segunda-feira, 4 de maio de 2015

MENINA, MOÇA, MULHER.

Escrever sobre as fases da vida, um grande desafio. Tivemos um amigo em Volta Redonda (morei lá por quinze anos) que eu achava engraçado porque costumava dizer: "_Vou palitar o cérebro", quando queria se lembrar de algo. Que bom se eu tivesse também o dom de "palitando" o cérebro me lembrasse de tudo que vivi. Entretanto, sinto-me motivada. Sobre a meninice já falei um pouco. Lembro-me ainda de ter dito alguma coisa da adolescência. Mas, sobre a mulher, não sei quando aconteceu a transformação. Talvez, nada tenha mudado de forma radical. O corpo, sim. Mas as emoções são companheiras constantes e governam a nossa existência. Dos medos, inseguranças, das descobertas, decepções, do sofrimento, dos amores fracassados, das injustiças, lutas e dos momentos felizes, por que  não falar de tudo isto que vem embalado junto? Rever, ao mesmo tempo que me traz boas recordações, me faz sofrer, remoendo momentos difíceis que ainda persistem. Esse caldeirão continua fervendo, algumas vezes, em fogo lento para cozinhar nossa alma, deixando-a macia, como um pedaço de carne na panela de pressão. E a palavra ideal é essa: pressão. Somos movidos pela sucessão de acontecimentos. Mas há o contraponto, a inércia que nos acomete, diante do que não podemos mudar. Mas chega de conversa. Quero pensar numa época bonita e ao mesmo tempo, angustiante, que foi a minha mocidade. Quando sentia a vida inteira me esperando, vislumbrando um futuro feliz. Nunca seria como aquela tia, cujo marido vibrava com a aproximação de qualquer rabo de saia; não, comigo seria diferente. Teria um homem apaixonado, que só me traria alegrias, inteiramente meu, com certeza. Era assim que costumava pensar. Fui sempre otimista. Melhor, sonhadora. Via o mundo do lado bonito. Li muito romance de M. Delly ( faz muito tempo, é assim  que se escreve?); o fato é que eram histórias lindas, românticas, onde a mocinha terminava junto ao seu amado, depois de sobressaltos e peripécias da vida. Lembro-me de quando vasculhava a estante de livros do meu pai, que era advogado; lá havia um livro "Medicina legal", onde eu descobrira a foto de um homem nu. Era a curiosidade natural de menina, numa época em que ver um corpo masculino pelado, só depois de casada, luz apagada, com certeza. E eram sonhos e planos de felicidade. Sempre gostei de ler, desde a escola da fazenda, quando pegava livros enviados pela Prefeitura para nossa professora, a querida D. Zandir. Além das revistas que minha irmã colecionava : Revista do rádio, Filmelândia, Cinelândia e tantas outras, os gibis infantis, onde o Super-Homem e o Capitão Marvel eram os mocinhos imbatíveis. Quantas vezes me peguei rodando, como os integrantes da família Marvel, que assim se transformavam em super-heróis, com super-poderes!... Meu ex-marido foi meu professor de Português, já contei. Numa cidade pequena como a nossa, não era muito comum um jovem como ele dando aulas tão modernas e interessantes. Começou ensinando-nos a ler artigos de jornais, crônicas e nos deu todos os ensinamentos sobre análise sintática, falou-nos dos estrangeirismos, tão aplicados em nossa língua, latim e palavras gregas, essas coisas...foi uma época de grandes leituras de livros, de poesia e de entusiasmo pela língua Portuguesa e também pelo professor, tão culto e tão mulherengo. Era antipatizado pelos rapazes da cidade, que  viam nele um homem arrogante e ameaça iminente para suas namoradas. Mas meu marido, agora ex, fica para outro capítulo, aliás, já fiz muitos textos sobre nosso casamento, que não foi tão bom, excetuando o que tenho de mais precioso: meus filhos.  Foi o que produzimos de bom naquela união. Então, vou ver se  me lembro de algumas passagens da vida boa de solteira. Do tempo dos bailes, do namoro escondido, dos flertes e também das frustrações, estas eternas companheiras. Eu era bonita. Todos me achavam bonita: eu, nem tanto.  Tive muitos complexos, apesar de ser bem cotada pelos moços, meus admiradores. Puxei meu pai, que não era muito alto. Sentia-me insegura, quando qualquer moça bonita, charmosa aparecia em nossa terra. Nunca valorizei o que eu tinha de melhor. Não que eu me considerasse feia, pois não era. Mas tenho esse grave defeito: me desvalorizo um pouco, o que não mudou muito com a idade. No mês de agosto, há uma festa em Bom Jesus, a festa da cidade. Naquela época, bailes maravilhosos eram promovidos, com grandes orquestras, as melhores. Eram três noites de pura euforia. Havia os desfiles escolares na praça. Lembro-me de passar giz no tênis de ginástica para ficar branco e bonito, a saia pregueada a ferro, impecável. Como era baixinha, uma sorte quando me escolhiam para separar o "pelotão", com temas históricos. Segurava a bandeira com fidalguia, junto com a colega de turma. Foram tempos incríveis. Sentia o rosto afogueado, ao avistar o namorado entre a multidão que assistia. Mas era uma glória. Nos bailes éramos convidadas a dançar. E feio era dar "caroço", recusar uma dança, tremenda indelicadeza, ainda que ele não fosse o galã pelo que ansiávamos. Nossos pais costumavam ir, nos acompanhando. Meu pai avisava  discretamente sobre a aproximação de um rapaz, que ele sabia não nos deixaria feliz. Ele dizia, entre dentes: "Aí vem o tourinho gir", referindo-se ao dançarino baixinho, atarracado e forte que mais parecia um boizinho zebu, morador na cidade vizinha, frequentador assíduo dos bailes da festa de agosto... Meu pai que gostava de lidar na fazenda, fazia suas comparações. Se desse tempo, corríamos para o toillette, evitando assim humilhar o pobre pretendente. Dançar de rosto colado era o máximo que nos permitíamos. Havia uma senhorita meio avançada para os padrões da época que, lá pelas tantas, o rapaz dava mostras de estar um tanto excitado, com a aproximação exagerada, digamos assim, dos seus corpos. Nós ficávamos abismadas com o comportamento deles. Santa ingenuidade... Tive um namoro proibido. Durou, mais ou menos uns três anos. Éramos apaixonados. Um "Romeu e Julieta" da cidade. Ele era um rapaz bonito, tinha olhos verdes que lembravam um ator de cinema, lindo e famoso, o Paul Newman. Como meu pai proibiu o nosso namoro, a coisa ficou séria, com gosto de novela romântica. Íamos ao único cinema da cidade, na praça. Tudo escondido. Depois da valsa de Strauss, que abria a sessão, as luzes se apagavam e o amigo do meu amado, que, estrategicamente, havia sentado ao meu lado, trocava de lugar com ele. Quando segurava minhas mãos, um calor me subia, tomada de grande emoção. Sentia o rosto quente e o coração bater forte. Encostados na mureta da igreja, após a sessão de cinema trocávamos carinho e beijos furtivos. Quando meu pai despontava em qualquer esquina, nossos amigos avisavam e disfarçávamos, eu dando voltas pela praça com as amigas aliadas e que já sabiam da história. E, assim vivemos um amor bonito. Sei que meu pai estava coberto de razão. O moço que, antes de se encantar por mim era amigo do meu pai, de beber juntos, de conversas na praça, não deveria ser o modelo ideal para namorar sua filha. O mundo parece que mudou, virou de pernas pro ar. As pessoas não encontram muito tempo para sonhar, ou  o fato de nós mulheres termos alcançado a tão propalada independência, liberdade, principalmente sexual, deixou-nos com cara de tacho, como se dizia antigamente. Pagamos um preço. Os homens parecem não estar preparados para tanta modernidade. A vulgaridade passou a ser a tônica entre a maioria das mulheres. Fomos surpreendidas e presas nesta armadilha: como ser feminina, interessante, se não observamos os limites da coerência? Alguns homens se escondem com medo de se comprometerem, outros, fragilizados diante de tanta competência. Além dos assumidos, come se pode ver, saídos do armário. Sobrou pouca coisa para uma vida mais bonita. Onde está o amor? Quando morreu o romantismo? Quem vai pagar essa conta? Sinto-me meio ridícula, fora de moda. Não me acostumo, não quero viver num mundo sem esperanças: não quero não poder acreditar nas pessoas.

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