O que se deve fazer quando a vida perde a graça? Todos dizem que devemos agradecer a Deus por acordarmos com saúde para mais um dia. Claro que concordo com essa idéia. Não deveria ser ingrata, mal-agradecida. Não quero ser. Só que o que venho sentindo ultimamente é um desconforto muito grande, um tipo de infortúnio a longo prazo. E me pego torcendo para ter maior aceitação, para ter mais paciência, enfim, para estar lado a lado com a solidão, se é que me entendem. Porque eu mesma não consigo. Vejo pessoas calmas, acomodadas e que estão sozinhas. Moram sozinhas, vivem consigo mesmas. É como se conseguisse apertar num abraço essa figura estranha, sorrateira e sempre presente: a solidão. Mas ela incomoda, é como abraçar um porco-espinho. Às vezes, sinto-me totalmente só, mesmo entre várias pessoas. E me impaciento; na verdade, prefiro estar sem ninguém ao meu lado. Como entender esse sentimento tão nocivo que me deixa irritada até com minha própria presença? Quero estar tão terrivelmente só que gostaria de não pensar. Acostumei-me a lembrar com certa satisfação os sonhos que tenho. Não falo dos sonhos, daqueles desejos que temos de alcançar alguma coisa difícil, ou mesmo ter paz. E, sim, falo daqueles inexplicáveis e meio sem sentido que, quando acordamos queremos entender, ter uma explicação para eles. É quando não tenho idade, não há um tempo real, não há nexo. Mas venho me alimentando deles. Chegar a um nível de conformismo que não necessitasse da presença de ninguém mais seria impossível acontecer, pois não se vive sem a presença do outro, ainda que seja incômodo, irritante, já que não se consegue moldar uma personalidade, porque idealizar alguém tem sempre sabor de frustração. A expectativa de ver realizados os mais íntimos desejos resulta nessa eterna insatisfação, a vida não dá troco. E o que pagamos pra ver se esvai nesse também eterno labirinto, sem que possamos decifrar tal enigma. Por que as coisas acontecem dessa ou daquela maneira? Por que reajo mal se, antes, tentei incutir como norma de comportamento ser mais serena, acatar melhor as diferenças do outro e ser mais tolerante? Não se ensaia para viver. Não há tempo para treinar é agora ou nunca. E me surpreendo cada vez mais com as iniciativas do destino, às vezes, tão mal traçado, tão perturbador e tão sem cerimônia.
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