quarta-feira, 22 de maio de 2013

Excesso de feriados


Estou tão cansada. Sinto  um peso enorme nas costas...tenho  necessidade de sossego mas não vejo a menor possibilidade de que aconteça : encontrar a paz. Parece que o mundo fica hostil, que as pessoas estão enormemente atarefadas, que há mil obrigações a serem cumpridas, e que tudo se resume nessa desabalada carreira. Em busca do quê? Por que corremos tanto? Há sempre datas, festividades, comemorações... não se tem mais tempo para não se fazer nada. Quero dizer que não podemos ficar sem compromissos. Sem nada e nem ninguém nos cobrando. Parece que um vampiro invisível costuma nos visitar e vem diariamente, nos sugar o sangue. Por que a pressa? Vamos a lugar nenhum.  Dá antipatia a quantidade de feriados e datas que nos obrigam a sair, participar, quando na verdade, prefiro  estar quieta no meu canto. Será que é crime estar  em casa, sem fazer nada? É como um rodízio de pizzas, que se come porque o garçom te obriga, num oferecimento excessivo e você acaba se entupindo de massas. Ou mesmo numa churrascaria que emprega o mesmo sistema. É comer, comer e comer... E aí? Onde fica o seu direito de vadiar, de não querer nada além de  calmaria, de sossego, de estar à toa?Emenda-se o Reveillon, sem antes, se ter comemorado o Natal? Claro que não! Segue-se o mês de férias, praia abarrotada, congestionamentos, e vem o Carnaval! Ah, dias de folia! Quem se diverte de verdade, sem se programar e gastar um monte de dinheiro? Mal sacudimos a poeira, Semana Santa, como não? Mais programação. Aonde ir? Praia ou montanha? E assim o ano vai acontecendo recheado de outras tantas comemorações, Dia das Mães, Ih, já ia  esquecendo tem dia de tudo e de todos. O dia Internacional da Mulher, do Homem, do Médico, da Secretária. Só de pensar em tantas datas, cansa.  Meio do ano já se aproximando e  vem o dia dos Namorados, mas que namorados? Ninguém quer mais namorar! Isso não existe... Só sexo!!! É ruim? Não era. Agora se barbarizou. Perdeu a graça por acúmulo de demanda. E a lista não acaba, São João, São Pedro, Santo Antônio... Obrigatório lembrar os balões proibidos causadores de incêndios, acompanhados de prejuízo e perigo de vida. Inconseqüência total. Antes, parecia que as coisas demoravam mais a acontecer. Agora, o tempo ficou curto e a minha paciência mais ainda.

 

Escrever é arte ou o quê?


 

Não dá pra saber. Não sei se escrevo porque sei ou se, de repente, vem alguma  inspiração. Mas não acho que seja assim, não. Quantas vezes, como agora por  exemplo, começo simplesmente e a coisa vai fluindo, sem planos, nem nenhum pensamento preconcebido. É apenas o ato de ir escrevendo, sem imaginar de verdade o que as próximas palavras irão definir. Transforma-se  no mais completo acaso. E as idéias vão surgindo espontaneamente. As palavras saem de forma extemporânea. De forma inexplicável, elas vão surgindo em minha mente e as jogo, nesta tela em branco. Ou faz parte  da inconsciência, porque, de fato, acho que todas elas estão lá, guardadas, esperando para serem expostas. E nesse momento, precisaria de uma definição melhor para o que acontece, quando, abruptamente, me vem essa vontade de escrever, ainda que não tenha a menor noção do que escreverei. E então, o que me leva a lançar de forma aleatória, o que meus dedos digitam? Poderia escrever numa folha em branco, com caneta ou lápis, mas com a opção do computador, mais  moderna e prática, não me furto a esse prazer. Sim, já posso definir como prazer, pois me tornam motivada, me estimulam a concluir o que tenho tanta vontade de fazer: escrever um livro. Ou simplesmente, escrever um texto, pautado em nada, apenas  há esta compulsão em liberar o que sinto, impregnando  de emoção, de sentimentos, ou até mesmo, sem nenhum propósito as minhas falas; é inevitável e acontece esta necessidade premente de colocar minhas idéias. Antes, não conseguia escrever nem uma boa carta. Parecia sempre que formulava frases sem o menor entusiasmo, sem efeito, levada somente pela necessidade, quando precisava dar notícias ou comunicar algum acontecimento importante. Mas aquele tempo vai longe, tudo se modernizou de maneira tão meteórica que parece há séculos se usava uma carta para se dizer alguma coisa, o tempo virou um engolidor de léguas, tão rápido, que sempre estamos em dívida com ele. Acompanhar a tecnologia é um  ato de extrema coragem e boa vontade. Isto porque, haja fôlego. É tarefa para os mais jovens. Li esta semana um livro bem interessante onde a autora  dizia do cuidado em não  confessar que não se consegue acompanhar os iPads ou iPods da vida. Isto porque se dá um verdadeiro atestado de velhice e ignorância. Isto não pode, forçando um trocadilho bem infame...

Os últimos raios de sol


 

 

Da janela, podia avistar o sol se indo, não antes de mostrar uma  luminosidade amarela, brilhante, por trás dos edifícios altos. Tudo se transformando em sombra, para receber a noite que traz consigo um sentimento de tristeza muito grande. Observava  aquela paisagem bonita sem poder olhar para tanta luz que me cegava. É o momento do dia que mais gosto  de apreciar. Não são poucas as vezes, que deixo o que estou fazendo para  me deleitar com o por do sol. Nas tardes de outono então são de tirar o fôlego. E me transporto. Deixo a alma flutuar entre as  cores mágicas no céu. Entretanto, todo esse esplendor, misturado às mais belas emoções, me levam a uma comparação inevitável. A minha vida atingiu um momento de finalizações. A Terra dá voltas, em círculos infinitos que causam  os dias e as noites. As pessoas, não. Apesar de fazerem parte de um planeta que gira sem parar, têm um tempo finito. É o ocaso que acontece, inexorável. É como se estivéssemos da janela de um trem veloz, que nos deixa vislumbrar paisagens, as mais intrigantes e mutáveis, mas que apreciamos tão rapidamente. É como a vida que, costumamos dizer, passa tão depressa. Mas, na verdade, não é assim. Os minutos, as horas estão sempre no mesmo compasso. Nós é que não conseguimos cultivar o hábito saudável, de vivenciarmos apropriadamente, cada   momento que nos é dado. Se pudesse cavalgar num daqueles clarões coloridos eu me reportaria a um tempo de felicidade, melhor dizendo, de esperança. Do porvir instalado em frente à mim, quando era a menina sonhadora, cheia de gosto pela vida. Não que eu não sorria mais, não. Mas é tão diferente. O riso de antes era aberto, descontraído, irresponsável. Hoje, é um riso temperado, mais valorizado até. E me dou conta de que tenho a graça infinita de possuir um bom humor invejável. Como os negros escravos acostumei-me com as chicotadas da vida e, como eles, ainda  consigo cantar e dançar, apesar das marcas deixadas pela chibata, ao redor da fogueira, que acendiam, para queimar suas frustrações e zombar da má sorte que lhes fora dada.  Também eu quero atiçar o fogo que queimará minha amargura, e que, pretensamente transformará em cinzas todo o sofrimento e decepções que me atingirem. Quero me valer das coisas boas que andam paralelas, disputando lado a lado com o  tristeza e a dor. É uma luta feroz, onde os soldados do bem não se acovardam, mesmo sabendo que as armas inimigas são mais poderosas. Ainda há alguma luz, ainda vejo o ouro e púrpura  flamejando no horizonte. Além do mais, sempre haverá um novo dia e, enquanto eu puder, farei parte daquele exército que ainda acredita em dias melhores e que valorizam  pequenas vitórias, porque é delas que, se somadas, extrairemos a vitória e, aí, sim, entendemos que vale a pena viver.

 

 

 

Baile na fazenda


 

 

    Depois de algum tempo, para alguns a vida melhora e o contrário acontece a outros.

Não é uma regra. É constatação.  Dos dez filhos do meu avô, nem todos foram agraciados com a melhor parte. E qual seria ela? Dinheiro, uma herança cobiçada, saúde, alegrias, viagens? Quem sabe...

    Qualquer dessas  suposições  são, relativamente, proporcionais ao desejo de cada um. Penso que aquele que recebeu muita grana, ou terras, uma mansão com carro na garagem – só para citar alguns – talvez não tenha se sentido satisfeito, feliz,  recompensado. Há também a possibilidade de não ter sabido aproveitar,  melhor, não ter  usufruído de  forma racional, inteligente, o que lhe foi dado de bandeja. Por que essas reflexões? É que me lembrei  de um fato engraçado e que se passou na fazenda das Areias, algum tempo depois da morte dos meus avós. Nem todos souberam administrar bem a parte que lhes coube da herança. Prefiro não citar nomes. Não é meu objetivo julgar ninguém. Então. Não sei bem porque, houve uma época em que uma das tias precisou  ir morar lá.Talvez, por estar atravessando situação  financeira   desfavorável, digamos assim. O casal se instalou provisoriamente, até que o vendaval se afastasse. Só que essa tia era uma pessoa muito alegre, de bem com a vida, talvez, um  tanto despreocupada demais. Seu marido, apesar de enormemente simpático, agradável, gentil com todos, era despreparado para gerenciar o tanto  que havia recebido. Mas formavam uma dupla imbatível no que diz respeito a animar uma festa, com alegria e descontração. Gostavam de música, boa bebida e de receber os amigos. Um dia, promoveram um baile na fazenda. Convidaram alguns vizinhos das fazendas próximas e pessoas do vilarejo, também perto da casa. Naquele tempo, em plena adolescência, eu, minhas primas e irmãs assistíamos encantadas  à chegada dos convidados, num misto de euforia e timidez.E formávamos grupinhos de risonhas e serelepes mocinhas. O toca- discos tocando alto, jovens tirando moças para dançar. Um deles, na sua simplicidade de moço da roça, ostentava uma  escova de dentes, num dos bolsos da camisa. Era o Aldo. Nunca nos esquecemos disso, eu e todas as outras meninas, com risinhos de deboche e com a maldade característica daquela idade. Corríamos dele, com medo de que convidasse uma de nós para dançar.E seguia a festa.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A Zé e outras histórias.


A  Zé e outras histórias.

 

            Alzira morreu. Levou um choque elétrico, quando passava roupa. Fora um relâmpago. Alzira atingida por um raio que caiu do céu. Só sei que, com essa lembrança, puxei  uma  outra:  a figura da Zé, que era irmã da Alzira. Seu nome Maria José. Claro, ninguém se chama Zé.

            Não era uma pessoa comum. Não sei se de nascença, o fato é que seu rosto era deformado: sua boca parecia subir em direção à orelha atrofiada, também defeituosa. A Zé era feia. Quando falo do físico, sim, devo descrever uma pessoa desprovida de beleza. Mas, se me refiro à bondade, ao caráter, ao espírito simples e afável, então sim, este é o perfil da Zé. De uma beleza incrível.

            Era outra época. Outra vida. Não se corria contra o tempo. Apenas se vivia, deixando as coisas acontecerem sem pressa, sem ansiedade, sem o afã de viver com o fim exclusivo de se obter bens materiais, isto considerado fundamental, nos dias de hoje, muito mais importante do que o ser.

            Atividade febril. Histeria coletiva. Vemos  pessoas, e me incluo nessa, correndo, se agitando num frenético ir e vir. As voltas do planeta já não dão conta do tempo. Este virou um senhor lerdo,  envelhecido, “démodé”. Ninguém tem mais tempo para o tempo.

            A  Zé trabalhava em nossa casa; desde que passei a me entender por gente, contava com sua zelosa companhia. Companheira que me viu desabrochar da meninice para a adolescência. Ela carregava o peso de uma deformidade. Não quero registrar sua imperfeição. Ao contrário, preciso exortar sua condição de ser humano revestido de coragem. Ela não se deixou vencer. Simplesmente, de maneira inconteste, se resignou com o que a lhe coube nesta vida. Cultivava a vaidade de mulher, sim. Como qualquer outra que tivesse tido melhor sorte, que tivesse sido dotada de beleza exemplar, a Zé tentava disfarçar sua fealdade com recursos de que dispunha: por exemplo, colorir os cabelos, com uma mistura de água oxigenada e cebolas, encobrindo aquele seu lado defeituoso.

             Zé cozinhava e fazia outros serviços da casa, incluindo a roupa que lavava e passava.

            Meu pai, amante inveterado do futebol, era o “técnico” do Olímpico, um dos poucos times da pequena cidade, que dividia os dois estados do Rio e Espírito Santo.

            Algumas vezes, chegou  a abrigar em nossa casa jovens jogadores, que vieram de Minas. A Zé cuidava da roupa deles também. Acontece que um dos rapazes, o Fábio,  que mais tarde se tornou goleiro reserva da Seleção, querendo fazer-lhe um agrado, em retribuição ao favor que ela lhe prestava, comprou-lhe um singelo par de brincos. Que infeliz idéia! Logo ela que não contava com as duas orelhas...

            Mas ela era feliz. Contentava-se com pouco. Chegou a ter alguns namorados, lembro-me disso.

            Minha mãe foi uma mulher moderna. Já naquela época, lidava com as empregadas de maneira delicada, com humanidade. Muitas costumavam visitá-la. Uma delas, Maria Amélia se casou, tendo ido embora por esse motivo;  lembro-me bem dela: moça bonita, cabelos louros, compridos, olhos verdes, corpo bem feito. Ficou grata à minha mãe, que sabia cativar as pessoas. Não se importava, quando a Zé ralhava com um de nós, se invadíssemos sua cozinha para roubar batatas fritas, antes do almoço.

            - “Foge daí, menina!”- gritava ela, enquanto nos aplicava  um tapinha nas pontas dos dedos... sem  machucar.

            Nasci na fazenda do meu avô. Mas, na verdade, as minhas mais tenras recordações  são da outra fazenda, a São Tomé, onde vivi até os dez anos de idade.Meu avô, homem de  muitas terras, de lavouras de café, deu ao meu pai uma fazenda para administrar. Fui acostumada a conviver com os colonos, que trabalhavam lá e viviam em casas simples, espalhadas ao nosso redor. Íamos, sempre, eu e meus irmãos à casa deles. Dona Ana – a quem todos chamavam de Inhana – senhora de cabelos brancos, amarrados pra trás, sempre em desalinho, usava saias compridas, franzidas. Sua aparência era um tanto misteriosa; vivia com seu filho, “Sodira,” não sei  se  era a junção de senhor com Dira. Era velho  também. Faltavam-lhe os dentes. Lá, na casa deles, havia colméia. Havia favo de mel. Galinhas correndo soltas pelos terreiros, bananeiras.

            Havia também dona Chica. Devo confessar que tinha medo quando íamos à casa dela. Existia um paiol, onde eram guardados cachos de bananas, para madurar. Havia ratos também.

            Colhíamos folhas de taioba ( ou de inhame, não sei bem ) que nos serviam de aparo para bebermos água da mina que brotava nos fundos do quintal. Dona Chica era negra, magra, desdentada. Usava um lenço branco na cabeça: era feia. É a imagem que guardo dela. Parecia uma bruxa, daquelas saídas das histórias que minha  mãe costumava ler para nós.

             Mas a Zé também era feia. Muito feia: tinha uma orelha atrofiada e a boca repuxada para um lado só, num constante esgar. No entanto, sua feiúra nunca me causou medo. Ao contrário, nada impediu que ela fosse a minha grande amiga. Morava em nossa casa e ajudava nos serviços. Sua mãe, dona Maria, às vezes aparecia para nos visitar e ver a filha, a Zé. Lembro-me bem dela: baixa estatura, cabelos curtos, ondulados artificialmente, brincos de argola e rouge, muito rouge; duas rodas vermelhas, mal espalhadas pelo rosto. Sentia  um  certo nojo ( Deus me perdoe), quando ela sorria: a gengiva enorme sobressaía na dentadura mal feita.

A Zé nos acompanhava nas pequenas excursões pelas estradas da São Tomé, quando resolvíamos visitar os colonos ou, simplesmente, andar pelas trilhas no meio do mato, para recolher da paineira o recheio dos nossos travesseiros. E debulhávamos a paina, que fazia  meu nariz coçar.

            A escola, sediada na fazenda, não ia além da 4ª série primária. Meu pai então, viu-se forçado a  se mudar para a cidade. Precisávamos estudar. Quando isto aconteceu, a Zé nos acompanhou. Viu nascer meu primeiro sobrinho, filho da irmã mais velha que se casara cedo demais. Ela escolheu a Zé como madrinha. Justa homenagem para a grande companheira de quase onze anos, vivendo com nossa  família.

Lembro-me da Zé cozinhando angu, no fogão aceso por palha de café. A tarde, ainda visitada pelos últimos raios de sol, deixava-nos meio sonolentos, preguiçosos. A vida na fazenda começava cedo. E, àquela hora já nos preparávamos para o jantar. Não havia luz elétrica em nossa casa. A geladeira funcionava a querosene. O rádio era à pilha, uma dessas enormes; não me esqueço do desenho de um gato preto e uma imitação de raio, também preto, desenhados na superfície vermelha. Eu, na minha mais pueril inocência, ficava imaginando que os personagens moravam lá, dentro daquela pilha grande, escondida atrás do rádio. São fragmentos da infância.

            Um dia, ficamos sem a nossa querida Zé, quando ela resolveu vir embora para o Rio. Ficava no alto, Santa Teresa,  bairro em que morava Teresa, a irmã da Zé. Seu marido piloto,  lhe conferia importância. Afinal, avião era sinônimo de status. Foi a primeira vez que comi angu à baiana. Gentileza paga com gentileza. Meu pai fizera questão de  levar de carro,aquela que passara um bom tempo de sua vida entre nós. Considerada pessoa da  família...Teresa, que tivera melhor sorte, situação financeira definida, acolheu a irmã do interior. Fomos todos, em comitiva recebidos com fidalguia pela dona da casa. São percepções impregnadas em nossa alma. Não saberia  explicar o porquê de acorrerem tais lembranças. O que me teria motivado a escrever sobre ela? Uma indagação que vem se juntar  a muitas outras. Daquelas que não mudam em nada nossa vida. Não sei se ela ainda vive. Prefiro conservá-la num  lugar mágico, onde as pessoas ficam eternizadas. Porque para mim a Zé é imortal.

            Não teria como saber por anda a Zé. Talvez, já tenha morrido. Mas não quero pensar assim. Dentro da minha caixinha para pessoas especiais, há um lugar reservado para ela.  Dali  não vou tirá-la. È uma jóia rara que guardarei para sempre.

ESTRANHO SONHO


 

Ontem, 20 de abril, era a data do aniversário do meu pai. Lembrei-me dele com saudades. Tive um sonho ao mesmo tempo estranho e recorrente. Não é a primeira vez que consigo voar, quando sonho; uma sensação inexplicável e boa. Via-me na praça  de Bom Jesus. Só que não havia quase ninguém. Estava escuro e as portas das casas fechadas. Quase ninguém. Avistei, atravessando no meio da praça o meu tio Nido, acompanhado de algumas pessoas. Meus parentes. Entrei no Bar Lider  mas não havia ninguém lá também. Saí em direção à Avenida Fassbender, onde morei. Era tudo muito sombrio, uma noite escura. Mas como não se segue uma sequência lógica nos sonhos, já me encontrava num ambiente, dentro de uma casa, onde havia uma pequena escada. De repente, a sensação que poderia voar me dava uma alegria e um sentimento bom e alcei voo. Era tão simples, bastava me lançar e conseguia planar na altura desejada. Não foi a primeira vez que tive essa sensação nos sonhos, aliás, costuma acontecer vez em quando. Então vi meu pai lá do alto e eu dizia para ele da capacidade que eu possuía, estava voando e mostrava isso a ele de forma alegre e descontraída.  Acordei com um barulho no corredor, alguém no banheiro ou uma porta se fechando. Fiquei pensando naquele sonho por muito tempo. Agora, escrevo, antes que se torne nebuloso e não mais  me lembre do sonho que tive. Foi um encontro com meu pai, provavelmente, diriam os que creem em espíritos. Tomara estejam eles certos.

domingo, 19 de maio de 2013

Explicando...explicando e explicando


EXPLICANDO...explicando e explicando.

 

Sinto-me devedora. Será que todos são assim? Carregando uma dívida que nunca pode ser paga? Talvez, não. Uns tem o poder de estarem quites com a vida, ou, pelo menos, se iludem com a própria autonomia diante dos fatos. Coragem, e enfrentamento, dois substantivos poderosos, fortes. O que transfere às pessoas esse dom, o de  agir com certeza do que fazem? Acham que estão cobertos de razão e vão adiante,  independente do que possa acarretar a atitude tomada. Comparando-me a essas pessoas, devo admitir que minha nota média varia  entre cinco e seis, no máximo.

Ontem, presenciei uma cena bizarra: mais uma vez, acorria ao Shopping, onde existe um único banco para remessa de dinheiro ao exterior, o Western Union. Não quero  me vejam como  a “boazinha” que manda um dinheirinho para a pobre coitada da irmã.Não, mesmo.O que ganho fazendo isto é maior do que qualquer reconhecimento que possa ter. Não há medida  para a satisfação que sinto ao perceber que, apesar da ínfima quantia que mando, estou compartilhando da vida dessa irmã, tão querida e tão longe.E nem ela necessita disso para sobreviver pois que é uma lutadora  e sabe enfrentar seus problemas estoicamente.Mas vamos  lá, eu falava do fato, no mínimo engraçado que assisti, não de camarote, pois encarava uma fila, de pé,nenhum banquinho, nada, onde pudesse aliviar a dor nos calcanhares, porque permanecia horas naquela posição incômoda.Como bons brasileiros que somos, estamos sempre entabulando uma conversa, puxando um assunto com o companheiro de espera naquelas intermináveis “bichas” como diriam os portugueses, ao se referirem a uma fila.Entre essas pessoas, havia uma senhora acompanhada de sua netinha de onze anos.Ela, a avó, louvava a boa educação que dera aos filhos e , conseqüentemente, aprendida pela menina, companheira de fila.Ontem, já estive aqui para mandar a mesada do meu filho para pagar a faculdade. Mas foi preciso voltar hoje, a quantia que mandei não foi suficiente, os bancos não liberam tanto no mesmo dia. Explicava ela, cheia de orgulho do filho estudando na Europa. Essa mulher era o tipo de pessoa resoluta e que não deixa barato, como eu apontava antes. E se intitulava professora universitária. Não me perguntem seu nome – ela não disse.Então, aparecem várias pessoas para pedir informações, o que atrapalhava sobremaneira o desempenho da mocinha que nos ia atender.Desorganização da loja, descaso e  desrespeito com o contribuinte, não raros no nosso país, apesar das taxas e impostos pagos por nós. Mas a confusão começou quando um senhor bem idoso, fazendo-se de rogado, adiantou-se, passando à frente de todos da fila e,principalmente, ignorando-nos, entrou na cabine e, mesmo vendo que a moça    atendia alguém, ele tentou burlar todas as regras de bom senso e educação, interrompendo o trabalho da jovem atendente. Quando dei pela coisa, a professora -  devo descrever seu tipo físico: gordinha, baixa, cabelos brancos e usava uma bata larga que disfarçava suas gordurinhas, adentrou  a loja e falava de maneira irritada, recriminando a atitude do velho folgado.Ele não se deu por vencido. Saiu, exibindo seus grandes olhos azuis e nos olhava com ar de desdém. Usava elegante calça cáqui, com bolsos, tentando aparentar mais jovem, presumo. Foi então que a professora entornou toda sua ira e falou alto, bem alto para que, não só ele ouvisse mas toda a fila que já se tornava enorme:  velho safado! Levei um susto com a veemência com que ela disse essas palavras. Aí, se formou o “circo”. Espetáculo gratuito a que assistíamos todos nós. Ele vociferou para ela:  Safado é seu pai, sua mãe! E o tempo esquentou. Você não sabe com quem está falando! Posso prender você! Gritava o velho enfurecido. E continuou:  Sou o pai do MA (não vou citar o nome do ator) . Isso mesmo, ele se dizia pai de um ator Global. E: Não é para qualquer um ser pai do MA! E veio com a parte mais ofensiva: E  você é velha, gorda e feia! Sacudindo o dedo de forma arrogante.Ela respondeu-lhe com um sorriso sarcástico, retrucando: E você é lindo!...Incrível mas há pessoas que se arvoram de importância, e se definem melhor que os outros, apenas com o título de pai de galã de novela...a que ponto chegamos.

Contei esse episódio fortuito, antes para amenizar e, ao mesmo tempo, explicar o que me acomete sempre, esse sentimento de endividamento para com o mundo. Entretanto, esperar numa fila, sentir dor e cansaço, são bem tolerados quando se está feliz. Feliz completamente? Não.Digamos, feliz casualmente. E ponto.Vocês se lembram que nomeei  “bicha” quando me referia à enorme fila de espera? Então...pensem  no velho arrogante e, quem quiser, imagine um novo adjetivo-substantivo para ele.Se isto se passasse em Portugal, teria uma outra conotação.Não me julguem leviana, mas era voz geral.

 

 
EXPLICANDO...explicando e explicando.
 
Sinto-me devedora. Será que todos são assim? Carregando uma dívida que nunca pode ser paga? Talvez, não. Uns tem o poder de estarem quites com a vida, ou, pelo menos, se iludem com a própria autonomia diante dos fatos. Coragem, e enfrentamento, dois substantivos poderosos, fortes. O que transfere às pessoas esse dom, o de  agir com certeza do que fazem? Acham que estão cobertos de razão e vão adiante,  independente do que possa acarretar a atitude tomada. Comparando-me a essas pessoas, devo admitir que minha nota média varia  entre cinco e seis, no máximo.
Ontem, presenciei uma cena bizarra: mais uma vez, acorria ao Shopping, onde existe um único banco para remessa de dinheiro ao exterior, o Western Union. Não quero  me vejam como  a “boazinha” que manda um dinheirinho para a pobre coitada da irmã.Não, mesmo.O que ganho fazendo isto é maior do que qualquer reconhecimento que possa ter. Não há medida  para a satisfação que sinto ao perceber que, apesar da ínfima quantia que mando, estou compartilhando da vida dessa irmã, tão querida e tão longe.E nem ela necessita disso para sobreviver pois que é uma lutadora  e sabe enfrentar seus problemas estoicamente.Mas vamos  lá, eu falava do fato, no mínimo engraçado que assisti, não de camarote, pois encarava uma fila, de pé,nenhum banquinho, nada, onde pudesse aliviar a dor nos calcanhares, porque permanecia horas naquela posição incômoda.Como bons brasileiros que somos, estamos sempre entabulando uma conversa, puxando um assunto com o companheiro de espera naquelas intermináveis “bichas” como diriam os portugueses, ao se referirem a uma fila.Entre essas pessoas, havia uma senhora acompanhada de sua netinha de onze anos.Ela, a avó, louvava a boa educação que dera aos filhos e , conseqüentemente, aprendida pela menina, companheira de fila.Ontem, já estive aqui para mandar a mesada do meu filho para pagar a faculdade. Mas foi preciso voltar hoje, a quantia que mandei não foi suficiente, os bancos não liberam tanto no mesmo dia. Explicava ela, cheia de orgulho do filho estudando na Europa. Essa mulher era o tipo de pessoa resoluta e que não deixa barato, como eu apontava antes. E se intitulava professora universitária. Não me perguntem seu nome – ela não disse.Então, aparecem várias pessoas para pedir informações, o que atrapalhava sobremaneira o desempenho da mocinha que nos ia atender.Desorganização da loja, descaso e  desrespeito com o contribuinte, não raros no nosso país, apesar das taxas e impostos pagos por nós. Mas a confusão começou quando um senhor bem idoso, fazendo-se de rogado, adiantou-se, passando à frente de todos da fila e,principalmente, ignorando-nos, entrou na cabine e, mesmo vendo que a moça    atendia alguém, ele tentou burlar todas as regras de bom senso e educação, interrompendo o trabalho da jovem atendente. Quando dei pela coisa, a professora -  devo descrever seu tipo físico: gordinha, baixa, cabelos brancos e usava uma bata larga que disfarçava suas gordurinhas, adentrou  a loja e falava de maneira irritada, recriminando a atitude do velho folgado.Ele não se deu por vencido. Saiu, exibindo seus grandes olhos azuis e nos olhava com ar de desdém. Usava elegante calça cáqui, com bolsos, tentando aparentar mais jovem, presumo. Foi então que a professora entornou toda sua ira e falou alto, bem alto para que, não só ele ouvisse mas toda a fila que já se tornava enorme:  velho safado! Levei um susto com a veemência com que ela disse essas palavras. Aí, se formou o “circo”. Espetáculo gratuito a que assistíamos todos nós. Ele vociferou para ela:  Safado é seu pai, sua mãe! E o tempo esquentou. Você não sabe com quem está falando! Posso prender você! Gritava o velho enfurecido. E continuou:  Sou o pai do MA (não vou citar o nome do ator) . Isso mesmo, ele se dizia pai de um ator Global. E: Não é para qualquer um ser pai do MA! E veio com a parte mais ofensiva: E  você é velha, gorda e feia! Sacudindo o dedo de forma arrogante.Ela respondeu-lhe com um sorriso sarcástico, retrucando: E você é lindo!...Incrível mas há pessoas que se arvoram de importância, e se definem melhor que os outros, apenas com o título de pai de galã de novela...a que ponto chegamos.
Contei esse episódio fortuito, antes para amenizar e, ao mesmo tempo, explicar o que me acomete sempre, esse sentimento de endividamento para com o mundo. Entretanto, esperar numa fila, sentir dor e cansaço, são bem tolerados quando se está feliz. Feliz completamente? Não.Digamos, feliz casualmente. E ponto.Vocês se lembram que nomeei  “bicha” quando me referia à enorme fila de espera? Então...pensem  no velho arrogante e, quem quiser, imagine um novo adjetivo-substantivo para ele.Se isto se passasse em Portugal, teria uma outra conotação.Não me julguem leviana, mas era voz geral.
 
 

companheiros de jornada


 

 Está sendo construído um edifício bem em frente ao meu. Desde a demolição dos três pequenos prédios e mais uma casa, observo da minha varanda o passo a passo daquela obra. Vi a base sendo  construída, o trânsito enorme de caminhões que traziam o material:  cimento, pedra, areia e ferro. Vi também o guindaste imenso sendo montado. Ele ainda está lá. É controlado por um operário que com um simples botão faz com que as coisas pesadíssimas subam e desçam, não importa se ferro,  aço, tijolos. Já me acostumei a vê-lo nessa tarefa rotineira. Hoje, domingo, até a máquina-gigante tem folga. Mas, incrivelmente, sinto falta, não sei explicar. Há, ao mesmo tempo,  certo alívio em não ouvir tanto barulho, os gritos dos homens se comunicando uns com os outros, o trânsito ainda mais tumultuado pelo excesso de carros mal estacionados, entregando o material , outros recolhendo o lixo que desce barulhento por tubos  azuis. Cada detalhe eu observo. Acabou a privacidade, a liberdade que  eu tinha de andar à vontade, sem ser vista por ninguém. Acabou  (isto me deixa incomodada e bem triste) a minha visão do  por do sol. Dos inconvenientes, este, o maior. Como era bom admirar aquelas cores mágicas. Como era bom pensar no Criador de tanta beleza. Como era bom largar tudo que estava fazendo para ficar olhando as luzes vermelhas, azuis, alaranjadas, douradas irem se desvanecendo aos poucos à medida que a nossa Terra gira. Isso acabou. Hoje, apesar da invasão, sinto falta de ver aquele homem que (já disse) controla o guindaste. Acordo com a imagem daquele uniforme e capacete que fazem parte  de sua indumentária. Não sei se ele me vê. Mas eu o vejo com certeza. Já faz parte do meu dia o movimento, o trabalho daquele monte de operários. Há  um certo aconchego com a presença deles. Não sei explicar. Sinto-me  acompanhada, mais viva, mais olhada, mais acarinhada, quem sabe? São meus companheiros de jornada, nessa vida incerta, descabida, arbitrária.





CÃOZINHO SOLIDÁRIO

 

Tenho medo de cachorros. Muito. Não  sei  porque. Desde muito  menina, já me via em pânico ao avistar um cachorro. Mas há dois dias, aconteceu um fato, no mínimo, curioso. Estava eu na varanda e era ainda muito cedo. Acordei e meio sem ter o que fazer  fiquei ali, olhando para o nada. Estava triste. Desanimada. Os motivos, não importa quais. Teria que enumerar um rosário de reclamações, culpando a vida pelas minhas desditas. Mas não é o caso. Nem quero falar disso, não agora. E me vem a imagem daquele cãozinho na varanda do andar abaixo do meu. Já disse que tenho medo de cães. Mas tenho certa inveja de quem vê neles verdadeiros amigos e companheiros. Não foram poucas as vezes que tentei uma aproximação. Nada adiantou para dissipar a aflição que sinto no contato com eles. E aí, volto a lembrar daquele minúsculo cachorrinho que me espiava da outra varanda. Parecia que ele se enternecia com meu sofrimento. E esticava as orelhas, curioso. Houve um momento que pulou no sofá de vime, com almofadas de napa. E me fitava, parecendo entender meu sofrimento. Aquilo me comoveu e eu chorei. Um choro sentido que me fez imaginar que aquele cãozinho entendia o que se passava e parecia expressar sua vontade de ser meu amigo. Esticou as patinhas no vidro e chegou a trocar de lugar, para me olhar de um ângulo melhor. Fiquei comovida com a expressão de carinho daquele animalzinho. Sua linguagem muda me fez sentir que não estava sozinha. Que ele percebia meus sentimentos e que queria dizer: “Não fique triste, estou com você.” Não terei uma explicação para essa demonstração, vinda de um ser que não é humano.  (Será que não?) Nunca saberei o que se passou de fato. Mas não vou esquecer aquela cena. Não pedi ajuda, mesmo assim, fui amparada por um espírito maior, que trazia a sensibilidade estampada naquela troca de olhares, de pequenos gestos. Ele captou de alguma forma a minha tristeza daquela hora, apenas me observando. E me senti confortada.