domingo, 19 de maio de 2013


CÃOZINHO SOLIDÁRIO

 

Tenho medo de cachorros. Muito. Não  sei  porque. Desde muito  menina, já me via em pânico ao avistar um cachorro. Mas há dois dias, aconteceu um fato, no mínimo, curioso. Estava eu na varanda e era ainda muito cedo. Acordei e meio sem ter o que fazer  fiquei ali, olhando para o nada. Estava triste. Desanimada. Os motivos, não importa quais. Teria que enumerar um rosário de reclamações, culpando a vida pelas minhas desditas. Mas não é o caso. Nem quero falar disso, não agora. E me vem a imagem daquele cãozinho na varanda do andar abaixo do meu. Já disse que tenho medo de cães. Mas tenho certa inveja de quem vê neles verdadeiros amigos e companheiros. Não foram poucas as vezes que tentei uma aproximação. Nada adiantou para dissipar a aflição que sinto no contato com eles. E aí, volto a lembrar daquele minúsculo cachorrinho que me espiava da outra varanda. Parecia que ele se enternecia com meu sofrimento. E esticava as orelhas, curioso. Houve um momento que pulou no sofá de vime, com almofadas de napa. E me fitava, parecendo entender meu sofrimento. Aquilo me comoveu e eu chorei. Um choro sentido que me fez imaginar que aquele cãozinho entendia o que se passava e parecia expressar sua vontade de ser meu amigo. Esticou as patinhas no vidro e chegou a trocar de lugar, para me olhar de um ângulo melhor. Fiquei comovida com a expressão de carinho daquele animalzinho. Sua linguagem muda me fez sentir que não estava sozinha. Que ele percebia meus sentimentos e que queria dizer: “Não fique triste, estou com você.” Não terei uma explicação para essa demonstração, vinda de um ser que não é humano.  (Será que não?) Nunca saberei o que se passou de fato. Mas não vou esquecer aquela cena. Não pedi ajuda, mesmo assim, fui amparada por um espírito maior, que trazia a sensibilidade estampada naquela troca de olhares, de pequenos gestos. Ele captou de alguma forma a minha tristeza daquela hora, apenas me observando. E me senti confortada.

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