Fui criada num ambiente onde todos apreciavam música. Uma das tias tocava piano. De uma forma ou de outra, o gosto musical era unanimidade. Me encantava a ideia de estudar piano. Regina, minha prima, meio a contragosto aprendeu. Sua mãe não abriu mão: sua filha seria uma pianista. Vinham de vez em quando ao Conservatório de música no Rio de Janeiro para provas e testar os conhecimentos teóricos, e elas conseguiram, minha prima toca piano e sabe muito mesmo. Morávamos no mesmo prédio de três andares.
O riso solto me fazia passar por situações as mais embaraçosas. Às vezes, quando Regina tocava, tia Mariinha cantava, emitindo agudos de uma autentica soprano. Eu segurava pra não rir, ainda que apreciasse enormemente. Vez por outra, meu tio Modesto recebia um jovem cego, o Maurício, de um talento escandaloso que vinha nos deleitar com suas belas canções. Lindo observar suas mãos correndo pelos teclados com a suavidade de um amante apaixonado. Quis aprender também.
Voltando no tempo, ainda na Fassbender. Tanto insisti que minha mãe contratou uma professora de acordeom para nos dar aulas. Vania e eu começamos a estudar. "Música é a arte de manifestar os diversos afetos de nossa alma, mediante o som". Não me esqueço da primeira lição do ABC musical. Tive que decorar. Eu me encantava também, quando nos reuníamos para ouvir o Wandick, o primeiro namoradinho de minha irmã, Teresa. Como tocava bem! Um virtuose. Geralmente, nas férias, quando ele vinha passar uns dias na fazenda São Tomé e se hospedava com meus tios. As duas fazendas, de tão próximas tinham o mesmo nome.
Vania já tocava as primeira valsinhas. Eu tratava de driblar a professora, quando não sabia as lições, o que acontecia sempre. Acho mesmo que só aprendi a primeira frase do livreto, definindo sobre música. Só me lembro de avistar a professora chegando ( já que era nossa vizinha) e eu descendo as escadas da casa na Fassbender, à procura do método musical. Os exercícios de solfejo, um suplicio. Depois de algum tempo, a professora Ivone se mudava para Vitória. Vania continuou os estudos com o professor Sebastião. Não consegui levar adiante o sonho de ser musicista. Limitei-me a me emocionar com a música executada por outros. É uma frustração que me acompanha. Mais tarde, tentaria de novo. Desta vez, o piano. Havia um acanhado conservatório de música na cidade. Alguns professores vinham de Itaperuna, cidade próxima. Resolvi estudar piano. Só que as dificuldades persistiam. Já vivíamos no apartamento, onde aconteceram mudanças que definiriam minha vida. Não podíamos comprar um piano ( caro na época). A situação financeira não ia bem das pernas. Mas meu sonho continuava de pé. Ficou combinado que eu estudaria na casa de uma amiga nossa, mais de Sonia , minha irmã menor. As duas tinham a mesma idade. Nas primeiras lições, o professor me estimulou, dizendo que eu levava jeito. Com certeza, dizia para cada aluno iniciante a título de incentivo. A primeira vez que fui exercitar a escala musical no piano da nossa amiga, foi um desastre. Ela chutava minhas pernas: "- Tire o pé do pedal"! Gritava comigo. Foi a gota d'água. Não resisti à humilhação. Não ia estudar mais. E parei de novo. Quero crer que natural egoísmo de adolescente a atitude da menina do piano emprestado. Nada , além disso, justificaria sua impaciência comigo.
Via assim, cada vez mais distante, o meu desejo de tocar um instrumento. Assim como na dança. Sou uma dançarina medíocre. Sinto desejo premente, uma vontade enorme de dançar, ao ouvir os acordes de uma orquestra, aguçam meus sentidos.
Mais à frente, aparecerei solta nos salões, desfrutando passos da dança, mas sempre tímida, mas menos acanhada, sem impedimentos para me sentir feliz. Isso demorou um tempo enorme.
Passei grande parte da adolescência acompanhada de perto, por uma constante e indesejável timidez. Acabei reprimindo muitos desejos, muitos sonhos. Tenho, como um animal que recebe o fogo em brasa, marcando-o para sempre, uma dívida a ser cobrada. Não diria vingança. Mas libertação, o alvo. Preciso resgatar, ainda que tardiamente a minha vida, mais livre. Não sei quando e se vai acontecer. Dizem que há uma força universal nos capacitando para isto. É preciso seguir acreditando.
Vou ouvir música sempre, porque me acolhe. Porque me faz sonhar. São os sons que me transportam, me fazem caminhar sobre as nuvens, nos campos, sob o céu enluarado e salpicado de estrelas, alcançando os mais altos lugares, sem medo de cair, sem medo de galopar, sem medo de nada. É quando sou livre. Quando me imagino vizinha dos anjos, pairando além das dificuldades. E sonho. Sonho muito. Sonho sempre. É o que me torna viva.
terça-feira, 26 de maio de 2015
A CARTA.
Fiquei sabendo que meu namorado estava com outra pessoa. Isto soava como traição. Recebi esta notícia com um misto de alívio e solução para um problema. Como poderia terminar o namoro com alguém sem um motivo plausível? Deram-me um de bandeja. Imediatamente, escrevi uma carta para ele. Falei do porquê do rompimento. Não procurei averiguar se era realmente verdade. Dei por encerrado do caso. Mais tarde, ele tentou me convencer que tinha sido vítima de fofocas, seriam inverdades e ainda quis saber sobre quem dissera tal calúnia. Nunca revelei. Só muitos e muitos anos depois, isso viria a acontecer. Sei que acumulo muitas histórias a serem contadas, mas importante que seja assim. Houve um baile, daqueles que eu começava a frequentar, com a alegria e entusiasmo naturais da idade. Meu, agora, ex-namorado viera para a festa. Convidou-me para dançar, procurando dar explicações. Não me interessei por nenhuma delas. Não tinha nenhuma intenção nisso. Aliás, todas as atenções se voltavam para outro universo, existia, sim, outro alvo. Não sei se os sentimentos do namorado excluído eram verdadeiros. Nem se ele sofria com o rompimento. Acho que não. Ele também, assim como eu, devia estar descobrindo novos caminhos, novos relacionamentos. Natural que fosse assim. Era apenas um jovem do interior, tendo uma nova visão do mundo. Vinha morar sozinho numa idade em que os hormônios afloram, mais do que nunca, são companhia constante. Também ele se abria para a vida.
Se ele não estava sofrendo com a perda, eu que me preparasse para o que me reservava o que vinha pela frente. Passei a sentir na pele o que é não ser percebida por quem se quer tanto. O meu novo "príncipe" tinha grande familiaridade com as peripécias de um Dom Juan. Com grande decepção, via-o se encantar com todas as mais interessantes mocinhas da cidade e também com as que apareciam nos bailes e festas, vinda de qualquer lugar. Oh, Deus! Como me sentia infeliz. Demorou muito para que as forças universais, ou não sei o quê, se interessassem em nos unir. Mas aconteceu. E não foi um mar de rosas, como deveria. Nosso amor se transformou num Romeu e Julieta do século XX. Virou paixão porque, durante três anos, vivemos um namoro proibido. Havia dois jornais que circulavam na pequena cidade, Bom Jesus. Num deles, o irmão do meu amado fazia uma crônica social da cidade. Nos fins de semana, corríamos para ler as novidades. Sempre acontecia depois de um baile ou mesmo nas domingueiras, promovidas pelo Aero Clube, Tínhamos dançado, naquele fim de semana. Li, com o maior entusiasmo a notinha de poucas linhas, do pretenso cunhado:" - Vi os dois dançando, eu sei do caso". Ele colocou nossos nomes que prefiro omitir por questões óbvias. Recortei e guardei com todo o amor e esperança. Depois disso, ele teve duas namoradas que eram minhas amigas, uma delas, colega de escola. Claro que, na ocasião, me fiz de durona, elas nunca saberiam do meu amor frustrado. Afinal, tinha meu orgulho e muito, muito ferido. Uma delas era a maior amiga de minha irmã, mais velha que eu, além de serem colegas de colégio. Inseparáveis. Mas eu não queria desistir dele. No mais fundo do meu ser, intuição ou não, achava ele seria meu. Não estava errada. O desagradável foi como tudo se deu: uma verdadeira saia justa entre nós. Para minha irmã o vexame de ter a amiga "traída" por mim. Eu desconfortável em fazer o papel não muito bonito. Mas "na guerra o no amor vale tudo", não diz o ditado?
Costumávamos ter o cinema como ponto de referência de encontros. Ficava na praça ao lado da linda igreja matriz, situada no alto de uma escadaria, típico da cidade interiorana. Íamos eu , minhas irmãs e amigas e nos sentávamos, formando um enorme grupo de alegres e espevitadas adolescente. Aninha, a amiga inseparável de minha irmã, estava triste com o término de seu namoro. Eu não podia dizer o mesmo, pensava com alegria e egoísmo naquele rompimento. Podia, finalmente, ser a minha vez. Lembro-me daquela sessão de cinema. Quando as luzes se apagaram para o início do filme, ele, o ex de Aninha, se dirigia a mim, agora, com ares de romance. O egoísmo seria o sentimento de que me acusariam com veemência, com certeza. No entanto, eu, que já guardara por tanto tempo a desilusão de me ver sendo preterida em favor de outras, não me considerava uma vilã traidora. Por que deveria abdicar do meu amor? Para mim sempre fora uma questão de tempo. Não me perguntem porque. Afinal, eu já sofrera calada o suficiente. E quem se importava?
Daí pra frente, minha irmã queria me crucificar e todas as nossas amigas comuns. Eu estava muito feliz para me incomodar. Sentia-me um tanto com a alma no inferno, a bem da verdade. Mas vivi minha história de amor com ele. Quem também não gostou nada, nada foi o meu pai. Passou a nos perseguir com uma tenacidade a toda prova. Não queria sua meiga e angelical filhinha namorando um dos seus companheiros de beber, ali na pracinha. Até porque, sabia de alguns pormenores não tão abonadores, que eu estava longe de imaginar, claro. Para mim, um príncipe, para o meu pai, um sapo. Para ele a minha troca fora um desastre. Devia saber do meu namorico com o rapazinho bom de bola, a quem ele devotava admiração. Seu pupilo no futebol. Um verdadeiro craque em ascensão. Além de tudo, bom rapaz, filho de família de boa cepa. Bom partido, com certeza, o sonho de qualquer futuro sogro. E eu, que decepção, o trocara por alguém tão diferente. O novo escolhido não queria nada com a hora do Brasil, disso eu tinha uma vaga idéia, ou não queria ver. Achava que acabaria trilhando o caminho certo, dentro dos conformes. Trataria de arrumar um emprego, já que não gostava de estudar ou ajudaria o pai na fazenda. E era tão bonito, tão galante e tão alegre!
Passei a perder festas e me privava de tantas coisas por causa daquele amor proibido. Quando o irmão dele se casou com a prima deles, foi uma festa de arromba que marcou a cidade. Imaginava a decoração das mesas porque me contaram: havia velas acesas em recipientes de gelo, com flores e o clube com decoração de mil e uma noites. Eu não fui. Como esta, muitas outras perdi. Tudo em nome do amor. Houve uma vez, aniversário de quinze anos da irmã mais nova dele, a única irmã entre rapazes tão bonitos e charmosos. Fiquei frustrada. Todas as meninas, minhas amigas se arrumando para o grande acontecimento, eu impedida de ir. Meu pai era inflexível. O que só fazia aumentar o nosso sentimento. Os amigos dele ajudavam a burlar a vigilância, nos alertando quando avistavam meu pai. Ficávamos encostados no muro de frente à igreja, conversando, namorando. Durou mais ou menos uns três anos. Houve um tempo em que ele resolveu ir a Brasília. A idéia era trabalhar com um tio, ou parente, que vivia por lá. Fique triste com a ida dele, com sua ausência, mas achava que seria o caminho para abrandar a perseguição de meu pai. Doce ilusão. Não só ele não levou avante a empreitada, como nunca descobri se ele, realmente, fora a trabalho ou a passeio.
Lembro-me de uma noite, quando recebi uma ligação de Brasília. O aparelho de telefone ficava no quarto que eu dividia com a minha irmã. Naquela época, era preciso se gritar ao telefone para se fazer ouvir. Ainda mais uma ligação de tão longe...Brasília! Como eu faria para se ouvida, sem que meu pai percebesse? Coloquei então um cobertor na cabeça e falava com o tom mais baixo que conseguia. São tantas as recordações desse malfadado namoro! Mas considero uma fase maravilhosa, vista de agora. Apesar de suas inconsequências ele parecia me amar e amor sempre faz bem. Uma história bonita...
:
Se ele não estava sofrendo com a perda, eu que me preparasse para o que me reservava o que vinha pela frente. Passei a sentir na pele o que é não ser percebida por quem se quer tanto. O meu novo "príncipe" tinha grande familiaridade com as peripécias de um Dom Juan. Com grande decepção, via-o se encantar com todas as mais interessantes mocinhas da cidade e também com as que apareciam nos bailes e festas, vinda de qualquer lugar. Oh, Deus! Como me sentia infeliz. Demorou muito para que as forças universais, ou não sei o quê, se interessassem em nos unir. Mas aconteceu. E não foi um mar de rosas, como deveria. Nosso amor se transformou num Romeu e Julieta do século XX. Virou paixão porque, durante três anos, vivemos um namoro proibido. Havia dois jornais que circulavam na pequena cidade, Bom Jesus. Num deles, o irmão do meu amado fazia uma crônica social da cidade. Nos fins de semana, corríamos para ler as novidades. Sempre acontecia depois de um baile ou mesmo nas domingueiras, promovidas pelo Aero Clube, Tínhamos dançado, naquele fim de semana. Li, com o maior entusiasmo a notinha de poucas linhas, do pretenso cunhado:" - Vi os dois dançando, eu sei do caso". Ele colocou nossos nomes que prefiro omitir por questões óbvias. Recortei e guardei com todo o amor e esperança. Depois disso, ele teve duas namoradas que eram minhas amigas, uma delas, colega de escola. Claro que, na ocasião, me fiz de durona, elas nunca saberiam do meu amor frustrado. Afinal, tinha meu orgulho e muito, muito ferido. Uma delas era a maior amiga de minha irmã, mais velha que eu, além de serem colegas de colégio. Inseparáveis. Mas eu não queria desistir dele. No mais fundo do meu ser, intuição ou não, achava ele seria meu. Não estava errada. O desagradável foi como tudo se deu: uma verdadeira saia justa entre nós. Para minha irmã o vexame de ter a amiga "traída" por mim. Eu desconfortável em fazer o papel não muito bonito. Mas "na guerra o no amor vale tudo", não diz o ditado?
Costumávamos ter o cinema como ponto de referência de encontros. Ficava na praça ao lado da linda igreja matriz, situada no alto de uma escadaria, típico da cidade interiorana. Íamos eu , minhas irmãs e amigas e nos sentávamos, formando um enorme grupo de alegres e espevitadas adolescente. Aninha, a amiga inseparável de minha irmã, estava triste com o término de seu namoro. Eu não podia dizer o mesmo, pensava com alegria e egoísmo naquele rompimento. Podia, finalmente, ser a minha vez. Lembro-me daquela sessão de cinema. Quando as luzes se apagaram para o início do filme, ele, o ex de Aninha, se dirigia a mim, agora, com ares de romance. O egoísmo seria o sentimento de que me acusariam com veemência, com certeza. No entanto, eu, que já guardara por tanto tempo a desilusão de me ver sendo preterida em favor de outras, não me considerava uma vilã traidora. Por que deveria abdicar do meu amor? Para mim sempre fora uma questão de tempo. Não me perguntem porque. Afinal, eu já sofrera calada o suficiente. E quem se importava?
Daí pra frente, minha irmã queria me crucificar e todas as nossas amigas comuns. Eu estava muito feliz para me incomodar. Sentia-me um tanto com a alma no inferno, a bem da verdade. Mas vivi minha história de amor com ele. Quem também não gostou nada, nada foi o meu pai. Passou a nos perseguir com uma tenacidade a toda prova. Não queria sua meiga e angelical filhinha namorando um dos seus companheiros de beber, ali na pracinha. Até porque, sabia de alguns pormenores não tão abonadores, que eu estava longe de imaginar, claro. Para mim, um príncipe, para o meu pai, um sapo. Para ele a minha troca fora um desastre. Devia saber do meu namorico com o rapazinho bom de bola, a quem ele devotava admiração. Seu pupilo no futebol. Um verdadeiro craque em ascensão. Além de tudo, bom rapaz, filho de família de boa cepa. Bom partido, com certeza, o sonho de qualquer futuro sogro. E eu, que decepção, o trocara por alguém tão diferente. O novo escolhido não queria nada com a hora do Brasil, disso eu tinha uma vaga idéia, ou não queria ver. Achava que acabaria trilhando o caminho certo, dentro dos conformes. Trataria de arrumar um emprego, já que não gostava de estudar ou ajudaria o pai na fazenda. E era tão bonito, tão galante e tão alegre!
Passei a perder festas e me privava de tantas coisas por causa daquele amor proibido. Quando o irmão dele se casou com a prima deles, foi uma festa de arromba que marcou a cidade. Imaginava a decoração das mesas porque me contaram: havia velas acesas em recipientes de gelo, com flores e o clube com decoração de mil e uma noites. Eu não fui. Como esta, muitas outras perdi. Tudo em nome do amor. Houve uma vez, aniversário de quinze anos da irmã mais nova dele, a única irmã entre rapazes tão bonitos e charmosos. Fiquei frustrada. Todas as meninas, minhas amigas se arrumando para o grande acontecimento, eu impedida de ir. Meu pai era inflexível. O que só fazia aumentar o nosso sentimento. Os amigos dele ajudavam a burlar a vigilância, nos alertando quando avistavam meu pai. Ficávamos encostados no muro de frente à igreja, conversando, namorando. Durou mais ou menos uns três anos. Houve um tempo em que ele resolveu ir a Brasília. A idéia era trabalhar com um tio, ou parente, que vivia por lá. Fique triste com a ida dele, com sua ausência, mas achava que seria o caminho para abrandar a perseguição de meu pai. Doce ilusão. Não só ele não levou avante a empreitada, como nunca descobri se ele, realmente, fora a trabalho ou a passeio.
Lembro-me de uma noite, quando recebi uma ligação de Brasília. O aparelho de telefone ficava no quarto que eu dividia com a minha irmã. Naquela época, era preciso se gritar ao telefone para se fazer ouvir. Ainda mais uma ligação de tão longe...Brasília! Como eu faria para se ouvida, sem que meu pai percebesse? Coloquei então um cobertor na cabeça e falava com o tom mais baixo que conseguia. São tantas as recordações desse malfadado namoro! Mas considero uma fase maravilhosa, vista de agora. Apesar de suas inconsequências ele parecia me amar e amor sempre faz bem. Uma história bonita...
:
domingo, 24 de maio de 2015
O lugar onde nasci.
Na fazenda do meu avô existia um lugar especial: um córrego, vindo do meio da mata passava por um tipo de valeta, estreita e cimentada. Ficava bem próximo à casa grande da fazenda, no alto de um morrinho, separado da estrada por uma cerca com porteira e que podia ser visto de qualquer das inúmeras janelas da casa. Bicano - esse o nome dado ao retângulo, também cimentado, raso, talvez uns quarenta ou cinquenta centímetros de profundidade, bem raso mesmo e que recebia a água do córrego. Dali, um novo afunilamento levava a mesma água por um seguimento suspenso, acho, de madeira, não estou certa disso, que passava por cima da estradinha de terra, pedras e cascalhos, caminho esse que também levava à entrada da casa. Aí, mais outra porteira e uma subida íngreme onde grandes pedras eram colocadas, formando desenho desordenado, algumas já cobertas de musgo: para que os carros não derrapassem, penso eu. Havia ainda um enorme terreiro de pedras onde se lavava o café que era derriçado para secar. Um rodo espalhava os grãos, formando leiras. Uma roda d´'agua feita, de ferro, estava em constante movimento pela força da água que jorrava, fazendo-a girar. Antes de cair na grande roda, a água passava pelo dito bicano. Ali, quando nos permitiam, tomávamos banho sob o sol. Às vezes,andávamos a esmo pelas estradinhas sinuosas e estreitas - com alegria desmedida eu, meus irmãos e primos, desbravando aquelas terras e matas. Com certeza, algum adulto nos acompanhava. Era um prazer andar descalços, ainda que provocasse algum desconforto, pisar nos pedregulhos dos caminhos. Usual aparecerem nas árvores do pomar, em frente à varanda da fazenda alguns macacos. Um balanço de ferro, pintado de branco e algumas cadeiras eram testemunhas mudas do encontro das enormes lagartixas que andavam pelo teto, barrigas cheias e insetos, principalmente à noite. Incrível mesmo era a destreza com que os macaquinhos, saídos das pequenas florestas, quebravam ovos ou descascavam bananas que lhes eram oferecidos, espetáculo a que assistíamos maravilhados. A casa parecia estar sempre em festa com o constante ir e vir de pessoas, algumas visitantes de outras fazendas vizinhas, além dos muitos empregados, sem contarmos a grande família que se reunia por qualquer motivo. Lembro-me de um quarto cheio de armários, portas pintadas de azul onde se guardavam roscas, pães caseiros, brevidades, doces em compota e todo o tipo de iguarias. No quarto dos avós, havia um altar, onde se faziam orações, algumas imagens de Nossa Senhora, panos de linho bordados e algumas velas. As janelas davam para uma horta imensa, onde todo tipo e legumes e folhas podiam ser colhidos. O pé de figo que ficava atrás da cozinha, tinha um cheiro peculiar que me transporta a uma época tão distante e tão mágica: minha infância.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Teatro, casamento e a descoberta do amor.
Na mesma ninhada aparecem filhotes diferentes. Minhas irmãs e eu além do único irmão, não fugimos à regra. "Os dedos das mãos não são iguais". Cada um com personalidade própria e comportamento totalmente diversos. Uns com afinidades maiores entre si. Acho que eu e meu irmão somos os mais parecidos. Gostamos de rir, de música, de uma boa piada, enfim, temos bom humor. Fáceis de conviver, eu diria. Já das outras três irmãs não posso dizer o mesmo. Mandonas? Talvez, arbitrárias? Um tantinho. Paro por aqui. Rotular pessoas é feio. E as qualidades?Todos as temos , claro. Chavão verdadeiro. A irmã mais velha se casou muito cedo. Quero relembrar sua história. Vou tentar ser justa, isenta o mais que puder.
Teresa, seu nome. Bem diferente da santa, cultuada pela Santa Madre Igreja. Também não era nenhum anjo mau.
Desde a época da São Tomé, já demonstrava sua vocação para comandar o espetáculo. Era a queridinha da vovó Doninha, mãe de meu pai. Na época dos nossos famosos teatros, ela tomava a frente nos ensaios. Lembro-me bem dela, se irritando comigo porque, quando eu cantava Chiquita Bacana, mais parecia uma gata miando. "Canta"! Dizia ela nervosa. Havia entre ela e minha irmã, que veio logo depois dela, uma animosidade latente. Não sei se ciúme natural, quando outra criança vem destronar a que já reinava. Ambas eram crianças bonitas, engraçadinhas, diferentes de mim, que nasci bem feiosa, sem grandes atrativos e, talvez, desilusão para os pais que, a essas alturas esperavam nascesse um menino.
Quando nos mudamos para Bom Jesus, meu pai decidiu que Teresa viria estudar em Niterói. Então, veio morar com a avó materna, criatura inteligente, falava francês e escrevia contos para uma revista, mas era doente. Vivia com crises depressivas. Naquela época, as pessoas não eram tratadas com psicólogos, não recorriam à terapia, como hoje. Simplesmente eram tachadas de loucas. Meu avô trabalhava com venda de ouro, era viajante. Tinha uma situação privilegiada. Entretanto com os tratamentos caros e internações de minha avó, acabou desgastado financeiramente. Difícil conviver com a doença dela, minha avó. Quando vínhamos de férias, havia sempre a preocupação de não melindrá-la com nossa presença.
Minha irmã adolescente, e, além da idade, o agravante de ser meio atirada, precoce e mimada. Teve grandes atritos com meu tio Paulo que, ainda solteiro, morava com meus avós. Teresa passou a usar aparelho para acertar os dentes desalinhados, numa época em que era muitíssimo caro esse tipo de tratamento. Não demorou muito e ela voltava para nossa casa, em Bom Jesus, desistindo dos estudos. Lembro-me dela arrancando o corretivo de dentes com uma tesourinha de cortar unhas. Não tinha medida nos seus desejos. Nossa casa vivia cheia de suas amigas. Eu adorava ficar vendo-as se aprontarem para os bailes, festas e encontros com os namorados. Eram avançadas para os valores de então minha irmã e suas companheiras. Foi quando apareceu na vida dela um rapaz bem mais velho. Teresa que mantinha um namorico de infância com o Wandick - aquele do acordeom - de repente, se desencantou e se entregou a uma paixão louca pelo Haroldo, que viria a ser seu marido, mais cedo do que seria desejável. Ficou grávida e, por isso, se casou.
Seu casamento teve um almoço sob o pé de jambo, mangueiras e todas aquelas árvores do pomar que rodeava nossa bonita casa. Eu, ainda muito menina, não tinha muita noção do que se passava. Só sei que não me conformava por ela ter trocado aquele moço bonito, jovem e que, por mal dos pecados, tocava lindamente o acordeom.
Teresa teve seu primeiro filho em nossa casa. Moravam com a gente. Haroldo deixara seu emprego no Banco do Comércio. Não tinha muito juízo meu cunhado. Costumava frequentar a rinha de galos. O casamento dos dois virou um inferno. Meu sobrinho chegou para me encher de orgulho, mal podia acreditar que aquele bebezinho estava ali. Eu podia pegá-lo, tomar conta dele. Tinha treze anos nessa época. Um dia, subindo as escadas com ele ao colo, me desequilibrei e caímos. Ele não se machucou, consegui segurá-lo a tempo mas passei o dia cheia de remorsos, culpada.
A madrinha dele era a minha querida Zé. Já falei dela, criatura querida, amiga e que trabalhava em nossa casa.
Teresa teve mais duas filhas. A última, quando ela e o marido já partiam para uma inevitável separação. Depois de anos de uma união catastrófica. Foi quando se deu a tragédia. Haroldo veio ao Rio para o casamento do irmão mais novo. Meu sobrinho adolescente o acompanhava. Nesse dia, Haroldo morreu. Rompeu-se um aneurisma em seu cérebro e ele, com trinta e poucos anos nos deixou. Senti muito sua morte, gostava dele. Apesar de suas desavenças com minha irmã, sempre foi um cunhado carinhoso.
Teresa viu-se livre de um casamento fracassado e ainda muito jovem decidiu recuperar o tempo perdido, de juventude desperdiçada. De repente, aconteceu alguém importante em sua vida e ela, de novo se casou. Desta vez, o novo marido, bem mais jovem que ela. Mais comentários. Mais fofocas. Não vai dar certo... prenunciavam as más línguas. Erraram, felizmente. Estão juntos até hoje.
Vejo-me numa idade linda, quando tudo isso acontecia, desabrochando para os mais ternos sentimentos. Sonhos de menina-moça, começando a se alojarem, preenchendo o coraçãozinho virgem, se abrindo para o amor. E ele, esse sentimento forte, inexplicável, sem controle, tomou conta de mim. Passei a viver para ele. Sabia onde e quando encontra-lo. Quantas vezes espreitava-o, descendo do ônibus que o trazia, junto com outros rapazes, colegas do curso que frequentavam na vizinha cidade, do outro lado da ponte que fazia divisa com o outro estado. Escondia-me atrás da janela, no segundo andar da casa, tipo bay -window ,de frente para a rua. Ao lado, as mangueiras que minha segunda irmã gostava tanto de escalar. Ele descia na esquina, com seu uniforme que se compunha de calça cinza, com um vivo azul-marinho do lado e camisa branca de mangas compridas. Aos domingos, na missa, olhava-o com o rabo de olho, ele, encostado na parede, junto à pia batismal, ao fundo da igreja. Não havia nenhum outro mais bonito. Jogava futebol, treinado por meu pai. Precoce, juntava-se aos melhores e maiores, escolhidos por meu pai, porque já jogava um bolão. E eu o admirava mais e mais. Passeávamos na pracinha; os rapazes andando do lado contrário ao das moças, o que ocasionava flertes e encontros. A cada volta, um olhar furtivo, tímido, encantado. Nada mais bonito, nada mais romântico.
Teresa, seu nome. Bem diferente da santa, cultuada pela Santa Madre Igreja. Também não era nenhum anjo mau.
Desde a época da São Tomé, já demonstrava sua vocação para comandar o espetáculo. Era a queridinha da vovó Doninha, mãe de meu pai. Na época dos nossos famosos teatros, ela tomava a frente nos ensaios. Lembro-me bem dela, se irritando comigo porque, quando eu cantava Chiquita Bacana, mais parecia uma gata miando. "Canta"! Dizia ela nervosa. Havia entre ela e minha irmã, que veio logo depois dela, uma animosidade latente. Não sei se ciúme natural, quando outra criança vem destronar a que já reinava. Ambas eram crianças bonitas, engraçadinhas, diferentes de mim, que nasci bem feiosa, sem grandes atrativos e, talvez, desilusão para os pais que, a essas alturas esperavam nascesse um menino.
Quando nos mudamos para Bom Jesus, meu pai decidiu que Teresa viria estudar em Niterói. Então, veio morar com a avó materna, criatura inteligente, falava francês e escrevia contos para uma revista, mas era doente. Vivia com crises depressivas. Naquela época, as pessoas não eram tratadas com psicólogos, não recorriam à terapia, como hoje. Simplesmente eram tachadas de loucas. Meu avô trabalhava com venda de ouro, era viajante. Tinha uma situação privilegiada. Entretanto com os tratamentos caros e internações de minha avó, acabou desgastado financeiramente. Difícil conviver com a doença dela, minha avó. Quando vínhamos de férias, havia sempre a preocupação de não melindrá-la com nossa presença.
Minha irmã adolescente, e, além da idade, o agravante de ser meio atirada, precoce e mimada. Teve grandes atritos com meu tio Paulo que, ainda solteiro, morava com meus avós. Teresa passou a usar aparelho para acertar os dentes desalinhados, numa época em que era muitíssimo caro esse tipo de tratamento. Não demorou muito e ela voltava para nossa casa, em Bom Jesus, desistindo dos estudos. Lembro-me dela arrancando o corretivo de dentes com uma tesourinha de cortar unhas. Não tinha medida nos seus desejos. Nossa casa vivia cheia de suas amigas. Eu adorava ficar vendo-as se aprontarem para os bailes, festas e encontros com os namorados. Eram avançadas para os valores de então minha irmã e suas companheiras. Foi quando apareceu na vida dela um rapaz bem mais velho. Teresa que mantinha um namorico de infância com o Wandick - aquele do acordeom - de repente, se desencantou e se entregou a uma paixão louca pelo Haroldo, que viria a ser seu marido, mais cedo do que seria desejável. Ficou grávida e, por isso, se casou.
Seu casamento teve um almoço sob o pé de jambo, mangueiras e todas aquelas árvores do pomar que rodeava nossa bonita casa. Eu, ainda muito menina, não tinha muita noção do que se passava. Só sei que não me conformava por ela ter trocado aquele moço bonito, jovem e que, por mal dos pecados, tocava lindamente o acordeom.
Teresa teve seu primeiro filho em nossa casa. Moravam com a gente. Haroldo deixara seu emprego no Banco do Comércio. Não tinha muito juízo meu cunhado. Costumava frequentar a rinha de galos. O casamento dos dois virou um inferno. Meu sobrinho chegou para me encher de orgulho, mal podia acreditar que aquele bebezinho estava ali. Eu podia pegá-lo, tomar conta dele. Tinha treze anos nessa época. Um dia, subindo as escadas com ele ao colo, me desequilibrei e caímos. Ele não se machucou, consegui segurá-lo a tempo mas passei o dia cheia de remorsos, culpada.
A madrinha dele era a minha querida Zé. Já falei dela, criatura querida, amiga e que trabalhava em nossa casa.
Teresa teve mais duas filhas. A última, quando ela e o marido já partiam para uma inevitável separação. Depois de anos de uma união catastrófica. Foi quando se deu a tragédia. Haroldo veio ao Rio para o casamento do irmão mais novo. Meu sobrinho adolescente o acompanhava. Nesse dia, Haroldo morreu. Rompeu-se um aneurisma em seu cérebro e ele, com trinta e poucos anos nos deixou. Senti muito sua morte, gostava dele. Apesar de suas desavenças com minha irmã, sempre foi um cunhado carinhoso.
Teresa viu-se livre de um casamento fracassado e ainda muito jovem decidiu recuperar o tempo perdido, de juventude desperdiçada. De repente, aconteceu alguém importante em sua vida e ela, de novo se casou. Desta vez, o novo marido, bem mais jovem que ela. Mais comentários. Mais fofocas. Não vai dar certo... prenunciavam as más línguas. Erraram, felizmente. Estão juntos até hoje.
Vejo-me numa idade linda, quando tudo isso acontecia, desabrochando para os mais ternos sentimentos. Sonhos de menina-moça, começando a se alojarem, preenchendo o coraçãozinho virgem, se abrindo para o amor. E ele, esse sentimento forte, inexplicável, sem controle, tomou conta de mim. Passei a viver para ele. Sabia onde e quando encontra-lo. Quantas vezes espreitava-o, descendo do ônibus que o trazia, junto com outros rapazes, colegas do curso que frequentavam na vizinha cidade, do outro lado da ponte que fazia divisa com o outro estado. Escondia-me atrás da janela, no segundo andar da casa, tipo bay -window ,de frente para a rua. Ao lado, as mangueiras que minha segunda irmã gostava tanto de escalar. Ele descia na esquina, com seu uniforme que se compunha de calça cinza, com um vivo azul-marinho do lado e camisa branca de mangas compridas. Aos domingos, na missa, olhava-o com o rabo de olho, ele, encostado na parede, junto à pia batismal, ao fundo da igreja. Não havia nenhum outro mais bonito. Jogava futebol, treinado por meu pai. Precoce, juntava-se aos melhores e maiores, escolhidos por meu pai, porque já jogava um bolão. E eu o admirava mais e mais. Passeávamos na pracinha; os rapazes andando do lado contrário ao das moças, o que ocasionava flertes e encontros. A cada volta, um olhar furtivo, tímido, encantado. Nada mais bonito, nada mais romântico.
terça-feira, 12 de maio de 2015
Crianças da São Tomé.
Ainda menina, gostava imensamente, quando íamos à fazenda de meu avô. Ficava animada com a possibilidade de pegar no colo o meu primo pequenino. Disputava com minha irmã: "quem vai primeiro, par ou ímpar?
Uma vez, fui na carroceria da caminhonete do meu pai. O sol forte. Eu comendo pedaços de marmelada. Quando chegamos, senti-me tonta. Levantava e caía. Acho, a única vez, um provável desmaio. Insolação, com certeza.
Inevitável fazer comparações. O tempo rendia mais. As pessoas eram mais próximas, se importavam mais ou seria locubrações fantasiosas? As pessoas são as mesmas. Os valores, talvez, não.
Crianças ricas, crianças pobres. Diferenças gritantes. Lembro-me de uma delas, não sei se menino ou menina. Visão que nunca pude esquecer. Saiam de suas narinas vermes, como talharim, descendo pelo rostinho já sem vida. Filha de Joãozinho e Mariquinha aquela criancinha. E a resignação estampada no rosto da mãe, sem lamentos, sem gritos. Só aceitação. Fomos eu e meus irmãos acostumados a olhar a realidade de frente, sem subterfúgios. Olhar a morte. Não se escondia de nós esses fatos da vida. Em algumas famílias, crianças são poupadas de histórias como esta.
Penso ainda no Ruy ( de quem já falei de uma outra vez), menino pobre que morreu afogado no açude atrás da casa de seu Cosme, pai de Joãozinho, ambos colonos do meu pai. Todos eles de uma fidelidade à toda prova. Viam meu pai com bons olhos. E tinham razão porque era um homem bom, cheio de cuidados com os mais humildes.
A dois quilômetros de nossa fazenda, morava o irmão de meu pai, tio Modesto. Ele e tia Mariinha tiveram três filhos, se não contarmos a que nasceu morta, gêmea da Regina que, se vingasse, teria se chamado Célia, dizia minha tia. Ouvíamos contar como havia acontecido o parto. A parteira, dona Otília, mulher alta, magra e que tinha um enorme papo, glândula endócrina que crescera desordenadamente. Na falta do médico era a quem recorriam. Aconselhava à parturiente que soprasse na boca de uma garrafa e dizia também que colocasse um chapéu do marido na cabeça. Crendices... Só que o fato de se fazer alguém soprar, na hora de ter um filho, tem uma certa lógica: é a força devida para que a criança venha a nascer. Mas e o chapéu? Para isso, suponho não haja explicação. Depois das gêmeas, vieram mais dois meninos. Todos nós fomos criados muito unidos. Estudávamos na mesma escola, situada ao lado de nossa casa. Os meus primos vinham a cavalo, todos os dias. Assim como alguns vizinhos, filhos de fazendeiros, sitiantes, a maioria deles amigos do meu pai. Muitas vezes, era convidada a ir à casa deles na garupa do cavalo. Passaria a noite na casa de minha prima. Até aí, tudo bem. Mas o meu problema começava na hora de ir dormir. Estava sempre preocupada com um problema que persistiu por quase toda minha infância: amanheceria seca ou molhada? Um suplicio a dúvida. Acabava com o prazer de estar com os primos, numa idade em que essa convivência nos traz um enorme prazer. Havia na fazendo do tio Modesto um moinho de onde tentaram, certa vez, coordenar força elétrica para que nossas casas passassem a ter luz. Utilizávamos lampiões a querosene ou o Aladim, cuja luminosidade parecia nossas lâmpadas fluorescentes atuais. Consistia numa tênue rede branca, emergindo de um liquido, aceso por fósforo. Mais ou menos assim. Não sei explicar bem. A tentativa de eletricidade não deu certo. O volume de água, talvez não tivesse sido suficiente para alimentar energia para as duas casas. O fato é que ficamos sem luz. O telefone era elementar. Através da telefonista ou ao toque de uma manivela. De acordo com a quantidade de voltas, alguém era conectado. Incrível o nível de desenvolvimento atual, se compararmos com as geringonças usadas naquela época.
Quase chegando à casa de meu tio, havia uma pequena venda. a primeira Coca-Cola que tomei ali, temperatura ambiente, quero dizer, praticamente morna, fez-me desgostar do tal refrigerante, oferecido por meu pai. Até hoje, não sinto nenhum prazer, degustando Coca-Cola. E, como uma coisa puxa a outra, lembrei-me de como se mantinham os picolés. Costumavam acontecer jogos de futebol. O campo ficava num terreno plano, abaixo de onde estava plantada nossa casa. Aos domingos, vinham da região e formavam-se times para a disputa. Era animado. Em caixas contendo pó de serra, eram guardados os picolés, vendidos para a plateia que se formava para assistir as partidas de futebol. Dia de festa, de pastéis, de rapadura, de cocada, pé de moleque e, para os homens, cachaça.
Naquele mesmo campo, via meu pai tentando ensinar minha mãe a dirigir. Não obtiveram grandes progressos, minha mãe não se interessou muito. Meu pai sempre aparecia com carros novos. Do mesmo jeito que os comprava, cheio de animação, passava-os à frente para comprar mais um e mais outro, depois.
Quando a necessidade nos fez ir para a cidade, meu pai, que era advogado, passou a fazer inventários. Mas não era sempre que morriam fazendeiros ricos. Tinha constante preocupação em como ele poderia ganhar dinheiro. Havia dívidas a pagar. Emprestar dinheiro e receber alguns juros. Acontecia às vezes e numa dessas, ele perdeu muito. Levou um tremendo calote. Ajudava aos amigos necessitados, caridoso que era. Não media esforços para socorrer alguém.
Minha mãe tinha muitas habilidades costurava como ninguém. Foi ela que fez o meu vestido azul para a formatura do curso ginasial. Fiquei bonita com ele. Todo pregueado e de alças e para arrematar, um bolero com mangas três quartos. Meu pai e eu seríamos os primeiros da fila a entrar, para que eu recebesse o diploma de quarta série ginasial, enrolado em fino canudo de camurça. Antes, tentei negociar com Minha colega e grande amiga Joana Lúcia, éramos inseparáveis. Menina bonita, loura, cabelos lisos e bem mais alta que eu. Eram elegantes ela e sua irmã mais velha, Maria Áurea. Quando a moda mal havia chegado, elas já estavam usando os últimos lançamentos. Pedi a ela, encarecidamente, que passasse á minha frente, ela e seu pai. Tinha medo de me expor, medo de tropeçar. Fui a primeira mesmo, ela não atendeu aos meus apelos. Entrei sentindo o rosto em brasas. E lá fomos nós, eu e meu pai, apostando qual dos dois era o mais tímido, em direção ao palco do único cinema da cidade, onde aconteceu a festa de entrega do suado diploma e que, inúmeras vezes, serviu de auditório para artistas, cantoras e cantores famosos. Entretanto tinha impressão de que alguma coisa seria diferente, a partir de então, como se o fato de ter alcançado essa vitória fosse um marco em minha vida. De certa forma era verdade. Começava a perceber que tudo seria possível. Não mais a menininha insegura, a "Maria mijona". Caminhava, desafiando os medos; assim, atravessei o corredor da enorme sala de cinema com galhardia. Eu, também alguém importante, tal como os artistas que se apresentaram naquele espaço. As cantoras do rádio, de quem eu era fã, admiradora. Diferente de quando atuávamos no teatro que fazíamos na Fazenda São Tomé. Agora, não mais vestia uma fantasia . Sentia-me vitoriosa, bem vestida, bonita, equilibrando-me no pequeno salto de menina-moça e abrindo caminho para a vida que se me oferecia, rica em ilusões e povoada de sonhos. E fui feliz naquele dia.
Uma vez, fui na carroceria da caminhonete do meu pai. O sol forte. Eu comendo pedaços de marmelada. Quando chegamos, senti-me tonta. Levantava e caía. Acho, a única vez, um provável desmaio. Insolação, com certeza.
Inevitável fazer comparações. O tempo rendia mais. As pessoas eram mais próximas, se importavam mais ou seria locubrações fantasiosas? As pessoas são as mesmas. Os valores, talvez, não.
Crianças ricas, crianças pobres. Diferenças gritantes. Lembro-me de uma delas, não sei se menino ou menina. Visão que nunca pude esquecer. Saiam de suas narinas vermes, como talharim, descendo pelo rostinho já sem vida. Filha de Joãozinho e Mariquinha aquela criancinha. E a resignação estampada no rosto da mãe, sem lamentos, sem gritos. Só aceitação. Fomos eu e meus irmãos acostumados a olhar a realidade de frente, sem subterfúgios. Olhar a morte. Não se escondia de nós esses fatos da vida. Em algumas famílias, crianças são poupadas de histórias como esta.
Penso ainda no Ruy ( de quem já falei de uma outra vez), menino pobre que morreu afogado no açude atrás da casa de seu Cosme, pai de Joãozinho, ambos colonos do meu pai. Todos eles de uma fidelidade à toda prova. Viam meu pai com bons olhos. E tinham razão porque era um homem bom, cheio de cuidados com os mais humildes.
A dois quilômetros de nossa fazenda, morava o irmão de meu pai, tio Modesto. Ele e tia Mariinha tiveram três filhos, se não contarmos a que nasceu morta, gêmea da Regina que, se vingasse, teria se chamado Célia, dizia minha tia. Ouvíamos contar como havia acontecido o parto. A parteira, dona Otília, mulher alta, magra e que tinha um enorme papo, glândula endócrina que crescera desordenadamente. Na falta do médico era a quem recorriam. Aconselhava à parturiente que soprasse na boca de uma garrafa e dizia também que colocasse um chapéu do marido na cabeça. Crendices... Só que o fato de se fazer alguém soprar, na hora de ter um filho, tem uma certa lógica: é a força devida para que a criança venha a nascer. Mas e o chapéu? Para isso, suponho não haja explicação. Depois das gêmeas, vieram mais dois meninos. Todos nós fomos criados muito unidos. Estudávamos na mesma escola, situada ao lado de nossa casa. Os meus primos vinham a cavalo, todos os dias. Assim como alguns vizinhos, filhos de fazendeiros, sitiantes, a maioria deles amigos do meu pai. Muitas vezes, era convidada a ir à casa deles na garupa do cavalo. Passaria a noite na casa de minha prima. Até aí, tudo bem. Mas o meu problema começava na hora de ir dormir. Estava sempre preocupada com um problema que persistiu por quase toda minha infância: amanheceria seca ou molhada? Um suplicio a dúvida. Acabava com o prazer de estar com os primos, numa idade em que essa convivência nos traz um enorme prazer. Havia na fazendo do tio Modesto um moinho de onde tentaram, certa vez, coordenar força elétrica para que nossas casas passassem a ter luz. Utilizávamos lampiões a querosene ou o Aladim, cuja luminosidade parecia nossas lâmpadas fluorescentes atuais. Consistia numa tênue rede branca, emergindo de um liquido, aceso por fósforo. Mais ou menos assim. Não sei explicar bem. A tentativa de eletricidade não deu certo. O volume de água, talvez não tivesse sido suficiente para alimentar energia para as duas casas. O fato é que ficamos sem luz. O telefone era elementar. Através da telefonista ou ao toque de uma manivela. De acordo com a quantidade de voltas, alguém era conectado. Incrível o nível de desenvolvimento atual, se compararmos com as geringonças usadas naquela época.
Quase chegando à casa de meu tio, havia uma pequena venda. a primeira Coca-Cola que tomei ali, temperatura ambiente, quero dizer, praticamente morna, fez-me desgostar do tal refrigerante, oferecido por meu pai. Até hoje, não sinto nenhum prazer, degustando Coca-Cola. E, como uma coisa puxa a outra, lembrei-me de como se mantinham os picolés. Costumavam acontecer jogos de futebol. O campo ficava num terreno plano, abaixo de onde estava plantada nossa casa. Aos domingos, vinham da região e formavam-se times para a disputa. Era animado. Em caixas contendo pó de serra, eram guardados os picolés, vendidos para a plateia que se formava para assistir as partidas de futebol. Dia de festa, de pastéis, de rapadura, de cocada, pé de moleque e, para os homens, cachaça.
Naquele mesmo campo, via meu pai tentando ensinar minha mãe a dirigir. Não obtiveram grandes progressos, minha mãe não se interessou muito. Meu pai sempre aparecia com carros novos. Do mesmo jeito que os comprava, cheio de animação, passava-os à frente para comprar mais um e mais outro, depois.
Quando a necessidade nos fez ir para a cidade, meu pai, que era advogado, passou a fazer inventários. Mas não era sempre que morriam fazendeiros ricos. Tinha constante preocupação em como ele poderia ganhar dinheiro. Havia dívidas a pagar. Emprestar dinheiro e receber alguns juros. Acontecia às vezes e numa dessas, ele perdeu muito. Levou um tremendo calote. Ajudava aos amigos necessitados, caridoso que era. Não media esforços para socorrer alguém.
Minha mãe tinha muitas habilidades costurava como ninguém. Foi ela que fez o meu vestido azul para a formatura do curso ginasial. Fiquei bonita com ele. Todo pregueado e de alças e para arrematar, um bolero com mangas três quartos. Meu pai e eu seríamos os primeiros da fila a entrar, para que eu recebesse o diploma de quarta série ginasial, enrolado em fino canudo de camurça. Antes, tentei negociar com Minha colega e grande amiga Joana Lúcia, éramos inseparáveis. Menina bonita, loura, cabelos lisos e bem mais alta que eu. Eram elegantes ela e sua irmã mais velha, Maria Áurea. Quando a moda mal havia chegado, elas já estavam usando os últimos lançamentos. Pedi a ela, encarecidamente, que passasse á minha frente, ela e seu pai. Tinha medo de me expor, medo de tropeçar. Fui a primeira mesmo, ela não atendeu aos meus apelos. Entrei sentindo o rosto em brasas. E lá fomos nós, eu e meu pai, apostando qual dos dois era o mais tímido, em direção ao palco do único cinema da cidade, onde aconteceu a festa de entrega do suado diploma e que, inúmeras vezes, serviu de auditório para artistas, cantoras e cantores famosos. Entretanto tinha impressão de que alguma coisa seria diferente, a partir de então, como se o fato de ter alcançado essa vitória fosse um marco em minha vida. De certa forma era verdade. Começava a perceber que tudo seria possível. Não mais a menininha insegura, a "Maria mijona". Caminhava, desafiando os medos; assim, atravessei o corredor da enorme sala de cinema com galhardia. Eu, também alguém importante, tal como os artistas que se apresentaram naquele espaço. As cantoras do rádio, de quem eu era fã, admiradora. Diferente de quando atuávamos no teatro que fazíamos na Fazenda São Tomé. Agora, não mais vestia uma fantasia . Sentia-me vitoriosa, bem vestida, bonita, equilibrando-me no pequeno salto de menina-moça e abrindo caminho para a vida que se me oferecia, rica em ilusões e povoada de sonhos. E fui feliz naquele dia.
domingo, 10 de maio de 2015
Destinos - parte dois.
Somos cinco irmãos. Por último, falava da irmã que, ainda muito criança, teve um incidente, quando quase engoliu soda cáustica, confundindo com açúcar. Felizmente, salva a tempo. Ela hoje, mora em Honduras. Tem fama. É uma grande pintora, dentro de um país pobre mas que, como qualquer lugar, valoriza as artes. Ela tem reportagens em jornais, que volta e meia manda para nós. Faz tempo se casou com um rapaz que conheceu quando ele estudava na PUC, na Gávea. Era amigo das filhas de minha tia Diva, que morava em frente à Universidade Católica. Minha irmã só depois de alguns anos de casada foi mãe. Naquela época, Sonia costumava passar férias em casa da irmã de minha mãe, tia Diva. Ela e o segundo marido viviam em extremo conforto. Frequentavam ela e o marido a mais alta roda da sociedade carioca. Tinham vida de rico. Nas poucas vezes em que os visitei, sentia-me sobrando. Parecia que todos falavam outra língua, tal o nível das conversas. Eram moças estudadas, frequentavam os melhores colégios e exalavam cultura por todos os poros. Eu, jovenzinha do interior, pouco havia estudado, nada além do curso de professora. Na verdade, eram esnobes aquelas garotas. A casa em que viviam fora projetada e construída pelo arquiteto famoso, casado com miha tia. Ela, mulher bonita, olhos azuis, cabelos louros, mais parecendo uma inglesa, com seu tipo físico de causar inveja. Cada filho (eram quatro do marido e uma filha, a única de minha tia) tinha um quarto para si. As empregadas da casa, portuguesas legítimas, de uniforme e tudo, bem diferentes da nossa Zé, pessoa simples e empregada em nossa casa. Eu não estava acostumada a tanto luxo e sofisticação. Já minha irmã, Sonia, tinha trânsito livre entre as meninas ricas, enteadas de minha tia. Minha irmã, atirada, desinibida não devia ter nenhum complexo em relação aos outros jovens, tanto que se tornou amiga íntima de todos eles. E ia, sempre, passar dias com aquela família elegante. Havia também um menino naquela família. Digo havia porque, hoje, só uma delas sobrevive. Todos os outros se foram muito precocemente. Entre as moças, Ana Maria, a única filha de minha tia, minha prima, era artista, desenhava bem, apesar de ter tido a infelicidade de viver presa a uma cadeira de rodas, consequência da paralisia infantil da qual fora vítima. Minha tia assumiu a educação dos filhos do segundo marido, o menino quase de colo, sendo o mais novo. Separada do marido ainda muito jovem, naquela época, um escândalo. Ainda mais, se casar de novo. Ficou mal vista, principalmente, entre os componentes da família do meu pai, gente do interior, muito arraigada a valores outros.
Quando me casei, algum tempo depois, tia Diva deu-me de presente um tecido riquíssimo, shantung de seda, presente de casamento para a confecção do meu vestido de noiva, costurado por minha mãe. Fomos a Copacabana para compra-lo eu, minha mãe e ela. Hospedei-me na casa da tia rica.
Na hora do lanche, vinham aquelas empregadas uniformizadas, sotaque português, servir-nos sorvete, com biscoitos, em bandejas, tudo muito chique. Eu, com medo de cometer gafes, nem sabia como me comportar. Falava pouco. Dava graças a Deus, quando voltávamos da casa deles. Não era ingratidão. Cafonice mesmo. Lembro-me de uma vez, quando fui convidada por tia Diva para a casa de campo deles em Petrópolis. Eu devia ter meus dez, doze anos, não sei. Devo primeiro dizer do enjôo que senti durante a viagem: as curvas me nausearam e me deixaram com o mal estar que sempre costumava sentir em viagens. E eu, com vergonha de contar para minha tia. Ela carinhosa comigo, tentou me distrair, levando-me a uma praça de patinação. Eu que nunca tinha visto um rinque de patinação, me estabacava a cada tentativa de me manter em pé, sobre os patins. Mas confesso que adorei aquilo. Foi a parte boa. Depois ela me emprestou um maiô xadrezinho, com babados nas beiradas, de sua filha Lourdes, que regulava com minha idade. Me senti muito bonita, só que morta de frio, quando entrei na piscina gelada dos amigos de minha tia.
Como já disse, minha irmã, Sonia, transitava livremente, entre eles. Ali, conheceu seu marido, Gustavo, hondurenho, que estudava no Brasil. Diga-se de passagem, um gênio da Física Quântica, rapaz inteligente e bonitão. Tem muita coisa a ser dita sobre minha irmã, a Sonia. Chegaremos lá.
Quando me casei, algum tempo depois, tia Diva deu-me de presente um tecido riquíssimo, shantung de seda, presente de casamento para a confecção do meu vestido de noiva, costurado por minha mãe. Fomos a Copacabana para compra-lo eu, minha mãe e ela. Hospedei-me na casa da tia rica.
Na hora do lanche, vinham aquelas empregadas uniformizadas, sotaque português, servir-nos sorvete, com biscoitos, em bandejas, tudo muito chique. Eu, com medo de cometer gafes, nem sabia como me comportar. Falava pouco. Dava graças a Deus, quando voltávamos da casa deles. Não era ingratidão. Cafonice mesmo. Lembro-me de uma vez, quando fui convidada por tia Diva para a casa de campo deles em Petrópolis. Eu devia ter meus dez, doze anos, não sei. Devo primeiro dizer do enjôo que senti durante a viagem: as curvas me nausearam e me deixaram com o mal estar que sempre costumava sentir em viagens. E eu, com vergonha de contar para minha tia. Ela carinhosa comigo, tentou me distrair, levando-me a uma praça de patinação. Eu que nunca tinha visto um rinque de patinação, me estabacava a cada tentativa de me manter em pé, sobre os patins. Mas confesso que adorei aquilo. Foi a parte boa. Depois ela me emprestou um maiô xadrezinho, com babados nas beiradas, de sua filha Lourdes, que regulava com minha idade. Me senti muito bonita, só que morta de frio, quando entrei na piscina gelada dos amigos de minha tia.
Como já disse, minha irmã, Sonia, transitava livremente, entre eles. Ali, conheceu seu marido, Gustavo, hondurenho, que estudava no Brasil. Diga-se de passagem, um gênio da Física Quântica, rapaz inteligente e bonitão. Tem muita coisa a ser dita sobre minha irmã, a Sonia. Chegaremos lá.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Destinos.
Quatro irmãs. Quatro histórias. Da mais velha fiz um leve esboço de suas venturas e desventuras. Já falei também um pouco da segunda: gênio irascível, meio embirrada. Tinham um apelido comum, ela e nossa prima, Regina, aquela que era o anjo da procissão: Galinha choca ( o apelido) - invocadas que eram as duas. Quando brigávamos, costumávamos espicaçá-la com outro apelido: Olho de boi. Isto porque ela ameaçava com seus olhos grandes, ao enfurecer-se. Era brava nos dois sentidos: também, quando me refiro à intrepidez de suas cavalgadas sobre o lombo dos cavalos ou, quando subia nas frondosas e altas mangueiras que rodeavam nossa casa. Achava-a corajosa, ainda mais, quando me comparava a ela: eu, tímida e medrosa não era dada a esse tipo de aventuras. Do que eu gostava mesmo era desenhar. Mais à frente, falo disso e da influência que tive sobre a irmã menor, de quem conto algumas histórias. Hoje, ela é uma talentosa pintora em Honduras. Mais tarde falarei disso também. Ela, a última da fila de quatro porque depois veio o Chico, esperado varão. Sonia era pequena, tipo "mignon", a menor de nós todas. Não que fossemos altas. Pelo contrário. Herdamos do pai a baixa estatura. Valorizávamos cada centímetro a mais, encostando o ombro uma na outra para medir a "enorme" diferença - dois ou três - na fita métrica. Meu pai aparentava ser bem mais baixo que a minha mãe, apesar de terem a mesma altura: com saltos e cabelos penteados, bem encorpados, ela crescia ao seu lado. Mas eu falava da irmã menor. Seu apelido foi debitado à tia Hercília, uma das irmãs do meu pai dentre numerosa prole - eram dez . Então. Ela apelidou minha pequenina irmã de Sodinha. Já explico: tivemos uma empregada que ficou muitos anos trabalhando na fazenda São Tomé. Norvinda, seu nome. Num dia qualquer, ela providenciava a limpeza da casa, a desinfecção do banheiro, do chão da cozinha: enfim, tratava de deixar bem limpa, arrumada a nossa casa. Minha mãe e meu pai estavam ausentes: tinham ido a Bom Jesus. Sonia, mal saída das fraldas, confundiu o produto de limpeza, talvez pensando ser açúcar. Descuido da empregada que o deixara, displicentemente, largado ao chão, dentro de uma latinha. Não era açúcar, com certeza. Era soda cáustica. Minha irmãzinha levou-o à boca. Lembro-me da correria, da professora saindo alvoroçada da escola, pegada à nossa casa, os empregados, todos uma tentativa de acudir a criança. Sua boca miúda sangrava, enquanto alguém retirava o produto danoso, que, felizmente, ela não engoliu. Minha tia Hercília, carinhosamente, passou a chama-la de "Sodinha" e o apelido pegou.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
No espaço sideral.
O mundo deu voltas e numa delas eu despenquei! Parece que estou no espaço sideral, Não posso fazer nada para retornar...Sinto-me assim. As possibilidades me são negadas. Penso tanto em tomar atitudes, em dizer as coisas, gritar, mas sei que nada adiantaria. Parece que ficou emperrada a máquina da vida. Estou desistindo do meu livro. Foi pretensão achar que seria capaz de editar um livro. Que as pessoas fossem me ler.
Tenho lido horrores. É a única coisa que me mantém, que me distrai. Quanto mais leio, mais me dou conta de quanto tempo perdi. Quanta informação, quanta coisa não sabida. Encontro-me meio anestesiada diante do que vem acontecendo. Amargo derrotas e decepções, que parecem não ter fim. Antes, havia todo tipo de situações mas tinham um tempo, davam trégua. Não como hoje. É avassalador. O gigante do ódio vem com suas manoplas me massacrando. Quer me roubar as boas intenções. Quer me mostrar que não vale a pena ser gentil, ser solidária, ser melhor. O que é isso? Não vou me deixar vencer ainda. Já sei que ditar normas de conduta e ser o mocinho bonzinho da história não atrai ninguém. Não chama leitores. O mal impregnado em nós é real. Incluo-me nessa fauna dita humana. Como lidar com um corpo que ainda anseia, que tem desejos e sonhos? Como quebrar, dobrar esses sentimentos que me acometem constantemente. Ficam buzinando nos meus ouvidos.
Uma reunião de mulheres inteligentes, cultas, vencedoras - via pela televisão. Costumo acompanhar as opiniões, me inteirando do mundo moderno. Da visão feminista e também feminina, por que não? A maioria delas se vangloriando dos muitos machos, dos muitos casos, homens que passaram por suas vidas. Como os homens fazem em relação às mulheres. Não me enquadrava naquela situação. Não as reprovava, pelo contrário, mas não me sentia capaz de ser como elas. A lógica aponta direitos iguais. É justo. Mas não é a minha praia. Incluo amor num relacionamento. Sexo, importante, sim, fundamental mas o amor não pode ser excluído, não por mim.
Quando falo de desistir do livro, não é inteiramente verdadeiro. Não quero que seja. Lá no fundo, há uma senhora sentada, esperando outra decisão. Às vezes, se deita, pra não cansar. Ela se veste de verde. Espreitando meu pensar, duvidando das minhas falas porque sabe que é imortal. Ela é insistente, melhor persistente. Sou sua amiga, apesar de chata. Mas é companheira. Aguenta mau-humor, falta de idéias, falta de tesão. Quem sabe vai me acudir, dando uma corda para eu me agarrar...do espaço sideral, consigo visualizar, ainda que distante, a pontinha dela, balançando na vastidão escura do meu quebrantamento. Senhor do meu destino - parece título de novela. Queria acreditar quando penso que posso mudar as coisas. Seja positiva, Seu desejo vai ser atendido. O "gênio da lâmpada" vem me socorrer, aliado às forças universais. Somos únicos, podemos comandar com a força do nosso pensamento. Cansei de ler e de me esforçar. Não é no seu tempo, dizem. Quando então? Fico apreensiva pensando no tempo. É um inimigo. Porque não posso acompanhá-lo. Não com a pressa que ele tem. Não espera ninguém. Passa o bastão com cara debochada, com um esgar cínico dos vencedores. "Peraí,sô"! Pensa que consigo manter o seu ritmo? Afinal sou uma senhora! " Mas não está morta"! Grita ela para mim. Que confusão! De quem você está falando, do tempo ou da senhora de verde? Dela, claro! Aquela que me acena, com um sorriso fraco, mas constante, com uma expressão suave no rosto , sempre benevolente, sempre carinhosa. Deve ser parente próxima da Utopia. Mas ela é quem de dá alento, nas piores horas. Muitas pessoas são batizadas com o nome dela. Homenagem, vocês já descobriram de quem falo? Acertou quem soletrou bem devagar, juntou as sílabas e gritou: ES-PE-RAN-ÇA!!!
Tenho lido horrores. É a única coisa que me mantém, que me distrai. Quanto mais leio, mais me dou conta de quanto tempo perdi. Quanta informação, quanta coisa não sabida. Encontro-me meio anestesiada diante do que vem acontecendo. Amargo derrotas e decepções, que parecem não ter fim. Antes, havia todo tipo de situações mas tinham um tempo, davam trégua. Não como hoje. É avassalador. O gigante do ódio vem com suas manoplas me massacrando. Quer me roubar as boas intenções. Quer me mostrar que não vale a pena ser gentil, ser solidária, ser melhor. O que é isso? Não vou me deixar vencer ainda. Já sei que ditar normas de conduta e ser o mocinho bonzinho da história não atrai ninguém. Não chama leitores. O mal impregnado em nós é real. Incluo-me nessa fauna dita humana. Como lidar com um corpo que ainda anseia, que tem desejos e sonhos? Como quebrar, dobrar esses sentimentos que me acometem constantemente. Ficam buzinando nos meus ouvidos.
Uma reunião de mulheres inteligentes, cultas, vencedoras - via pela televisão. Costumo acompanhar as opiniões, me inteirando do mundo moderno. Da visão feminista e também feminina, por que não? A maioria delas se vangloriando dos muitos machos, dos muitos casos, homens que passaram por suas vidas. Como os homens fazem em relação às mulheres. Não me enquadrava naquela situação. Não as reprovava, pelo contrário, mas não me sentia capaz de ser como elas. A lógica aponta direitos iguais. É justo. Mas não é a minha praia. Incluo amor num relacionamento. Sexo, importante, sim, fundamental mas o amor não pode ser excluído, não por mim.
Quando falo de desistir do livro, não é inteiramente verdadeiro. Não quero que seja. Lá no fundo, há uma senhora sentada, esperando outra decisão. Às vezes, se deita, pra não cansar. Ela se veste de verde. Espreitando meu pensar, duvidando das minhas falas porque sabe que é imortal. Ela é insistente, melhor persistente. Sou sua amiga, apesar de chata. Mas é companheira. Aguenta mau-humor, falta de idéias, falta de tesão. Quem sabe vai me acudir, dando uma corda para eu me agarrar...do espaço sideral, consigo visualizar, ainda que distante, a pontinha dela, balançando na vastidão escura do meu quebrantamento. Senhor do meu destino - parece título de novela. Queria acreditar quando penso que posso mudar as coisas. Seja positiva, Seu desejo vai ser atendido. O "gênio da lâmpada" vem me socorrer, aliado às forças universais. Somos únicos, podemos comandar com a força do nosso pensamento. Cansei de ler e de me esforçar. Não é no seu tempo, dizem. Quando então? Fico apreensiva pensando no tempo. É um inimigo. Porque não posso acompanhá-lo. Não com a pressa que ele tem. Não espera ninguém. Passa o bastão com cara debochada, com um esgar cínico dos vencedores. "Peraí,sô"! Pensa que consigo manter o seu ritmo? Afinal sou uma senhora! " Mas não está morta"! Grita ela para mim. Que confusão! De quem você está falando, do tempo ou da senhora de verde? Dela, claro! Aquela que me acena, com um sorriso fraco, mas constante, com uma expressão suave no rosto , sempre benevolente, sempre carinhosa. Deve ser parente próxima da Utopia. Mas ela é quem de dá alento, nas piores horas. Muitas pessoas são batizadas com o nome dela. Homenagem, vocês já descobriram de quem falo? Acertou quem soletrou bem devagar, juntou as sílabas e gritou: ES-PE-RAN-ÇA!!!
A fazenda das Areias e a de São Tomé.
Nasci na fazenda do meu avô. Depois, nos mudamos para a fazenda São Tomé. Não me lembro bem quando foi. Só sei que, da minha infância, as lembranças mais fortes são onde vivi, das primeiras letras aprendidas na escola, das tabuadas, contas de somar, de dividir de 2 números...
Foi a escola que serviu de sede para nossos teatros. Usávamos a mesa da professora como palco e os dois longos bancos de madeira para separar-nos, as "artistas", da plateia que era acomodada nas carteiras. Confeccionávamos nossas fantasias e roupas, enfeitadas com lantejoulas e babados. Minha avó, Doninha, selecionava pessoas do lugarejo, próximo da fazenda das Areias e enchia um ônibus para nos assistir. Junto a elas, latas de sonhos, balas e outras delícias que eram distribuídas entre os convidados. Esperávamos ansiosas pelas férias, quando as primas que viviam da cidade vinham para participar do teatro. Uma alegria sem tamanho.
Minha irmã mais velha, já com ares de mocinha, era cobiçada pelo primeiro namorado, o Wandick, filho de médico, rapazinho bonito, alto e, ainda por cima, tocava acordeon. Uma maravilha. Ele costumava se hospedar na fazenda do meu tio Modesto, afastada da nossa uns poucos quilômetros.
Íamos, às vezes, jogar baralho na casa deles. Minha prima, Regina, tinha uma boneca linda, vestida de noiva. Em comparação com a minha pequena Fifi - nome que dei à minha bonequinha de borracha - era uma verdadeira rainha. Boneca de louça, bem feita. Minha preocupação maior era quando nos aproximávamos da casa e o Jagunço, cachorro vira-lata, vinha nos pular, fazendo festa. Tinha muito medo que ele me mordesse e me escondia atrás de quem estivesse mais próximo para me acudir. A proximidade com animais sempre me causou medo, ainda que convivesse entre eles. Não era capaz de segurar nem mesmo uma galinha, se fosse preciso. Teresa, a irmã mais velha, tinha uma vaca, a Pratinha e um cavalo com o nome de Preto. Minha outra irmã, a que teve seus cabelos incendiados por mim na procissão, ganhara um bezerrinho do seu padrinho. E eu, por que tanto medo dos animais? Não sei.
Quando chovia, o pequeno córrego que atravessava nossa fazenda, enchia, transbordando. Era um verdadeira aventura o que fazíamos: colocávamos umas tábuas na entrada das manilhas, um pouco à frente da ponte e dali saltávamos, aproveitando a profundidade maior. Não sei como ninguém quebrou o pescoço, pois eram saltos de cabeça. Deus olhava.
Neste mesmo córrego, morreu um menino, o Ruy. Afogou-se no açude, atrás da casa de seu Cosme, um dos colonos, pai da Alice, Judite, Joãozinho, Dario. Não sei se me lembrei de todos os filhos. Eram muitos, disso me lembro.
Minha avó, mãe de meu pai, vinha nos visitar, morava na fazenda das Areias, onde nasci. Numa dessas vezes, não me esqueço, minha vó Doninha fazendo curativo na perna da Alice, negra bonita, alta , de dentes brancos perfeitos. Ela levara um tombo e seu joelho se abrira até o osso. Sentia enorme gastura vendo-a tratar da moça. Minha avó era valente, brava. Diziam que andava com um pequeno revólver prateado, na bolsa. Não sei se foi verdade ou imaginação de criança.
Sempre gostei de ler e de ouvir histórias. Havia uma estante na sala da avó, que continha um pequeno livro de capa dura, cor de vinho. Adorava quando minha tia Irma se dispunha a lê-lo para nós. A Pituchinha, o Polichinelo, o Pompom eram personagens inesquecíveis: quando iam roubar doces, a lata caia-lhes em cima, lambuzando-os de doce de leite e eles eram surpreendidos. Sentia a mesma aflição toda vez que ouvia isso.
Coisa alegres, coisas tristes. Memórias infantis. Sonhos, desejos, tudo fundido numa história só.
Foi a escola que serviu de sede para nossos teatros. Usávamos a mesa da professora como palco e os dois longos bancos de madeira para separar-nos, as "artistas", da plateia que era acomodada nas carteiras. Confeccionávamos nossas fantasias e roupas, enfeitadas com lantejoulas e babados. Minha avó, Doninha, selecionava pessoas do lugarejo, próximo da fazenda das Areias e enchia um ônibus para nos assistir. Junto a elas, latas de sonhos, balas e outras delícias que eram distribuídas entre os convidados. Esperávamos ansiosas pelas férias, quando as primas que viviam da cidade vinham para participar do teatro. Uma alegria sem tamanho.
Minha irmã mais velha, já com ares de mocinha, era cobiçada pelo primeiro namorado, o Wandick, filho de médico, rapazinho bonito, alto e, ainda por cima, tocava acordeon. Uma maravilha. Ele costumava se hospedar na fazenda do meu tio Modesto, afastada da nossa uns poucos quilômetros.
Íamos, às vezes, jogar baralho na casa deles. Minha prima, Regina, tinha uma boneca linda, vestida de noiva. Em comparação com a minha pequena Fifi - nome que dei à minha bonequinha de borracha - era uma verdadeira rainha. Boneca de louça, bem feita. Minha preocupação maior era quando nos aproximávamos da casa e o Jagunço, cachorro vira-lata, vinha nos pular, fazendo festa. Tinha muito medo que ele me mordesse e me escondia atrás de quem estivesse mais próximo para me acudir. A proximidade com animais sempre me causou medo, ainda que convivesse entre eles. Não era capaz de segurar nem mesmo uma galinha, se fosse preciso. Teresa, a irmã mais velha, tinha uma vaca, a Pratinha e um cavalo com o nome de Preto. Minha outra irmã, a que teve seus cabelos incendiados por mim na procissão, ganhara um bezerrinho do seu padrinho. E eu, por que tanto medo dos animais? Não sei.
Quando chovia, o pequeno córrego que atravessava nossa fazenda, enchia, transbordando. Era um verdadeira aventura o que fazíamos: colocávamos umas tábuas na entrada das manilhas, um pouco à frente da ponte e dali saltávamos, aproveitando a profundidade maior. Não sei como ninguém quebrou o pescoço, pois eram saltos de cabeça. Deus olhava.
Neste mesmo córrego, morreu um menino, o Ruy. Afogou-se no açude, atrás da casa de seu Cosme, um dos colonos, pai da Alice, Judite, Joãozinho, Dario. Não sei se me lembrei de todos os filhos. Eram muitos, disso me lembro.
Minha avó, mãe de meu pai, vinha nos visitar, morava na fazenda das Areias, onde nasci. Numa dessas vezes, não me esqueço, minha vó Doninha fazendo curativo na perna da Alice, negra bonita, alta , de dentes brancos perfeitos. Ela levara um tombo e seu joelho se abrira até o osso. Sentia enorme gastura vendo-a tratar da moça. Minha avó era valente, brava. Diziam que andava com um pequeno revólver prateado, na bolsa. Não sei se foi verdade ou imaginação de criança.
Sempre gostei de ler e de ouvir histórias. Havia uma estante na sala da avó, que continha um pequeno livro de capa dura, cor de vinho. Adorava quando minha tia Irma se dispunha a lê-lo para nós. A Pituchinha, o Polichinelo, o Pompom eram personagens inesquecíveis: quando iam roubar doces, a lata caia-lhes em cima, lambuzando-os de doce de leite e eles eram surpreendidos. Sentia a mesma aflição toda vez que ouvia isso.
Coisa alegres, coisas tristes. Memórias infantis. Sonhos, desejos, tudo fundido numa história só.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
FÉRIAS DE JULHO.
Penso com imensa saudade nas férias, quando a cidade, situada num vale, quente o ano todo, começava a se preparar para receber um pouco do inverno. Além de tudo, a Festa de Agosto já se prenunciava. Era quando os rapazes vinham de Niterói, do Rio, aqueles netos e filhos de pessoas abastadas que iam estudar num centro maior, com melhores chances, em faculdades que não existiam por lá. O prefeito da cidade era avô de alguns desses moços. Eram cinco ou seis. Todos muito bonitos, de uma ninhada bem sucedida. Eu, do terraço de minha casa na Fassbender, olhava-os passar, juntos com o pai, advogado famoso em Niterói e amigo do meu pai. Menina-moça me encantava ao vê-los, principalmente, os dois mais velhos. Um era alto, bonito, com aqueles dentes brancos que sorriam para mim, de modo especial. Eu achava muita areia para meu caminhãozinho. O mais novo, era mais baixo, lindo, moreno, parecia a Antônio Banderas, dos filmes de hoje. Nos bailes eles se insinuavam para mim e costumavam dançar comigo. Eu ficava em dúvida entre os dois,ambos me impressionavam. Tímida me limitava a sorrir para eles, pouco falava. Havia também as chamadas "brincadeiras", reuniões promovidas na casa de quem tivesse uma "electrola" que tocasse os sucessos de Ray Coniff ou Metais em Brasas, Bert Kaempfert e tantos mais...Tempos de ouro para mim. Foi um sonho que soube desfrutar. Não sabia que aquela seria a melhor fase de minha vida. Sou nostálgica, sim. Se pudesse, voltaria no tempo, como nos filmes onde máquinas nos reportassem a outras eras. Os rapazes bebiam muito, mas não havia a profusão de drogas, de alucinógenos, como hoje. Bom Jesus ainda é lugar de muita bebida. A distração maior é se frequentar bares. Antigamente, alguns se sobressaíam na cultura. Dois governadores saíram de lá. Havia um grande poeta, Sr. Athos Fernandes. Muitos políticos também, alguns perseguidos na Repressão, época da Ditadura. Eu não prestava atenção a isso. Queria mais era dançar e namorar, como a maioria das meninas da minha idade. Depois de cada baile, nos reuníamos, sentadas no muro da casa de minha tia, ou em frente, na mureta do meu edifício. E o rebuliço e fofoca comiam soltos. Meu primo, muito festeiro, costumava nos tirar para dançar ao perceber que éramos ameaçadas com um "chá de cadeira". Assim como os amigos o faziam. Geralmente, não acontecia, sem nenhuma modéstia, costumava ser bem requisitada para uma rodada nos salões. Sempre fomos muito unidas eu e Vania, minha irmã. Íamos juntas ao cinema, passear na praça e aos bailes, sempre acompanhadas de grande número de amigas. Eram domingueiras inesquecíveis no único clube da cidade, o Aero Clube. Minha irmã era muito bonita, mas tinha um gênio forte e achava os moços da cidade vizinha mais interessantes que os da nossa. Eu, não. Tive alguns flertes com os vizinhos mas nada sério.
DESEJO E REPRESSÃO.
Não era usual que moças da minha época não se casassem virgens. Aconteciam os namoros mais avançados, das maiores intimidades, mãos dentro do sutiã, outras, mais afoitas, dentro das calcinhas. Mas, ainda assim, virgens. A hipocrisia reinava. Eu e minhas amigas, nos deliciávamos contando com detalhes o que acontecera nos encontros com os namorados, as conversas. Ouvíamos pacientemente para que fôssemos ouvidas também, entre risinhos, contanto que não passassem de beijos, mãos entrelaçadas, principalmente as conversas, o que diziam um para o outro e nos aconselhávamos como verdadeiras psicólogas ou conselheiras sentimentais. Como era bom... Mas a censura vinha natural, se o namoro atingia um estágio mais avançado. As coisas mudaram muito rapidamente. Parece que o encanto acabou. Tudo é permitido. Casava-se virgem mas não totalmente. A pureza há muito deixara de existir e era difícil contar ao padre , no confessionário, das intimidades com o noivo.
Uma vez, passamos uns dias na praia, em Marataíses. Fomos eu e minha prima Regina para a casa do tio Chico, irmão do meu pai. As primas nos receberam carinhosamente, não se importando em nos emprestar alguns shorts ou blusas, já que o convite fora feito de última hora, quando nosso tio, passando por Bom Jesus ( ele morava em Itaperuna) nos convidou e fomos sem nenhuma bagagem maior. De outra vez, fomos com toda a família. Lembro-me da tia Mariinha cozinhando feijão e de quando a panela de pressão explodiu, sujando todas as paredes. Felizmente, ninguém se feriu. Houve um dia pouco antes do previsto, aconteceu outro problema e a sala se inundou. Apesar de tudo, dias agradáveis, alto-falantes tocavam Roberto Carlos, que estava no auge. Nessa época, conheci um rapaz muito interessante, na praia. Parecia mais velho do que os meus namoradinhos de Bom Jesus. Mas era muito bonito, tinha uma barba negra, alto, um homem charmoso. Não foi propriamente um namorado. Por que estou falando disso? Encantei-me com ele. Uma dia, andávamos pela areia, poucas pessoas na praia; em dado momento, ele me abraçou, me beijou. Senti um volume em seu short de banho. Aquilo me deixou confusa e culpada. Nunca contei a ninguém. O fato é que o rapaz deve ter percebido minha inexperiência pois se afastou delicadamente; andamos em direção à nossa casa de praia. Nunca mais o vi.
Muita reviravolta, muitos namoros terminados e reatados. Muitos flertes aconteciam e namoros para compensar um amor perdido. Aconteceu comigo. Eu e meu antigo namorado ( aquele que meu pai proibira) fizemos uma nova tentativa. Nada mais era igual. Eu ressentida com o fora que levara do meu namorado, meu professor de português. Às vésperas do Reveillon, com desculpa esfarrapada ele não queria ir ao baile. Acabamos brigando. No dia seguinte, soube que ele já namorava outra aluna, em Itaperuna, onde era professor também. Reagi, indo ao baile onde reencontrei meu "Romeu" de outrora. Dançamos toda a noite. Nos dias seguintes, esboçamos uma reaproximação. Não deu certo. Uma noite, ele me levou em casa e nos despedíamos na escada. Meu pai, não sabíamos se estaria disposto a nos ver de novo juntos, daí tivemos o cuidado de não ficar em evidência. Percebi que ele estava diferente, logo achou um jeito de ir embora, depois de me abraçar e de um prolongado beijo. Apesar de ter uma imagem não muito boa diante do meu pai, ele sempre foi respeitoso comigo. Devo dizer que ninguém me beijou como ele. Tínhamos uma perfeita sintonia, talvez amor. Era romântico. Só que ele não perdoara o fato de eu ter namorado o professor, que também teve um namoro com a irmã dele. Há coisas que ficam gravadas: a roupa que eu usava era um vestido marrom escuro, de tecido aveludado, que fazia realçar meu corpo. Era justo, marcando a cintura com uma faixa. Eu usava os cabelos compridos, lisos. Devia estar bonita. Como o rapaz de Marataíses, acho ele teve o cuidado de não me magoar com uma cena onde o sexo parecia latente. Entretanto, ele se foi. Deixou-me curiosa, sem compreender o que se passava. Depois disso, nada mais deu certo e nos afastamos. Ele passou a me evitar, era visível. Mais uma decepção. Ele agora se insinuava para uma de minhas amigas, rica, bonita e loura. Uma vez, nunca me esqueci, ele comentou que eu era "fósforo queimado". Me casei virgem. O "fósforo" fora riscado, não queimado.
Uma vez, passamos uns dias na praia, em Marataíses. Fomos eu e minha prima Regina para a casa do tio Chico, irmão do meu pai. As primas nos receberam carinhosamente, não se importando em nos emprestar alguns shorts ou blusas, já que o convite fora feito de última hora, quando nosso tio, passando por Bom Jesus ( ele morava em Itaperuna) nos convidou e fomos sem nenhuma bagagem maior. De outra vez, fomos com toda a família. Lembro-me da tia Mariinha cozinhando feijão e de quando a panela de pressão explodiu, sujando todas as paredes. Felizmente, ninguém se feriu. Houve um dia pouco antes do previsto, aconteceu outro problema e a sala se inundou. Apesar de tudo, dias agradáveis, alto-falantes tocavam Roberto Carlos, que estava no auge. Nessa época, conheci um rapaz muito interessante, na praia. Parecia mais velho do que os meus namoradinhos de Bom Jesus. Mas era muito bonito, tinha uma barba negra, alto, um homem charmoso. Não foi propriamente um namorado. Por que estou falando disso? Encantei-me com ele. Uma dia, andávamos pela areia, poucas pessoas na praia; em dado momento, ele me abraçou, me beijou. Senti um volume em seu short de banho. Aquilo me deixou confusa e culpada. Nunca contei a ninguém. O fato é que o rapaz deve ter percebido minha inexperiência pois se afastou delicadamente; andamos em direção à nossa casa de praia. Nunca mais o vi.
Muita reviravolta, muitos namoros terminados e reatados. Muitos flertes aconteciam e namoros para compensar um amor perdido. Aconteceu comigo. Eu e meu antigo namorado ( aquele que meu pai proibira) fizemos uma nova tentativa. Nada mais era igual. Eu ressentida com o fora que levara do meu namorado, meu professor de português. Às vésperas do Reveillon, com desculpa esfarrapada ele não queria ir ao baile. Acabamos brigando. No dia seguinte, soube que ele já namorava outra aluna, em Itaperuna, onde era professor também. Reagi, indo ao baile onde reencontrei meu "Romeu" de outrora. Dançamos toda a noite. Nos dias seguintes, esboçamos uma reaproximação. Não deu certo. Uma noite, ele me levou em casa e nos despedíamos na escada. Meu pai, não sabíamos se estaria disposto a nos ver de novo juntos, daí tivemos o cuidado de não ficar em evidência. Percebi que ele estava diferente, logo achou um jeito de ir embora, depois de me abraçar e de um prolongado beijo. Apesar de ter uma imagem não muito boa diante do meu pai, ele sempre foi respeitoso comigo. Devo dizer que ninguém me beijou como ele. Tínhamos uma perfeita sintonia, talvez amor. Era romântico. Só que ele não perdoara o fato de eu ter namorado o professor, que também teve um namoro com a irmã dele. Há coisas que ficam gravadas: a roupa que eu usava era um vestido marrom escuro, de tecido aveludado, que fazia realçar meu corpo. Era justo, marcando a cintura com uma faixa. Eu usava os cabelos compridos, lisos. Devia estar bonita. Como o rapaz de Marataíses, acho ele teve o cuidado de não me magoar com uma cena onde o sexo parecia latente. Entretanto, ele se foi. Deixou-me curiosa, sem compreender o que se passava. Depois disso, nada mais deu certo e nos afastamos. Ele passou a me evitar, era visível. Mais uma decepção. Ele agora se insinuava para uma de minhas amigas, rica, bonita e loura. Uma vez, nunca me esqueci, ele comentou que eu era "fósforo queimado". Me casei virgem. O "fósforo" fora riscado, não queimado.
O PRIMEIRO SUTIÃ.
Quem disse que comprei um sutiã novo? Não, não foi bem assim. Peguei um daqueles que fora de minha irmã, meio acetinado, já bem usado, e, por minha conta, coloquei-o. Por que fiz isso? Naquele dia, tinha vindo a minha primeira menstruação. Achei que deveria usar sutiã. Não disse nada a ninguém. Fomos ao cinema naquela noite, lembro-me bem disso. Eu parecia estranha e estava. Preocupei-me em me proteger com o que tinha à mão. Não era comum o uso de absorventes. Usávamos um tipo de toalhinhas que eram lavadas e poderiam servir de novo, devidamente lavadas, claro. Que coisa mais antiga! Mas era assim. eu tinha apenas doze anos. Quando percebi o que acontecia, corri e contei para a minha irmã, mais nova que eu. Estava apavorada porque a minha prima, da minha idade, já tinha ficado "mocinha" como se dizia e me contara que era horrível, que doía muito. Graças a Deus, da primeira vez, as cólicas não me surpreenderam. Mas fui ao cinema com a impressão de que não podia andar direito. E não podia mesmo!
MENINA, MOÇA, MULHER.
Escrever sobre as fases da vida, um grande desafio. Tivemos um amigo em Volta Redonda (morei lá por quinze anos) que eu achava engraçado porque costumava dizer: "_Vou palitar o cérebro", quando queria se lembrar de algo. Que bom se eu tivesse também o dom de "palitando" o cérebro me lembrasse de tudo que vivi. Entretanto, sinto-me motivada. Sobre a meninice já falei um pouco. Lembro-me ainda de ter dito alguma coisa da adolescência. Mas, sobre a mulher, não sei quando aconteceu a transformação. Talvez, nada tenha mudado de forma radical. O corpo, sim. Mas as emoções são companheiras constantes e governam a nossa existência. Dos medos, inseguranças, das descobertas, decepções, do sofrimento, dos amores fracassados, das injustiças, lutas e dos momentos felizes, por que não falar de tudo isto que vem embalado junto? Rever, ao mesmo tempo que me traz boas recordações, me faz sofrer, remoendo momentos difíceis que ainda persistem. Esse caldeirão continua fervendo, algumas vezes, em fogo lento para cozinhar nossa alma, deixando-a macia, como um pedaço de carne na panela de pressão. E a palavra ideal é essa: pressão. Somos movidos pela sucessão de acontecimentos. Mas há o contraponto, a inércia que nos acomete, diante do que não podemos mudar. Mas chega de conversa. Quero pensar numa época bonita e ao mesmo tempo, angustiante, que foi a minha mocidade. Quando sentia a vida inteira me esperando, vislumbrando um futuro feliz. Nunca seria como aquela tia, cujo marido vibrava com a aproximação de qualquer rabo de saia; não, comigo seria diferente. Teria um homem apaixonado, que só me traria alegrias, inteiramente meu, com certeza. Era assim que costumava pensar. Fui sempre otimista. Melhor, sonhadora. Via o mundo do lado bonito. Li muito romance de M. Delly ( faz muito tempo, é assim que se escreve?); o fato é que eram histórias lindas, românticas, onde a mocinha terminava junto ao seu amado, depois de sobressaltos e peripécias da vida. Lembro-me de quando vasculhava a estante de livros do meu pai, que era advogado; lá havia um livro "Medicina legal", onde eu descobrira a foto de um homem nu. Era a curiosidade natural de menina, numa época em que ver um corpo masculino pelado, só depois de casada, luz apagada, com certeza. E eram sonhos e planos de felicidade. Sempre gostei de ler, desde a escola da fazenda, quando pegava livros enviados pela Prefeitura para nossa professora, a querida D. Zandir. Além das revistas que minha irmã colecionava : Revista do rádio, Filmelândia, Cinelândia e tantas outras, os gibis infantis, onde o Super-Homem e o Capitão Marvel eram os mocinhos imbatíveis. Quantas vezes me peguei rodando, como os integrantes da família Marvel, que assim se transformavam em super-heróis, com super-poderes!... Meu ex-marido foi meu professor de Português, já contei. Numa cidade pequena como a nossa, não era muito comum um jovem como ele dando aulas tão modernas e interessantes. Começou ensinando-nos a ler artigos de jornais, crônicas e nos deu todos os ensinamentos sobre análise sintática, falou-nos dos estrangeirismos, tão aplicados em nossa língua, latim e palavras gregas, essas coisas...foi uma época de grandes leituras de livros, de poesia e de entusiasmo pela língua Portuguesa e também pelo professor, tão culto e tão mulherengo. Era antipatizado pelos rapazes da cidade, que viam nele um homem arrogante e ameaça iminente para suas namoradas. Mas meu marido, agora ex, fica para outro capítulo, aliás, já fiz muitos textos sobre nosso casamento, que não foi tão bom, excetuando o que tenho de mais precioso: meus filhos. Foi o que produzimos de bom naquela união. Então, vou ver se me lembro de algumas passagens da vida boa de solteira. Do tempo dos bailes, do namoro escondido, dos flertes e também das frustrações, estas eternas companheiras. Eu era bonita. Todos me achavam bonita: eu, nem tanto. Tive muitos complexos, apesar de ser bem cotada pelos moços, meus admiradores. Puxei meu pai, que não era muito alto. Sentia-me insegura, quando qualquer moça bonita, charmosa aparecia em nossa terra. Nunca valorizei o que eu tinha de melhor. Não que eu me considerasse feia, pois não era. Mas tenho esse grave defeito: me desvalorizo um pouco, o que não mudou muito com a idade. No mês de agosto, há uma festa em Bom Jesus, a festa da cidade. Naquela época, bailes maravilhosos eram promovidos, com grandes orquestras, as melhores. Eram três noites de pura euforia. Havia os desfiles escolares na praça. Lembro-me de passar giz no tênis de ginástica para ficar branco e bonito, a saia pregueada a ferro, impecável. Como era baixinha, uma sorte quando me escolhiam para separar o "pelotão", com temas históricos. Segurava a bandeira com fidalguia, junto com a colega de turma. Foram tempos incríveis. Sentia o rosto afogueado, ao avistar o namorado entre a multidão que assistia. Mas era uma glória. Nos bailes éramos convidadas a dançar. E feio era dar "caroço", recusar uma dança, tremenda indelicadeza, ainda que ele não fosse o galã pelo que ansiávamos. Nossos pais costumavam ir, nos acompanhando. Meu pai avisava discretamente sobre a aproximação de um rapaz, que ele sabia não nos deixaria feliz. Ele dizia, entre dentes: "Aí vem o tourinho gir", referindo-se ao dançarino baixinho, atarracado e forte que mais parecia um boizinho zebu, morador na cidade vizinha, frequentador assíduo dos bailes da festa de agosto... Meu pai que gostava de lidar na fazenda, fazia suas comparações. Se desse tempo, corríamos para o toillette, evitando assim humilhar o pobre pretendente. Dançar de rosto colado era o máximo que nos permitíamos. Havia uma senhorita meio avançada para os padrões da época que, lá pelas tantas, o rapaz dava mostras de estar um tanto excitado, com a aproximação exagerada, digamos assim, dos seus corpos. Nós ficávamos abismadas com o comportamento deles. Santa ingenuidade... Tive um namoro proibido. Durou, mais ou menos uns três anos. Éramos apaixonados. Um "Romeu e Julieta" da cidade. Ele era um rapaz bonito, tinha olhos verdes que lembravam um ator de cinema, lindo e famoso, o Paul Newman. Como meu pai proibiu o nosso namoro, a coisa ficou séria, com gosto de novela romântica. Íamos ao único cinema da cidade, na praça. Tudo escondido. Depois da valsa de Strauss, que abria a sessão, as luzes se apagavam e o amigo do meu amado, que, estrategicamente, havia sentado ao meu lado, trocava de lugar com ele. Quando segurava minhas mãos, um calor me subia, tomada de grande emoção. Sentia o rosto quente e o coração bater forte. Encostados na mureta da igreja, após a sessão de cinema trocávamos carinho e beijos furtivos. Quando meu pai despontava em qualquer esquina, nossos amigos avisavam e disfarçávamos, eu dando voltas pela praça com as amigas aliadas e que já sabiam da história. E, assim vivemos um amor bonito. Sei que meu pai estava coberto de razão. O moço que, antes de se encantar por mim era amigo do meu pai, de beber juntos, de conversas na praça, não deveria ser o modelo ideal para namorar sua filha. O mundo parece que mudou, virou de pernas pro ar. As pessoas não encontram muito tempo para sonhar, ou o fato de nós mulheres termos alcançado a tão propalada independência, liberdade, principalmente sexual, deixou-nos com cara de tacho, como se dizia antigamente. Pagamos um preço. Os homens parecem não estar preparados para tanta modernidade. A vulgaridade passou a ser a tônica entre a maioria das mulheres. Fomos surpreendidas e presas nesta armadilha: como ser feminina, interessante, se não observamos os limites da coerência? Alguns homens se escondem com medo de se comprometerem, outros, fragilizados diante de tanta competência. Além dos assumidos, come se pode ver, saídos do armário. Sobrou pouca coisa para uma vida mais bonita. Onde está o amor? Quando morreu o romantismo? Quem vai pagar essa conta? Sinto-me meio ridícula, fora de moda. Não me acostumo, não quero viver num mundo sem esperanças: não quero não poder acreditar nas pessoas.
Assinar:
Postagens (Atom)