Olímpico FC e Ordem e Progresso. Posso dizer, sem medo de errar, eram o "Fla x Flu" bonjesuense. Times rivais, com seus torcedores ferrenhos. Mas não tão agressivos, violentos, como se vê nos grandes centros urbanos hoje, verdadeira guerra onde a selvageria costuma acabar em mortes. Naquela época, havia brigas entre torcedores, sim. Eram contendas homéricas, com xingamentos, palavrões, aposto que sim. Mas havia mais respeito. Os grandes do futebol eram admirados, respeitados; entre eles, José Moraes, meu pai e Luciano Bastos, só para citar o nome de duas figuras dignas de louvor. Homenagem à memória de dois grandes homens, queridos por suas qualidades, que eram muitas, dignidade, antes de tudo. Houve uma partida em que um dos times era o Olímpico e acontecia em Pirapetinga. Os ânimos acirrados, depois de uma grande disputa onde alguns descontentes partiram para a ignorância. Esse caso me foi contado por um amigo, grande admirador de meu pai. Tumulto formado, brigas, socos e pontapés e o "tempo fechou". Um bonjesuense, que prefiro não citar o nome, com fama de valente, interveio, achando que conseguiria acalmar os ânimos e atirou para cima. E nada. Não se assustaram com isso os brigões. Aí, entra em campo uma figura de baixa estatura, pouco mais de 1.60 de altura, nascido na região e, apenas com sua força moral, impôs ordem e todos se acalmaram e respeitaram, só com a presença forte daquele homem, franzino, apenas fisicamente, mas de estatura moral elevadíssima. Um orgulho pra mim: este homem é meu pai. Não escrevi era meu pai, porque ele está vivo ainda na minha memória e meu amor e admiração mais vivos ainda. Sua bondade, evidente. Sua humildade e solidariedade reconhecidas por todos os que o conheceram de perto. Acolheu em nossa casa alguns jovens jogadores que iniciavam carreira no futebol.. Vendo neles grande talento, ajudava-os, na medida do possível. Alguns nomes acho, posso citar: Fábio, Cadinho, Jesus, Bosco. Nossa casa, na Avenida Fassbender, tinha um tipo de apartamento,, que se compunha de um quarto, banheiro, ao lado da casa. Dava para um pomar, onde havia mangueiras e um pé de jambo que formava um tapete lilás, quando suas flores caiam, e mais: bananeiras, jabuticada, um pé de abiu - do -mato, pinhas, abacate, goiaba, mamão. Era o acolhimento de pai. Chegou a financiar os estudos do jovem e talentoso Fábio, que veio a ser goleiro substituto na Seleção. Além de receber as famílias dos rapazes com fidalguia, amizades que se consolidaram. Grandes nomes do futebol passaram por nossa varanda como Garrincha, Pinheiro e outros que não me acorrem. Meu irmão, Chico, também considerado talentoso para o futebol, quando fazia gols, meu pai, humilde que era, disfarçava, não comemorava à altura do seu orgulho pelo filho que jogava bem. Era comedido nas demonstrações. Não é possível se falar no Olímpico, sem que se mentalize a figura desse homem, tão encantado com as artes da bola no pé. Foi técnico do time; ajudou a muitos dos que começavam a carreira. Era um gosto para ele acompanhar o seu time do coração. Esse texto é um esboço acanhado para mostrar um pouco da grandeza desse homem, que tenho a glória de carregar seu nome no meu próprio... Neuza Sales Ribeiro.
sábado, 9 de agosto de 2014
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
CORRENDO COM O GERÚNDIO.
Fiquei pensando sobre o único tempo verbal que define a vida: o gerúndio. Hoje, tão massacrado e criticado por todos. Os atendentes de telemarketing que o digam. Ficou um tanto ridicularizado o "estamos passando sua ligação" ou qualquer atendimento usando esse tempo de verbo. Mas concluí que é o mais razoável. O passado não volta, já existiu. O futuro pode não acontecer, portanto, também não existe. O que temos de, relativamente, palpável é o gerúndio. Acabei fazendo a analogia entre vida e música. Esta, só é real quando ouvida, tanto por alguém que canta ou quando executada por uma grande orquestra, um único músico, tirando som do seu instrumento, não importando qual seja. Só tem existência real porque a ouvimos. A vantagem é que podemos repeti-la quando quisermos. A vida, não. É um contínuo passar que não espera, não tem bis. Intrigante pensar sobre isso. A arte pode se perpetuar através da pintura numa tela, num mural, no teto das igrejas e em diversos lugares. A música, apesar de poder estar gravada nas pautas, só acontece mesmo quando executada. Assim mesmo cada nota se perde no espaço. Desaparece, fugazmente. Inevitável a constatação de que a vida é irmã gêmea da música. Ambas são percebidas, sentidas, apenas quando ouvidas. Explicando melhor: quanta coisa deixamos de usufruir se não somos tocados, alertados, sensibilizados. E não necessariamente, saída da vibração das cordas vocais, não; deixamos de ouvir, sim, a voz interior, aquela que vem do mais profundo âmago. A voz da razão? Ou, contrariamente, a voz do coração, que pode ser mais eloquente. De qualquer forma, nos perdemos em considerações inúteis, em descompasso com o ritmo do gerúndio. Este, sim, faz sua trajetória, independente do passado ou futuro. Alguns o chamam presente. Mais adequado seria não nominá-lo. Ele tem pressa, não nos daria ouvidos, nem uma nova chance. Não que não queira, apenas não pode, porque está freneticamente, correndo em direção ao infinito.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Ser avó é mais fácil?
Será? Me pergunto eu. Sei que sou melhor avó do que fui mãe. Disso não tenho dúvidas. Há explicação para essa afirmação. Quando se é jovem, os desejos e os hormônios tropeçam uns nos outros. Habitualmente acontece. O corpo tem sensações e a mente acompanha e, nem sempre, se faz o mais apropriado, o mais sensato. Não fui irresponsável, não fui a mãe desnaturada das novelas ou filmes de terror, não. Acho que fiquei dentro da média: amei meus filhos e fiquei feliz com a vinda de cada um deles. Queria ser mãe, afinal. Mas o tempo e a experiência são grandes mestres. Não acredito que as pessoas mudem. Aprendem. Há quem não aproveite essa dádiva. Melhorar, através dos ensinamentos da implacável e severa tutorial personagem: a vida. Parecia importante viver intensamente cada momento, uma ânsia constante. Usufruir das benesses e descartar os acontecimentos nefastos. Quem não quer? Mas a medida é que faz a diferença. Hoje, me acalmei. A idade transforma o seu proceder que, resumindo, é mais adequado, mais elaborado. Querendo ou não, somos protagonistas de uma história, nem sempre a que sonhamos; com certeza, mudaríamos alguns acontecimentos, se nos fosse dado escolher. Volto a dizer do amor pelos filhos, que não muda, não diminui. As preocupações e cuidados, os mesmos. Mas aí, chega um neto. Ou neta, não importa. Este pequeno ser maravilhoso que vem nos transformar. Parecemos um lago transbordante de ternura. E a paciência então! Parece adubada como a plantação mais bela, mais cuidada. Tudo lhes é permitido. Bagunça na sala, bagunça nos quartos, nada mais nos incomoda. Depois arrumo - penso eu - num prazer incontido, ao cuidar daquela criança. A felicidade de poder estar com um neto é indescritível. É muito amor, gente.
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