Acordou, levantou-se. Precisava se aliviar dos líquidos e também de alguns sólidos, naquela manhã. Abriu, primeiro, a cortina fina, e avistou o sol batendo nas varandas dos apartamentos em frente ao seu. Melhor, dia frio, sim, mas com sol; pelo menos isso. A persiana e o vidro também foram abertos para arejar. Limpar o ambiente e dar um susto nos possíveis vírus que se acomodam, sem a menor cerimônia e atacam, quando menos se espera, essa era a ideia. Acordava com o mau humor de sempre. Um paradoxo: pessoa bem-humorada, normalmente, mas que acordava irritada? Costumava se interrogar. Foi até a cozinha, tomou os dois comprimidos, um para a pressão e o outro pra inquietação, digamos assim. Remédios eram para velhos e doentes; uma afirmativa que imaginava há tempos. "A vida é curta, passa depressa". Todos repetem isso com frequência. Mas não é verdade. A vida tem o mesmo tempo de sempre. Apenas aproveitamos mal. Adiamos decisões e não valorizamos as muitas horas de paz, de saúde, por exemplo, matutava. Esquentou o pão no pequeno forno elétrico, colocou água pra fazer café. Não dispensou a banana prata, que virou rotina em sua mesa. Como os macacos, não dispensa aquela fruta. Morou tanto tempo numa fazenda que, alguns costumes arraigados, são definitivos. Pensou em escrever mais um ou dois capítulos do livro começado. O celular tocou. Seu médico respondia aos chamados sem respostas, de ontem e combinava uma consulta para daí a dois dias. Tudo bem. Sentiu-se aliviada, de certa forma; sem receita, fazia uma semana que, arbitrariamente, se permitira não tomar o antidepressivo. Não notou grande diferença. Excetuando, hoje, quando percebia aquele aperto no peito, nada muito forte, mas que incomodava. Toda droga vicia. Afinal, o nome drogaria não é à toa. Usava uma saia longa e meia nos pés. Pensou que não seria a melhor hora para seguir na história do seu romance. Conseguiria terminar a qualquer custo. Mas adiou a iniciativa. Pensou nos grandes escritores e seus inúmeros livros. Invejou-os. Sentiu-se medíocre. Agora, entrava uma aragem tímida pela janela, balançando a cortina leve e gasta. Na véspera, realizara tarefas inadiáveis, como trocar a lâmpada do seu quarto, queimada. Resolveu por aquela mais econômica e que dura mais. Com certeza, duraria mais que ela. Dez anos, vinte, quantos mais ainda teria? Jovens também perdem a vida, como aquele cantor famoso num acidente de carro. É fato. Mas a lei natural é que, depois de certa idade, meu tempo diminua e muito, enveredava ela por este sombrio pensar. Lembrou-se da escritora de Goiás, que dizia coisas lindas e que, só após os sessenta, ficou mais conhecida. Era otimista, não pensava na morte, dizia ela. Pensamentos positivos, sempre. Acrescentava.
Acabou decidindo pintar os cabelos sujos (sempre adiava lavá-los, na hora do banho, por causa do frio) e brancos. É isso, animou-se, apesar de sentir a garganta arranhada. Faltavam algumas compras a fazer: a banana, por exemplo, fora a última da cesta. Essa, imprescindível, cheia de potássio. Pensou numa de suas crônicas, onde relembrava sua infância; macacos que pulavam dos galhos das árvores para o parapeito da varanda, pegando bananas ou ovos que lhes eram oferecidos. Lembrou-se ainda de suas descobertas, das alegrias infantis, ao debulhar paina, ao formar leiras de café, no grande terreiro da fazenda. Tão distante da morte, que nem pensava nela, essa figura traiçoeira que chega para todos, sem avisar. Este, um assunto que não ocupava seus pensamentos. Tinha medo, sim, de muitas coisas; de cachorros, por exemplo, de andar a cavalo; todos costumavam galopar, seus irmãos, primos. Ela, entretanto, odiava subir naquela sela, raramente, se equilibrava. A sensação era de que o animal comandava tudo. As rédeas, um acessório inútil. Altura e velocidade, grandes inimigos. Não era dada a aventuras. Viajava, sim, lendo livros de histórias, ouvindo novelas pelo rádio. Levantou-se, já agora, decidida a por em prática as tarefas do dia. Precisava disso. A menina sonhadora, fazia tempos, não se encontrava mais naquele corpo. Mas a vida, sim. Ela devia aproveitar aquele dia bonito e torná-lo agradável. Por que, não ? Uma caminhada no calçadão da praia. Quem sabe? "Navegar é preciso"; pensou no português culto e seu antecessor, não foi isso o que ele disse? Não se aventuraria no mar, nenhum catamarã, nada disso. Apenas, daria um mergulho na sua realidade. Fernando Pessoa inspirou-se nesta frase, que foi também a causadora de um lindo poema seu: "Navegar é preciso; viver não é preciso". E mais: Quero para mim o espírito desta frase, assim como ele: Viver não é necessário; necessário é criar... O fato é que tem mais de dois mil anos esta frase. E seguiu, lendo mais um trecho do poema: "Não conto gozar a vida; nem gozá-la penso. Só quero torná-la grande.Ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e ( a minha alma) a lenha desse fogo".
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