terça-feira, 23 de julho de 2013

"Amor-agarrado"


Acordei mais cedo. Normalmente, durmo bem tarde;  entretanto,  ontem, o sono me derrubou logo depois da novela. Hoje, não que estivesse muito animada, mas já que estava de pé, resolvi fazer algumas coisas ( chatas) inadiáveis: lavar a louça acumulada de ontem, colocar roupa na máquina, guardar as lavadas... Em seguida desci para minha aula de ginástica na pracinha, próxima de onde moro. As “velhinhas” se assustaram com o tempo frio, e com o prognóstico de possível chuva. Não compareceram. Voltei para casa, pensando que fora melhor  pois  eu não estava lá muito bem. Passei pela mesma fila para o recadastramento do título eleitoral, que se postava em frente ao estádio Caio Martins. Pessoas cumprindo seus deveres, trabalhadores, alguns idosos, gente simples a maioria, todos na esperança de que seu voto possa mudar esse país. A descrença também na cabeça de muitos, como eu. Mas lembrar de políticos ( salvo raríssimas exceções) me causa transtorno emocional, um incômodo grande, principalmente quando via pela televisão a chegada do nosso querido Papa Francisco, recebendo cumprimentos desses mesmos políticos que deveriam estar na cadeia, ou pagando pelas falcatruas cometidas. Pena que ele, representando a Igreja, tivesse que seguir normas  e protocolo impostos e não pudesse como fez Jesus, espantar os vendilhões do templo de Deus. Apenas um era digno de estar ali. Todos devem imaginar a quem me refiro, até porque foi o único a ser aplaudido. Sintomático. Só que  não é esse o assunto que me leva a escrever esse texto. Como dizia, voltava da frustrada ida à aula de ginástica. Dobrei a esquina e caminhava observando as poucas casas que ainda teimam em ficar de pé na rua, já “infestada” pelo número desproporcional de edifícios altos, que não deviam estar  ali, já que é uma rua pequena.  Olhei para a casa, com uma varandinha na frente, sustentada por um arco, que lhe dá  um  certo encanto. Um carro estacionado, ladeado por um muro todo coberto pela trepadeira verde, com flores delicadas, miúdas, de cor rosa. Veio-me o nome pelo qual conhecia aquela plantinha viçosa: amor-agarrado. Não deve ser científico; mas me reportou a uma época da infância, mais exatamente o muro da casa da minha tia, onde floria o ano todo. Aí, também, pensei na dona daquela casa, que já não se encontra entre nós. Fiquei sabendo outro dia, apesar de não a ter conhecido. Acho que alguém que fora sua amiga havia comentado, num  desse  encontros de professoras, que costumo frequentar. E pensei, naquele momento, que ela fora jovem, teve sonhos, planos, amara, se casara e vivera uma vida inteira naquele cantinho, onde alguém devia estar sentindo sua falta. Senti saudades de uma pessoa que nunca vi. É normal isso? Muitos acharão que não é. Sei que ando sensível demais. Não sei se é bom. Amar as pessoas é, sim, um ato que nos foi ensinado pelo Criador, representado pelo filho ilustre, humilde e santo, que não discriminava ninguém. Emocionei-me ao ver a figura imponente do Papa Francisco, paradoxal  à  postura singela, franca. Impõe a nós respeito e o torna merecedor de todo amor que a ele é devotado. E pensei na plantinha que combina com o jeito do povo brasileiro: “amor – agarrado”.

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