terça-feira, 26 de maio de 2015

SEMPRE MÚSICA.

Fui criada num ambiente onde todos apreciavam música. Uma das tias tocava piano. De uma forma ou de outra, o gosto musical era unanimidade. Me encantava a ideia de estudar piano. Regina, minha prima, meio a contragosto aprendeu. Sua mãe não abriu mão: sua filha seria uma pianista. Vinham de vez em quando ao Conservatório de música no Rio de Janeiro para provas e testar os conhecimentos teóricos, e elas conseguiram, minha prima toca piano e sabe muito mesmo.  Morávamos no mesmo prédio de três andares.
O riso solto me fazia passar por situações as mais embaraçosas. Às vezes, quando Regina tocava, tia Mariinha cantava, emitindo agudos de uma autentica soprano. Eu segurava pra não rir, ainda que apreciasse enormemente. Vez por outra, meu tio Modesto recebia um jovem cego, o Maurício,  de um talento escandaloso que vinha nos deleitar com suas belas canções. Lindo observar suas mãos correndo pelos teclados com a suavidade de um amante apaixonado. Quis aprender também.
Voltando no tempo, ainda na Fassbender. Tanto insisti que minha mãe contratou uma professora de acordeom para nos dar aulas. Vania e eu começamos a estudar. "Música é a arte de manifestar os diversos afetos de nossa alma, mediante o som". Não me esqueço da primeira lição do ABC musical. Tive que decorar. Eu me encantava também, quando nos reuníamos para ouvir o Wandick, o primeiro namoradinho de minha irmã, Teresa. Como tocava bem! Um virtuose. Geralmente, nas férias, quando ele vinha passar uns dias na fazenda São Tomé e se hospedava com meus tios. As duas fazendas, de tão próximas tinham o mesmo nome.
Vania já tocava as primeira valsinhas. Eu tratava de driblar a professora, quando não sabia as lições, o que acontecia sempre. Acho mesmo que só aprendi a primeira frase do livreto, definindo sobre música. Só me lembro de avistar a professora chegando ( já que era nossa vizinha) e eu descendo as escadas da casa na Fassbender, à procura do método musical. Os exercícios de solfejo, um suplicio. Depois de algum tempo, a professora Ivone se mudava para Vitória. Vania continuou os estudos com o professor Sebastião. Não consegui levar adiante o sonho de ser musicista. Limitei-me a me emocionar com a música executada por outros. É uma frustração que me acompanha. Mais tarde, tentaria de novo. Desta vez, o piano. Havia um acanhado conservatório de música na cidade. Alguns professores vinham de Itaperuna, cidade próxima. Resolvi estudar piano. Só que as dificuldades persistiam. Já vivíamos no apartamento, onde aconteceram mudanças que definiriam minha vida. Não podíamos comprar um piano ( caro na época). A  situação financeira não ia bem das pernas. Mas meu sonho continuava de pé. Ficou combinado que eu estudaria na casa de uma amiga nossa, mais de Sonia , minha irmã menor. As duas tinham a mesma idade. Nas primeiras lições, o professor me estimulou, dizendo que eu levava jeito. Com certeza, dizia para cada aluno iniciante a título de incentivo. A primeira vez que fui exercitar a escala musical no piano da nossa amiga, foi um desastre. Ela chutava minhas pernas: "- Tire o pé do pedal"! Gritava comigo. Foi a gota d'água. Não resisti à humilhação. Não ia estudar mais. E parei de novo. Quero crer que natural egoísmo de adolescente a atitude da menina do piano emprestado. Nada , além disso, justificaria sua impaciência comigo.
Via assim, cada vez mais distante, o meu desejo de tocar um instrumento. Assim como na dança. Sou uma dançarina medíocre. Sinto desejo premente, uma vontade enorme de dançar, ao ouvir os acordes de uma orquestra, aguçam meus sentidos.
Mais à frente, aparecerei solta nos salões, desfrutando passos da dança, mas sempre tímida, mas menos acanhada, sem impedimentos para me sentir feliz. Isso demorou um tempo enorme.
Passei grande parte da adolescência acompanhada de perto, por uma constante e indesejável timidez. Acabei reprimindo muitos desejos, muitos sonhos. Tenho, como um animal que recebe o fogo em brasa, marcando-o para sempre, uma dívida a ser cobrada. Não diria vingança. Mas libertação, o alvo. Preciso resgatar, ainda que tardiamente a minha vida, mais livre. Não sei quando e se vai acontecer. Dizem que há uma força universal nos capacitando para isto. É preciso seguir acreditando.
Vou ouvir música sempre, porque me acolhe. Porque me faz sonhar. São os sons que me transportam, me fazem caminhar sobre as nuvens, nos campos, sob o céu enluarado e salpicado de estrelas, alcançando os mais altos lugares, sem medo de cair, sem medo de galopar, sem medo de nada. É quando sou livre. Quando me imagino vizinha dos anjos, pairando além das dificuldades. E sonho. Sonho muito. Sonho sempre. É o que  me torna viva.









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