Não era usual que moças da minha época não se casassem virgens. Aconteciam os namoros mais avançados, das maiores intimidades, mãos dentro do sutiã, outras, mais afoitas, dentro das calcinhas. Mas, ainda assim, virgens. A hipocrisia reinava. Eu e minhas amigas, nos deliciávamos contando com detalhes o que acontecera nos encontros com os namorados, as conversas. Ouvíamos pacientemente para que fôssemos ouvidas também, entre risinhos, contanto que não passassem de beijos, mãos entrelaçadas, principalmente as conversas, o que diziam um para o outro e nos aconselhávamos como verdadeiras psicólogas ou conselheiras sentimentais. Como era bom... Mas a censura vinha natural, se o namoro atingia um estágio mais avançado. As coisas mudaram muito rapidamente. Parece que o encanto acabou. Tudo é permitido. Casava-se virgem mas não totalmente. A pureza há muito deixara de existir e era difícil contar ao padre , no confessionário, das intimidades com o noivo.
Uma vez, passamos uns dias na praia, em Marataíses. Fomos eu e minha prima Regina para a casa do tio Chico, irmão do meu pai. As primas nos receberam carinhosamente, não se importando em nos emprestar alguns shorts ou blusas, já que o convite fora feito de última hora, quando nosso tio, passando por Bom Jesus ( ele morava em Itaperuna) nos convidou e fomos sem nenhuma bagagem maior. De outra vez, fomos com toda a família. Lembro-me da tia Mariinha cozinhando feijão e de quando a panela de pressão explodiu, sujando todas as paredes. Felizmente, ninguém se feriu. Houve um dia pouco antes do previsto, aconteceu outro problema e a sala se inundou. Apesar de tudo, dias agradáveis, alto-falantes tocavam Roberto Carlos, que estava no auge. Nessa época, conheci um rapaz muito interessante, na praia. Parecia mais velho do que os meus namoradinhos de Bom Jesus. Mas era muito bonito, tinha uma barba negra, alto, um homem charmoso. Não foi propriamente um namorado. Por que estou falando disso? Encantei-me com ele. Uma dia, andávamos pela areia, poucas pessoas na praia; em dado momento, ele me abraçou, me beijou. Senti um volume em seu short de banho. Aquilo me deixou confusa e culpada. Nunca contei a ninguém. O fato é que o rapaz deve ter percebido minha inexperiência pois se afastou delicadamente; andamos em direção à nossa casa de praia. Nunca mais o vi.
Muita reviravolta, muitos namoros terminados e reatados. Muitos flertes aconteciam e namoros para compensar um amor perdido. Aconteceu comigo. Eu e meu antigo namorado ( aquele que meu pai proibira) fizemos uma nova tentativa. Nada mais era igual. Eu ressentida com o fora que levara do meu namorado, meu professor de português. Às vésperas do Reveillon, com desculpa esfarrapada ele não queria ir ao baile. Acabamos brigando. No dia seguinte, soube que ele já namorava outra aluna, em Itaperuna, onde era professor também. Reagi, indo ao baile onde reencontrei meu "Romeu" de outrora. Dançamos toda a noite. Nos dias seguintes, esboçamos uma reaproximação. Não deu certo. Uma noite, ele me levou em casa e nos despedíamos na escada. Meu pai, não sabíamos se estaria disposto a nos ver de novo juntos, daí tivemos o cuidado de não ficar em evidência. Percebi que ele estava diferente, logo achou um jeito de ir embora, depois de me abraçar e de um prolongado beijo. Apesar de ter uma imagem não muito boa diante do meu pai, ele sempre foi respeitoso comigo. Devo dizer que ninguém me beijou como ele. Tínhamos uma perfeita sintonia, talvez amor. Era romântico. Só que ele não perdoara o fato de eu ter namorado o professor, que também teve um namoro com a irmã dele. Há coisas que ficam gravadas: a roupa que eu usava era um vestido marrom escuro, de tecido aveludado, que fazia realçar meu corpo. Era justo, marcando a cintura com uma faixa. Eu usava os cabelos compridos, lisos. Devia estar bonita. Como o rapaz de Marataíses, acho ele teve o cuidado de não me magoar com uma cena onde o sexo parecia latente. Entretanto, ele se foi. Deixou-me curiosa, sem compreender o que se passava. Depois disso, nada mais deu certo e nos afastamos. Ele passou a me evitar, era visível. Mais uma decepção. Ele agora se insinuava para uma de minhas amigas, rica, bonita e loura. Uma vez, nunca me esqueci, ele comentou que eu era "fósforo queimado". Me casei virgem. O "fósforo" fora riscado, não queimado.
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