domingo, 24 de maio de 2015
O lugar onde nasci.
Na fazenda do meu avô existia um lugar especial: um córrego, vindo do meio da mata passava por um tipo de valeta, estreita e cimentada. Ficava bem próximo à casa grande da fazenda, no alto de um morrinho, separado da estrada por uma cerca com porteira e que podia ser visto de qualquer das inúmeras janelas da casa. Bicano - esse o nome dado ao retângulo, também cimentado, raso, talvez uns quarenta ou cinquenta centímetros de profundidade, bem raso mesmo e que recebia a água do córrego. Dali, um novo afunilamento levava a mesma água por um seguimento suspenso, acho, de madeira, não estou certa disso, que passava por cima da estradinha de terra, pedras e cascalhos, caminho esse que também levava à entrada da casa. Aí, mais outra porteira e uma subida íngreme onde grandes pedras eram colocadas, formando desenho desordenado, algumas já cobertas de musgo: para que os carros não derrapassem, penso eu. Havia ainda um enorme terreiro de pedras onde se lavava o café que era derriçado para secar. Um rodo espalhava os grãos, formando leiras. Uma roda d´'agua feita, de ferro, estava em constante movimento pela força da água que jorrava, fazendo-a girar. Antes de cair na grande roda, a água passava pelo dito bicano. Ali, quando nos permitiam, tomávamos banho sob o sol. Às vezes,andávamos a esmo pelas estradinhas sinuosas e estreitas - com alegria desmedida eu, meus irmãos e primos, desbravando aquelas terras e matas. Com certeza, algum adulto nos acompanhava. Era um prazer andar descalços, ainda que provocasse algum desconforto, pisar nos pedregulhos dos caminhos. Usual aparecerem nas árvores do pomar, em frente à varanda da fazenda alguns macacos. Um balanço de ferro, pintado de branco e algumas cadeiras eram testemunhas mudas do encontro das enormes lagartixas que andavam pelo teto, barrigas cheias e insetos, principalmente à noite. Incrível mesmo era a destreza com que os macaquinhos, saídos das pequenas florestas, quebravam ovos ou descascavam bananas que lhes eram oferecidos, espetáculo a que assistíamos maravilhados. A casa parecia estar sempre em festa com o constante ir e vir de pessoas, algumas visitantes de outras fazendas vizinhas, além dos muitos empregados, sem contarmos a grande família que se reunia por qualquer motivo. Lembro-me de um quarto cheio de armários, portas pintadas de azul onde se guardavam roscas, pães caseiros, brevidades, doces em compota e todo o tipo de iguarias. No quarto dos avós, havia um altar, onde se faziam orações, algumas imagens de Nossa Senhora, panos de linho bordados e algumas velas. As janelas davam para uma horta imensa, onde todo tipo e legumes e folhas podiam ser colhidos. O pé de figo que ficava atrás da cozinha, tinha um cheiro peculiar que me transporta a uma época tão distante e tão mágica: minha infância.
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