CÃOZINHO SOLIDÁRIO
Tenho medo de cachorros. Muito.
Não sei
porque. Desde muito menina, já me
via em pânico ao avistar um cachorro. Mas há dois dias, aconteceu um fato, no
mínimo, curioso. Estava eu na varanda e era ainda muito cedo. Acordei e meio
sem ter o que fazer fiquei ali, olhando
para o nada. Estava triste. Desanimada. Os motivos, não importa quais. Teria
que enumerar um rosário de reclamações, culpando a vida pelas minhas desditas.
Mas não é o caso. Nem quero falar disso, não agora. E me vem a imagem daquele
cãozinho na varanda do andar abaixo do meu. Já disse que tenho medo de cães.
Mas tenho certa inveja de quem vê neles verdadeiros amigos e companheiros. Não
foram poucas as vezes que tentei uma aproximação. Nada adiantou para dissipar a
aflição que sinto no contato com eles. E aí, volto a lembrar daquele minúsculo
cachorrinho que me espiava da outra varanda. Parecia que ele se enternecia com
meu sofrimento. E esticava as orelhas, curioso. Houve um momento que pulou no
sofá de vime, com almofadas de napa. E me fitava, parecendo entender meu
sofrimento. Aquilo me comoveu e eu chorei. Um choro sentido que me fez imaginar
que aquele cãozinho entendia o que se passava e parecia expressar sua vontade
de ser meu amigo. Esticou as patinhas no vidro e chegou a trocar de lugar, para
me olhar de um ângulo melhor. Fiquei comovida com a expressão de carinho
daquele animalzinho. Sua linguagem muda me fez sentir que não estava sozinha.
Que ele percebia meus sentimentos e que queria dizer: “Não fique triste, estou
com você.” Não terei uma explicação para essa demonstração, vinda de um ser que
não é humano. (Será que não?) Nunca
saberei o que se passou de fato. Mas não vou esquecer aquela cena. Não pedi
ajuda, mesmo assim, fui amparada por um espírito maior, que trazia a
sensibilidade estampada naquela troca de olhares, de pequenos gestos. Ele
captou de alguma forma a minha tristeza daquela hora, apenas me observando. E
me senti confortada.
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