Somos cinco irmãos. Por último, falava da irmã que, ainda muito criança, teve um incidente, quando quase engoliu soda cáustica, confundindo com açúcar. Felizmente, salva a tempo. Ela hoje, mora em Honduras. Tem fama. É uma grande pintora, dentro de um país pobre mas que, como qualquer lugar, valoriza as artes. Ela tem reportagens em jornais, que volta e meia manda para nós. Faz tempo se casou com um rapaz que conheceu quando ele estudava na PUC, na Gávea. Era amigo das filhas de minha tia Diva, que morava em frente à Universidade Católica. Minha irmã só depois de alguns anos de casada foi mãe. Naquela época, Sonia costumava passar férias em casa da irmã de minha mãe, tia Diva. Ela e o segundo marido viviam em extremo conforto. Frequentavam ela e o marido a mais alta roda da sociedade carioca. Tinham vida de rico. Nas poucas vezes em que os visitei, sentia-me sobrando. Parecia que todos falavam outra língua, tal o nível das conversas. Eram moças estudadas, frequentavam os melhores colégios e exalavam cultura por todos os poros. Eu, jovenzinha do interior, pouco havia estudado, nada além do curso de professora. Na verdade, eram esnobes aquelas garotas. A casa em que viviam fora projetada e construída pelo arquiteto famoso, casado com miha tia. Ela, mulher bonita, olhos azuis, cabelos louros, mais parecendo uma inglesa, com seu tipo físico de causar inveja. Cada filho (eram quatro do marido e uma filha, a única de minha tia) tinha um quarto para si. As empregadas da casa, portuguesas legítimas, de uniforme e tudo, bem diferentes da nossa Zé, pessoa simples e empregada em nossa casa. Eu não estava acostumada a tanto luxo e sofisticação. Já minha irmã, Sonia, tinha trânsito livre entre as meninas ricas, enteadas de minha tia. Minha irmã, atirada, desinibida não devia ter nenhum complexo em relação aos outros jovens, tanto que se tornou amiga íntima de todos eles. E ia, sempre, passar dias com aquela família elegante. Havia também um menino naquela família. Digo havia porque, hoje, só uma delas sobrevive. Todos os outros se foram muito precocemente. Entre as moças, Ana Maria, a única filha de minha tia, minha prima, era artista, desenhava bem, apesar de ter tido a infelicidade de viver presa a uma cadeira de rodas, consequência da paralisia infantil da qual fora vítima. Minha tia assumiu a educação dos filhos do segundo marido, o menino quase de colo, sendo o mais novo. Separada do marido ainda muito jovem, naquela época, um escândalo. Ainda mais, se casar de novo. Ficou mal vista, principalmente, entre os componentes da família do meu pai, gente do interior, muito arraigada a valores outros.
Quando me casei, algum tempo depois, tia Diva deu-me de presente um tecido riquíssimo, shantung de seda, presente de casamento para a confecção do meu vestido de noiva, costurado por minha mãe. Fomos a Copacabana para compra-lo eu, minha mãe e ela. Hospedei-me na casa da tia rica.
Na hora do lanche, vinham aquelas empregadas uniformizadas, sotaque português, servir-nos sorvete, com biscoitos, em bandejas, tudo muito chique. Eu, com medo de cometer gafes, nem sabia como me comportar. Falava pouco. Dava graças a Deus, quando voltávamos da casa deles. Não era ingratidão. Cafonice mesmo. Lembro-me de uma vez, quando fui convidada por tia Diva para a casa de campo deles em Petrópolis. Eu devia ter meus dez, doze anos, não sei. Devo primeiro dizer do enjôo que senti durante a viagem: as curvas me nausearam e me deixaram com o mal estar que sempre costumava sentir em viagens. E eu, com vergonha de contar para minha tia. Ela carinhosa comigo, tentou me distrair, levando-me a uma praça de patinação. Eu que nunca tinha visto um rinque de patinação, me estabacava a cada tentativa de me manter em pé, sobre os patins. Mas confesso que adorei aquilo. Foi a parte boa. Depois ela me emprestou um maiô xadrezinho, com babados nas beiradas, de sua filha Lourdes, que regulava com minha idade. Me senti muito bonita, só que morta de frio, quando entrei na piscina gelada dos amigos de minha tia.
Como já disse, minha irmã, Sonia, transitava livremente, entre eles. Ali, conheceu seu marido, Gustavo, hondurenho, que estudava no Brasil. Diga-se de passagem, um gênio da Física Quântica, rapaz inteligente e bonitão. Tem muita coisa a ser dita sobre minha irmã, a Sonia. Chegaremos lá.
Nenhum comentário:
Postar um comentário