, onde pudesse aliviar a dor nos
calcanhares, porque permanecia horas naquela posição incômoda.Como bons
brasileiros que somos, estamos sempre entabulando uma conversa, puxando um
assunto com o companheiro de espera naquelas intermináveis “bichas” como diriam
os portugueses, ao se referirem a uma fila.Entre essas pessoas, havia uma
senhora acompanhada de sua netinha de onze anos.Ela, a avó, louvava a boa
educação que dera aos filhos e , conseqüentemente, aprendida pela menina,
companheira de fila.Ontem, já estive aqui
para mandar a mesada do meu filho para pagar a faculdade. Mas foi preciso
voltar hoje, a quantia que mandei não foi suficiente, os bancos não liberam
tanto no mesmo dia. Explicava ela, cheia de orgulho do filho estudando na
Europa. Essa mulher era o tipo de pessoa resoluta e que não deixa barato, como
eu apontava antes. E se intitulava professora universitária. Não me perguntem
seu nome – ela não disse.Então, aparecem várias pessoas para pedir informações,
o que atrapalhava sobremaneira o desempenho da mocinha que nos ia
atender.Desorganização da loja, descaso e
desrespeito com o contribuinte, não raros no nosso país, apesar das
taxas e impostos pagos por nós. Mas a confusão começou quando um senhor bem
idoso, fazendo-se de rogado, adiantou-se, passando à frente de todos da fila
e,principalmente, ignorando-nos, entrou na cabine e, mesmo vendo que a
moça já
atendia alguém, ele tentou burlar todas as regras de bom senso e
educação, interrompendo o trabalho da jovem atendente. Quando dei pela coisa, a
professora - devo descrever seu tipo
físico: gordinha, baixa, cabelos brancos e usava uma bata larga que disfarçava
suas gordurinhas, adentrou a loja e
falava de maneira irritada, recriminando a atitude do velho folgado.Ele não se
deu por vencido. Saiu, exibindo seus grandes olhos azuis e nos olhava com ar de
desdém. Usava elegante calça cáqui, com bolsos, tentando aparentar mais jovem,
presumo. Foi então que a professora entornou toda sua ira e falou alto, bem
alto para que, não só ele ouvisse mas toda a fila que já se tornava
enorme: velho safado! Levei um susto com a veemência com que ela disse
essas palavras. Aí, se formou o “circo”. Espetáculo gratuito a que assistíamos
todos nós. Ele vociferou para ela: Safado é seu pai, sua mãe! E o tempo
esquentou. Você não sabe com quem está
falando! Posso prender você! Gritava o velho enfurecido. E continuou: Sou o
pai do MA (não vou citar o nome do ator) . Isso mesmo, ele se dizia pai de
um ator Global. E: Não é para qualquer um
ser pai do MA! E veio com a parte mais ofensiva: E você é velha, gorda e feia!
Sacudindo o dedo de forma arrogante.Ela respondeu-lhe com um sorriso
sarcástico, retrucando: E você é
lindo!...Incrível mas há pessoas que se arvoram de importância, e se
definem melhor que os outros, apenas com o título de pai de galã de novela...a
que ponto chegamos.
Contei esse
episódio fortuito, antes para amenizar e, ao mesmo tempo, explicar o que me
acomete sempre, esse sentimento de endividamento para com o mundo. Entretanto,
esperar numa fila, sentir dor e cansaço, são bem tolerados quando se está
feliz. Feliz completamente? Não.Digamos, feliz casualmente. E ponto.Vocês se
lembram que nomeei “bicha” quando me
referia à enorme fila de espera? Então...pensem
no velho arrogante e, quem quiser, imagine um novo adjetivo-substantivo
para ele.Se isto se passasse em Portugal, teria uma outra conotação.Não me
julguem leviana, mas era voz geral.
EXPLICANDO...explicando e explicando.
Sinto-me
devedora. Será que todos são assim? Carregando uma dívida que nunca pode ser
paga? Talvez, não. Uns tem o poder de estarem quites com a vida, ou, pelo
menos, se iludem com a própria autonomia diante dos fatos. Coragem, e
enfrentamento, dois substantivos poderosos, fortes. O que transfere às pessoas
esse dom, o de agir com certeza do que
fazem? Acham que estão cobertos de razão e vão adiante, independente do que possa acarretar a atitude
tomada. Comparando-me a essas pessoas, devo admitir que minha nota média varia entre cinco e seis, no máximo.
Ontem,
presenciei uma cena bizarra: mais uma vez, acorria ao Shopping, onde existe um
único banco para remessa de dinheiro ao exterior, o Western Union. Não
quero me vejam como a “boazinha” que manda um dinheirinho para a
pobre coitada da irmã.Não, mesmo.O que ganho fazendo isto é maior do que
qualquer reconhecimento que possa ter. Não há medida para a satisfação que sinto ao perceber que,
apesar da ínfima quantia que mando, estou compartilhando da vida dessa irmã,
tão querida e tão longe.E nem ela necessita disso para sobreviver pois que é
uma lutadora e sabe enfrentar seus
problemas estoicamente.Mas vamos lá, eu
falava do fato, no mínimo engraçado que assisti, não de camarote, pois encarava
uma fila, de pé,nenhum banquinho, nada, onde pudesse aliviar a dor nos
calcanhares, porque permanecia horas naquela posição incômoda.Como bons
brasileiros que somos, estamos sempre entabulando uma conversa, puxando um
assunto com o companheiro de espera naquelas intermináveis “bichas” como diriam
os portugueses, ao se referirem a uma fila.Entre essas pessoas, havia uma
senhora acompanhada de sua netinha de onze anos.Ela, a avó, louvava a boa
educação que dera aos filhos e , conseqüentemente, aprendida pela menina,
companheira de fila.Ontem, já estive aqui
para mandar a mesada do meu filho para pagar a faculdade. Mas foi preciso
voltar hoje, a quantia que mandei não foi suficiente, os bancos não liberam
tanto no mesmo dia. Explicava ela, cheia de orgulho do filho estudando na
Europa. Essa mulher era o tipo de pessoa resoluta e que não deixa barato, como
eu apontava antes. E se intitulava professora universitária. Não me perguntem
seu nome – ela não disse.Então, aparecem várias pessoas para pedir informações,
o que atrapalhava sobremaneira o desempenho da mocinha que nos ia
atender.Desorganização da loja, descaso e
desrespeito com o contribuinte, não raros no nosso país, apesar das
taxas e impostos pagos por nós. Mas a confusão começou quando um senhor bem
idoso, fazendo-se de rogado, adiantou-se, passando à frente de todos da fila
e,principalmente, ignorando-nos, entrou na cabine e, mesmo vendo que a
moça já
atendia alguém, ele tentou burlar todas as regras de bom senso e
educação, interrompendo o trabalho da jovem atendente. Quando dei pela coisa, a
professora - devo descrever seu tipo
físico: gordinha, baixa, cabelos brancos e usava uma bata larga que disfarçava
suas gordurinhas, adentrou a loja e
falava de maneira irritada, recriminando a atitude do velho folgado.Ele não se
deu por vencido. Saiu, exibindo seus grandes olhos azuis e nos olhava com ar de
desdém. Usava elegante calça cáqui, com bolsos, tentando aparentar mais jovem,
presumo. Foi então que a professora entornou toda sua ira e falou alto, bem
alto para que, não só ele ouvisse mas toda a fila que já se tornava
enorme: velho safado! Levei um susto com a veemência com que ela disse
essas palavras. Aí, se formou o “circo”. Espetáculo gratuito a que assistíamos
todos nós. Ele vociferou para ela: Safado é seu pai, sua mãe! E o tempo
esquentou. Você não sabe com quem está
falando! Posso prender você! Gritava o velho enfurecido. E continuou: Sou o
pai do MA (não vou citar o nome do ator) . Isso mesmo, ele se dizia pai de
um ator Global. E: Não é para qualquer um
ser pai do MA! E veio com a parte mais ofensiva: E você é velha, gorda e feia!
Sacudindo o dedo de forma arrogante.Ela respondeu-lhe com um sorriso
sarcástico, retrucando: E você é
lindo!...Incrível mas há pessoas que se arvoram de importância, e se
definem melhor que os outros, apenas com o título de pai de galã de novela...a
que ponto chegamos.
Contei esse
episódio fortuito, antes para amenizar e, ao mesmo tempo, explicar o que me
acomete sempre, esse sentimento de endividamento para com o mundo. Entretanto,
esperar numa fila, sentir dor e cansaço, são bem tolerados quando se está
feliz. Feliz completamente? Não.Digamos, feliz casualmente. E ponto.Vocês se
lembram que nomeei “bicha” quando me
referia à enorme fila de espera? Então...pensem
no velho arrogante e, quem quiser, imagine um novo adjetivo-substantivo
para ele.Se isto se passasse em Portugal, teria uma outra conotação.Não me
julguem leviana, mas era voz geral.
companheiros de jornada
CÃOZINHO SOLIDÁRIO
Tenho medo de cachorros. Muito.
Não sei
porque. Desde muito menina, já me
via em pânico ao avistar um cachorro. Mas há dois dias, aconteceu um fato, no
mínimo, curioso. Estava eu na varanda e era ainda muito cedo. Acordei e meio
sem ter o que fazer fiquei ali, olhando
para o nada. Estava triste. Desanimada. Os motivos, não importa quais. Teria
que enumerar um rosário de reclamações, culpando a vida pelas minhas desditas.
Mas não é o caso. Nem quero falar disso, não agora. E me vem a imagem daquele
cãozinho na varanda do andar abaixo do meu. Já disse que tenho medo de cães.
Mas tenho certa inveja de quem vê neles verdadeiros amigos e companheiros. Não
foram poucas as vezes que tentei uma aproximação. Nada adiantou para dissipar a
aflição que sinto no contato com eles. E aí, volto a lembrar daquele minúsculo
cachorrinho que me espiava da outra varanda. Parecia que ele se enternecia com
meu sofrimento. E esticava as orelhas, curioso. Houve um momento que pulou no
sofá de vime, com almofadas de napa. E me fitava, parecendo entender meu
sofrimento. Aquilo me comoveu e eu chorei. Um choro sentido que me fez imaginar
que aquele cãozinho entendia o que se passava e parecia expressar sua vontade
de ser meu amigo. Esticou as patinhas no vidro e chegou a trocar de lugar, para
me olhar de um ângulo melhor. Fiquei comovida com a expressão de carinho
daquele animalzinho. Sua linguagem muda me fez sentir que não estava sozinha.
Que ele percebia meus sentimentos e que queria dizer: “Não fique triste, estou
com você.” Não terei uma explicação para essa demonstração, vinda de um ser que
não é humano. (Será que não?) Nunca
saberei o que se passou de fato. Mas não vou esquecer aquela cena. Não pedi
ajuda, mesmo assim, fui amparada por um espírito maior, que trazia a
sensibilidade estampada naquela troca de olhares, de pequenos gestos. Ele
captou de alguma forma a minha tristeza daquela hora, apenas me observando. E
me senti confortada.
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