O mesmo pedaço de chão abrigava chifres e asas. Cascos de animal e
passadas infantis ecoando no mesmo espaço. Pessoas amontoadas, formando
círculos, pagando para assistir a violência gratuita contra o touro indefeso e
ameaçador. Crianças e adultos formando retas enormes, em procissão, louvando
num ato de fé e adoração ao Senhor que, doando amor, foi condenado. Tudo isso
acontecia na Barra, pequeno distrito a poucos quilômetros da fazenda.
Não sei qual o sentimento mais
forte: medo do bicho feroz ou satisfação de acompanhar o pai. Mesclados num só
invólucro. Num mesmo coração de menina.
A fumaça se misturava com o
barulho da multidão. Era dia de tourada. Meu pai costumava nos levar. Sentia um certo pavor e dificuldade
para respirar, quando o touro arremetia
contra as pernas finas das estacas que balançavam a cada investida. Não parecia
seguro. Eram arquibancadas, armadas em círculo, rodeando a pequena arena. Não
me esqueço daquele cheiro enfumaçado, embolado com o das fezes verdes e quentes
do animal assustado. Instigado, se defendia. Barbaridade dos homens. Cheiros,
sabores e dissabores. Mas ali também acontecia a festa do Divino. Eram ocasiões
diferentes. A procissão de adultos e crianças louvando, num ato de fé e glorificando ao
Senhor Jesus. Íamos eu, minhas irmãs e a prima, que morava perto de
nós. Ela se vestia de anjo, com as asas
enormes presas às costas. Era a
filha única, entre os dois irmãos. Uma
vez, ela quebrou a perna e eu sentia inveja daquele gesso, todo cheio de nomes.
E ela usava óculos: - minha prima tem sorte – pensava eu. E lá íamos nós,
seguindo a procissão. Eu e minhas irmãs vestidas de Virgem: roupas brancas e véu na cabeça, preso por uma singela
coroa de flores, também, brancas. Segurávamos velas, que exalavam cheiro do
pavio gorduroso, cantando os cânticos de louvor. Uma vez, descuidei-me com a
vela acesa que levava. Só me dei conta do que acontecia, quando percebi as
beatas senhoras apagando as chamas que crestavam de leve os cabelos de minha
irmã, que caminhava à minha frente.
Resultado: cabelo cheirando a chamusco. Terminávamos o cortejo numa
pequena igreja, situada num plano mais alto da minúscula praça. Depois,
corríamos para as barraquinhas, armadas ao redor do passeadouro. Era uma
alegria comprarmos aqueles docinhos, cheirando
a mel e açúcar, balas de coco, pequenos brinquedos pendurados, bolas de soprar...Havia
também a padaria, com as fornadas cheirando a pão quente, cujo dono tinha o
mesmo nome da minha mãe: desses que servem para o masculino e feminino – Nelly.
Mais adiante, subindo um morrinho, encontrava-se o grupo escolar, tão pequeno
que só existiam duas salas de aula. Dona Noêmia, segunda mulher do padrinho de minha irmã, seu Djalma, o
farmacêutico; ela tinha função dupla: professora e diretora. Ele dera à minha
irmã um presente de aniversário que nunca pude esquecer: um bezerrinho: novilho
com cheiro de leite. Como eu queria um padrinho assim!...O meu era meu tio
Paulo, que morava em Niterói. Solteiro e só pensava em seus carros velhos, que
ele estava sempre consertando. Tinha enorme prazer em estar lambuzado de graxa
e óleo. Sempre me lembro dele, sem camisa, usando shorts largos e sujos,
cheirando a óleo queimado. Como poderia ele dar presentes à afilhada tão
distante?Seu carro: um Buick preto e,
como esse, muitos outros que comprava e vendia só para reformá-los, deitado
debaixo do motor velho, desgastado.Além
disso, inveterado mulherengo.Não poderia culpá-lo por não se lembrar de mim...
Havia poucas casas no vilarejo
e uma ponte que servia para se chegar à praça principal, das arenas e
procissões. Parada obrigatória do ônibus
a meio caminho andado para a cidade maior, Bom Jesus. Quando eu viajava,
sempre acompanhada por minha mãe, que ia experimentar modelos novos na
costureira da cidade, dona Leonor, mal entrava naquele ônibus e meu estômago
dava voltas. O cheiro da gasolina, misturado ao calor causticante, deixavam-me
enjoada. E eu ia cheirando limão para aliviar a ânsia. Diziam que era bom. Para mim não fazia
diferença: sentia-me gelada, com o mal-estar crescendo a cada curva da estrada
empoeirada. Olhar as flores do vestido estampado de azul e branco, saia rodada, enviesada de minha mãe, fazia piorar
a situação. Cada pedaço de chão parecia não acabar nunca. O cheiro do capim da
beira da estrada, dos eucaliptos era forte. Sabia de cor cada detalhe do
caminho e torcia para avistar logo as primeiras casas que denotavam o fim do
meu martírio, na chegada à cidade. A recompensa vinha logo depois, quando minha
mãe me levava à loja do Zé Cabeça, com suas enormes pilhas de caixas, cheirando
a sapatos novos e ela me comprava sandálias brancas. Saía dali, feliz,
caminhando nas nuvens, como se todos reparassem nas sandálias novas que eu
ganhara. Ainda hoje, preciso viajar olhando reto, em frente e qualquer tipo de
leitura me é proibida, vem a sensação de desconforto, de enjôo. O nome do dono
da loja me fez lembrar a Zé.
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