As coisas mudam. Mas em
que momento isso acontece? O dia vira noite, quando o sol se põe, porque a
Terra gira: óbvio. E os sentimentos? Quando e porque mudam? Existe um exato
momento ou é gradativo como o dia virando noite? Não consigo precisar como
aconteceu comigo. É imperceptível ou há um pequeno sinal? Há.
Quando o meu amor de menina se aproximou,
tive a sensação de que ia morrer de alegria. Emoção única, misturada com ansiedade. Não saberia o
que dizer. Como me comportar. Esperei tanto por aquele momento, que não parecia
real. Seria um tempo curto. Ele estava indo embora estudar. Queria ser
engenheiro. Também não sei o exato momento, quando começou o meu amor por ele.
Sei que foi um sonho bonito. Durou muito
tempo até que, finalmente, ele me
notasse. Eu o quis tanto que, parece, o atraí. Por que, entre tantas mocinhas
tão ou mais bonitas, ele acabou se interessando por mim?
Depois do encontro tão esperado, tudo
começou a mudar. Quando, não sei. A primeira lembrança que me vem, nitidamente,
é essa: nós dois na praça. Era manhã de domingo, depois da missa. Estávamos
sentados numa mureta, numa ruela que descia até a pracinha. Do outro lado, na
esquina, o velho Big Hotel. Há pouco tempo, havia se mudado uma família, se instalando
na primeira casa, no alto dessa pequena rua. Um dos rapazes, descia em direção à praça e passava em frente
a nós. Cumprimentou-nos, sorrindo. Meu coração deu um salto e me senti, de
repente, desconfortável. O que estava acontecendo? Não sei. Um sentimento
estranho se apossou de mim. Parecia estar presa. Senti uma sensação
de angústia. De culpa. Por que me perturbava tanto o fato de estar ao lado de
quem eu, antes, tanto cobiçara? Minha vontade era não estar ali. Santa ingenuidade
de menina, me vi como se estivesse presa
a um compromisso. Com aquela idade? Pobre de
mim... Não me entendia. Queria estar livre. Invejei minhas amigas,
passeando descontraídas, pela pracinha.
Ficamos de escrever cartas um para o
outro, afinal, ele estava indo embora e éramos namorados. Não senti sua falta, depois da partida. Nos meus pensamentos outra pessoa já ocupava todos os espaços.
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