sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A casa da Avenida Fassbender


     Quando nos mudamos, eu mal podia acreditar. Era a casa dos meus sonhos. Havia dois andares. Um portão menor servia de entrada à varanda que meu pai reformou e a transformou numa mais bonita. Pilastras grandes sustentavam o lindo terraço, cercado de grade de ferro, desenhada. Existia um pomar ao redor de quase toda a extensão da casa. Ao lado, já se avistavam quatro frondosas mangueiras, que costumavam  estar  carregadas; um singelo pé de abacate e de pinha eram quatro; mais atrás, onde ficava a varanda da cozinha, havia um imponente pé de jambo. Um tapete colorido de carmim se formava, quando as flores caíam. Havia ainda pés de goiaba, bananeiras, mamão, um pé de abiu -da -terra  e,  majestosa jabuticabeira; essa, sim, dava gosto de se ver. Jabuticabas colhidas  do rés do chão, até o último galho. Esse lado do pomar era dividido por um muro não muito alto, coberto de hera. Pequenas aranhas se confundiam com a folhagem verde.

Na varanda, duas portas: uma que dava para a sala de visitas, para onde meu pai comprara um belo conjunto de sofá, com quatro lugares e duas poltronas. Lindamente estampado com uma cor entre marrom e vinho, com flores grandes. Depois, vinha uma outra sala grande, de jantar. Foram colocados ali alguns móveis que vieram da São Tomé. Lembro bem: umas poltronas menores, de veludo estampado de amarelo e azul-marinho, uma escrivaninha de jacarandá preto, mais uma cadeira de escritório que girava. Quando menores, costumávamos nos sentar naquela cadeira e o outro irmão a rodava até nos sentirmos tontos. Não  sei  porque fazíamos isso, se nos deixava enjoados, com náuseas. Um outro  quarto, contíguo a esta sala, mais tarde, foi transformado em quarto de costuras da minha mãe. Em vez de porta, havia um arco entre esses dois cômodos. Mais uma porta dava entrada a uma copa, com lavabo, que se resumia em pequena pia branca. Depois, vinha a cozinha, onde a Zé ( cozinheira da casa e minha amiga inseparável) fritava suas batatas e nos dava petelecos, quando a importunávamos. Subindo ao segundo andar, havia um pequeno hall de distribuição. O primeiro quarto, o maior, era do casal. À direita da escada um pequeno corredor nos levava a outros dois quartos e um banheiro enorme. As construções daquela época  pecavam por isso. Meu pai, então, resolveu construir mais um. Reduziu pela metade a varanda de trás da  cozinha e fez mais um quarto de  banho, nesse espaço. Ficou bonito, todo de azulejos azuis, com banheira, completo. Uma beleza.

     A escada que nos levava ao segundo andar era toda de madeira Vejo-me encerando cada degrau e dando lustre com um pesado escovão. Sob a escada, uma portinhola de madeira arrematava  e  fechava aquele espaço oco. Ali se guardavam vassouras e todos os trecos da casa. Não era raro, ao abrirmos a pequena porta, que nos deparássemos  com desagradáveis e inamistosas aranhas do tipo caranguejeira. Só de falar, me dá arrepios. Para matá-las o “corajoso” usava álcool e riscava fogo. Elas corriam incendiadas.

     Lembro-me ainda de quantas e quantas vezes nos sentávamos no balanço de ferro, pintado de branco, na varanda. Normalmente, as visitas se acomodavam ali para uma prosa informal. Noutras vezes, o meu sobrinho era embalado no vai-e-vem da cadeira de fazer dormir. Era agradável ficar olhando as roseiras, tinhorões e margaridas, no canteiro próximo.

     Meu pai, uma vez, recebia um famoso jogador do Rio de Janeiro. Conversavam ele e mais alguns admiradores do astro do futebol, que dava o ar de sua graça. A varanda servia de cenário para  a  troca  de informações sobre pênaltis, melhor defesa ou ataque, essas coisas da arte com a bola nos pés. Precisávamos atravessar aquela área, não de impedimento, mas passagem obrigatória para quem vinha da sala, eu e minhas irmãs. E ouvíamos  “ -Vocês não vão cumprimentar as pessoas?” Interpelava-nos o pai, percebendo que saíamos de fininho, entre risinhos tímidos e sem jeito...

     Aquela varanda foi entrada para grandes alegrias mas também para grandes tristezas. Não era fácil para mim, quando pessoas chegavam com a intenção de ver a casa. Eram elas interessadas em comprá-la. A casa seria vendida, sim. Isso me fazia sofrer. Teríamos de deixar aquele lugar encantado. Ali, minhas grandes descobertas. Ali, onde, aos poucos, fui percebendo meu corpo se transformar, como borboleta libertando-se do casulo. E a alma de menina desabrochando para os sentimentos de mulher. Onde as primeiras lágrimas de  amor me surpreenderam e foram derramadas.

     Fiz quinze anos na casa da Fassbender. Minha mãe, ela mesma, fazia um bolo de três camadas, coloridas com anilina: azul,  rosa  e branco. Depois, mandava para dona   Inah,  que o confeitava com bonitos trabalhos de glacê. Não houve festa. Apenas meus irmãos e, algumas  vizinhas com quem repartíamos o bolo, docinhos e guaraná. Meu vestido era estampado de azul. Minha mãe o costurara. Apesar de morarmos naquela  casa  grande  e bonita, a situação financeira de meu pai inspirava cuidados. Não se podia fazer uma festa de quinze anos. Não como se devia. Como a que fizeram para minha amiga e colega de escola, Ângela. Participamos dessa festa para dançar a valsa, eu e mais outras quatorze meninas. Eu ainda usava sapatos baixos, com os meus quinze anos incompletos. Nesse dia, sofri  uma  decepção amorosa. O rapaz que eu  espreitava  da bay-window, no meu quarto, se encantava por outra mocinha. Eu me senti um zero, feia. Era o amor da minha vida. O que faria, depois daquilo... Mas as coisas mudaram. O namorico deles nem chegou a começar, para o meu alívio. Foi muito bom quando a avistei, na pracinha, dando voltas com outro rapaz, com a benção de Deus e a minha. Mais tarde, os dois se casariam.

     Tive duas amigas de infância que moravam em frente à nossa casa: eram irmãs. Fomos inseparáveis. Brincávamos ainda na rua. Lembro-me de que pegávamos um barbante e o esticávamos de um lado ao outro, para fazer pedágio, quando os carros passavam.

     Um belo dia, como nos contos de fada, o meu amado se aproximou de mim, enquanto dávamos voltas  pela praça. Pensei que fosse ter um treco. Era emoção demais, dentro de um coraçãozinho apaixonado e romântico. Mas isto é outra história.

    

     Quando a casa da Fassbender foi vendida, o novo comprador, Seu Júlio – o mesmo que me vendia   picolés de uva – transformou-a, literalmente, num caixote. Junto com a beleza da casa, meus sonhos desmoronavam A  bonita e aconchegante varanda virou um cômodo fechado, assim como o terraço. E, para piorar tudo, algumas mangueiras cortadas. O meu cantinho secreto, em forma de janela mágica, ruía. Sem ele meus mais íntimos desejos flutuavam perdidos, sem um porto seguro. Portas e janelas, antes enfeitadas, lapidadas, davam lugar a um monstrengo de linhas retas e frias. Recortes de vidro, com contornos de madeira. Não mais olhos escondidos, apaixonados, procurando vida lá fora, por detrás das venezianas.

     Saíamos da casa para morar num apartamento. Sem elevadores. Nessa ocasião, minha mãe tinha vindo a Niterói, socorrer minha avó, que se encontrava doente. Eu e minha irmã Vânia  fizemos a mudança, não sem a ajuda de Dona Irenita, a nova vizinha. Regina, sua filha se tornaria uma das grandes amigas que tive. Minha vida mudava radicalmente.

 

 

 

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