quarta-feira, 24 de junho de 2015
Medo e preconceito.
Cada vez que ando num ônibus, aproveito para escrever sobre alguém ou mesmo falar de uma situação. Ontem, fui buscar o neto na escola. O ônibus não estava no ponto, mas parado, obedecendo ao sinal de trânsito, fechado. Saia de casa e o edifício em que moro fica na esquina com a rua onde trafegam os ônibus. Olhei para o motorista e fiz sinal mostrando que pretendia entrar. Ele respondeu com outro sinal, autorizando minha entrada. Que bom, pensei. Passei o cartão de idoso, já agradecendo ao motorista. Sentei-me, percebendo que havia quase ninguém. À medida em que apareciam os pontos com paradas, um número grande de pessoas aumentava e o carro ia se enchendo. A maioria, idosos ou crianças saídas das escolas. Um grupo grande delas entrou, acompanhadas por um rapaz que nomeavam "tio". Uma menina maior alcançou um banco, logo atrás do chofer. O "tio" gritou para que se juntasse às outras crianças: -"Vem ficar atrás!" Ela resistia. Todos que entravam preferiam um lugar no fim do ônibus. A saída é localizada bem ao meio do veículo, com largas portas, onde há ainda o "elevador" dos cadeirantes. Logo que entrei, na primeira rua com o "ponto" entrou um homem, mulato, carregando um tipo de canudo de papel, e se desequilibrava pois havia alguns pacotes na outra mão. Sentou-se no banco à frente do meu. E as pessoas continuavam a superlotar o veículo a cada parada. Percebi que ninguém se aventurava a escolher o lugar vago, ao lado do homem com o canudo de papel. Era um dos melhores assentos. Até que entraram duas moças, uma lourinha de cabelo encaracolado, comprido e cheia de bolsas e embrulhos. A primeira, antes dela, preferiu ficar de pé, ao meu lado, ainda que o lugar estivesse vago, ao lado do moço mulato. A lourinha olhou, pensou alguma coisa que nunca vou saber, mas suponho o que seria. Finalmente, sentou-se. Pegou o cabelo comprido e o enrolou, num coque. Ajeitou as trezentas coisas que carregava. Fiquei pensando que, apesar de muitos e muitos anos passados desde que a Princesa Isabel libertou, definitivamente, os escravos negros, ainda o preconceito é um substantivo difícil de ser substituído por outros, como confiança, respeito e coragem. Este último, o que demonstrou a menina loura, ao se sentar ao lado do negro que, de bandido, não tinha nada. Apenas sua cor denotava alguém em quem não se deve confiar. A violência é um fato em nossa cidade e em muitas outras. Mas é muito triste ver um homem do povo sendo discriminado, apenas por não ser branco. E há tantos deles que são verdadeiros bandidos, independente da cor e do cargo que ocupam. Aliás, há um negro, que mereceu a confiança dos americanos, charmoso, bonito e que de branco só tem os cabelos, que já se tornam brancos pela responsabilidade do cargo. No Brasil, há um negro que admiro muito, acho que sabem de quem falo. Pena que se aposentou.Esse assunto daria pano pra manga. Mas paro por aqui.
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