sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cheiros divinos


   

   


   
O mesmo pedaço de chão abrigava chifres e asas. Cascos de animal e passadas infantis ecoando no mesmo espaço. Pessoas amontoadas, formando círculos, pagando para assistir a violência gratuita contra o touro indefeso e ameaçador. Crianças e adultos formando retas enormes, em procissão, louvando num ato de fé e adoração ao Senhor que, doando amor, foi condenado. Tudo isso acontecia na Barra, pequeno distrito a poucos quilômetros da fazenda.
    Não sei qual o sentimento mais forte: medo do bicho feroz ou satisfação de acompanhar o pai. Mesclados num só invólucro. Num mesmo coração de menina.
    A fumaça se misturava com o barulho da multidão. Era dia de tourada. Meu pai costumava  nos levar. Sentia um certo pavor e dificuldade para respirar,  quando o touro arremetia contra as pernas finas das estacas que balançavam a cada investida. Não parecia seguro. Eram arquibancadas, armadas em círculo, rodeando a pequena arena. Não me esqueço daquele cheiro enfumaçado, embolado com o das fezes verdes e quentes do animal assustado. Instigado, se defendia. Barbaridade dos homens. Cheiros, sabores e dissabores. Mas ali também acontecia a festa do Divino. Eram ocasiões diferentes. A procissão de adultos e crianças  louvando, num ato de fé e glorificando ao Senhor Jesus. Íamos  eu,  minhas irmãs e a prima, que morava perto de nós. Ela se vestia de anjo, com  as   asas  enormes  presas às costas. Era a filha  única, entre os dois irmãos. Uma vez, ela quebrou a perna e eu sentia inveja daquele gesso, todo cheio de nomes. E ela usava óculos: - minha prima tem sorte – pensava eu. E lá íamos nós, seguindo a procissão. Eu e minhas irmãs vestidas de Virgem: roupas  brancas e véu na cabeça, preso por uma singela coroa de flores, também, brancas. Segurávamos velas, que exalavam cheiro do pavio gorduroso, cantando os cânticos de louvor. Uma vez, descuidei-me com a vela acesa que levava. Só me dei conta do que acontecia, quando percebi as beatas senhoras apagando as chamas que crestavam de leve os cabelos de minha irmã, que caminhava à minha frente.
Resultado: cabelo cheirando a chamusco. Terminávamos o cortejo numa pequena igreja, situada num plano mais alto da minúscula praça. Depois, corríamos para as barraquinhas, armadas ao redor do passeadouro. Era uma alegria comprarmos  aqueles docinhos, cheirando a mel e açúcar, balas de coco, pequenos brinquedos pendurados, bolas de soprar...Havia também a padaria, com as fornadas cheirando a pão quente, cujo dono tinha o mesmo nome da minha mãe: desses que servem para o masculino e feminino – Nelly. Mais adiante, subindo um morrinho, encontrava-se o grupo escolar, tão pequeno que só existiam duas salas de aula. Dona Noêmia, segunda mulher  do padrinho de minha irmã, seu Djalma, o farmacêutico; ela tinha função dupla: professora e diretora. Ele dera à minha irmã um presente de aniversário que nunca pude esquecer: um bezerrinho: novilho com cheiro de leite. Como eu queria um padrinho assim!...O meu era meu tio Paulo, que morava em Niterói. Solteiro e só pensava em seus carros velhos, que ele estava sempre consertando. Tinha enorme prazer em estar lambuzado de graxa e óleo. Sempre me lembro dele, sem camisa, usando shorts largos e sujos, cheirando a óleo queimado. Como poderia ele dar presentes à afilhada tão distante?Seu  carro: um Buick preto e, como esse, muitos outros que comprava e vendia só para reformá-los, deitado debaixo do motor  velho, desgastado.Além disso, inveterado mulherengo.Não poderia culpá-lo por não se lembrar de mim...
    Havia poucas casas no vilarejo e uma ponte que servia para se chegar à praça principal, das arenas e procissões. Parada obrigatória do ônibus  a meio caminho andado para a cidade maior, Bom Jesus. Quando eu viajava, sempre acompanhada por minha mãe, que ia experimentar modelos novos na costureira da cidade, dona Leonor, mal entrava naquele ônibus e meu estômago dava voltas. O cheiro da gasolina, misturado ao calor causticante, deixavam-me enjoada. E eu ia cheirando limão para aliviar a  ânsia. Diziam que era bom. Para mim não fazia diferença: sentia-me gelada, com o mal-estar crescendo a cada curva da estrada empoeirada. Olhar as flores do vestido estampado de azul e branco, saia  rodada, enviesada de minha mãe, fazia piorar a situação. Cada pedaço de chão parecia não acabar nunca. O cheiro do capim da beira da estrada, dos eucaliptos era forte. Sabia de cor cada detalhe do caminho e torcia para avistar logo as primeiras casas que denotavam o fim do meu martírio, na chegada à cidade. A recompensa vinha logo depois, quando minha mãe me levava à loja do Zé Cabeça, com suas enormes pilhas de caixas, cheirando a sapatos novos e ela me comprava sandálias brancas. Saía dali, feliz, caminhando nas nuvens, como se todos reparassem nas sandálias novas que eu ganhara. Ainda hoje, preciso viajar olhando reto, em frente e qualquer tipo de leitura me é proibida, vem a sensação de desconforto, de enjôo. O nome do dono da loja me fez lembrar a Zé.
   
   
   
 
 
 



 

 

 

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