terça-feira, 9 de junho de 2015

A sombra.

O dia de azul no céu, estava soberbo. A lua, ainda insistindo em não se esconder, mostrava em brancas pinceladas, sua forma, bem lá no alto, oposta ao sol. Dia claro, bonito. Bom pra tudo, neste outono que anda já pelo meio, e tem esse calor mediano, nem muito quente nem muito frio. Voltei da aula de ginástica, aproveitando o sol, indispensável pra fixar o cálcio, segundo os doutores. De repente, observei a minha sombra no chão... Veio-me, de pronto, a história do Peter Pan, da minha juventude, quando ele se desprendeu de sua sombra e precisou costurá-la na sola dos pés. Porque nos lembramos de coisas assim, não tem explicação. Passei a andar, olhando para a minha sombra que refletia meu corpo, com a bolsa que carregava com alguns apetrechos que levo para a aula. Água, que tomamos num curtíssimo intervalo ( eu aproveito e tomo meu ansiolítico), a chave do apartamento, a capa dos óculos escuros que a médica me aconselhou a usar para diminuir a incidência dos raios solares e  claridade que afetam a visão, já prenunciando uma catarata e,ainda, um chapéu verde, com abas (este, raramente uso). Tá chato o que escrevo. Sei que se  eu fosse você, não leria essa crônica. São descrições muito particulares e talvez, não interessem a ninguém. Mas, o que vale mesmo, o que quero dizer é sobre a sombra na calçada que me fez pensar. Sou a sombra do que fui. A pressa de chegar em casa era, de fato, uma coisa na qual  pensei também. A rotina me esperando, o café a ser feito, o pão congelado que esquento no forninho elétrico ( que não dispenso) e os outros afazeres que vão surgindo, obrigatórios. Os mais inadiáveis como lavar o banheiro e fazer o almoço. Mais tarde, pego meu neto na escola. É a parte boa do dia, apesar da trabalheira que dá. O trabalho é a arma mais eficaz para espantar a tristeza. Não dá pra pensar muito nos problemas, sem que isso me deixe vazia, e o sono e cansaço tomem conta do corpo, como se fossem um sintoma claro de que alguma coisa não vai bem. E volto à sombra. O sol continua lá fora. E eu, dentro do meu reduto. Minha casa, meu refúgio. Como gosto de chegar em casa. Estou ficando a maior parte do tempo assim. As tarefas que mais gosto são as que faço aqui: escrever e ler que se tornou um hábito. Estou sempre catando um livro, a revista semanal e qualquer outra forma de leitura. Sou uma sombra à procura do corpo, do qual se despregou. Sou o Peter Pan, que não gostou de crescer. Sou a eterna sonhadora que rejeita a realidade sonora, violenta. Quero ir para a "Terra do Nunca", onde não haja corrupção, políticos sinistros e safados. E onde o capitão Gancho, perca a luta para os homens decentes que, amotinados, tomam o navio de suas mãos, conduzindo-o para uma rota segura, mais justa. Que não se superlotem os barcos de refugiados, e que caem no mar, procurando inutilmente um lugar onde sejam socorridos. O povo sendo tratado com respeito e conduzido ao seu destino : um lugar ao sol para todos. Cada sombra, atrelada aos pés de cada um, como a do menino que não quis crescer.

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