sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Vento, limão, cebola e...velhice.

Arrumar a cama, era mais uma tarefa. Pela janela entrava um vento assombrosamente fresco, já que as informações dos noticiários na TV anunciavam sensação térmica de 50º. Mas a persiana balançava, com as paletas fazendo barulho; presumo feitas de material plástico ou do petróleo, que serve pra tantas coisas , não sei mesmo ( tão útil e ao mesmo tempo,

MENINA, MOÇA, MULHER.

Escrever sobre as fases da vida, um grande desafio. Tivemos um amigo em Volta Redonda (morei lá por quinze anos) que eu achava engraçado porque costumava dizer: "_Vou palitar o cérebro", quando queria se lembrar de algo. Que bom se eu tivesse também o dom de "palitando" o cérebro me lembrasse de tudo que vivi. Entretanto, sinto-me motivada. Sobre a meninice já falei um pouco. Lembro-me ainda de ter dito alguma coisa da adolescência. Mas, sobre a mulher, não sei quando aconteceu a transformação. Talvez, nada tenha mudado de forma radical. O corpo, sim. Mas as emoções são companheiras constantes e governam a nossa existência. Dos medos, inseguranças, das descobertas, decepções, do sofrimento, dos amores fracassados, das injustiças, lutas e dos momentos felizes, por que  não falar de tudo isto que vem embalado junto? Rever, ao mesmo tempo que me traz boas recordações, me faz sofrer, remoendo momentos difíceis que ainda persistem. Esse caldeirão continua fervendo, algumas vezes, em fogo lento para cozinhar nossa alma, deixando-a macia, como um pedaço de carne na panela de pressão. E a palavra ideal é essa: pressão. Somos movidos pela sucessão de acontecimentos. Mas há o contraponto, a inércia que nos acomete, diante do que não podemos mudar. Mas chega de conversa. Quero pensar numa época bonita e ao mesmo tempo, angustiante, que foi a minha mocidade. Quando sentia a vida inteira me esperando, vislumbrando um futuro feliz. Nunca seria como aquela tia, cujo marido vibrava com a aproximação de qualquer rabo de saia; não, comigo seria diferente. Teria um homem apaixonado, que só me traria alegrias, inteiramente meu, com certeza. Era assim que costumava pensar. Fui sempre otimista. Melhor, sonhadora. Via o mundo do lado bonito. Li muito romance de M. Delly ( faz muito tempo, é assim  que se escreve?); o fato é que eram histórias lindas, românticas, onde a mocinha terminava junto ao seu amado, depois de sobressaltos e peripécias da vida. Lembro-me de quando vasculhava a estante de livros do meu pai, que era advogado; lá havia um livro "Medicina legal", onde eu descobrira a foto de um homem nu. Era a curiosidade natural de menina, numa época em que ver um corpo masculino pelado, só depois de casada, luz apagada, com certeza. E eram sonhos e planos de felicidade. Sempre gostei de ler, desde a escola da fazenda, quando pegava livros enviados pela Prefeitura para nossa professora, a querida D. Zandir. Além das revistas que minha irmã colecionava : Revista do rádio, Filmelândia, Cinelândia e tantas outras, os gibis infantis, onde o Super-Homem e o Capitão Marvel eram os mocinhos imbatíveis. Quantas vezes me peguei rodando, como os integrantes da família Marvel, que assim se transformavam em super-heróis, com super-poderes!... Meu ex-marido foi meu professor de Português, já contei. Numa cidade pequena como a nossa, não era muito comum um jovem como ele dando aulas tão modernas e interessantes. Começou ensinando-nos a ler artigos de jornais, crônicas e nos deu todos os ensinamentos sobre análise sintática, falou-nos dos estrangeirismos, tão aplicados em nossa língua, latim e palavras gregas, essas coisas...foi uma época de grandes leituras de livros, de poesia e de entusiasmo pela língua Portuguesa e também pelo professor, tão culto e tão mulherengo. Era antipatizado pelos rapazes da cidade, que  viam nele um homem arrogante e ameaça iminente para suas namoradas. Mas meu marido, agora ex, fica para outro capítulo, aliás, já fiz muitos textos sobre nosso casamento, que não foi tão bom, excetuando o que tenho de mais precioso: meus filhos.  Foi o que produzimos de bom naquela união. Então, vou ver se  me lembro de algumas passagens da vida boa de solteira. Do tempo dos bailes, do namoro escondido, dos flertes e também das frustrações, estas eternas companheiras. Eu era bonita. Todos me achavam bonita: eu, nem tanto.  Tive muitos complexos, apesar de ser bem cotada pelos moços, meus admiradores. Puxei meu pai, que não era muito alto. Sentia-me insegura, quando qualquer moça bonita, charmosa aparecia em nossa terra. Nunca valorizei o que eu tinha de melhor. Não que eu me considerasse feia, pois não era. Mas tenho esse grave defeito: me desvalorizo um pouco, o que não mudou muito com a idade. No mês de agosto, há uma festa em Bom Jesus, a festa da cidade. Naquela época, bailes maravilhosos eram promovidos, com grandes orquestras, as melhores. Eram três noites de pura euforia. Havia os desfiles escolares na praça. Lembro-me de passar giz no tênis de ginástica para ficar branco e bonito, a saia pregueada a ferro, impecável. Como era baixinha, uma sorte quando me escolhiam para separar o "pelotão", com temas históricos. Segurava a bandeira com fidalguia, junto com a colega de turma. Foram tempos incríveis. Sentia o rosto afogueado, ao avistar o namorado entre a multidão que assistia. Mas era uma glória. Nos bailes éramos convidadas a dançar. E feio era dar "caroço", recusar uma dança, tremenda indelicadeza, ainda que ele não fosse o galã pelo que ansiávamos. Nossos pais costumavam ir, nos acompanhando. Meu pai avisava  discretamente sobre a aproximação de um rapaz, que ele sabia não nos deixaria feliz. Ele dizia, entredentes: "Aí vem o tourinho gir", referindo-se ao dançarino baixinho, atarracado e forte que mais parecia um boizinho zebu, morador na cidade vizinha, frequentador assíduo dos bailes da festa de agosto... Meu pai que gostava de lidar na fazenda, fazia suas comparações. Se desse tempo, corríamos para o toillette, evitando assim humilhar o pobre pretendente. Dançar de rosto colado era o máximo que nos permitíamos. Havia uma senhorita meio avançada para os padrões da época que, lá pelas tantas, o rapaz dava mostras de estar um tanto excitado, com a aproximação exagerada, digamos assim, dos seus corpos. Nós ficávamos abismadas com o comportamento deles. Santa ingenuidade... Tive um namoro proibido. Durou, mais ou menos uns três anos. Éramos apaixonados. Um "Romeu e Julieta" da cidade. Ele era um rapaz bonito, tinha olhos verdes que lembravam um ator de cinema, lindo e famoso, o Paul Newman. Como meu pai proibiu o nosso namoro, a coisa ficou séria, com gosto de novela romântica. Íamos ao único cinema da cidade, na praça. Tudo escondido. Depois da valsa de Strauss, que abria a sessão, as luzes se apagavam e o amigo do meu amado, que, estrategicamente, havia sentado ao meu lado, trocava de lugar com ele. Quando segurava minhas mãos, um calor me subia, tomada de grande emoção. Sentia o rosto quente e o coração bater forte. Encostados na mureta da igreja, após a sessão de cinema trocávamos carinho e beijos furtivos. Quando meu pai despontava em qualquer esquina, nossos amigos avisavam e disfarçávamos, eu dando voltas pela praça com as amigas aliadas e que já sabiam da história. E, assim vivemos um amor bonito. Sei que meu pai estava coberto de razão. O moço que, antes de se encantar por mim era amigo do meu pai, de beber juntos, de conversas na praça, não deveria ser o modelo ideal para namorar sua filha. O mundo parece que mudou, virou de pernas pro ar. As pessoas não encontram muito tempo para sonhar, ou  o fato de nós mulheres termos alcançado a tão propalada independência, liberdade, principalmente sexual, deixou-nos com cara de tacho, como se dizia antigamente. Pagamos um preço. Os homens parecem não estar preparados para tanta modernidade. A vulgaridade passou a ser a tônica entre a maioria das mulheres. Fomos surpreendidas e presas nesta armadilha: como ser feminina, interessante, se não observamos os limites da coerência? Alguns homens se escondem com medo de se comprometerem, outros, fragilizados diante de tanta competência. Além dos assumidos, come se pode ver, saídos do armário. Sobrou pouca coisa para uma vida mais bonita. Onde está o amor? Quando morreu o romantismo? Quem vai pagar essa conta? Sinto-me meio ridícula, fora de moda. Não me acostumo, não quero viver num mundo sem esperanças: não quero não poder acreditar nas pessoas.

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sábado, 17 de janeiro de 2015

Um romance...quem sabe!?

Cada vez que leio um livro, não importa se de crônicas, poesia,  ficção, romance, fatos históricos, sinto uma inveja danada. Confesso esse pecado segundo a igreja,  venial, se bem me lembro do catecismo. Confesso ( olha a igreja de novo) comecei,   sim, a escrever uma história. Tenho alguns capítulos já feitos mas, de  tempos em tempos, quando resolvo dar uma olhada, acho tão ruim que desisto de continuar. Mas fico pensando que se não arriscar aí é que não sai mesmo. Claro que seria ficção. Claro também que não há nada que seja completamente imaginação, os autores se baseiam em fatos concretos, em personagens que imitam alguém ou seu comportamento, independente de ser totalmente fiel. Quero muitíssimo acabar o que comecei. Vi um filme, semana que passou. Era sobre uma escritora bem conhecida. Sua amiga e protetora, Simone de Beauvoir, mais ainda. Quem a motivou a escrever apenas lhe disse, com palavras cruas: - "Escreva tudo que tem nessa sua cabeça, pegue papel e tinta e deixe de me dizer reclamações!" Mais ou menos assim. Ela, modestamente, seguiu a idéia daquele homem, pretenso escritor e que a detestava, além de explorar seu amor por ele. Deu certo. Demorou. Mas deu certo. Um talento estrondoso, ainda mais numa época de total repressão,  pós guerra; contudo, floresceu. As mulheres eram cerceadas em  seu direito de sentir, quanto mais de dizer o que queriam. Mas foi assim, timidamente, o começo de uma grande escritora. Saí da sala de cinema com um bichinho corroendo meus pensamentos; na verdade, fiquei instigada a continuar os capítulos que esboçara e dos que eu própria costumo ser crítica severa. Acho, vou preparar mais umas páginas, intercalando realidade com ficção. Deitada, esperando o sono chegar, visualizei um personagem já descrito anteriormente, sem grande importância  na história. Pensei umas coisas interessantes, depois de ouvir notícias na TV e misturei com outra história, desta vez, inventada por um bom autor. Hoje, quero seguir com o meu romance. Lendo o título deste pequeno texto, alguns podem ter pensado que arranjei um novo amor... não se enganaram totalmente, tenho pensado muito nele, sim. Quero ter um romance, mas com páginas e capítulos. Para isso devo ter colado ao meu corpo muita vontade e pedir ao Senhor que me dê o talento necessário. Presunção e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, não é mesmo?

sábado, 10 de janeiro de 2015

Iceberg

Já é tempo de forçar o corpo e só assim realizar qualquer coisa. Não precisa ser de grande utilidade, nem importante. Apenas começar. Ou recomeçar, melhor dizendo. Aí é que a porca torce o rabo, diria o povo. Não sei ao certo o que isto quer dizer mas deve ser tarefa complicada. Assuntos pipocam nas telas da TV. Não só ali, mas nos outros aparelhinhos menores, informações correm à larga.   Monstros camuflados de gente, matando por uma causa  que inexiste. Apenas fanatismo.  Não há ódio latente, o que acontece é a tragédia humana, tão eloquente que nos foge à compreensão. Não depende do esforço que faço, nem de inspiração falar sobre a vida; é tão inócuo quanto chupar uma pedra de gelo. Porque cheguei à conclusão de que não há regras e ninguém sabe nada de nada.Queria ser assim, fria, dura. Queria não me importar com os seres que me são caros. Não consigo. Queria me distrair e me conduzir por estradas nunca antes percorridas. Não sei fazer assim. Não quero fazer assim. Devo fazer assim, dizem. "Navegar é preciso".Cada um de nós tem uma genética ou sei lá o quê, quando nos referimos às características, personalidade, amor ou desamor, enfim, a tudo de que é composto um ser que, como eu, dizem ser humano. Qual seria a definição correta para essa palavra? Há uma classificação numérica ou genérica para a distinção entre pessoas? Sei não. Há os que erram. A culpa é da sociedade, a culpa é da falta de oportunidades, a culpa é sempre de alguém, do governo ( este, na maioria das vezes, inegavelmente, concorre para fracassos) mas quais sejam os motivos, não saberemos medir a capacidade ou dificuldades de cada um.
Outro dia, apesar das dores do corpo e insegurança para sair, armei-me de coragem e parti para a rua. Precisava de algum dinheiro no bolso. Tomei um táxi, já avisando que o percurso seria curto. Vi pessoas caminhando, sentindo o barulho e intenso calor das ruas. Desci diante da porta fechada do banco mas me adiantei e troquei uma quantia. Iria ao cinema ali perto. Cheguei com cinco minutos de antecedência mas a tela já se enchia de cores. Achei minha irmã bem onde ela disse que estaria. O filme começou logo. A história real de uma escritora solitária e sofrida. Deprimente mesmo. Interessante contudo. Identifiquei-me  em alguns pontos com aquela vida, aquela história. Não há, na verdade, roteiro nenhum. Vamos vivendo apenas. Em cada esquina uma observação ou uma surpresa.
Minha recuperação está acontecendo. Há momentos de extrema fraqueza e desalento. Não há modelo a seguir, volto a dizer. Na saída do cinema, minha irmã falou com uma concertista ( toca harpa) e falavam as duas sobre viagens, sobre Paris, lugares que ambas conheceram, enfim, enfatizavam o poder curador de uma boa viagem, de se fazer atividades culturais, essas coisas. Concordo em gênero, número e grau. Só que alguns empecilhos atravancam minha saída. Dinheiro? Não o mais importante, para isso dá-se um jeito. Então, o quê? Não vou revelar assim, de bandeja. Darei uma dica. Tenho plantados no meio do peito algumas sementes, são três. Talvez, sejam as pequenas raízes que carrego o que me prende tão fortemente ao solo. É preciso regá-las com muito amor. A presença delas me faz viver. Apesar das pragas do caminho, vou tentando protege-las. Missão difícil, custosa. Por isso, visualizo um iceberg à deriva, uma pedra de gelo que não tem direção certa, que se conduz ao sabor dos ventos ou mesmo se aquieta na calmaria momentânea dos mares. Queria ser fria, queria ser dura, sem cor, sem viço: um iceberg.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Viver por viver...

Quando tudo parece normal, quando as tarefas diárias  nos são  obrigatórias, quando as atividades nos são enfadonhas e mesmo assim  temos de cumpri-las, nada disso tem o valor que merece a não ser quando perdemos o dom maravilhoso da saúde. Aí, sim. Tudo o que renegamos, nos parece a dádiva suprema. Enfim, trabalhar, cumprir tarefas, mesmo as mais desagradáveis, nos parecem o maior dos bens. Estou assim. Sinto o corpo desobediente. Não há mais comando sobre os braços, as pernas meio que se arrastam e as pequenas distancias entre o quarto e a cozinha se alongam de tal forma que parece andei um quarteirão inteiro. Luto muito para estar em forma outra vez. Recorri ao médico que me receitou ansiolítico e antidepressivo. Melhorei um pouco. Pelo menos consigo não fazer vômitos quando como , o apetite vem se normalizando. Só meu sorriso desapareceu completamente; a graça, o ânimo, parecem coisas de outro planeta. É como se nunca tivessem existido. Depressão. Essa palavra me dá arrepios. Quando voltarei a ser feliz? Quando terei vontade de inventar coisas, ir ao mercado,  conversar com as pessoas? Limpar a casa que anda mal cuidada, ajeitar gavetas, tocar meu violão, são coisas que não consigo mais. É triste depender dos outros. Reagir. Esse é um verbo que agarro todos os dias e espero me acertar com ele, mas está demorando. A televisão me dá mais desânimo. Mortes por atropelamentos, acidentes por irresponsabilidades e o governo que se apossa de novo, seguindo rumos que sabemos, não são os que o país necessita. É ver a bruxa malvada tomando conta de novo, com seus asseclas se atropelando uns aos outros e a empáfia desse partido maldito que foi tomando conta de tudo. Nem comentar mais quero. Ver o mal triunfar dá sensação de impotência, como se tudo o que nos foi ensinado sobre respeito, retidão moral, fossem apenas coisas bonitas de se ouvir mas que, na prática, não funcionam. Nos filmes de cowboys, da meninice, os "mocinhos" sempre ganhavam. As  lutas eram definidas entre os bons e os bandidos. Hoje, não. Os malfeitores tomam a frente de tudo, escalam toda a gangue e seguem, sacudindo  bandeiras de cores estranhas...não são as mesmas cores que nos davam idéia de patriotismo, as matas, destroçadas em prol de desenvolvimento, visando lucro. O homem se esquecendo de que a água é vida, que sem ela não haverá habitantes no planeta azul. Enquanto a medicina avança a passos largos, a incoerência do ser humano corre léguas à frente, num egoísmo ferrenho. De que vale viver mais, de que vale alcançarmos o centenário se engatinhamos em relação ao sentimento mais importante, mostrado por Jesus, o único pelo qual realmente vale a pena : o amor ao próximo!?