Acordou, levantou-se. Precisava se aliviar dos líquidos e também de alguns sólidos, naquela manhã. Abriu, primeiro, a cortina fina, e avistou o sol batendo nas varandas dos apartamentos em frente ao seu. Melhor, dia frio, sim, mas com sol; pelo menos isso. A persiana e o vidro também foram abertos para arejar. Limpar o ambiente e dar um susto nos possíveis vírus que se acomodam, sem a menor cerimônia e atacam, quando menos se espera, essa era a ideia. Acordava com o mau humor de sempre. Um paradoxo: pessoa bem-humorada, normalmente, mas que acordava irritada? Costumava se interrogar. Foi até a cozinha, tomou os dois comprimidos, um para a pressão e o outro pra inquietação, digamos assim. Remédios eram para velhos e doentes; uma afirmativa que imaginava há tempos. "A vida é curta, passa depressa". Todos repetem isso com frequência. Mas não é verdade. A vida tem o mesmo tempo de sempre. Apenas aproveitamos mal. Adiamos decisões e não valorizamos as muitas horas de paz, de saúde, por exemplo, matutava. Esquentou o pão no pequeno forno elétrico, colocou água pra fazer café. Não dispensou a banana prata, que virou rotina em sua mesa. Como os macacos, não dispensa aquela fruta. Morou tanto tempo numa fazenda que, alguns costumes arraigados, são definitivos. Pensou em escrever mais um ou dois capítulos do livro começado. O celular tocou. Seu médico respondia aos chamados sem respostas, de ontem e combinava uma consulta para daí a dois dias. Tudo bem. Sentiu-se aliviada, de certa forma; sem receita, fazia uma semana que, arbitrariamente, se permitira não tomar o antidepressivo. Não notou grande diferença. Excetuando, hoje, quando percebia aquele aperto no peito, nada muito forte, mas que incomodava. Toda droga vicia. Afinal, o nome drogaria não é à toa. Usava uma saia longa e meia nos pés. Pensou que não seria a melhor hora para seguir na história do seu romance. Conseguiria terminar a qualquer custo. Mas adiou a iniciativa. Pensou nos grandes escritores e seus inúmeros livros. Invejou-os. Sentiu-se medíocre. Agora, entrava uma aragem tímida pela janela, balançando a cortina leve e gasta. Na véspera, realizara tarefas inadiáveis, como trocar a lâmpada do seu quarto, queimada. Resolveu por aquela mais econômica e que dura mais. Com certeza, duraria mais que ela. Dez anos, vinte, quantos mais ainda teria? Jovens também perdem a vida, como aquele cantor famoso num acidente de carro. É fato. Mas a lei natural é que, depois de certa idade, meu tempo diminua e muito, enveredava ela por este sombrio pensar. Lembrou-se da escritora de Goiás, que dizia coisas lindas e que, só após os sessenta, ficou mais conhecida. Era otimista, não pensava na morte, dizia ela. Pensamentos positivos, sempre. Acrescentava.
Acabou decidindo pintar os cabelos sujos (sempre adiava lavá-los, na hora do banho, por causa do frio) e brancos. É isso, animou-se, apesar de sentir a garganta arranhada. Faltavam algumas compras a fazer: a banana, por exemplo, fora a última da cesta. Essa, imprescindível, cheia de potássio. Pensou numa de suas crônicas, onde relembrava sua infância; macacos que pulavam dos galhos das árvores para o parapeito da varanda, pegando bananas ou ovos que lhes eram oferecidos. Lembrou-se ainda de suas descobertas, das alegrias infantis, ao debulhar paina, ao formar leiras de café, no grande terreiro da fazenda. Tão distante da morte, que nem pensava nela, essa figura traiçoeira que chega para todos, sem avisar. Este, um assunto que não ocupava seus pensamentos. Tinha medo, sim, de muitas coisas; de cachorros, por exemplo, de andar a cavalo; todos costumavam galopar, seus irmãos, primos. Ela, entretanto, odiava subir naquela sela, raramente, se equilibrava. A sensação era de que o animal comandava tudo. As rédeas, um acessório inútil. Altura e velocidade, grandes inimigos. Não era dada a aventuras. Viajava, sim, lendo livros de histórias, ouvindo novelas pelo rádio. Levantou-se, já agora, decidida a por em prática as tarefas do dia. Precisava disso. A menina sonhadora, fazia tempos, não se encontrava mais naquele corpo. Mas a vida, sim. Ela devia aproveitar aquele dia bonito e torná-lo agradável. Por que, não ? Uma caminhada no calçadão da praia. Quem sabe? "Navegar é preciso"; pensou no português culto e seu antecessor, não foi isso o que ele disse? Não se aventuraria no mar, nenhum catamarã, nada disso. Apenas, daria um mergulho na sua realidade. Fernando Pessoa inspirou-se nesta frase, que foi também a causadora de um lindo poema seu: "Navegar é preciso; viver não é preciso". E mais: Quero para mim o espírito desta frase, assim como ele: Viver não é necessário; necessário é criar... O fato é que tem mais de dois mil anos esta frase. E seguiu, lendo mais um trecho do poema: "Não conto gozar a vida; nem gozá-la penso. Só quero torná-la grande.Ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e ( a minha alma) a lenha desse fogo".
domingo, 28 de junho de 2015
sábado, 27 de junho de 2015
Uma senhora que não foi convidada.
Apesar do grande avanço na Medicina, ainda não descobriram como tirar a gripe de cena. Há vacinas, bem sei. Não tomei, devo confessar, já que quase não tenho essa péssima companhia - a tal da dona gripe. Ultimamente, entretanto, devo dizer que esse danado desse vírus, insiste em me premiar. Sempre acontece quando o tempo frio se aloja. Não é à toa que reclamo do inverno. Faz três dias, ou mais, que a garganta anda arranhada e dói. Hoje, acordei pior. O meu celular me acorda, durante a semana, avisando da hora em que devo pular da cama para a ginástica. Hoje, é sábado. Mesmo assim, ele tocou.Não devia. Já acordada, com o incômodo de estar engolindo com dificuldade, apertei a tecla, parando o sinal do celular. E ainda pensei: que burro esse aparelhinho! Hoje, não é dia! Não era ele que me chamava e, sim, meu netinho, cobrando minha presença. Este fim de semana não estava marcado para pegá-lo. Do outro lado, ouvi a voz infantil e querida, me pedindo para ir buscá-lo. Eu expliquei que só não iria porque estava meio "dodói", com gripe e garganta ruim e que não queria contaminá-lo. Ouvi-o chorando, depois que passou o fone para a outra avó que, como eu, o ama de verdade e cuida dele tão bem ou melhor que eu. Meu coração se partiu em dois. E mais uma vez, senti saudade do tempo quente, do calor excessivo, até dos gastos enormes com ar condicionado, mas de uma estação do ano que me deixa mais saudável: o verão. Não convidei essa velha e indesejável senhora para minha casa - a gripe. Quem disse a ela que é bem vinda? Quem disse que ela pode me privar de um momento com o meu neto? Quem disse? No próximo inverno, vou colocar uma placa na minha porta; espero que ela leia, bem assim: " Não incomode, não bata na porta, estou ocupada, brincando com o meu neto"! Ou será melhor ir a um posto de saúde e tomar a vacina? Sei não...!
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Frio ou calor?
Já disse, em outras ocasiões, que não gosto de frio. Sei lá. É uma mistura de preguiça com tristeza. Prefiro o calor, diferente da maioria. Sempre que encontro pessoas ou no elevador ou em qualquer outro lugar, reclamam : " Ai, que calor insuportável!!" E eu, contra todas as opiniões, retruco que prefiro esse tempo. É mais alegre, sim. Desconfortável, é verdade. Tudo o que se faz no verão é mais fácil. Gera uma preguiça danada, não devo negar.Os baianos, toda a turma do nordeste e norte tem razão: não é fácil ter ânimo com tanto sol. Mas tomar banho com água fria, lavar roupas ou a louça não dá tanta gastura como nesse tempo "invernoso". As mãos não se aquecem. Os pés, ai de mim, se me deito sem calçar meias. E a hora de levantar então, envolvida no macio dos edredons, é dureza, gente. Compras a fazer, adiadas. Lavar os cabelos, deixo pra amanhã, afinal, durmo sozinha...quem vai notar!? Outro dia, não me julguem uma Peppa Pig mas adiei o banho. O sono gostoso no sofá, nem me deixou ver o fim da novela. Tudo bem. Mas, tomar banho, meio grogue de sono, nem pensar! No dia seguinte, tomei uma boa chuveirada, lavei os cabelos e me senti melhor, limpinha da silva, claro! Depois, vem a primavera. Esta, sim! Linda, cheia de flores e o calor se chegando," devagar, é devagar, devagarinho", como canta o Martinho da Vila. Junto às flores, vem uma época de amor. Uma dose de alegria, o sol brilhando no espaço, antes encoberto por nuvens. Quando chove, então,(ainda pensando no frio) é uma lástima! Tudo mais triste, desolador! Escrevo esse texto com os pés pra cima, na poltrona (usando meias, claro) e pensando que vai chegando a hora do banho, afinal, hoje, é outro dia. Coragem, mulher!
Transgredir
Transgredir.
Segundo uma grande escritora, poetisa, cronista, Lya Luft,
pensar é transgredir. O título de um dos muitos livros dela é esse. Há
mais definições no dicionário. Mas hoje,
amanheci com a musiquinha do meu celular, avisando da hora de levantar para a
ginástica. Meu corpo todo se recusava a obedecer. Transgredir é também dar asas
à preguiça e deixar de dar limites a ela, como fazia com os filhos, diante de
uma teimosia, ou qualquer outra situação que precisasse corrigi-los. Mostrar a eles que a vida tem
momentos de dificuldades e que nem tudo que queremos é o que podemos, apesar da afirmação pontual
: “Querer é poder”. Sei não.
Me dei (o pronome não devia vir antes do verbo mas estou me lixando para o Português; hoje, estou com este espírito de porco) o direito de ficar na cama, todos os ossos de férias, como se não pudessem obedecer ao chamado do cérebro. É preciso ter coragem. É preciso não se entregar. É preciso se exercitar. É preciso mexer o corpo para que continuemos vivos. Mas dei asas à transgressão. Não tão grave assim. Apenas me deixei ficar. Só não fiquei confortável com a decisão e olhava para o relógio, vez em quando, imaginando cada uma das amigas e amigos, suando a camisa, literalmente, fazendo as acrobacias, subindo as pernas (essas que parecem pesar toneladas quando precisam subir e descer). Sim, hoje transgredi as leis, fui infratora contra meu próprio corpo. Ando meio esquisita. O fato de lançar um livro mexeu um pouco com os meus neurônios. Medo de gastar dinheiro, a época não parece propícia, diante de um governo que só nos achaca de todos os modos. Querem que paguemos o pato por suas falcatruas. Não é justo. Aliás, nada é justo. Preciso me cuidar, cuidar um tantinho da minha aparência. Segundo meu netinho estou velhinha. Ele olhava meus cabelos brancos ( um mês sem tinta), as rugas, mãos envelhecidas e ainda comentou que os dentes estavam amarelos. Em todo o caso, ainda os tenho. Talvez, pelos dois anos de leite materno do qual não abri mão. Cálcio e proteção. Criança tem a franqueza natural que lhes acompanha, antes de serem teleguiados por nós, adultos. O sol brilha forte lá fora. Disso eu gosto e muito. Tem coisas boas acontecendo, sim. Vamos lá, preciso me animar. Comecei um livro ontem, voltei a ler. Isso também é muito bom.
Me dei (o pronome não devia vir antes do verbo mas estou me lixando para o Português; hoje, estou com este espírito de porco) o direito de ficar na cama, todos os ossos de férias, como se não pudessem obedecer ao chamado do cérebro. É preciso ter coragem. É preciso não se entregar. É preciso se exercitar. É preciso mexer o corpo para que continuemos vivos. Mas dei asas à transgressão. Não tão grave assim. Apenas me deixei ficar. Só não fiquei confortável com a decisão e olhava para o relógio, vez em quando, imaginando cada uma das amigas e amigos, suando a camisa, literalmente, fazendo as acrobacias, subindo as pernas (essas que parecem pesar toneladas quando precisam subir e descer). Sim, hoje transgredi as leis, fui infratora contra meu próprio corpo. Ando meio esquisita. O fato de lançar um livro mexeu um pouco com os meus neurônios. Medo de gastar dinheiro, a época não parece propícia, diante de um governo que só nos achaca de todos os modos. Querem que paguemos o pato por suas falcatruas. Não é justo. Aliás, nada é justo. Preciso me cuidar, cuidar um tantinho da minha aparência. Segundo meu netinho estou velhinha. Ele olhava meus cabelos brancos ( um mês sem tinta), as rugas, mãos envelhecidas e ainda comentou que os dentes estavam amarelos. Em todo o caso, ainda os tenho. Talvez, pelos dois anos de leite materno do qual não abri mão. Cálcio e proteção. Criança tem a franqueza natural que lhes acompanha, antes de serem teleguiados por nós, adultos. O sol brilha forte lá fora. Disso eu gosto e muito. Tem coisas boas acontecendo, sim. Vamos lá, preciso me animar. Comecei um livro ontem, voltei a ler. Isso também é muito bom.
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Medo e preconceito.
Cada vez que ando num ônibus, aproveito para escrever sobre alguém ou mesmo falar de uma situação. Ontem, fui buscar o neto na escola. O ônibus não estava no ponto, mas parado, obedecendo ao sinal de trânsito, fechado. Saia de casa e o edifício em que moro fica na esquina com a rua onde trafegam os ônibus. Olhei para o motorista e fiz sinal mostrando que pretendia entrar. Ele respondeu com outro sinal, autorizando minha entrada. Que bom, pensei. Passei o cartão de idoso, já agradecendo ao motorista. Sentei-me, percebendo que havia quase ninguém. À medida em que apareciam os pontos com paradas, um número grande de pessoas aumentava e o carro ia se enchendo. A maioria, idosos ou crianças saídas das escolas. Um grupo grande delas entrou, acompanhadas por um rapaz que nomeavam "tio". Uma menina maior alcançou um banco, logo atrás do chofer. O "tio" gritou para que se juntasse às outras crianças: -"Vem ficar atrás!" Ela resistia. Todos que entravam preferiam um lugar no fim do ônibus. A saída é localizada bem ao meio do veículo, com largas portas, onde há ainda o "elevador" dos cadeirantes. Logo que entrei, na primeira rua com o "ponto" entrou um homem, mulato, carregando um tipo de canudo de papel, e se desequilibrava pois havia alguns pacotes na outra mão. Sentou-se no banco à frente do meu. E as pessoas continuavam a superlotar o veículo a cada parada. Percebi que ninguém se aventurava a escolher o lugar vago, ao lado do homem com o canudo de papel. Era um dos melhores assentos. Até que entraram duas moças, uma lourinha de cabelo encaracolado, comprido e cheia de bolsas e embrulhos. A primeira, antes dela, preferiu ficar de pé, ao meu lado, ainda que o lugar estivesse vago, ao lado do moço mulato. A lourinha olhou, pensou alguma coisa que nunca vou saber, mas suponho o que seria. Finalmente, sentou-se. Pegou o cabelo comprido e o enrolou, num coque. Ajeitou as trezentas coisas que carregava. Fiquei pensando que, apesar de muitos e muitos anos passados desde que a Princesa Isabel libertou, definitivamente, os escravos negros, ainda o preconceito é um substantivo difícil de ser substituído por outros, como confiança, respeito e coragem. Este último, o que demonstrou a menina loura, ao se sentar ao lado do negro que, de bandido, não tinha nada. Apenas sua cor denotava alguém em quem não se deve confiar. A violência é um fato em nossa cidade e em muitas outras. Mas é muito triste ver um homem do povo sendo discriminado, apenas por não ser branco. E há tantos deles que são verdadeiros bandidos, independente da cor e do cargo que ocupam. Aliás, há um negro, que mereceu a confiança dos americanos, charmoso, bonito e que de branco só tem os cabelos, que já se tornam brancos pela responsabilidade do cargo. No Brasil, há um negro que admiro muito, acho que sabem de quem falo. Pena que se aposentou.Esse assunto daria pano pra manga. Mas paro por aqui.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Uma estranha viagem.
De ônibus, muito cansativa. Viajava acompanhada pela filha. Usava uma blusa de mangas compridas que me deixava com calor. Arregacei as mangas. Chegávamos, finalmente. Avistei a casa da antiga lavadeira e imaginei que iria deixá-la contente com uma visita. Anunciei com entusiasmo: - Vim tomar café com vocês e trouxe pão. Algumas crianças estavam ali, algumas ainda com uniforme escolar. Ela olhou-me apenas. Vi algumas xícaras usadas e peguei uma delas para lavar. Ouvi-a dizer que precisava ir ao médico, no Rio. Estranhei sua forma fria de me receber. Um cachorro grande apareceu na minúscula sala. Não senti medo, apenas uma certa aflição. Já mais tarde, via-me na rua do antigo apartamento, onde mora minha irmã. Avistei a janela onde todos pareciam me esperar. Parecia mais larga. Uma enorme alegria me invadiu. Acenei eufórica, sentindo as dobras das mangas se desfazendo. e logo subia a escada mais parecida com a da casa onde morei, na Av. Fassbender.
Minha avó me seguia, querendo acompanhar meus passos rápidos, o que a deixava cansada. Minha mãe, a primeira a me receber com um afetuoso abraço. Sentia seu corpo que me apertava, matando as saudades. Todos nos esperavam. Cumprimentava-os com calor. Até que percebi meu pai e seu irmão, sentados num canto, em cadeiras tão baixas que se aproximavam do chão. Olhei meu pai com certa culpa. Deveria ter falado com ele primeiro. E me aproximei. Ele tinha uma aparência frágil, a barba por fazer. Eu me abaixei e o envolvi num abraço longo. Daí a pouco não havia mais ninguém no quarto. Dirigi-me até a janela e olhei para fora. Avistei um grupo de casas sendo construídas ao longo do morro pequeno que circunda a cidade. Minha irmã, a segunda na ordem de nascimento, parecia não me ouvir, mudava as estações de um rádio, ignorando minha presença. Saí dali e me deparei com a irmã mais velha. Sentia, fortemente, um desejo de desabafar. Disse para ela, entre soluços e lágrimas que nunca abraçara meu pai antes. Ela chorava também. Aí, acordei.
O relógio despertou, me avisando que era chegada a hora de me arrumar para a ginástica. Levantei-me preguiçosa, fui até a varanda e percebi uma chuva fina. Não haveria aula, com certeza, já que os exercícios são feitos ao ar livre. Voltei para a cama e me aconcheguei. O edredom, ainda quente do meu corpo. Acordei mais tarde com o sonho impregnado em minha memória. Aproveitei para fixa-lo em minhas anotações, como faço agora, antes que ele se dissipasse. Se começasse dizendo que contaria um sonho, ninguém provavelmente, teria lido o que acabo de escrever. Para mim, essa "viagem" ainda que em sonho me fez reviver. Foi como se, de fato, tivesse me encontrado com aquelas pessoas queridas: meus pais, minha avó e meu tio, não menos querido. Que venham outros encontros como aquele...!
Minha avó me seguia, querendo acompanhar meus passos rápidos, o que a deixava cansada. Minha mãe, a primeira a me receber com um afetuoso abraço. Sentia seu corpo que me apertava, matando as saudades. Todos nos esperavam. Cumprimentava-os com calor. Até que percebi meu pai e seu irmão, sentados num canto, em cadeiras tão baixas que se aproximavam do chão. Olhei meu pai com certa culpa. Deveria ter falado com ele primeiro. E me aproximei. Ele tinha uma aparência frágil, a barba por fazer. Eu me abaixei e o envolvi num abraço longo. Daí a pouco não havia mais ninguém no quarto. Dirigi-me até a janela e olhei para fora. Avistei um grupo de casas sendo construídas ao longo do morro pequeno que circunda a cidade. Minha irmã, a segunda na ordem de nascimento, parecia não me ouvir, mudava as estações de um rádio, ignorando minha presença. Saí dali e me deparei com a irmã mais velha. Sentia, fortemente, um desejo de desabafar. Disse para ela, entre soluços e lágrimas que nunca abraçara meu pai antes. Ela chorava também. Aí, acordei.
O relógio despertou, me avisando que era chegada a hora de me arrumar para a ginástica. Levantei-me preguiçosa, fui até a varanda e percebi uma chuva fina. Não haveria aula, com certeza, já que os exercícios são feitos ao ar livre. Voltei para a cama e me aconcheguei. O edredom, ainda quente do meu corpo. Acordei mais tarde com o sonho impregnado em minha memória. Aproveitei para fixa-lo em minhas anotações, como faço agora, antes que ele se dissipasse. Se começasse dizendo que contaria um sonho, ninguém provavelmente, teria lido o que acabo de escrever. Para mim, essa "viagem" ainda que em sonho me fez reviver. Foi como se, de fato, tivesse me encontrado com aquelas pessoas queridas: meus pais, minha avó e meu tio, não menos querido. Que venham outros encontros como aquele...!
sábado, 13 de junho de 2015
Tirando o pé do acelerador.
Aprendi a dirigir por pura obrigação. Necessidade, mesmo. Morava num bairro residencial em que não havia ônibus, a não ser que se andasse muito ou descesse uma escadaria que ia dar na autoestrada, onde os coletivos circulavam. Esta, condição perigosa, além de cansativa. Táxi também seria uma possibilidade muito cara. A dita "Cidade do aço" foi meu lar por uns quinze anos. Meu filho mais novo nasceu lá, entre fumaça de todas as cores e muita, muita poluição. Enganava-me, tentando acreditar que acabaria gostando de lá. Não aconteceu. De bom, tenho as melhores amizades que pude conquistar. Felizmente, apesar dos pesares, nos mudamos pra Niterói, cidade que sempre amei, onde passava férias na casa do avô materno, desde menina e moro hoje. Tive momentos bons e outros nem tanto. Hoje, deixei o carro fora dos meus planos de vida. Detesto dirigir. Acho que se tornou um exercício de verdadeira acrobacia e que só os mais aplicados ao volante conseguem transitar com alguma segurança e sorte. Virou uma guerra de loucos, perambular no trânsito caótico desta e de outras cidades e também nas estradas esburacadas do país, porque nosso suado dinheiro, pelos escorchantes impostos, voou para outras plagas, países vizinhos ( alguns até mais afastados) e que ganharam vantagens enormes, muita grana, que financia obras que deveriam, sim, feitas aqui, para o povo cansado e sofrido do Brasil. A violência, antes, parecia mais distante entretanto tem se alojado em todas as partes. Havia lugares perigosos e que deviam ser evitados. Não é mais assim. Vemos, a todo momento, notícias de assaltos, arrastões, sequestros relâmpagos e todo o tipo de violência contra os cidadãos, em ruas nobres, calmas. Antes, podíamos, com certa tranquilidade, ir ao mercado, dar voltas pelas lojas ou entrar em um banco pra trocar um dinheirinho. Não dá mais. É com muita oração e fé em Deus que saímos com a esperança de voltarmos pra casa. Fico adiando o que preciso fazer, cada vez mais. Ando a pé, na maioria das vezes em que saio. Táxi, só à noite pra levar ou buscar o neto . Ônibus, também costumo me valer deles ( agora, com cartão de idosa, melhor ainda) porque meu netinho acha muita graça em "viajar" nesta condução. Olhamos o mar, os catamarãs passando pela baía, as pessoas caminhando pelo calçadão. Há um artista, meu amigo e professor de pintura, que costuma ficar aí, exibindo seus magníficos quadros, com um chapelão de palha que o protege do sol e sempre com sorriso nos lábios. Meu netinho adora quando, ao passar por ele, grito seu nome e aceno pela janela do ônibus. Tenho, contudo, evitado aglomerações, andar a esmo, contemplando as vitrines. É como fazia, tirando o pé do acelerador e freava o carro ou porque o sinal ficava amarelo, indicando cautela, ou porque alguém mais desavisado atravessava a rua. Tirei de vez o pé do acelerador. Estou na fase de sinal vermelho. Desejo, veementemente, que seja só uma fase, culpa de um governo incompetente. Que seja substituído por cidadãos honestos, decentes e bem intencionados, que empreguem o nosso dinheiro onde deveriam. Ponto morto, é a possibilidade de agora.
terça-feira, 9 de junho de 2015
A sombra.
O dia de azul no céu, estava soberbo. A lua, ainda insistindo em não se esconder, mostrava em brancas pinceladas, sua forma, bem lá no alto, oposta ao sol. Dia claro, bonito. Bom pra tudo, neste outono que anda já pelo meio, e tem esse calor mediano, nem muito quente nem muito frio. Voltei da aula de ginástica, aproveitando o sol, indispensável pra fixar o cálcio, segundo os doutores. De repente, observei a minha sombra no chão... Veio-me, de pronto, a história do Peter Pan, da minha juventude, quando ele se desprendeu de sua sombra e precisou costurá-la na sola dos pés. Porque nos lembramos de coisas assim, não tem explicação. Passei a andar, olhando para a minha sombra que refletia meu corpo, com a bolsa que carregava com alguns apetrechos que levo para a aula. Água, que tomamos num curtíssimo intervalo ( eu aproveito e tomo meu ansiolítico), a chave do apartamento, a capa dos óculos escuros que a médica me aconselhou a usar para diminuir a incidência dos raios solares e claridade que afetam a visão, já prenunciando uma catarata e,ainda, um chapéu verde, com abas (este, raramente uso). Tá chato o que escrevo. Sei que se eu fosse você, não leria essa crônica. São descrições muito particulares e talvez, não interessem a ninguém. Mas, o que vale mesmo, o que quero dizer é sobre a sombra na calçada que me fez pensar. Sou a sombra do que fui. A pressa de chegar em casa era, de fato, uma coisa na qual pensei também. A rotina me esperando, o café a ser feito, o pão congelado que esquento no forninho elétrico ( que não dispenso) e os outros afazeres que vão surgindo, obrigatórios. Os mais inadiáveis como lavar o banheiro e fazer o almoço. Mais tarde, pego meu neto na escola. É a parte boa do dia, apesar da trabalheira que dá. O trabalho é a arma mais eficaz para espantar a tristeza. Não dá pra pensar muito nos problemas, sem que isso me deixe vazia, e o sono e cansaço tomem conta do corpo, como se fossem um sintoma claro de que alguma coisa não vai bem. E volto à sombra. O sol continua lá fora. E eu, dentro do meu reduto. Minha casa, meu refúgio. Como gosto de chegar em casa. Estou ficando a maior parte do tempo assim. As tarefas que mais gosto são as que faço aqui: escrever e ler que se tornou um hábito. Estou sempre catando um livro, a revista semanal e qualquer outra forma de leitura. Sou uma sombra à procura do corpo, do qual se despregou. Sou o Peter Pan, que não gostou de crescer. Sou a eterna sonhadora que rejeita a realidade sonora, violenta. Quero ir para a "Terra do Nunca", onde não haja corrupção, políticos sinistros e safados. E onde o capitão Gancho, perca a luta para os homens decentes que, amotinados, tomam o navio de suas mãos, conduzindo-o para uma rota segura, mais justa. Que não se superlotem os barcos de refugiados, e que caem no mar, procurando inutilmente um lugar onde sejam socorridos. O povo sendo tratado com respeito e conduzido ao seu destino : um lugar ao sol para todos. Cada sombra, atrelada aos pés de cada um, como a do menino que não quis crescer.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Loura burra é puro preconceito.
Acabo de saber que a Maitê Proença vai lançar seu sexto livro. Ela é boa no que faz. É loura, linda e de burra não tem nada. Não tenho todos os livros dela mas o que já li, gostei e muito. Não sou loura, nem linda, mas gosto de escrever. Tenho feito do ato de escrever o que mais me motiva, pra tocar a vida, depois da idade que nos deixa a mercê de tantos incômodos. Gostaria de lançar um livro. Acho que vai sair, sim. Quanto mais leio e escrevo, melhor me sinto e só me ressinto de não ter começado antes. O tempo é um dom precioso e devemos aproveitá-lo ao máximo. Comecei um romance, diferente das crônicas e contos. É uma história de ficção. Mas não é pura ficção, porque as idéias que vão surgindo são meio que uma cópia da vida de alguém, ou da minha própria. Acho mais difícil. Tinha desistido dele ( do romance). Um belo dia, me dei conta de que surgia uma nova idéia onde ilustrava melhor um personagem criado por mim. Achei que a história, que estava parada por falta de inspiração, poderia mudar de rumo. Senti-me animada e continuei a esboçar mais alguns capítulos. Ficou bom, achei, mais interessante. Devo, sim, lançar meu livro de crônicas. Não gosto de estar em evidência. Minha timidez, às vezes me belisca, me lembrando que sou meio bicho do mato. Mas vou me arriscar, sim. Encontrei alguém com competência para me ajudar na edição do livro. Outra pessoa me incentivou muito: minha filha. Aviso aos meus pretensos leitores, se houver a "noite de autógrafos", gostaria, imensamente, de contar com cada um de vocês que me prestigiaram. Não demora muito, presumo. Aviso aos navegantes: pode não ser uma obra de arte, nem de cultura premiada, mas sai do fundo do meu coração. Até lá...!
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Frio, carinho, violência e mal-estar.
Acabei dormindo no sofá, sem banho, nem vi o final do programa na TV, porque o remedinho que tomo me faz "desmaiar" se fico deitada. Isto acontece se paro o trabalho que me encha o tempo e que faz bem. Cansa, mas faz bem. Ontem, costurei uma calça para o neto ( teimo em imitar minha mãe que foi das melhores costureiras) mas ficou meio larga e a bainha precisou ser refeita, tão comprida ficou cada perna. Levei-o de táxi, depois do banho, jantar e muito carinho; ele reclamou um pouco sobre a dor na barriga, e mostrou seu umbigo, explicando que não era vontade de fazer cocô. Ele adora quando esfrego seus pés; é chegado a uma massagem de "vó Neuza". Você quer um chá? Perguntei. De vez em quando, eu tomo- continuei explicando- porque dá um soninho gostoso e melhora a barriguinha. Os japoneses gostam de tomar chá após cada refeição - contei ainda. Ele disse que queria, sim. Fiz um chá de erva-cidreira. Ele tomou às colheradas, já mornas. Gostou tanto que tudo passou.Talvez, esse carinho e atenção estejam faltando na casa dos "menores" que preferem usar faca e matar pessoas inocentes, só porque querem suas bicicletas, seus celulares. O governo de cada cidade é mostrado na televisão ou no Facebook, com roubalheiras, o dinheiro tirado da merenda, do salário dos professores, dos médicos, de tudo enfim. Pagamos caro para nada. Os professores do projeto Gugu ficam meses sem receber. A Prefeitura tem muita grana, ou deveria ter pois os impostos são altíssimos. A importância de manter pessoas idosas saudáveis, com a ajuda de exercícios físicos na praça, na praia, em qualquer que seja o lugar, deveria ser visto com mais responsabilidade, afinal, não é de graça, pagamos pra isso; os impostos escorchantes que se cobra de cada cidadão, daria para se pagar o justo pelo trabalho bonito e útil de cada professor. Ontem, voltando ao assunto, tomei coragem, me levantei do sofá e fui para o banho, antes de dormir, já bem tarde. Banho a gás, a água demora a esquentar e quando esquenta fica excessivamente quente. Regulei com a água fria mas, mesmo assim, ficou quente. Saí o mais rápido que consegui. Mudei o pijama ( adoro meu pijaminha largo) encostado na cadeira e corri para a cama, pra não perder o sono. Mais um remedinho e me cobri. Aí, começou o mal súbito. Sei lá o que foi, acho que a pressão subiu; o fato é que fiquei nervosa, enfraquecida e chamei minha filha, pedindo um copo d'água. E nada de melhorar. Ela costuma me acalmar, " isso não é nada, mãe, fica calma" e continuou: já disse pra não tomar banho tão tarde. Mas a aflição continuava, cada braço parecia mole, sem força. Aos poucos ( demorou) fui me conscientizando que era um pânico exagerado e que ia melhorar, se respirasse fundo e relaxasse. E graças a Jesus, foi o que aconteceu. Só sei que ficar velha é um perigo! Valha-me, Deus!
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Tempo nublado e amor próprio.
Não é a primeira vez que falo que não gosto de tempo frio,muito menos nublado. Amanheceu assim, hoje, segunda-feira. Já dá preguiça só de imaginar. O primeiro dia da semana tem esse poder. Talvez, me transporte a um tempo em que precisava acordar bem cedo: ou era para aulas, quando ainda estudava ou mesmo para pegar a condução que me levava longe, estradas de chão, um olho aberto, outro fechado, tanto era o sono. Essa, devo frisar, a melhor época da minha vida. Hoje, na ginástica, no finzinho da aula, o professor passava para a segunda fase de alongamento, quando devíamos nos abraçar a nós mesmos, cruzando os braços, de modo a alcançar os ombros. Naquele momento, senti-me envolvida por um sentimento forte de amor. E pensei na menina que fui, sofrida pelas dificuldades e inseguranças daquela fase que a inocência nos traz; pensei na adolescente, também não isenta de inseguranças, apesar de ser uma fase bonita, de sonhos; e agora, já idosa, com os problemas que me marcaram vida afora. E pensei: como gosto de mim! Como me solidarizo com essa mulher que, como todos os seres desta Terra, tem suas vitórias e derrotas. Mas nunca, em tempo algum, senti tão forte o amor-próprio, aquele que nos causa admiração, ao mesmo tempo compaixão. Fiquei olhando para o céu nublado, tempo triste, sem o sol, essa estrela bonita que nos dá calor e luz. De novo, agradeci a Deus pelo abraço caloroso que recebia. Eu mesma me abraçando e tendo a mais pura certeza de que me amo muito.
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