quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Escrevendo um conto...depois te conto


 

Ler Clarice Lispector é no mínimo instigante. Pois é, estava eu lendo Laços de Família. E me aventurei em escrever também um conto. Tenho feito crônicas. Acho uma delícia quando me bate inspiração e, do nada, andando nas ruas, principalmente, vou imaginando o que escrever. Agora, me bateu  uma vontade, sugestionada pela grande autora. E aí vai.

      “Para, para”! Ouvi esses gritos no meio da noite. Era bem tarde. Gosto de ver alguns programas ou filmes na televisão, isto quando não estou lendo. A violência anda tão inserida no nosso dia a dia que não me abalei o suficiente para chegar até a  janela. –“ Deve ser briga de namorados”, pensei ,num primeiro momento. Não era. Depois fiquei sabendo pelo porteiro que era um assalto mesmo. Minha filha que se abalara com os gritos viu, pela varanda do apartamento, a jovem de quem os bandidos tinham acabado de levar o carro. Encontrava-se sentada, na calçada, amparada por um rapaz, talvez seu namorado, disso não tive informação. Ou fora daquele jovem o carro roubado. Este não é  o ponto. São frequentes as notícias de casos como esse. Pensei que o melhor seria estar quieta no meu canto. Até chegar da varanda pode ser um ato de coragem... Vai que uma bala perdida... Na manhã seguinte, mais detalhes do acontecido. De qual apartamento, de quem era filha a moçoila que gritava. Sorte dela e do rapaz, seu acompanhante. A violência se resumiu ao bem material. Não foram feridos, só a lesão moral e o pavor daquele momento de insegurança.

      Para bem da verdade, não me tocou muito. O momento em que uma coisa assim acontece pode nos abalar de forma mais intensa ou não. Estou me tornando insensível ou tudo se resume a uma acomodação nefasta, que nos deixa egoístas ao ponto de  imaginar que estamos a salvo. Não foi comigo, pelo menos naquela hora, estava eu tranquila, no meu canto. Caminhamos para o caos. As autoridades apenas preocupadas em ganhar as próximas eleições. O povo que se dane. Até porque polícia nas ruas não é certeza de segurança. Deveria ser. Mas o que vemos são pessoas sendo baleadas, sequestradas e torturadas por policiais. Cada vez mais me surpreendo feliz por estar em casa, lendo meus livros, até fazendo as tarefas diárias, tão chatas e cansativas. Vou passar algumas roupas, acumuladas da semana passada. É o que mais detesto fazer. E vou adiando. Vou adiando a vida. Como se estender roupas numa tábua de passar  fosse a coisa mais remota entre os afazeres; estendo idéias, estas, sim, me dão prazer. Me dão necessidade de botar pra fora o que me ficou preso por tanto tempo. No sofá da sala, alinhavava meus pensamentos e percebi emergirem lágrimas. A menina de ontem se transformou na mulher decepcionada; com o peso da idade, vem-me as frustrações. Não há nada que me dê mais tristeza do que ver que todos os sonhos, todos os planos, até os mais  inconscientes, foram jogados fora. O prazer de uma sala de cinema, por exemplo, se transformou em impaciência, o rufar dos pacotes de pipocas, com sacudidelas para misturar o sal, me dão calafrios. A tela e a projeção tão modernas, o som altíssimo  e vibrante me causam enorme transtorno. A sala de cinema perfeita foi a de tempos atrás, de filmes cortados, cenas decepadas, e som irrisório. Mas a magia estava lá. Os atores e atrizes inatingíveis, representando as figuras românticas, me transportando para um espaço e um tempo que não eram meus. E ao mesmo tempo tão próximos a mim porque eram os legítimos representantes dos meus sonhos, das minhas escapadelas da realidade, que me transformavam na mocinha que era salva pelo herói. Chorei. O herói se esvaiu com o andar da carruagem. O tempo se nega a voltar. A vida me machuca e me informa que é o presente a única instância. É agora. Não há mais porque sonhar. E isto  não perdoo. Isto não aceito. Passou depressa demais. As fantasias se esgotaram. Sinto nos ombros, não só o peso da idade. A carga, o  sobrepeso são a realidade, sem desculpas; não pedem licença, só passagem. E esse conto, que pensei contar, não tem heroína nem mocinho. Tem a vida como autora famosa, já que com tantas obras. E os galantes personagens já  morreram.  Eu os enterrei e levei flores...

 

 

                                        

 

 

 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CINEMA: A gravidade da coisa.


 

 O filme em 3D me pareceu assustador num primeiro momento. Tenho um problema sério de estômago fraco ou sei lá o quê; sinto náuseas facilmente, tanto andando de carro, ou de avião, quando não consigo ler, seja qual for o veículo em movimento. Desde menina sou assim, antes, bem pior. Quando fomos comprar os ingressos para o filme, Gravidade, o rapaz da bilheteria nos informou que o filme era em 3D e que teríamos de usar os tais óculos para acompanhar a projeção com legendas. Ele riu ainda da aflição das duas coroas que se informavam sobre as condições da fita. Filme  atual, com incríveis efeitos especiais, devo dizer e ainda com a vantagem de se apreciar a figura linda do George Clooney. É claro que não vou entrar no mérito  do realismo. Cada cena mais impossível de se crer do que a outra. Mas valeu a pena. Estou abismada com a visão da nossa Terra, vista daqueles ângulos.  Aliás, cada ângulo de tirar o fôlego, já que em 3D. Pensei que não deveria me atrever a assistir a um filme  que pudesse dar um nó no meu estômago, já que sou propensa a me nausear. Jamais frequento teleféricos e coisas assim, nem sob  tortura. Pensei também que deveria deixar de ser ridícula, medrosa, parecia coisa de velha, afinal. Criei coragem e já comprados os ingressos ( fui com minha irmã) me senti a própria astronauta, quando num primeiro impacto, ao colocar os óculos,  numa aventura fantástica, via objetos flutuarem em minha direção! Eu parecia participar das peripécias dos  astronautas. Devo dizer que  um certo “frisson” aconteceu, claro. Mas amei as imagens do nosso planeta; aconselho a todos a darem uma olhada no filme.   Não é todo dia que podemos ver as maravilhas da tecnologia assim tão perto. E mais: com o George Clooney de brinde! Pena que ele ficou perdido no espaço... que  desperdício!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

MEDO DE CACHORRO

Voltava eu da minha aula diária de ginástica para velhos. Velhos, sim. Nada desse negócio de substituir a palavra por idosos, melhor idade, essas coisas que só servem para humilhar mais. Aliás, não propriamente humilhar... Credo! Por que eu disse isso? Não é ridículo ficar velho, apenas acontece, é até motivo de orgulho, não é mesmo? Mas, continuando, vinha eu toda faceira, na minha bermuda cinza, combinando com a camiseta verde e tênis. Chegando à esquina próxima da minha rua, percebi um amontoado de pessoas; duas senhoras seguravam pela coleira dois cachorros: um menor, metido a besta, rosnando para o maior, que parecia mais feroz e agressivo. Tive que passar por eles. Sempre observo a campanha que muitos fazem a favor de animais. Sou totalmente a favor; dei até em sentir certo remorso ao comer uma coxa de frango ( a parte que mais gosto) ou quando mastigo uma carne moída e penso no pobre boi, tão grande tão forte e imponente, que acabou sendo triturado tristemente. Até rimou. Se ele soubesse a força que tem talvez reagisse. E os peixes então, morrem pela boca, mas se Jesus liberou... Enfim, volto a dizer que sou a defensora dos animais, contanto que fiquem longe. Não sei explicar e não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto: morro de medo, principalmente, de cachorros pois estão sempre no meu caminho, no meu prédio, na rua...em todo lugar. Os outros, dos quais tenho tanto medo como cobras e lagartos, estão mais distantes, obviamente. Quero que todos os cachorros se deem bem. Chego a invejar aqueles que os tem como bichinhos de estimação e os tratam com o carinho devido. Só que o contato com eles me dá uma tremenda aflição, vai entender. Aí, precisei passar pelos dois “dogs” que latiam um paro o outro ameaçadoramente. Minha reação foi automática, desviei-me como pude e quando dei pela coisa, estava segurando a camisa amarelo-alaranjada do lixeiro que se encontrava junto às duas senhoras e respectivos cachorros. Ele riu do meu súbito medo e disse, com ar divertido: -“ Tá com medo dos cachorros?” E eu segui meu caminho, já agora, rindo muito também, percebendo a estranheza da situação. Que vergonha! Uma senhora já avançada na idade (digamos assim) e tão cheia de chiliques!


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

VIVENDO A PAISAGEM


Saí de casa. Ia viajar. Meu filho me deu carona até a Rodoviária. Coisa rara. Filho nunca tem tempo para a mãe. Conseguia não levar uma bagagem enorme, como costumo fazer. A maturidade realmente nos transforma um tantinho, ou talvez nos dê mais praticidade. Sentei-me diante da plataforma que estava marcada na passagem de ônibus. Detesto avião. Não era o caso, felizmente. A viagem era para um lugar  não  tão distante. Carregava apenas minha bolsa nova, cheia de compartimentos, presente da filha; toda vez que precisava de alguma coisa, necessário abrir o zíper de um lado e depois do outro, até encontrar o que queria. Intimamente, sentia saudades da velha bolsa vinho. A  roupa, chinelos e outras utilidades, apenas alojados numa mochila de listras brancas e azul-marinho, que a filha me emprestara. Sentia-me moderna,  prática. Feliz por estar viajando sozinha. Feliz não é exatamente o termo  mas me via satisfeita por estar ali. Todo o ritual cumprido: a ida ao banheiro, principalmente, me deixava mais segura. Não seria necessário equilibrar-me, rezando para não acontecer alguma curva e também que não ficasse presa dentro do banheiro do ônibus. Muita gente não vai entender a minha apreensão. Outros, sim. Finalmente, chegou o carro e embarquei, não sem antes perguntar ao chofer sobre o horário certo da chegada  à cidade para a qual me destinava. Estava confortável, digamos assim. Não havia ninguém na cadeira ao meu lado. Melhor. Não teria que conversar,  se não quisesse. Nem precisava ser gentil com ninguém. Comecei a pensar em fazer novas viagens. Depois que me dediquei a escrever, fico observando tudo o que se passa ao meu redor. Vou fazer uma crônica sobre o que estou vendo, logo imaginei. Passei a fazer uma descrição detalhada de cada pedaço da estrada. As cores normalmente me encantam. Acho que faço um estudo imaginário, pensando na mistura que faria na paleta se fosse fazer um quadro, já que aprendo mais por observação que outra coisa. Assim também dei em fazer, ao descrever uma paisagem. A cor do barranco de nuances variadas, do marrom avermelhado, ao mais opaco, dependendo da área e da vegetação. Os verdes então,  tamanha era a profusão de tons que me encontrava maravilhada. A natureza imponente. O céu não estava propriamente bonito. Uma chuvinha fina tinha acabado de acontecer. Apesar disso, a claridade era grande. As cores, vivas. Passei um bom tempo naquele esforço em fixar na memória as imagens bonitas que iam desfilando através da janela larga,  abrangente.  Cansei-me depois de algum tempo e muitos quilômetros. Pensei que as pessoas iriam achar enfadonho ler uma descrição, como as que fazíamos nos tempos de escola, orientados pela professora de Português. Cópia e ditado ou um cena a ser descrita, geralmente o que ela pedia como exercício obrigatório em aula. Resolvi parar. E a viagem seguia, eu cheia de orgulho por estar sozinha, empreendendo uma viagem que me deixara ansiosa uma semana antes. Hoje, resolvi colocar aqui as impressões sobre a estrada, sobre os riachos, morrinhos e montanhas azuladas pela distância, bois nos pastos, planícies, com seus  casebres ao longe, pequenas florestas teimando em aparecer, apesar do contínuo desmatamento e inconsciência dos homens. Alguns pássaros, galinhas, a majestosa ave branca, nos alagados,  flores em profusão, já que estamos na primavera e  gente também. Mas o que me motivou mesmo foi a aventura em si. Eu, sem depender de companhia, indo simplesmente, vencendo os obstáculos, os medos. Querendo ser mais confiante. Querendo exercer mais a minha liberdade. Querendo ser feliz só de olhar para a vida que se expõe diante de meus olhos, que passa rapidamente, cada vez mais. Quero desfrutar meus momentos de paz. Aproveitar a solidão calma, às vezes tão necessária...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ENTRE FANTASIAS E UM TELEFONEMA...


                                     Hoje, dia 4 de outubro, de uma sexta-feira do ano 2013, estava costurando uma roupa que improvisei para ir ao aniversário  de uma amiga, amanhã. Imaginei uma melindrosa. Arranjei uma camisola acetinada de cor gelo. Saí para comprar, num armarinho próximo, as franjas, que iria colocar na dita camisola. Será uma festa à fantasia, claro, nem precisava dizer, mas disse. Isto porque sempre gostei desse tipo de festa. Voltei animada  mas  só consegui uma cor mais ou menos próxima à cor da camisola, agora elevada à categoria de roupa de festa. Então , como dizia, voltei entusiasmada para costurar minha roupa. Devo dizer, infelizmente, que tive de usar um pouco de Bepantol no joelho direito e também na coxa esquerda e já explico: assim que comecei meu trabalho de costura, vi logo que não seria tarefa muito fácil. Minha mãe foi uma grande costureira, eu diria mesmo um talento para a confecção de roupas. Eu confesso que não puxei esse lado artístico de minha mãe. Bem que gostaria, mas é preciso muita paciência. Acho que não me dou muito com as ciências exatas, porque acho que o corte de uma roupa, com suas medidas certas, não fazem a minha cabeça. É isso. Gosto muitíssimo de desenhar, pintar, ler e até escrever, como faço agora. Mas costura tem tudo a ver com a tal da matemática. Devo terminar a explicação sobre o uso da pomada curadora. É que o tecido acetinado da camisola escorregava a cada alinhavo que eu tentava dar. Passei a dar um susto na agulha colocando-a sobre a parte do meu corpo que melhor se adaptava à posição de costurar. Só que o que dava maior suporte era o pobre joelho direito e a coxa esquerda. Estava sendo verdadeira guerra a confecção daquele novo traje. Para piorar tudo, percebi que os dez metros de franja não seriam suficientes para cobrir a área destinada para eu me transformar numa verdadeira melindrosa. Tive que voltar à loja. Não encontrei a medida suficiente, com a mesma cor. Optei por um tom de cinza, parecido com a cor gelo da (já agora) ex-camisola. Ainda bem que a festa será à fantasia. Continuei minha árdua tarefa. Não estava saindo como eu queria. Finalmente, a máquina de costura me deu o cano e pifou. Tive que terminar com um trabalho feito à mão e  mais uma vez, agulhadas pelo corpo... Espero que pelo menos eu me divirta, com a música, inspirada nos anos 60, conforme prenunciou minha amiga e aniversariante. Acho que não terei coragem, no final das contas, de usar minha fantasia. Vou me contentar em comprar alguns colares de havaiana e os usarei sobre um traje estampado. Confesso que me frustrei. Gastei meus ricos tostões, querendo economizar, gastei tempo, querendo ser competente e criativa. Estou morta de cansada. Mas só tenho uma certeza, nesse final de noite estressante: tão cedo, inventarei de segurar qualquer  agulha e linha. Por um bom tempo, estarão suspensas de meus afazeres domésticos. Mas ia me esquecendo de contar o que aconteceu e que não deixei de lembrar o resto do dia: alguém me telefonou. Saí das agulhas e linhas e corri para atender a mais um telefonema. A campainha insistia, à medida que eu me desvencilhava da bendita costura, dos furos nas pernas e joelho. Atendi meio arfante. Do outro lado, uma voz me surpreendeu. Há  tempos não a ouvia. Fiquei feliz. Não me perguntem quem foi, não direi. Só sei que foi bom,  muito bom. Se ficou sentindo curiosidade, deixo para contar numa outra vez...