Quando nos mudamos, eu mal podia
acreditar. Era a casa dos meus sonhos. Havia dois andares. Um portão menor
servia de entrada à varanda que meu pai reformou e a transformou numa mais
bonita. Pilastras grandes sustentavam o lindo terraço, cercado de grade de
ferro, desenhada. Existia um pomar ao redor de quase toda a extensão da casa.
Ao lado, já se avistavam quatro frondosas mangueiras, que costumavam estar
carregadas; um singelo pé de abacate e de pinha eram quatro; mais atrás,
onde ficava a varanda da cozinha, havia um imponente pé de jambo. Um tapete
colorido de carmim se formava, quando as flores caíam. Havia ainda pés de
goiaba, bananeiras, mamão, um pé de abiu -da -terra e, majestosa jabuticabeira; essa, sim,
dava gosto de se ver. Jabuticabas colhidas
do rés do chão, até o último galho. Esse lado do pomar era dividido por
um muro não muito alto, coberto de hera. Pequenas aranhas se confundiam com a
folhagem verde.
Na varanda, duas
portas: uma que dava para a sala de visitas, para onde meu pai comprara um belo
conjunto de sofá, com quatro lugares e duas poltronas. Lindamente estampado com
uma cor entre marrom e vinho, com flores grandes. Depois, vinha uma outra sala
grande, de jantar. Foram colocados ali alguns móveis que vieram da São Tomé. Lembro
bem: umas poltronas menores, de veludo estampado de amarelo e azul-marinho,
uma escrivaninha de jacarandá preto, mais uma cadeira de escritório que girava.
Quando menores, costumávamos nos sentar naquela cadeira e o outro irmão a
rodava até nos sentirmos tontos. Não sei
porque fazíamos isso, se nos deixava
enjoados, com náuseas. Um outro quarto,
contíguo a esta sala, mais tarde, foi transformado em quarto de costuras da
minha mãe. Em vez de porta, havia um arco entre esses dois cômodos. Mais uma
porta dava entrada a uma copa, com lavabo, que se resumia em pequena pia
branca. Depois, vinha a cozinha, onde a Zé ( cozinheira da casa e minha amiga
inseparável) fritava suas batatas e nos dava petelecos, quando a importunávamos.
Subindo ao segundo andar, havia um pequeno hall de distribuição. O primeiro
quarto, o maior, era do casal. À direita da escada um pequeno corredor nos
levava a outros dois quartos e um banheiro enorme. As construções daquela época pecavam por isso. Meu pai, então, resolveu
construir mais um. Reduziu pela metade a varanda de trás da cozinha e fez mais um quarto de banho, nesse espaço. Ficou bonito, todo de
azulejos azuis, com banheira, completo. Uma beleza.
A escada que nos levava ao segundo andar
era toda de madeira Vejo-me encerando cada degrau e dando lustre com um pesado
escovão. Sob a escada, uma portinhola de madeira arrematava e
fechava aquele espaço oco. Ali se guardavam vassouras e todos os trecos
da casa. Não era raro, ao abrirmos a pequena porta, que nos deparássemos com desagradáveis e inamistosas aranhas do
tipo caranguejeira. Só de falar, me dá arrepios. Para matá-las o “corajoso”
usava álcool e riscava fogo. Elas corriam incendiadas.
Lembro-me ainda de quantas e quantas vezes
nos sentávamos no balanço de ferro, pintado de branco, na varanda. Normalmente,
as visitas se acomodavam ali para uma prosa informal. Noutras vezes, o meu
sobrinho era embalado no vai-e-vem da cadeira de fazer dormir. Era agradável
ficar olhando as roseiras, tinhorões e margaridas, no canteiro próximo.
Meu pai, uma vez, recebia um famoso
jogador do Rio de Janeiro. Conversavam ele e mais alguns admiradores do astro
do futebol, que dava o ar de sua graça. A varanda servia de cenário para a troca de informações sobre pênaltis, melhor defesa
ou ataque, essas coisas da arte com a bola nos pés. Precisávamos atravessar
aquela área, não de impedimento, mas passagem obrigatória para quem vinha da
sala, eu e minhas irmãs. E ouvíamos “
-Vocês não vão cumprimentar as pessoas?” Interpelava-nos o pai, percebendo que
saíamos de fininho, entre risinhos tímidos e sem jeito...
Aquela varanda foi entrada para grandes
alegrias mas também para grandes tristezas. Não era fácil para mim, quando
pessoas chegavam com a intenção de ver a casa. Eram elas interessadas em
comprá-la. A casa seria vendida, sim. Isso me fazia sofrer. Teríamos de deixar
aquele lugar encantado. Ali, minhas grandes descobertas. Ali, onde, aos poucos,
fui percebendo meu corpo se transformar, como borboleta libertando-se do
casulo. E a alma de menina desabrochando para os sentimentos de mulher. Onde as
primeiras lágrimas de amor me
surpreenderam e foram derramadas.
Fiz quinze anos na casa da Fassbender.
Minha mãe, ela mesma, fazia um bolo de três camadas, coloridas com anilina:
azul, rosa e branco. Depois, mandava para dona Inah,
que o confeitava com bonitos trabalhos de glacê. Não houve festa. Apenas
meus irmãos e, algumas vizinhas com quem
repartíamos o bolo, docinhos e guaraná. Meu vestido era estampado de azul.
Minha mãe o costurara. Apesar de morarmos naquela casa
grande e bonita, a situação
financeira de meu pai inspirava cuidados. Não se podia fazer uma festa de quinze
anos. Não como se devia. Como a que fizeram para minha amiga e colega de
escola, Ângela. Participamos dessa festa para dançar a valsa, eu e mais outras
quatorze meninas. Eu ainda usava sapatos baixos, com os meus quinze anos
incompletos. Nesse dia, sofri uma decepção amorosa. O rapaz que eu espreitava
da bay-window, no meu quarto, se encantava por outra mocinha. Eu me
senti um zero, feia. Era o amor da minha vida. O que faria, depois daquilo... Mas
as coisas mudaram. O namorico deles nem chegou a começar, para o meu alívio.
Foi muito bom quando a avistei, na pracinha, dando voltas com outro rapaz, com
a benção de Deus e a minha. Mais tarde, os dois se casariam.
Tive duas amigas de infância que moravam
em frente à nossa casa: eram irmãs. Fomos inseparáveis. Brincávamos ainda na
rua. Lembro-me de que pegávamos um barbante e o esticávamos de um lado ao
outro, para fazer pedágio, quando os carros passavam.
Um belo dia, como nos contos de fada, o
meu amado se aproximou de mim, enquanto dávamos voltas pela praça. Pensei que fosse ter um treco.
Era emoção demais, dentro de um coraçãozinho apaixonado e romântico. Mas isto é
outra história.
Quando a casa da Fassbender foi vendida, o
novo comprador, Seu Júlio – o mesmo que me vendia picolés de uva – transformou-a,
literalmente, num caixote. Junto com a beleza da casa, meus sonhos desmoronavam
A bonita e aconchegante varanda virou um
cômodo fechado, assim como o terraço. E, para piorar tudo, algumas mangueiras
cortadas. O meu cantinho secreto, em forma de janela mágica, ruía. Sem ele meus
mais íntimos desejos flutuavam perdidos, sem um porto seguro. Portas e janelas,
antes enfeitadas, lapidadas, davam lugar a um monstrengo de linhas retas e
frias. Recortes de vidro, com contornos de madeira. Não mais olhos escondidos,
apaixonados, procurando vida lá fora, por detrás das venezianas.
Saíamos da casa para morar num
apartamento. Sem elevadores. Nessa ocasião, minha mãe tinha vindo a Niterói,
socorrer minha avó, que se encontrava doente. Eu e minha irmã Vânia fizemos a mudança, não sem a ajuda de Dona
Irenita, a nova vizinha. Regina, sua filha se tornaria uma das grandes amigas
que tive. Minha vida mudava radicalmente.
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