Ler Clarice Lispector é no mínimo instigante. Pois é, estava
eu lendo Laços de Família. E me aventurei em escrever também um conto. Tenho
feito crônicas. Acho uma delícia quando me bate inspiração e, do nada, andando
nas ruas, principalmente, vou imaginando o que escrever. Agora, me bateu uma vontade, sugestionada pela grande autora.
E aí vai.
“Para, para”! Ouvi esses gritos no meio
da noite. Era bem tarde. Gosto de ver alguns programas ou filmes na televisão,
isto quando não estou lendo. A violência anda tão inserida no nosso dia a dia
que não me abalei o suficiente para chegar até a janela. –“ Deve ser briga de namorados”,
pensei ,num primeiro momento. Não era. Depois fiquei sabendo pelo porteiro que
era um assalto mesmo. Minha filha que se abalara com os gritos viu, pela
varanda do apartamento, a jovem de quem os bandidos tinham acabado de levar o
carro. Encontrava-se sentada, na calçada, amparada por um rapaz, talvez seu
namorado, disso não tive informação. Ou fora daquele jovem o carro roubado.
Este não é o ponto. São frequentes as
notícias de casos como esse. Pensei que o melhor seria estar quieta no meu
canto. Até chegar da varanda pode ser um ato de coragem... Vai que uma bala
perdida... Na manhã seguinte, mais detalhes do acontecido. De qual
apartamento, de quem era filha a moçoila que gritava. Sorte dela e do rapaz,
seu acompanhante. A violência se resumiu ao bem material. Não foram feridos, só
a lesão moral e o pavor daquele momento de insegurança.
Para bem da verdade, não me tocou muito.
O momento em que uma coisa assim acontece pode nos abalar de forma mais intensa
ou não. Estou me tornando insensível ou tudo se resume a uma acomodação
nefasta, que nos deixa egoístas ao ponto de
imaginar que estamos a salvo. Não foi comigo, pelo menos naquela hora,
estava eu tranquila, no meu canto. Caminhamos para o caos. As autoridades
apenas preocupadas em ganhar as próximas eleições. O povo que se dane. Até
porque polícia nas ruas não é certeza de segurança. Deveria ser. Mas o que
vemos são pessoas sendo baleadas, sequestradas e torturadas por policiais. Cada
vez mais me surpreendo feliz por estar em casa, lendo meus livros, até fazendo
as tarefas diárias, tão chatas e cansativas. Vou passar algumas roupas,
acumuladas da semana passada. É o que mais detesto fazer. E vou adiando. Vou
adiando a vida. Como se estender roupas numa tábua de passar fosse a coisa mais remota entre os afazeres;
estendo idéias, estas, sim, me dão prazer. Me dão necessidade de botar pra fora
o que me ficou preso por tanto tempo. No sofá da sala, alinhavava meus
pensamentos e percebi emergirem lágrimas. A menina de ontem se transformou na
mulher decepcionada; com o peso da idade, vem-me as frustrações. Não há nada
que me dê mais tristeza do que ver que todos os sonhos, todos os planos, até os
mais inconscientes, foram jogados fora.
O prazer de uma sala de cinema, por exemplo, se transformou em impaciência, o
rufar dos pacotes de pipocas, com sacudidelas para misturar o sal, me dão
calafrios. A tela e a projeção tão modernas, o som altíssimo e vibrante me causam enorme transtorno. A sala
de cinema perfeita foi a de tempos atrás, de filmes cortados, cenas decepadas,
e som irrisório. Mas a magia estava lá. Os atores e atrizes inatingíveis,
representando as figuras românticas, me transportando para um espaço e um tempo
que não eram meus. E ao mesmo tempo tão próximos a mim porque eram os legítimos
representantes dos meus sonhos, das minhas escapadelas da realidade, que me
transformavam na mocinha que era salva pelo herói. Chorei. O herói se esvaiu
com o andar da carruagem. O tempo se nega a voltar. A vida me machuca e me informa
que é o presente a única instância. É agora. Não há mais porque sonhar. E isto não perdoo. Isto não aceito. Passou depressa
demais. As fantasias se esgotaram. Sinto nos ombros, não só o peso da idade. A
carga, o sobrepeso são a realidade, sem desculpas;
não pedem licença, só passagem. E esse conto, que pensei contar, não tem heroína
nem mocinho. Tem a vida como autora famosa, já que com tantas obras. E os
galantes personagens já morreram. Eu os enterrei e levei flores...