Na mesma ninhada aparecem filhotes diferentes. Minhas irmãs e eu além do único irmão, não fugimos à regra. "Os dedos das mãos não são iguais". Cada um com personalidade própria e comportamento totalmente diversos. Uns com afinidades maiores entre si. Acho que eu e meu irmão somos os mais parecidos. Gostamos de rir, de música, de uma boa piada, enfim, temos bom humor. Fáceis de conviver, eu diria. Já das outras três irmãs não posso dizer o mesmo. Mandonas? Talvez, arbitrárias? Um tantinho. Paro por aqui. Rotular pessoas é feio. E as qualidades?Todos as temos , claro. Chavão verdadeiro. A irmã mais velha se casou muito cedo. Quero relembrar sua história. Vou tentar ser justa, isenta o mais que puder.
Teresa, seu nome. Bem diferente da santa, cultuada pela Santa Madre Igreja. Também não era nenhum anjo mau.
Desde a época da São Tomé, já demonstrava sua vocação para comandar o espetáculo. Era a queridinha da vovó Doninha, mãe de meu pai. Na época dos nossos famosos teatros, ela tomava a frente nos ensaios. Lembro-me bem dela, se irritando comigo porque, quando eu cantava Chiquita Bacana, mais parecia uma gata miando. "Canta"! Dizia ela nervosa. Havia entre ela e minha irmã, que veio logo depois dela, uma animosidade latente. Não sei se ciúme natural, quando outra criança vem destronar a que já reinava. Ambas eram crianças bonitas, engraçadinhas, diferentes de mim, que nasci bem feiosa, sem grandes atrativos e, talvez, desilusão para os pais que, a essas alturas esperavam nascesse um menino.
Quando nos mudamos para Bom Jesus, meu pai decidiu que Teresa viria estudar em Niterói. Então, veio morar com a avó materna, criatura inteligente, falava francês e escrevia contos para uma revista, mas era doente. Vivia com crises depressivas. Naquela época, as pessoas não eram tratadas com psicólogos, não recorriam à terapia, como hoje. Simplesmente eram tachadas de loucas. Meu avô trabalhava com venda de ouro, era viajante. Tinha uma situação privilegiada. Entretanto com os tratamentos caros e internações de minha avó, acabou desgastado financeiramente. Difícil conviver com a doença dela, minha avó. Quando vínhamos de férias, havia sempre a preocupação de não melindrá-la com nossa presença.
Minha irmã adolescente, e, além da idade, o agravante de ser meio atirada, precoce e mimada. Teve grandes atritos com meu tio Paulo que, ainda solteiro, morava com meus avós. Teresa passou a usar aparelho para acertar os dentes desalinhados, numa época em que era muitíssimo caro esse tipo de tratamento. Não demorou muito e ela voltava para nossa casa, em Bom Jesus, desistindo dos estudos. Lembro-me dela arrancando o corretivo de dentes com uma tesourinha de cortar unhas. Não tinha medida nos seus desejos. Nossa casa vivia cheia de suas amigas. Eu adorava ficar vendo-as se aprontarem para os bailes, festas e encontros com os namorados. Eram avançadas para os valores de então minha irmã e suas companheiras. Foi quando apareceu na vida dela um rapaz bem mais velho. Teresa que mantinha um namorico de infância com o Wandick - aquele do acordeom - de repente, se desencantou e se entregou a uma paixão louca pelo Haroldo, que viria a ser seu marido, mais cedo do que seria desejável. Ficou grávida e, por isso, se casou.
Seu casamento teve um almoço sob o pé de jambo, mangueiras e todas aquelas árvores do pomar que rodeava nossa bonita casa. Eu, ainda muito menina, não tinha muita noção do que se passava. Só sei que não me conformava por ela ter trocado aquele moço bonito, jovem e que, por mal dos pecados, tocava lindamente o acordeom.
Teresa teve seu primeiro filho em nossa casa. Moravam com a gente. Haroldo deixara seu emprego no Banco do Comércio. Não tinha muito juízo meu cunhado. Costumava frequentar a rinha de galos. O casamento dos dois virou um inferno. Meu sobrinho chegou para me encher de orgulho, mal podia acreditar que aquele bebezinho estava ali. Eu podia pegá-lo, tomar conta dele. Tinha treze anos nessa época. Um dia, subindo as escadas com ele ao colo, me desequilibrei e caímos. Ele não se machucou, consegui segurá-lo a tempo mas passei o dia cheia de remorsos, culpada.
A madrinha dele era a minha querida Zé. Já falei dela, criatura querida, amiga e que trabalhava em nossa casa.
Teresa teve mais duas filhas. A última, quando ela e o marido já partiam para uma inevitável separação. Depois de anos de uma união catastrófica. Foi quando se deu a tragédia. Haroldo veio ao Rio para o casamento do irmão mais novo. Meu sobrinho adolescente o acompanhava. Nesse dia, Haroldo morreu. Rompeu-se um aneurisma em seu cérebro e ele, com trinta e poucos anos nos deixou. Senti muito sua morte, gostava dele. Apesar de suas desavenças com minha irmã, sempre foi um cunhado carinhoso.
Teresa viu-se livre de um casamento fracassado e ainda muito jovem decidiu recuperar o tempo perdido, de juventude desperdiçada. De repente, aconteceu alguém importante em sua vida e ela, de novo se casou. Desta vez, o novo marido, bem mais jovem que ela. Mais comentários. Mais fofocas. Não vai dar certo... prenunciavam as más línguas. Erraram, felizmente. Estão juntos até hoje.
Vejo-me numa idade linda, quando tudo isso acontecia, desabrochando para os mais ternos sentimentos. Sonhos de menina-moça, começando a se alojarem, preenchendo o coraçãozinho virgem, se abrindo para o amor. E ele, esse sentimento forte, inexplicável, sem controle, tomou conta de mim. Passei a viver para ele. Sabia onde e quando encontra-lo. Quantas vezes espreitava-o, descendo do ônibus que o trazia, junto com outros rapazes, colegas do curso que frequentavam na vizinha cidade, do outro lado da ponte que fazia divisa com o outro estado. Escondia-me atrás da janela, no segundo andar da casa, tipo bay -window ,de frente para a rua. Ao lado, as mangueiras que minha segunda irmã gostava tanto de escalar. Ele descia na esquina, com seu uniforme que se compunha de calça cinza, com um vivo azul-marinho do lado e camisa branca de mangas compridas. Aos domingos, na missa, olhava-o com o rabo de olho, ele, encostado na parede, junto à pia batismal, ao fundo da igreja. Não havia nenhum outro mais bonito. Jogava futebol, treinado por meu pai. Precoce, juntava-se aos melhores e maiores, escolhidos por meu pai, porque já jogava um bolão. E eu o admirava mais e mais. Passeávamos na pracinha; os rapazes andando do lado contrário ao das moças, o que ocasionava flertes e encontros. A cada volta, um olhar furtivo, tímido, encantado. Nada mais bonito, nada mais romântico.
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