Quatro irmãs. Quatro histórias. Da mais velha fiz um leve esboço de suas venturas e desventuras. Já falei também um pouco da segunda: gênio irascível, meio embirrada. Tinham um apelido comum, ela e nossa prima, Regina, aquela que era o anjo da procissão: Galinha choca ( o apelido) - invocadas que eram as duas. Quando brigávamos, costumávamos espicaçá-la com outro apelido: Olho de boi. Isto porque ela ameaçava com seus olhos grandes, ao enfurecer-se. Era brava nos dois sentidos: também, quando me refiro à intrepidez de suas cavalgadas sobre o lombo dos cavalos ou, quando subia nas frondosas e altas mangueiras que rodeavam nossa casa. Achava-a corajosa, ainda mais, quando me comparava a ela: eu, tímida e medrosa não era dada a esse tipo de aventuras. Do que eu gostava mesmo era desenhar. Mais à frente, falo disso e da influência que tive sobre a irmã menor, de quem conto algumas histórias. Hoje, ela é uma talentosa pintora em Honduras. Mais tarde falarei disso também. Ela, a última da fila de quatro porque depois veio o Chico, esperado varão. Sonia era pequena, tipo "mignon", a menor de nós todas. Não que fossemos altas. Pelo contrário. Herdamos do pai a baixa estatura. Valorizávamos cada centímetro a mais, encostando o ombro uma na outra para medir a "enorme" diferença - dois ou três - na fita métrica. Meu pai aparentava ser bem mais baixo que a minha mãe, apesar de terem a mesma altura: com saltos e cabelos penteados, bem encorpados, ela crescia ao seu lado. Mas eu falava da irmã menor. Seu apelido foi debitado à tia Hercília, uma das irmãs do meu pai dentre numerosa prole - eram dez . Então. Ela apelidou minha pequenina irmã de Sodinha. Já explico: tivemos uma empregada que ficou muitos anos trabalhando na fazenda São Tomé. Norvinda, seu nome. Num dia qualquer, ela providenciava a limpeza da casa, a desinfecção do banheiro, do chão da cozinha: enfim, tratava de deixar bem limpa, arrumada a nossa casa. Minha mãe e meu pai estavam ausentes: tinham ido a Bom Jesus. Sonia, mal saída das fraldas, confundiu o produto de limpeza, talvez pensando ser açúcar. Descuido da empregada que o deixara, displicentemente, largado ao chão, dentro de uma latinha. Não era açúcar, com certeza. Era soda cáustica. Minha irmãzinha levou-o à boca. Lembro-me da correria, da professora saindo alvoroçada da escola, pegada à nossa casa, os empregados, todos uma tentativa de acudir a criança. Sua boca miúda sangrava, enquanto alguém retirava o produto danoso, que, felizmente, ela não engoliu. Minha tia Hercília, carinhosamente, passou a chama-la de "Sodinha" e o apelido pegou.
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