Combinamos um passeio eu, minha prima com o marido e minha irmã, também com seu marido. Eu, verdadeiro “onze”, como se dizia nos meus tempos de criança. Fico meio apreensiva toda vez que me proponho viajar. Ainda que não seja para muito longe e uma viagem de carro. Avião, nem pensar... Então, saímos cedo. Costumo ser pontual, não sei se defeito ou qualidade, acho o certo: não deixo ninguém me esperando. Às seis horas já estava pronta, de mala e cuia. Desci, esperando na portaria. Não é que me deu aquela dor de barriga indesejável... Subi correndo. Quando voltei, o carro deles acabara de chegar. Até meu intestino colaborou. Mas falemos de coisas mais amenas. Resolvemos aportar em Vassouras. O objetivo era visitar o museu chamado Casa da Hera. Ali viveu, entre os séculos dezenove e vinte, Eufrásia. A história dela, cativante mesmo, diria eu. Foi o amor de Joaquim Nabuco ou ele fora o amor da vida dela; isso, nunca saberei. O fato é que, depois de ler o livro, fiquei mais interessada em ver de perto o lugar em que viveu essa mulher. Valeu a pena! Almoçamos num hotel agradável ali perto. A conversa rolava animada. Saímos excursionando pela pequena e aconchegante cidade. Tudo muito preservado e cultuado. A era do café pontuada e informada por guias turísticos. Tanta coisa interessante a se recordar. Um país como o nosso, rico por sua beleza e privilegiado por sua abundância, terra fértil “em que se plantando tudo dá”, mas tão pobre no zelo pelas coisas de nossa cultura. Tão displicente quanto à manutenção das coisas históricas, sem memória. Mas lá, em Vassouras, era diferente. Se preserva, sim, as coisas de ontem, dos tempos das grandes fazendas, com seus cafezais e seus escravos, um povo infeliz e explorado pela ignorância e egoísmo dos poderosos. De qualquer modo, muito emocionante visitarmos aquelas relíquias, atravessarmos salas e quartos, onde pessoas que marcaram sua época, viveram. Visitamos a cozinha, com seus tachos e apetrechos, louças e cristais, nos imensos armários, lustres lindíssimos pendurados naquele teto de madeira pintada de branco. Tábuas corridas no chão. E ficava imaginando os saraus, as conversas, os conchavos políticos e tudo o mais daquela época. Instigante percorrer aquela imensa área ao redor da casa também. Descemos um caminho onde se avistava um verdadeiro túnel, formado por eucaliptos, água jorrando, correndo por entre pedras. A vegetação preservada, uma pequena horta, onde avistamos belas folhas de couve entre outras, goiabeira, além da árvore de alho, que cheiramos para confirmar o odor. Surge um rapaz negro, contando as peripécias dos escravos, alguns fugidos e que formaram quilombos pela região. Tudo muito especial, um passeio no tempo. Um fato engraçado: eu e minha prima caminhávamos pelas calçadas apertadas, onde um comércio moderno se misturava às antiguidades e artesanato. Nas janelas, esculturas de barro, moçoilas negras com seus cotovelos apoiados, enfeitando –as. Pelas ruas, toalhas de crochê e uma variedade de trabalhos manuais. Nossa conversa corria animada e eu senti que havia esbarrado em alguém com minha bolsa. Voltei-me, pedindo desculpas. Era apenas um boneco, plantado na calçada. Rimos muito e um senhor que vinha atrás de nós, mais ainda. Mais tarde, continuamos nossa excursão, que nos levaria a Conservatória, nosso ponto final.
A pousada, já reservada por minha prima era bem simples. Seu cunhado (que devo apresentar como uma pessoa educada, um bom papo) que já estivera por lá. Indicou-a, pois a dona havia sido sua contemporânea em Valença, cidade da qual Conservatória é distrito. Tudo bem, já alojados, seguimos para ver a cidade, suas ruas e casas antigas. Lá se cultua enormemente a música. Há serestas por todo lado. Artistas se unem uns aos outros, à medida em que começa a cantoria. Muita gente idosa, sim. O que não impediu a alegria desmedida em cada apresentação. A animação era como a de jovens. Nisso não ficamos devendo nada. O talento de cada violonista e os da percussão invadiam nosso espírito, uma festa para os ouvidos. No dia seguinte, optamos por conhecer uma fazenda próxima. Conseguimos um guia que nos levaria até lá. Ele, português, que morou quase toda sua vida nos Estados Unidos. Estava ali, fazia dez anos. Foi agradável e divertida nossa excursão por aquela fazenda. Chegamos, sentindo o silêncio da roça, apenas interrompido por alguns carros passando na estrada, uns metros distante. A casa com seu número grande de janelas pintadas de azul. Sentamos numa varanda, onde havia algumas cadeiras. Daí a pouco, surge uma senhora vestida como as sinhás daquela época do café: uma saia longa preta, blusa de renda bege e segurando uma sombrinha rendada, também bege, como a sua blusa. Encantei-me com aquilo; acredito que todos se encantaram como eu. Ela começou a dizer que já fazia mais de trinta anos que viera morar ali. Descrevia a casa e contava sua história. Depois, convidou-nos para a visita propriamente dita. Abriu a porta grande da frente e ia explicando as divisões da casa, dos compartimentos, reservados para os visitantes e dos quartos menores para os negociantes e mascates que por ali passavam. Depois, quando chegamos até a cozinha, ela nos serviu um café com broas ( estas, do céu, uma delícia, cobertas por camada fina de açúcar e canela). Saímos dali, uma sensação boa, uma nova visita ao passado, e a calmaria daquele lugar, fazendo um bem enorme a nós. Voltamos para Conservatória onde nos esperavam a música e seus tocadores, com seus violões mágicos, as pessoas com um único objetivo: dar chance à felicidade de nos acompanhar por alguns momentos. E fomos felizes, sim.
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