domingo, 25 de agosto de 2013

Quem está escrevendo?


 

Tem vez que me sinto outra pessoa. São sentimentos novos. Quem sabe, talvez, eu deixe os mais antigos descansando, enquanto me brotam idéias. Sou essencialmente nostálgica, devo confessar. Mas, de vez em quando, preciso escrever, assim como preciso tomar água para me hidratar... Não sei se quero dizer alguma coisa, apenas sinto que deveria estar colocando para fora o que já guardei por tanto tempo. Desperdicei o precioso momento que é o ato de viver. Sem exagero, percebo claramente isso. Adiei a vida, na esperança de algo fosse acontecer, independente do meu desejo. E como tive desejos, e como os sabotei! Como anulei minhas vontades e deixei de crescer. Não devo culpar senão a mim mesma. A vida é o que temos de mais irreal e abstrato. Não sabemos nada dela, mesmo lendo muito, vendo e vivenciando coisas, sei lá... Dizem que é o dom mais precioso. Deve ser. Mas também sofrido é o viver. E isso é para todos. O que nos consola. Será? Agora, alcancei aquela fase do tudo ou nada. Mas ficou meio tarde, acho. Apesar das grandes frases, dos bons exemplos, dos grandes pensamentos, filosofia e tudo o mais, o tempo passou e me deu uma rasteira. Bem feito! Quem mandou  esperar...bobeou, dançou...!...

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A casa da Avenida Fassbender


     Quando nos mudamos, eu mal podia acreditar. Era a casa dos meus sonhos. Havia dois andares. Um portão menor servia de entrada à varanda que meu pai reformou e a transformou numa mais bonita. Pilastras grandes sustentavam o lindo terraço, cercado de grade de ferro, desenhada. Existia um pomar ao redor de quase toda a extensão da casa. Ao lado, já se avistavam quatro frondosas mangueiras, que costumavam  estar  carregadas; um singelo pé de abacate e de pinha eram quatro; mais atrás, onde ficava a varanda da cozinha, havia um imponente pé de jambo. Um tapete colorido de carmim se formava, quando as flores caíam. Havia ainda pés de goiaba, bananeiras, mamão, um pé de abiu -da -terra  e,  majestosa jabuticabeira; essa, sim, dava gosto de se ver. Jabuticabas colhidas  do rés do chão, até o último galho. Esse lado do pomar era dividido por um muro não muito alto, coberto de hera. Pequenas aranhas se confundiam com a folhagem verde.

Na varanda, duas portas: uma que dava para a sala de visitas, para onde meu pai comprara um belo conjunto de sofá, com quatro lugares e duas poltronas. Lindamente estampado com uma cor entre marrom e vinho, com flores grandes. Depois, vinha uma outra sala grande, de jantar. Foram colocados ali alguns móveis que vieram da São Tomé. Lembro bem: umas poltronas menores, de veludo estampado de amarelo e azul-marinho, uma escrivaninha de jacarandá preto, mais uma cadeira de escritório que girava. Quando menores, costumávamos nos sentar naquela cadeira e o outro irmão a rodava até nos sentirmos tontos. Não  sei  porque fazíamos isso, se nos deixava enjoados, com náuseas. Um outro  quarto, contíguo a esta sala, mais tarde, foi transformado em quarto de costuras da minha mãe. Em vez de porta, havia um arco entre esses dois cômodos. Mais uma porta dava entrada a uma copa, com lavabo, que se resumia em pequena pia branca. Depois, vinha a cozinha, onde a Zé ( cozinheira da casa e minha amiga inseparável) fritava suas batatas e nos dava petelecos, quando a importunávamos. Subindo ao segundo andar, havia um pequeno hall de distribuição. O primeiro quarto, o maior, era do casal. À direita da escada um pequeno corredor nos levava a outros dois quartos e um banheiro enorme. As construções daquela época  pecavam por isso. Meu pai, então, resolveu construir mais um. Reduziu pela metade a varanda de trás da  cozinha e fez mais um quarto de  banho, nesse espaço. Ficou bonito, todo de azulejos azuis, com banheira, completo. Uma beleza.

     A escada que nos levava ao segundo andar era toda de madeira Vejo-me encerando cada degrau e dando lustre com um pesado escovão. Sob a escada, uma portinhola de madeira arrematava  e  fechava aquele espaço oco. Ali se guardavam vassouras e todos os trecos da casa. Não era raro, ao abrirmos a pequena porta, que nos deparássemos  com desagradáveis e inamistosas aranhas do tipo caranguejeira. Só de falar, me dá arrepios. Para matá-las o “corajoso” usava álcool e riscava fogo. Elas corriam incendiadas.

     Lembro-me ainda de quantas e quantas vezes nos sentávamos no balanço de ferro, pintado de branco, na varanda. Normalmente, as visitas se acomodavam ali para uma prosa informal. Noutras vezes, o meu sobrinho era embalado no vai-e-vem da cadeira de fazer dormir. Era agradável ficar olhando as roseiras, tinhorões e margaridas, no canteiro próximo.

     Meu pai, uma vez, recebia um famoso jogador do Rio de Janeiro. Conversavam ele e mais alguns admiradores do astro do futebol, que dava o ar de sua graça. A varanda servia de cenário para  a  troca  de informações sobre pênaltis, melhor defesa ou ataque, essas coisas da arte com a bola nos pés. Precisávamos atravessar aquela área, não de impedimento, mas passagem obrigatória para quem vinha da sala, eu e minhas irmãs. E ouvíamos  “ -Vocês não vão cumprimentar as pessoas?” Interpelava-nos o pai, percebendo que saíamos de fininho, entre risinhos tímidos e sem jeito...

     Aquela varanda foi entrada para grandes alegrias mas também para grandes tristezas. Não era fácil para mim, quando pessoas chegavam com a intenção de ver a casa. Eram elas interessadas em comprá-la. A casa seria vendida, sim. Isso me fazia sofrer. Teríamos de deixar aquele lugar encantado. Ali, minhas grandes descobertas. Ali, onde, aos poucos, fui percebendo meu corpo se transformar, como borboleta libertando-se do casulo. E a alma de menina desabrochando para os sentimentos de mulher. Onde as primeiras lágrimas de  amor me surpreenderam e foram derramadas.

     Fiz quinze anos na casa da Fassbender. Minha mãe, ela mesma, fazia um bolo de três camadas, coloridas com anilina: azul,  rosa  e branco. Depois, mandava para dona   Inah,  que o confeitava com bonitos trabalhos de glacê. Não houve festa. Apenas meus irmãos e, algumas  vizinhas com quem repartíamos o bolo, docinhos e guaraná. Meu vestido era estampado de azul. Minha mãe o costurara. Apesar de morarmos naquela  casa  grande  e bonita, a situação financeira de meu pai inspirava cuidados. Não se podia fazer uma festa de quinze anos. Não como se devia. Como a que fizeram para minha amiga e colega de escola, Ângela. Participamos dessa festa para dançar a valsa, eu e mais outras quatorze meninas. Eu ainda usava sapatos baixos, com os meus quinze anos incompletos. Nesse dia, sofri  uma  decepção amorosa. O rapaz que eu  espreitava  da bay-window, no meu quarto, se encantava por outra mocinha. Eu me senti um zero, feia. Era o amor da minha vida. O que faria, depois daquilo... Mas as coisas mudaram. O namorico deles nem chegou a começar, para o meu alívio. Foi muito bom quando a avistei, na pracinha, dando voltas com outro rapaz, com a benção de Deus e a minha. Mais tarde, os dois se casariam.

     Tive duas amigas de infância que moravam em frente à nossa casa: eram irmãs. Fomos inseparáveis. Brincávamos ainda na rua. Lembro-me de que pegávamos um barbante e o esticávamos de um lado ao outro, para fazer pedágio, quando os carros passavam.

     Um belo dia, como nos contos de fada, o meu amado se aproximou de mim, enquanto dávamos voltas  pela praça. Pensei que fosse ter um treco. Era emoção demais, dentro de um coraçãozinho apaixonado e romântico. Mas isto é outra história.

    

     Quando a casa da Fassbender foi vendida, o novo comprador, Seu Júlio – o mesmo que me vendia   picolés de uva – transformou-a, literalmente, num caixote. Junto com a beleza da casa, meus sonhos desmoronavam A  bonita e aconchegante varanda virou um cômodo fechado, assim como o terraço. E, para piorar tudo, algumas mangueiras cortadas. O meu cantinho secreto, em forma de janela mágica, ruía. Sem ele meus mais íntimos desejos flutuavam perdidos, sem um porto seguro. Portas e janelas, antes enfeitadas, lapidadas, davam lugar a um monstrengo de linhas retas e frias. Recortes de vidro, com contornos de madeira. Não mais olhos escondidos, apaixonados, procurando vida lá fora, por detrás das venezianas.

     Saíamos da casa para morar num apartamento. Sem elevadores. Nessa ocasião, minha mãe tinha vindo a Niterói, socorrer minha avó, que se encontrava doente. Eu e minha irmã Vânia  fizemos a mudança, não sem a ajuda de Dona Irenita, a nova vizinha. Regina, sua filha se tornaria uma das grandes amigas que tive. Minha vida mudava radicalmente.

 

 

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

INDO AO TEATRO POR ESTRANHOS CAMINHOS.


Outro dia, eu e minha irmã estávamos indo ao Rio. O combinado era que nos encontraríamos com meu cunhado que participava de um congresso médico e depois iria até o Shopping da Gávea para uma peça de teatro ou cinema. Esperamos o ônibus no Ingá, bairro onde ela mora.

Nossa conversa é sempre interminável, desde solteiras somos assim, muito unidas, apesar de irmãs. E falávamos, falávamos... Então vem o ônibus e eu pergunto se era aquele, já que minha visão não anda das melhores. É, respondeu ela e acrescentou: O Galeão. Distraída com o papo, não me liguei muito à sua resposta. E fomos, apreciando o sol refletido na água da Baía, barcos e navios, uma bela tarde de inverno, dia ameno. Ela que adora viajar, olhava em direção à Ilha do Governador, dizendo do prazer de estar numa provável viagem. E assim, naquele molejo de nossa condução, eu descansava de um dia exaustivo. Só dava trabalho mesmo à língua, tanto eu quanto ela,  num papo ativo, nosso assunto é extenso. Aí, depois da travessia pela Ponte, o carro seguiu, desceu o Viaduto e minha irmã comentou que nosso trajeto deveria ser pela Lapa. Mas, olhando para fora, ela se espantou: “Ué, estamos passando pelo Cemitério?” Então, de súbito, percebi que algo  errado acontecia e exclamei: “ Estamos indo para o Galeão!” Foi um sufoco! De repente um pânico se alojou, mas que deu lugar a um riso intenso. Ela então, ligou para o celular do marido, avisando do acontecido: “ Voce não sabe o que aconteceu! Duas velhas loucas! “ Continuava ela.” Estamos indo para o Galeão”... Ele não gostou, claro! Resolvemos ir até ao Aeroporto; a região onde estávamos não é lá muito segura, todos sabem... Tiramos proveito da situação para nos distrairmos com a burrada, em vez de nos lamentarmos. Quando, finalmente, chegamos ao fim da linha, descemos e nos aproximamos de um táxi, no desembarque. Ela se adiantou: “ Quanto dá para irmos até a zona Sul?” E ele: “ Não deve passar de cem reais. Mas sou de Niterói, não sei bem”...  rimos mais ainda com a coincidência. De Niterói! Fomos. O trânsito estava um espanto, quase não havia movimento e em alguns minutos, aportávamos seguras, ao Shopping. Assistimos a uma peça interessante, onde o ator de “Rain man” comandava o espetáculo, numa atuação soberba!

Numa próxima ida ao Teatro, vamos ser mais atenciosas. Outro dia, minha irmã que tem memória privilegiada, se gabava de ter lembrado o nome de alguém só com a lembrança da primeira letra. Desta vez, a letra G de Galeão, deu um nó sua cabeça e ela fez uma  confusão  dos diabos com o G de Gávea! Acontece...

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

UM HOMEM, UMA MULHER E DOIS FILHOS.


Ele vestia uma camisa cor de laranja, uma  bermuda preta, um tanto gasta; ela uma blusa de malha cinza, calça jeans e usava óculos discretos; aparentava estar um pouco acima do peso ideal mas , mesmo assim, uma mulher bonita, bem feita de corpo. Entre o casal, dois meninos. Um, aparentando uns dez anos e o outro, talvez, uns quatro. Sentados à minha frente, no banco da igreja. Missa das seis. O padre já anunciava sua pregação. Mas eu, devo confessar, não tirava os olhos daquela família bonita, principalmente, do garotinho menor, postado em frente a mim. Ele se voltava para trás, observando os gestos de uma senhora que rezava com mais convicção que eu ( pelo menos aparentava isso, com seus molejos de braços e um canto com volume bem acima do meu). E a criança olhava, e eu ria para ela, toda vez que  se virava. Estava literalmente encantada com o menino, que batia palmas e tentava cantarolar os hinos religiosos, imitando a mãe e o pai.  Num dado momento, esse pai carinhoso pegou-o ao colo e ele se aninhou de forma aconchegante. Eu percebia suas mãozinhas pequenas batendo palmas ao redor do pescoço paterno. Era um encanto. E mais encantador era perceber o carinho do irmão maior que observava o  caçula com olhos ternos e sorria para a mãe, mostrando as atitudes do pequeno. Passei todo o tempo da missa assim: sem tirar os olhos daquela cena bonita. Até que o pai colocou o menininho no banco, novamente. Daí a poucos minutos, ele cochilava, embalado pelas canções e pelo coro dos fiéis, naquele compasso lento. Dormiu. O irmão mais velho se apressou em avisar aos pais. O homem, de novo, pegava a criança ao colo, com extremado cuidado. Em poucos minutos, a mãe trocou de lugar com o filho maior e tomou para si o menor que dormia. Uma cena simples mas  comovente. Quando a celebração da missa chegava ao fim, não me contive e perguntei à jovem mãe a idade do menino menor. “_Quatro anos”. Respondeu ela, com um sorriso. E eu: “- Tenho um neto com essa idade”. Ajoelhei-me para me despedir de Jesus e saí da igreja; coração leve.

 

 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Alegrias e tristezas


Hoje é dia 07 de novembro de 2010.

 

Escrevo numa folha em branco do computador, mas sob ela, escondida, está uma enorme tristeza. É um sentimento de perda, frustração. Há um pouco de irritação também, afinal sou humana. Minha autoestima está em jogo. E o outro time ganha de lavada! Estou perdendo o meu orgulho. Era mais “banqueira”, como costumávamos dizer na época dos namorados. A desvantagem aumentou. Hoje estou velha. Não vou aliviar, dizendo melhor idade, essas coisas... Fiquei velha mesmo e isso faz toda a diferença. Os exemplos são muitos, incontáveis, de pessoas que se dão bem apesar da idade, do tempo. Mas comigo não é assim.  Porque soaria falso. Se fosse jovem, as coisas seriam diferentes, com certeza. Teria todo  tempo do mundo para bancar a durona. E a concorrência, menos desleal. A cada dia, sinto mais uma ruguinha aparecendo; a imagem  que costumava  admirar no espelho, deu lugar a uma senhora; como costumam dizer:” você está muito bem!” Esse bem não quer dizer bonita, jovem, apenas quer dizer que não despenquei de vez. Dá pro  gasto... Não há nada que eu possa fazer para mudar as coisas. Aliás, tentei. Fui às últimas conseqüências, me arrisquei, falei dos meus sentimentos, fiz declarações, que nunca pensei conseguisse fazer um dia. Fui além: me  humilhei,  dei a cara a tapa. De nada valeu. E aí vem essa sensação de derrota, de batalha perdida. Sou o Napoleão na ilha de Santa Helena. Daqui a alguns dias, faço 65 anos. Se somar mais cinco, setenta. Velha,  velhinha. Como as avós que eu olhava antigamente, quando me achava tão distante daquela realidade. Velhinha assim, só depois de  milhões de anos! Não chegaria tão cedo. Mas chegou. Outro dia, entrava no ônibus e pensava que em poucos dias não pagaria mais passagens. São algumas poucas vantagens que adquirimos com a idade. Vantagens? Que nada! Já me vejo encabulada, sem saber se entro pela porta da frente ou se compro a passagem para não pagar esse mico! Oh, céus, o que fazer?

Devo então dizer que são alegrias tristes, é possível? É. São adjetivos contraditórios que acabo de inventar, uma nova nomenclatura para qualificar os substantivos...

Pensando bem, quando falei de uma época em que podia me dar o luxo de brincar com o tempo, de botar banca, porque podia blefar... Estava meio que me enganando...Vieram-me à lembrança enormes frustrações e derrotas por que passei. Como não havia pensado nisso, antes de escrever tamanha bobagem? É claro que a idade pesa. É claro que não sou mais cobiçada, a não ser pelos serviços de tele- marketing, oferecendo um novo cartão de crédito ou mesmo um novo celular, ou provedor e todos aqueles por quem somos metralhados todos os dias. Então. Quando era jovem, bonita,  desejada, também tive grandes decepções. Confiava em sair vitoriosa, já que desfrutava de tantos privilégios, dados de bom grado pela mãe Natureza. Sairia vencedora, como não? E quebrei a cara, mesmo assim. Impotência total e fatal. Por que não consegui os meus objetivos já que celebrava todas as benesses? Daí a dor maior. Apesar de tudo, dos benefícios, como por  exemplo a juventude e beleza, apanhei da sorte. Levei a pior, sim. Fui massacrada por outros fatores alheios à minha vontade. São palavras que consolam, num momento em que as alegrias são tão pequenas, tão fugidias...