Ainda menina, gostava imensamente, quando íamos à fazenda de meu avô. Ficava animada com a possibilidade de pegar no colo o meu primo pequenino. Disputava com minha irmã: "quem vai primeiro, par ou ímpar?
Uma vez, fui na carroceria da caminhonete do meu pai. O sol forte. Eu comendo pedaços de marmelada. Quando chegamos, senti-me tonta. Levantava e caía. Acho, a única vez, um provável desmaio. Insolação, com certeza.
Inevitável fazer comparações. O tempo rendia mais. As pessoas eram mais próximas, se importavam mais ou seria locubrações fantasiosas? As pessoas são as mesmas. Os valores, talvez, não.
Crianças ricas, crianças pobres. Diferenças gritantes. Lembro-me de uma delas, não sei se menino ou menina. Visão que nunca pude esquecer. Saiam de suas narinas vermes, como talharim, descendo pelo rostinho já sem vida. Filha de Joãozinho e Mariquinha aquela criancinha. E a resignação estampada no rosto da mãe, sem lamentos, sem gritos. Só aceitação. Fomos eu e meus irmãos acostumados a olhar a realidade de frente, sem subterfúgios. Olhar a morte. Não se escondia de nós esses fatos da vida. Em algumas famílias, crianças são poupadas de histórias como esta.
Penso ainda no Ruy ( de quem já falei de uma outra vez), menino pobre que morreu afogado no açude atrás da casa de seu Cosme, pai de Joãozinho, ambos colonos do meu pai. Todos eles de uma fidelidade à toda prova. Viam meu pai com bons olhos. E tinham razão porque era um homem bom, cheio de cuidados com os mais humildes.
A dois quilômetros de nossa fazenda, morava o irmão de meu pai, tio Modesto. Ele e tia Mariinha tiveram três filhos, se não contarmos a que nasceu morta, gêmea da Regina que, se vingasse, teria se chamado Célia, dizia minha tia. Ouvíamos contar como havia acontecido o parto. A parteira, dona Otília, mulher alta, magra e que tinha um enorme papo, glândula endócrina que crescera desordenadamente. Na falta do médico era a quem recorriam. Aconselhava à parturiente que soprasse na boca de uma garrafa e dizia também que colocasse um chapéu do marido na cabeça. Crendices... Só que o fato de se fazer alguém soprar, na hora de ter um filho, tem uma certa lógica: é a força devida para que a criança venha a nascer. Mas e o chapéu? Para isso, suponho não haja explicação. Depois das gêmeas, vieram mais dois meninos. Todos nós fomos criados muito unidos. Estudávamos na mesma escola, situada ao lado de nossa casa. Os meus primos vinham a cavalo, todos os dias. Assim como alguns vizinhos, filhos de fazendeiros, sitiantes, a maioria deles amigos do meu pai. Muitas vezes, era convidada a ir à casa deles na garupa do cavalo. Passaria a noite na casa de minha prima. Até aí, tudo bem. Mas o meu problema começava na hora de ir dormir. Estava sempre preocupada com um problema que persistiu por quase toda minha infância: amanheceria seca ou molhada? Um suplicio a dúvida. Acabava com o prazer de estar com os primos, numa idade em que essa convivência nos traz um enorme prazer. Havia na fazendo do tio Modesto um moinho de onde tentaram, certa vez, coordenar força elétrica para que nossas casas passassem a ter luz. Utilizávamos lampiões a querosene ou o Aladim, cuja luminosidade parecia nossas lâmpadas fluorescentes atuais. Consistia numa tênue rede branca, emergindo de um liquido, aceso por fósforo. Mais ou menos assim. Não sei explicar bem. A tentativa de eletricidade não deu certo. O volume de água, talvez não tivesse sido suficiente para alimentar energia para as duas casas. O fato é que ficamos sem luz. O telefone era elementar. Através da telefonista ou ao toque de uma manivela. De acordo com a quantidade de voltas, alguém era conectado. Incrível o nível de desenvolvimento atual, se compararmos com as geringonças usadas naquela época.
Quase chegando à casa de meu tio, havia uma pequena venda. a primeira Coca-Cola que tomei ali, temperatura ambiente, quero dizer, praticamente morna, fez-me desgostar do tal refrigerante, oferecido por meu pai. Até hoje, não sinto nenhum prazer, degustando Coca-Cola. E, como uma coisa puxa a outra, lembrei-me de como se mantinham os picolés. Costumavam acontecer jogos de futebol. O campo ficava num terreno plano, abaixo de onde estava plantada nossa casa. Aos domingos, vinham da região e formavam-se times para a disputa. Era animado. Em caixas contendo pó de serra, eram guardados os picolés, vendidos para a plateia que se formava para assistir as partidas de futebol. Dia de festa, de pastéis, de rapadura, de cocada, pé de moleque e, para os homens, cachaça.
Naquele mesmo campo, via meu pai tentando ensinar minha mãe a dirigir. Não obtiveram grandes progressos, minha mãe não se interessou muito. Meu pai sempre aparecia com carros novos. Do mesmo jeito que os comprava, cheio de animação, passava-os à frente para comprar mais um e mais outro, depois.
Quando a necessidade nos fez ir para a cidade, meu pai, que era advogado, passou a fazer inventários. Mas não era sempre que morriam fazendeiros ricos. Tinha constante preocupação em como ele poderia ganhar dinheiro. Havia dívidas a pagar. Emprestar dinheiro e receber alguns juros. Acontecia às vezes e numa dessas, ele perdeu muito. Levou um tremendo calote. Ajudava aos amigos necessitados, caridoso que era. Não media esforços para socorrer alguém.
Minha mãe tinha muitas habilidades costurava como ninguém. Foi ela que fez o meu vestido azul para a formatura do curso ginasial. Fiquei bonita com ele. Todo pregueado e de alças e para arrematar, um bolero com mangas três quartos. Meu pai e eu seríamos os primeiros da fila a entrar, para que eu recebesse o diploma de quarta série ginasial, enrolado em fino canudo de camurça. Antes, tentei negociar com Minha colega e grande amiga Joana Lúcia, éramos inseparáveis. Menina bonita, loura, cabelos lisos e bem mais alta que eu. Eram elegantes ela e sua irmã mais velha, Maria Áurea. Quando a moda mal havia chegado, elas já estavam usando os últimos lançamentos. Pedi a ela, encarecidamente, que passasse á minha frente, ela e seu pai. Tinha medo de me expor, medo de tropeçar. Fui a primeira mesmo, ela não atendeu aos meus apelos. Entrei sentindo o rosto em brasas. E lá fomos nós, eu e meu pai, apostando qual dos dois era o mais tímido, em direção ao palco do único cinema da cidade, onde aconteceu a festa de entrega do suado diploma e que, inúmeras vezes, serviu de auditório para artistas, cantoras e cantores famosos. Entretanto tinha impressão de que alguma coisa seria diferente, a partir de então, como se o fato de ter alcançado essa vitória fosse um marco em minha vida. De certa forma era verdade. Começava a perceber que tudo seria possível. Não mais a menininha insegura, a "Maria mijona". Caminhava, desafiando os medos; assim, atravessei o corredor da enorme sala de cinema com galhardia. Eu, também alguém importante, tal como os artistas que se apresentaram naquele espaço. As cantoras do rádio, de quem eu era fã, admiradora. Diferente de quando atuávamos no teatro que fazíamos na Fazenda São Tomé. Agora, não mais vestia uma fantasia . Sentia-me vitoriosa, bem vestida, bonita, equilibrando-me no pequeno salto de menina-moça e abrindo caminho para a vida que se me oferecia, rica em ilusões e povoada de sonhos. E fui feliz naquele dia.
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