Cinco e vinte e três da manhã, mostrava
o relógio. Acordei com a tosse
incessante da minha filha. Levantei-me, fui à cozinha e lhe trouxe um chá bem
quente, camomila, maracujá e erva-cidreira, “Boa noite”, escrito na caixinha.
Recomendei-lhe que aproveitasse os vapores, para desobstruir as narinas. Surtiu
efeito. Em alguns minutos, a tosse se acalmou. Voltei a me deitar e olhei pela
janela. Nuvens brancas se misturavam com o negror da noite, que já se despedia,
dando lugar ao amanhecer. E eu fitava com tristeza aquele céu, cheio de
mistérios. E chorei. Fiz uma oração, pedindo à Virgem Maria que intercedesse
junto a seu Filho por minha filha, pensei em como ela estaria só, quando eu não
mais estiver aqui. As lágrimas corriam soltas. Pensei em como ela gostaria de
um companheiro, de ter filhos e, como as mocinhas do meu tempo, constituir a
sua própria família e da dificuldade de se realizar esse desejo nos dias que
correm. Aí, pensei também em minha prima, que entre risos de galhofa e vontade
de fazer graça, nos dizia que abandonara seu último companheiro, cansada que
estava de seus arroubos sexuais ( isto dito em termos bem mais instigantes).
Naquele momento, rimos disso, todas nós. Agora, não sei porque, me lembrei
dela. E continuava olhando o céu, com o coração pesado. Inevitável pensar no meu “ mocinho de cinema”.
Deveria ele estar com algum novo amor. Isso não me fez ter ciúmes, apenas muita
tristeza. E me dei conta de que sua figura se apagava, com o acender das luzes, como na sala do
cinema. Permanecia na tela branca, se desvanecia junto, tanto quanto meus
sonhos. Fitava ainda o céu, agora mais claro. As nuvens se dissipando. Uma
pequena estrela teimava em brilhar. Ou seria um satélite? Prefiro acreditar que
era uma estrela. E não era só uma. Mais uma e mais outra agora brilhavam.
Deviam ser estrelas, sim. É que preciso do seu brilho; como preciso das
estrelas nesse momento! O moço dos filmes dorme satisfeito, sem se preocupar
com os sentimentos da mocinha. Ela se perdeu no tempo e no espaço. Só sobraram
seus sonhos. Esses, ela não os perderá jamais.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
domingo, 28 de julho de 2013
Porco espinho abstrato
O que se deve fazer quando a vida perde a graça? Todos dizem que devemos agradecer a Deus por acordarmos com saúde para mais um dia. Claro que concordo com essa idéia. Não deveria ser ingrata, mal-agradecida. Não quero ser. Só que o que venho sentindo ultimamente é um desconforto muito grande, um tipo de infortúnio a longo prazo. E me pego torcendo para ter maior aceitação, para ter mais paciência, enfim, para estar lado a lado com a solidão, se é que me entendem. Porque eu mesma não consigo. Vejo pessoas calmas, acomodadas e que estão sozinhas. Moram sozinhas, vivem consigo mesmas. É como se conseguisse apertar num abraço essa figura estranha, sorrateira e sempre presente: a solidão. Mas ela incomoda, é como abraçar um porco-espinho. Às vezes, sinto-me totalmente só, mesmo entre várias pessoas. E me impaciento; na verdade, prefiro estar sem ninguém ao meu lado. Como entender esse sentimento tão nocivo que me deixa irritada até com minha própria presença? Quero estar tão terrivelmente só que gostaria de não pensar. Acostumei-me a lembrar com certa satisfação os sonhos que tenho. Não falo dos sonhos, daqueles desejos que temos de alcançar alguma coisa difícil, ou mesmo ter paz. E, sim, falo daqueles inexplicáveis e meio sem sentido que, quando acordamos queremos entender, ter uma explicação para eles. É quando não tenho idade, não há um tempo real, não há nexo. Mas venho me alimentando deles. Chegar a um nível de conformismo que não necessitasse da presença de ninguém mais seria impossível acontecer, pois não se vive sem a presença do outro, ainda que seja incômodo, irritante, já que não se consegue moldar uma personalidade, porque idealizar alguém tem sempre sabor de frustração. A expectativa de ver realizados os mais íntimos desejos resulta nessa eterna insatisfação, a vida não dá troco. E o que pagamos pra ver se esvai nesse também eterno labirinto, sem que possamos decifrar tal enigma. Por que as coisas acontecem dessa ou daquela maneira? Por que reajo mal se, antes, tentei incutir como norma de comportamento ser mais serena, acatar melhor as diferenças do outro e ser mais tolerante? Não se ensaia para viver. Não há tempo para treinar é agora ou nunca. E me surpreendo cada vez mais com as iniciativas do destino, às vezes, tão mal traçado, tão perturbador e tão sem cerimônia.
terça-feira, 23 de julho de 2013
"Amor-agarrado"
Acordei mais cedo. Normalmente,
durmo bem tarde; entretanto, ontem, o sono me derrubou logo depois da
novela. Hoje, não que estivesse muito animada, mas já que estava de pé, resolvi
fazer algumas coisas ( chatas) inadiáveis: lavar a louça acumulada de ontem,
colocar roupa na máquina, guardar as lavadas... Em seguida desci para minha
aula de ginástica na pracinha, próxima de onde moro. As “velhinhas” se
assustaram com o tempo frio, e com o prognóstico de possível chuva. Não
compareceram. Voltei para casa, pensando que fora melhor pois
eu não estava lá muito bem. Passei pela mesma fila para o
recadastramento do título eleitoral, que se postava em frente ao estádio Caio
Martins. Pessoas cumprindo seus deveres, trabalhadores, alguns idosos, gente
simples a maioria, todos na esperança de que seu voto possa mudar esse país. A
descrença também na cabeça de muitos, como eu. Mas lembrar de políticos ( salvo
raríssimas exceções) me causa transtorno emocional, um incômodo grande,
principalmente quando via pela televisão a chegada do nosso querido Papa
Francisco, recebendo cumprimentos desses mesmos políticos que deveriam estar na
cadeia, ou pagando pelas falcatruas cometidas. Pena que ele, representando a
Igreja, tivesse que seguir normas e protocolo
impostos e não pudesse como fez Jesus, espantar os vendilhões do templo de
Deus. Apenas um era digno de estar ali. Todos devem imaginar a quem me refiro,
até porque foi o único a ser aplaudido. Sintomático. Só que não é esse o assunto que me leva a escrever
esse texto. Como dizia, voltava da frustrada ida à aula de ginástica. Dobrei a
esquina e caminhava observando as poucas casas que ainda teimam em ficar de pé
na rua, já “infestada” pelo número desproporcional de edifícios altos, que não
deviam estar ali, já que é uma rua
pequena. Olhei para a casa, com uma
varandinha na frente, sustentada por um arco, que lhe dá um certo encanto. Um carro estacionado, ladeado
por um muro todo coberto pela trepadeira verde, com flores delicadas, miúdas,
de cor rosa. Veio-me o nome pelo qual conhecia aquela plantinha viçosa:
amor-agarrado. Não deve ser científico; mas me reportou a uma época da
infância, mais exatamente o muro da casa da minha tia, onde floria o ano todo.
Aí, também, pensei na dona daquela casa, que já não se encontra entre nós.
Fiquei sabendo outro dia, apesar de não a ter conhecido. Acho que alguém que
fora sua amiga havia comentado, num desse encontros de professoras, que costumo
frequentar. E pensei, naquele momento, que ela fora jovem, teve sonhos, planos,
amara, se casara e vivera uma vida inteira naquele cantinho, onde alguém devia
estar sentindo sua falta. Senti saudades de uma pessoa que nunca vi. É normal
isso? Muitos acharão que não é. Sei que ando sensível demais. Não sei se é bom.
Amar as pessoas é, sim, um ato que nos foi ensinado pelo Criador, representado
pelo filho ilustre, humilde e santo, que não discriminava ninguém. Emocionei-me
ao ver a figura imponente do Papa Francisco, paradoxal à
postura singela, franca. Impõe a nós respeito e o torna merecedor de
todo amor que a ele é devotado. E pensei na plantinha que combina com o jeito
do povo brasileiro: “amor – agarrado”.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Depois de " Cheiros divinos" : A Zé e outras histórias é recomendável.
Para os meus amigos leitores: sugiro a leitura de "A Zé e outras histórias", que seria como um fecho e melhor entendimento do texto "Cheiros divinos". Além de retratar uma infância rica de lembranças, algumas boas e outras nem tanto, explica o artigo A, antes do nome (que se supõe masculino) - Zé. Percebo que não foi muito lido e é um dos que mais me motivaram a seguir escrevendo. Façam bom proveito."Enjoy it" - conforme os ingleses...
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Cheiros divinos
O mesmo pedaço de chão abrigava chifres e asas. Cascos de animal e
passadas infantis ecoando no mesmo espaço. Pessoas amontoadas, formando
círculos, pagando para assistir a violência gratuita contra o touro indefeso e
ameaçador. Crianças e adultos formando retas enormes, em procissão, louvando
num ato de fé e adoração ao Senhor que, doando amor, foi condenado. Tudo isso
acontecia na Barra, pequeno distrito a poucos quilômetros da fazenda.
Não sei qual o sentimento mais
forte: medo do bicho feroz ou satisfação de acompanhar o pai. Mesclados num só
invólucro. Num mesmo coração de menina.
A fumaça se misturava com o
barulho da multidão. Era dia de tourada. Meu pai costumava nos levar. Sentia um certo pavor e dificuldade
para respirar, quando o touro arremetia
contra as pernas finas das estacas que balançavam a cada investida. Não parecia
seguro. Eram arquibancadas, armadas em círculo, rodeando a pequena arena. Não
me esqueço daquele cheiro enfumaçado, embolado com o das fezes verdes e quentes
do animal assustado. Instigado, se defendia. Barbaridade dos homens. Cheiros,
sabores e dissabores. Mas ali também acontecia a festa do Divino. Eram ocasiões
diferentes. A procissão de adultos e crianças louvando, num ato de fé e glorificando ao
Senhor Jesus. Íamos eu, minhas irmãs e a prima, que morava perto de
nós. Ela se vestia de anjo, com as asas
enormes presas às costas. Era a
filha única, entre os dois irmãos. Uma
vez, ela quebrou a perna e eu sentia inveja daquele gesso, todo cheio de nomes.
E ela usava óculos: - minha prima tem sorte – pensava eu. E lá íamos nós,
seguindo a procissão. Eu e minhas irmãs vestidas de Virgem: roupas brancas e véu na cabeça, preso por uma singela
coroa de flores, também, brancas. Segurávamos velas, que exalavam cheiro do
pavio gorduroso, cantando os cânticos de louvor. Uma vez, descuidei-me com a
vela acesa que levava. Só me dei conta do que acontecia, quando percebi as
beatas senhoras apagando as chamas que crestavam de leve os cabelos de minha
irmã, que caminhava à minha frente.
Resultado: cabelo cheirando a chamusco. Terminávamos o cortejo numa
pequena igreja, situada num plano mais alto da minúscula praça. Depois,
corríamos para as barraquinhas, armadas ao redor do passeadouro. Era uma
alegria comprarmos aqueles docinhos, cheirando
a mel e açúcar, balas de coco, pequenos brinquedos pendurados, bolas de soprar...Havia
também a padaria, com as fornadas cheirando a pão quente, cujo dono tinha o
mesmo nome da minha mãe: desses que servem para o masculino e feminino – Nelly.
Mais adiante, subindo um morrinho, encontrava-se o grupo escolar, tão pequeno
que só existiam duas salas de aula. Dona Noêmia, segunda mulher do padrinho de minha irmã, seu Djalma, o
farmacêutico; ela tinha função dupla: professora e diretora. Ele dera à minha
irmã um presente de aniversário que nunca pude esquecer: um bezerrinho: novilho
com cheiro de leite. Como eu queria um padrinho assim!...O meu era meu tio
Paulo, que morava em Niterói. Solteiro e só pensava em seus carros velhos, que
ele estava sempre consertando. Tinha enorme prazer em estar lambuzado de graxa
e óleo. Sempre me lembro dele, sem camisa, usando shorts largos e sujos,
cheirando a óleo queimado. Como poderia ele dar presentes à afilhada tão
distante?Seu carro: um Buick preto e,
como esse, muitos outros que comprava e vendia só para reformá-los, deitado
debaixo do motor velho, desgastado.Além
disso, inveterado mulherengo.Não poderia culpá-lo por não se lembrar de mim...
Havia poucas casas no vilarejo
e uma ponte que servia para se chegar à praça principal, das arenas e
procissões. Parada obrigatória do ônibus
a meio caminho andado para a cidade maior, Bom Jesus. Quando eu viajava,
sempre acompanhada por minha mãe, que ia experimentar modelos novos na
costureira da cidade, dona Leonor, mal entrava naquele ônibus e meu estômago
dava voltas. O cheiro da gasolina, misturado ao calor causticante, deixavam-me
enjoada. E eu ia cheirando limão para aliviar a ânsia. Diziam que era bom. Para mim não fazia
diferença: sentia-me gelada, com o mal-estar crescendo a cada curva da estrada
empoeirada. Olhar as flores do vestido estampado de azul e branco, saia rodada, enviesada de minha mãe, fazia piorar
a situação. Cada pedaço de chão parecia não acabar nunca. O cheiro do capim da
beira da estrada, dos eucaliptos era forte. Sabia de cor cada detalhe do
caminho e torcia para avistar logo as primeiras casas que denotavam o fim do
meu martírio, na chegada à cidade. A recompensa vinha logo depois, quando minha
mãe me levava à loja do Zé Cabeça, com suas enormes pilhas de caixas, cheirando
a sapatos novos e ela me comprava sandálias brancas. Saía dali, feliz,
caminhando nas nuvens, como se todos reparassem nas sandálias novas que eu
ganhara. Ainda hoje, preciso viajar olhando reto, em frente e qualquer tipo de
leitura me é proibida, vem a sensação de desconforto, de enjôo. O nome do dono
da loja me fez lembrar a Zé.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
VIDA VERSUS COMPUTADOR
O limite para a paciência
esgotou-se. Não se pode mais viver sem
esses aparelhinhos infernais, cada um com um nome diferente que não consigo
decorar. Na verdade, praticamente, não há comunicação com alguém sem depender das
geringonças via internet, satélite, sei lá mais o que. Ontem, caiu um pedaço
dessas “maravilhas” lá nos confins do Maranhão, que o homem joga ao espaço, em
nome da modernidade, do conforto (?) através das ditas geringonças, que nos
proporcionam “bem-estar”, facilidades e tudo o mais. Não é de bom tom dizer que “no meu tempo” não era assim... era bem melhor
(tenho certeza), afinal ainda estou aqui, ainda que com a carcaça em plena
decomposição e caminhando para o inevitável. Ui! Ainda bem que há livros, com
folhas de papel, com capa, que podemos
segurar, abrir, pegar os óculos (amigos dos idosos) , usar marcadores(
no meu tempo de escola, fabricávamos esses marcadores na aula de desenho, lembram?)
quando precisamos interromper por algum motivo, como se costumava fazer no meu
tempo ( me desculpem, mas como era melhor!) nos fazem acreditar que existe uma
forma sadia e maravilhosa que é a boa leitura de um livro. Hoje, minha rotina
virou essa: trabalhar muito, ler bons livros (graças a Deus!) e preencher os
momentos de solidão com coisas úteis, como por exemplo, arrumar gavetas, doar o excesso de tralhas, de
roupas (essas que guardamos para um possível evento que nunca chega); via pela
televisão uma entrevista com a Danuza Leão ( antes, já havia lido o seu livro )
que dizia justamente sobre o hábito
saudável de nos desvencilharmos do que não faz a menor falta e que só serve
para ocupar espaços. Ontem, fiz isso. Costumo também ficar olhando a obra
enorme que se avolume bem diante dos meus olhos pesarosos e explico: não é só o
fato de estar sendo construído um edifício bem em frente ao meu, não.
Simplesmente, pelos meus cálculos, daqui a um pequeno tempo, haverá uma
barreira gigantesca que cobrirá o meu por do sol. Muita gente pode não entender
o que significa para mim
perder a visão do nosso astro rei ( ou será estrela?) que nos dá luz e
calor. É uma das coisas que me encantam, quando vai caindo a tarde e acontece esse esplendoroso,
espargir de cores, de luzes, com nuances majestosas ( vou ver no dicionário se
é com j ou com g);acertei! Majestosa é com j... Mas, continuando, aí me pego acompanhando
o trabalho intenso (e barulhento) dos funcionários da obra. Parecem
formiguinhas, se movendo, cada um com sua atribuição, além das poderosas
máquinas que carregam pesos inimagináveis e as betoneiras e caminhões que se
postam estacionados, atrapalhando o caótico trânsito. E é uma distração a mais.
Vejam a que ponto cheguei! Outro dia, pedi ao síndico do
meu prédio a planta do edifício do qual estou falando (sei que ele comprou uma
das unidades) para conferir se realmente o edifício em questão vai atrapalhar o
que considero um dos meus agradáveis momentos: ver o por do sol. Ele,
gentilmente, me emprestou o folder com todas as imagens e dimensões. Fiquei
arrasada, constatando que o “monstro” vai me tirar a privilégio de ver um
espetáculo tão grandioso da natureza. Sinto-me lesada. Tentei a janela da
cozinha para ver se o estrago não vai ser completo. Talvez ainda possa com um pequeno
esforço e esticando o pescoço, admirar o que Deus nos dá de graça. Mas há uma
opção ainda: o famoso computador. E eu me entrego à busca ansiosa por uma
mensagem, um e-mail que me fará feliz. Mas o danado, friamente, manda, sem
nenhuma cerimônia, a mensagem dizendo: “não há nenhum e-mail em sua caixa de
entrada”, mais ou menos assim. E eu corro atrás, de outra tarefa, que preencha
o vazio que me acompanha de perto. Penso que deveria agradecer, porque tenho coisas muito importantes, sim. Sei que
tenho. Meus filhos com saúde, meu neto querido ( que consigo ver com muita
dificuldade, devido a alguns empecilhos
que prefiro não comentar agora) mas me sinto recompensada quando o abraço e
ouço-o me pedindo para brincar de “pego”( prego) uma brincadeira que temos,
quando o caminhão dele passa na estrada e fura o pneu! Viro criança e o abraço
e beijo a cada gracinha dele. Vou vivendo assim.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Dois amores
As coisas mudam. Mas em
que momento isso acontece? O dia vira noite, quando o sol se põe, porque a
Terra gira: óbvio. E os sentimentos? Quando e porque mudam? Existe um exato
momento ou é gradativo como o dia virando noite? Não consigo precisar como
aconteceu comigo. É imperceptível ou há um pequeno sinal? Há.
Quando o meu amor de menina se aproximou,
tive a sensação de que ia morrer de alegria. Emoção única, misturada com ansiedade. Não saberia o
que dizer. Como me comportar. Esperei tanto por aquele momento, que não parecia
real. Seria um tempo curto. Ele estava indo embora estudar. Queria ser
engenheiro. Também não sei o exato momento, quando começou o meu amor por ele.
Sei que foi um sonho bonito. Durou muito
tempo até que, finalmente, ele me
notasse. Eu o quis tanto que, parece, o atraí. Por que, entre tantas mocinhas
tão ou mais bonitas, ele acabou se interessando por mim?
Depois do encontro tão esperado, tudo
começou a mudar. Quando, não sei. A primeira lembrança que me vem, nitidamente,
é essa: nós dois na praça. Era manhã de domingo, depois da missa. Estávamos
sentados numa mureta, numa ruela que descia até a pracinha. Do outro lado, na
esquina, o velho Big Hotel. Há pouco tempo, havia se mudado uma família, se instalando
na primeira casa, no alto dessa pequena rua. Um dos rapazes, descia em direção à praça e passava em frente
a nós. Cumprimentou-nos, sorrindo. Meu coração deu um salto e me senti, de
repente, desconfortável. O que estava acontecendo? Não sei. Um sentimento
estranho se apossou de mim. Parecia estar presa. Senti uma sensação
de angústia. De culpa. Por que me perturbava tanto o fato de estar ao lado de
quem eu, antes, tanto cobiçara? Minha vontade era não estar ali. Santa ingenuidade
de menina, me vi como se estivesse presa
a um compromisso. Com aquela idade? Pobre de
mim... Não me entendia. Queria estar livre. Invejei minhas amigas,
passeando descontraídas, pela pracinha.
Ficamos de escrever cartas um para o
outro, afinal, ele estava indo embora e éramos namorados. Não senti sua falta, depois da partida. Nos meus pensamentos outra pessoa já ocupava todos os espaços.
A MULHER QUE NÃO SABIA AMAR
Ela sempre queria atenção. Estava errada? Não. Então não é defeito querer atenção? Não, não é. Todos esperam conseguir um mínimo desse desejo realizado, donde concluo, ela, realmente, não pedia muito. Então, qual o problema com aquela mulher? Insatisfeita. É, podia ser que ela passasse por uma fase ruim. Carência. Acho que descobri o que queria aquela mulher. A vida lhe batera forte. Ela precisava recuperar o tempo perdido, quando não se sentia amada porque ela não se conformava. Um dia, alguém iria sentir amor por ela. Lia sobre isso e acreditava: quando se quer muito uma coisa, é importante ter a crença de que se vai alcançar o que se deseja. Sim, vou me unir às forças do Universo e tudo se resolverá, afinal, são poderes mágicos, basta querer. E, assim pensando, ela continuou na busca desesperada por um amor. Às vezes, se dava conta de que estava sendo meio ridícula. Como, naquela idade, ainda pensava em ser feliz, em ser amada, em voltar a sentir os prazeres do corpo e, por que não, da alma? Sentir calafrios, sentir emoções, vibrar com a espera do outro, sair para comprar roupa nova e se sentir bonita de novo. Eram pensamentos que a deixavam meio em dúvida. Não seria meio estranho ela ainda ter aquele tipo de desejo? Não era hora de já estar fazendo tricô para o neto e se deliciando com as novelas e programas na TV? Quem sabe, ler um livro bom? Isso mesmo, ela que gostava tanto de ler... Mas aí, acontecia a solidão. Esta, sim, amiga inseparável, que estava sempre presente e lhe dizia baixinho ao ouvido, que não estava bom daquele jeito. Mas eu tenho amigas, tenho os filhos e, ainda de quebra, o netinho que é uma alegria a mais e que me traz tanta felicidade. O que me falta? Sei que sinto um certo medo da vida que se acaba, do momento em que vou prestar contas do que fiz e que não tenho mais todo o tempo do mundo. Estou na reta final. E, com estes pensamentos, ela se sente vulnerável. Se vê meio perdida. Mas o medo não foi sempre a constante em sua vida? Então. Olha para o lado e se compara a pessoas que têm uma carga muito maior. Sente-se vil, pequena. Devo agradecer por tanto que já tenho. E assim costuma fazer. Mas o amor, aquele sentimento bonito, inebriante, aquele que faz seu coração pulsar, que a faz sorrir aquele riso franco e solto, não está ali. E ela padece desse mal: a ausência de alguém que seja o seu príncipe. Que se danem os que a recriminam, os que a acham fora de propósito. Mas ela conseguiu alguém uma vez. Confessa, entre arrependida e preocupada. Arrependida, por não se ter valorizado mais. E, preocupada, por saber que não terá outra oportunidade como aquela. Por que não acreditou nas palavras dele? Por que não assumiu aquele amor que lhe fazia tão bem? Escapou entre seus dedos, entre uma crise de ciúmes e outra. E agora, como a menininha insegura que sempre foi, fica sem saber o que fazer. A única atitude coerente que teve foi rezar, pedindo a Deus que lhe dê paz. Que se acostume a viver sozinha. Tem tanta gente que consegue, por que não ela?
PRIMA-IRMÃ-AMIGA
Que fosse um passeio no centro do
Rio, com direito a almoço na Confeitaria Colombo ou mesmo uma ida ao teatro, na
livraria, eu já sabia, que estava combinado. Mas que fosse um momento de tanto
aconchego e felicidade, não. A idéia é deixar registrado antes que a “figura
inexorável, certeira” venha me avisar que meu tempo se esgotou e estarei
partindo para outras plagas... Mas não quero falar disso, não mesmo. Fomos
criados eu, meu irmão e irmãs bem próximos aos primos, filhos do querido tio
Modesto. Eram fazendas vizinhas e estávamos por isso, sempre unidos, a escola
da roça, a mesma. Eu e Regina, com idade igual, separadas por apenas dois meses
de diferença. Voltando à idade atual, melhor não dizer qual, vejo-me andando pelas ruas, no centro do Rio,
esta cidade que não canso de olhar com olhos de imensa admiração e de uma
nostalgia surreal, pois que tenho saudades de um tempo quando talvez eu ainda
estivesse sendo “bolada” pelo Criador, antes de dar as caras por aqui. Então,
preciso dizer do sentimento positivo, agradável, reconfortante que me assomou
naquele passeio, sem nenhum compromisso com horários ou com programação
pré-estabelecida. Primeira surpreendente constatação a descoberta de um bem-humorado e inteligente
marido da minha prima, o Sergio. Não tivemos uma convivência muito grande. Ela,
a prima querida, meio irmã, já disse e de longos anos, da infância,
adolescência, moças (com as descobertas dessa época intensa, principalmente do
amor) sempre juntas, unidas não só pelo sangue, pela família mas acostumada a nos misturarmos de
maneira sadia, verdadeira. E era assim. Veio o tempo, as mudanças aconteceram,
como sói acontecer com os seres desta Terra. E nos afastamos, pela distância,
pela vida que segue, pelos caminhos que vão nos
apartando. E, ontem, senti de novo a
presença querida desta prima, pessoa autêntica, bonita e ao seu modo sincero e
descontraído, carinhosa. Seu marido, um brilhante e agradável papo, rememorava,
à medida em que caminhávamos por aquelas ruas antigas, a
época em que viveu nesta cidade, maravilhosa mesmo. Não éramos só eu, Regina e
Sergio naquele passeio. Minha irmã, a Vania, que costumo brincar nomeando-a
“Papa-léguas”, como o do desenho, nos acompanhava. Ríamos, querendo entender da
sua pressa, como se tivesse um encontro marcado, acho que buscando não sei o quê, mas fazendo da correria o
passo mais certo. Saímos de Niterói em direção ao Rio optando pela Barca ( que,
muito oportunamente ,não pagamos- uma das poucas vantagens da “melhor idade” - eu
diria “pior”...) e aí estávamos, quando a única intenção era a de um passeio
agradável. E foi, sim. Como é bom
conviver com gente como a gente. Como é bom ouvir da prima que daria um
livrinho para o meu neto, pois queria presenteá-lo. E, melhor ainda, sentir que
nossa intimidade não foi devorada pelo tempo. Ela, sem nenhum constrangimento,
achou caro o citado livrinho de histórias que falava dos “ Três porquinhos” e
suas dificuldades com o lobo mau. Resolveu procurar noutra livraria. Achei tão
espontânea e franca a sua atitude; vi
naquela linguagem sua a confiança em me dizer uma coisa tão simples e que às
vezes, nos esquecemos de usar que é a verdade, sem cerimônia, sem subterfúgios.
Ouvia do Sergio que ela, Regina, tinha três fobias: cachorros, água e carros.
Verifiquei, ao atravessarmos a rua, que ela segurava minha mão, um pouco
receosa na travessia. Eu também, timidamente coloquei a mão em seu ombro.
Faltou um abraço mais caloroso. Sinto apenas que ainda temos uma tímida maneira
de expressar nosso carinho uma pela outra. Não fomos criadas com essa
demonstração física. É meio familiar, meio, não, totalmente. Só sei que, hoje,
sinto uma alegria muito grande pelo reencontro com a prima-irmã querida e já
sinto saudades. Que venham outros passeios
pelo centro do Rio ou por onde quer que aconteçam. Voltamos de ônibus. Quando
passávamos pela Praça da República, avistamos patos, e alguns roedores, não me lembro se
cutia ou quati, a natureza bela e exposta, realçando mais o nosso dia alegre. O
pôr do sol, que é uma fascinação para mim, coloria aquela tarde feliz. Regina e
Sergio, um casal de verdade. Que Deus abençoe vocês. Que Deus nos dê a
oportunidade de estarmos juntos de novo. Em tempo: recebi um telefonema da
Vania me contando que, depois que desci do ônibus, ela, Sergio e Regina
estiveram numa outra livraria, onde a prima querida comprou o livrinho que
prometera ao meu neto, com certeza, com preço mais acessível e justo. Fiquei
emocionada. Queria que ela soubesse disso.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
RECEITA PARA VIVER SEM AMOR
Não é pegadinha. Nem brincadeira.
Só realidade comprovada. Desde muito cedo, ainda menina, adolescente, não
importa, apenas sei que sempre questionava o fato de como seria possível alguém
viver sem amor. Não falo do amor materno, de avó, de amiga, de solidariedade,
de irmãos, não. Falo, sim, do amor homem\ mulher ou mesmo do amor homossexual,
não importa, já que hoje se escancarou esta forma de amar. A questão não é julgar, não é disso que quero falar, até
porque não sei nada desse amor, já que me limito a tentar entender que não se
nasce como se quer. Apenas se é do jeito que Deus mandou. Como declarou numa
entrevista recente uma pessoa homossexual e disse com todas as letras que
ninguém deseja sofrer preconceito e ser visto como diferente. Então o que me
faz pensar em não ter um amor é o fato de me encontrar nesse estado, que
chamarei de ausência de amor. É isto. Talvez, depois de todos os longos anos de
vivência (já que me vejo na reta final), é a primeira vez que não tenho ninguém
ocupando meus pensamentos; meus desejos, acho, estão completamente amortecidos,
ou melhor, adormecidos. Quando acontece uma separação, o sentimento que se tem,
na grande maioria das vezes, é que o mundo vai acabar, que seu sofrimento não terá fim, e que a ausência do ser amado faz de você
o mais infeliz dos seres vivos. Já passei inúmeras vezes por isso. O “Meu mundo
caiu”, de Maysa Matarazzo encaixava perfeitamente à situação. Mas passa. Constatei
isso. Passa, sim, mas com o aparecimento
de um novo amor, de um substituto à altura de sua dor, que chega para suavizar
e depois aplacar o sentimento de perda,
tornando-o restabelecido e trocado por um outro muito mais atraente, um novo
amor, digamos assim. Ultimamente, me pego pensando nisso. Ontem, comentei com
minha psicóloga. E disse mais: reverti o quadro, empregando uma técnica que não
tem nada de novidade mas que, pela
primeira vez na vida, adotei e tem dado certo: o trabalho. Mas não só o
trabalho. Há também muitas outras atividades que me salvam do vazio e da
solidão. Não completamente, mas posso dizer que me adaptei à nova realidade.
Uma mulher sem homem. Uma mulher independente deste sentimento maravilhoso e
corrosivo que é o amor. Palavras cruzadas, teatro, cinema, lavar roupa, passar
roupa ( essa, uma das piores atividades mas
que já aderi ao exército de funções salvadoras), e muitas coisas
mais...O amor ao meu neto, que me deixa tão feliz quando junto dele, quando
sinto suas mãozinhas nas minhas, ou lhe dou banho, ou preparo sua comida, ou
lavo suas roupinhas. Mas o que me surpreende é o fato de estar meio que
vacinada pela desilusão, fazendo das perdas uma escada para a experiência e
antídoto para a doença que nos traz um relacionamento amoroso. É meio sem
graça, sim. É vida com gosto de “sem tempero”, melhor que salgada demais ou
apimentada em excesso. E me vejo discordando do autor que diz: “o importante é
que emoções eu vivi”... Tudo no tempo certo. Aposentadoria da paixão,
previdência para o amor já tão gasto e desgastante, aposentadoria, sim, mas não
para a beleza do amor verdadeiro, da sensibilidade, esta, cada vez mais aguçada
e viva, imortal mesmo.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Alone again
Esta música é uma daquelas que amo ouvir. Linda. Triste. Mas o título (em inglês) resume o que acontece comigo. É uma sensação de que, apesar da calmaria, do não sofrimento, ergueu-se um vazio em frente a mim. Melhor me rasgar de ciúme, melhor me preocupar com a ausência do outro, melhor me achar sempre enganada? Há uma contrapartida: mais vida, mais desejo, mais vontade de estar bonita, arrumada, de comprar vestido novo, um sapato... E, de novo, me é tomado o direito de ser feliz. Pelo menos por um tempo, como costuma nos dizer a vida. Já me enganei tantas vezes, já criei expectativas falsas, querendo me proporcionar o que, inconscientemente, estava explícito, por mais paradoxal que seja. Não era para dar certo. Não era a pessoa que eu havia moldado, pois o que aconteceu foi exatamente assim. Deixei que meus sonhos de menina atravessassem todo esse tempo e viessem me surpreender agora. A adolescência fica impregnada de maneira tão forte, com as grandes descobertas, com o desejo de afirmação, com o aparecimento do amor, que nos é quase impossível abolir aquelas expectativas em relação a um futuro que desejamos, ardentemente, seja um conto de fadas. Pelo menos, para mim sempre foi deste jeito. Depois de uma existência coroada por decepções, ainda me foi dada a possibilidade de sonhar novamente. E, aí, mais frustrações. Esperneei e tentei me iludir mais uma vez. Levei um tapa na cara. Susto? Claro que não. Apenas adiei o que sabia iria acontecer. Não partiu de mim a decisão. Nunca decido, na verdade, só a reação que tenho às vezes é tão violenta que atropelo o bom senso e me vejo perdida; depois da explosão, me pergunto se fui tomada por um espírito de loucura ou, muito ao contrário, de extrema lucidez. Analiso se vale a pena jogar tudo pro alto e me deixar arrastar pela vontade de estar de novo acompanhada. O preço a pagar não vale a pena, sussurra a lógica. As escolhas que fiz me fazem pensar que há, sim, um carma. Por que me sinto atraída por pessoas tão diferentes e tão insanas? Outro dia, o telefone tocou e ouvi apenas esta música, “Alone again”. Não havia ninguém do outro lado, mas, sim, a mensagem cifrada pela canção. O que seria senão uma declaração de amor. Incontestável. Gostei de escutar. A carência de afeto nos faz tolos. Faz de nós, também, inconsequentes. Não quero mais aquele tipo de sofrimento, que tira a razão e nos transforma em fantoches, delirantes fantoches em busca do tempo que se foi. Agora, restou a amargura de uma vida desperdiçada. Tenho certeza do que não quero. Mas contraditório é o que está encravado naquela parte doida, límbica que faz o comportamento normal se transformar em um serzinho sem razão, que quer viver o impossível.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
CIDADE DA MÚSICA
Combinamos um passeio eu, minha prima com o marido e minha irmã, também com seu marido. Eu, verdadeiro “onze”, como se dizia nos meus tempos de criança. Fico meio apreensiva toda vez que me proponho viajar. Ainda que não seja para muito longe e uma viagem de carro. Avião, nem pensar... Então, saímos cedo. Costumo ser pontual, não sei se defeito ou qualidade, acho o certo: não deixo ninguém me esperando. Às seis horas já estava pronta, de mala e cuia. Desci, esperando na portaria. Não é que me deu aquela dor de barriga indesejável... Subi correndo. Quando voltei, o carro deles acabara de chegar. Até meu intestino colaborou. Mas falemos de coisas mais amenas. Resolvemos aportar em Vassouras. O objetivo era visitar o museu chamado Casa da Hera. Ali viveu, entre os séculos dezenove e vinte, Eufrásia. A história dela, cativante mesmo, diria eu. Foi o amor de Joaquim Nabuco ou ele fora o amor da vida dela; isso, nunca saberei. O fato é que, depois de ler o livro, fiquei mais interessada em ver de perto o lugar em que viveu essa mulher. Valeu a pena! Almoçamos num hotel agradável ali perto. A conversa rolava animada. Saímos excursionando pela pequena e aconchegante cidade. Tudo muito preservado e cultuado. A era do café pontuada e informada por guias turísticos. Tanta coisa interessante a se recordar. Um país como o nosso, rico por sua beleza e privilegiado por sua abundância, terra fértil “em que se plantando tudo dá”, mas tão pobre no zelo pelas coisas de nossa cultura. Tão displicente quanto à manutenção das coisas históricas, sem memória. Mas lá, em Vassouras, era diferente. Se preserva, sim, as coisas de ontem, dos tempos das grandes fazendas, com seus cafezais e seus escravos, um povo infeliz e explorado pela ignorância e egoísmo dos poderosos. De qualquer modo, muito emocionante visitarmos aquelas relíquias, atravessarmos salas e quartos, onde pessoas que marcaram sua época, viveram. Visitamos a cozinha, com seus tachos e apetrechos, louças e cristais, nos imensos armários, lustres lindíssimos pendurados naquele teto de madeira pintada de branco. Tábuas corridas no chão. E ficava imaginando os saraus, as conversas, os conchavos políticos e tudo o mais daquela época. Instigante percorrer aquela imensa área ao redor da casa também. Descemos um caminho onde se avistava um verdadeiro túnel, formado por eucaliptos, água jorrando, correndo por entre pedras. A vegetação preservada, uma pequena horta, onde avistamos belas folhas de couve entre outras, goiabeira, além da árvore de alho, que cheiramos para confirmar o odor. Surge um rapaz negro, contando as peripécias dos escravos, alguns fugidos e que formaram quilombos pela região. Tudo muito especial, um passeio no tempo. Um fato engraçado: eu e minha prima caminhávamos pelas calçadas apertadas, onde um comércio moderno se misturava às antiguidades e artesanato. Nas janelas, esculturas de barro, moçoilas negras com seus cotovelos apoiados, enfeitando –as. Pelas ruas, toalhas de crochê e uma variedade de trabalhos manuais. Nossa conversa corria animada e eu senti que havia esbarrado em alguém com minha bolsa. Voltei-me, pedindo desculpas. Era apenas um boneco, plantado na calçada. Rimos muito e um senhor que vinha atrás de nós, mais ainda. Mais tarde, continuamos nossa excursão, que nos levaria a Conservatória, nosso ponto final.
A pousada, já reservada por minha prima era bem simples. Seu cunhado (que devo apresentar como uma pessoa educada, um bom papo) que já estivera por lá. Indicou-a, pois a dona havia sido sua contemporânea em Valença, cidade da qual Conservatória é distrito. Tudo bem, já alojados, seguimos para ver a cidade, suas ruas e casas antigas. Lá se cultua enormemente a música. Há serestas por todo lado. Artistas se unem uns aos outros, à medida em que começa a cantoria. Muita gente idosa, sim. O que não impediu a alegria desmedida em cada apresentação. A animação era como a de jovens. Nisso não ficamos devendo nada. O talento de cada violonista e os da percussão invadiam nosso espírito, uma festa para os ouvidos. No dia seguinte, optamos por conhecer uma fazenda próxima. Conseguimos um guia que nos levaria até lá. Ele, português, que morou quase toda sua vida nos Estados Unidos. Estava ali, fazia dez anos. Foi agradável e divertida nossa excursão por aquela fazenda. Chegamos, sentindo o silêncio da roça, apenas interrompido por alguns carros passando na estrada, uns metros distante. A casa com seu número grande de janelas pintadas de azul. Sentamos numa varanda, onde havia algumas cadeiras. Daí a pouco, surge uma senhora vestida como as sinhás daquela época do café: uma saia longa preta, blusa de renda bege e segurando uma sombrinha rendada, também bege, como a sua blusa. Encantei-me com aquilo; acredito que todos se encantaram como eu. Ela começou a dizer que já fazia mais de trinta anos que viera morar ali. Descrevia a casa e contava sua história. Depois, convidou-nos para a visita propriamente dita. Abriu a porta grande da frente e ia explicando as divisões da casa, dos compartimentos, reservados para os visitantes e dos quartos menores para os negociantes e mascates que por ali passavam. Depois, quando chegamos até a cozinha, ela nos serviu um café com broas ( estas, do céu, uma delícia, cobertas por camada fina de açúcar e canela). Saímos dali, uma sensação boa, uma nova visita ao passado, e a calmaria daquele lugar, fazendo um bem enorme a nós. Voltamos para Conservatória onde nos esperavam a música e seus tocadores, com seus violões mágicos, as pessoas com um único objetivo: dar chance à felicidade de nos acompanhar por alguns momentos. E fomos felizes, sim.
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