domingo, 30 de junho de 2013

Andando nas ruas

A moça usava calças compridas, uma blusa rosa e segurava a criança que aparentava uns quatro anos. Seu caminhar embalava o menino. E ele dormia, entregue no colo da mãe. Total confiança, total aconchego. Imaginei o que estaria ela pensando, afinal trazia colado ao seu corpo um ser que ela mesma produzira, num momento de amor, suponho. Mas seu semblante denotava preocupação, cansaço. Olhei para trás, acompanhando os passos daquela jovem. Fiquei reparando nas outras pessoas, como é costume meu. Cada um, uma história diferente. Percebia ainda como é grande a proporção de pessoas idosas. Esperando o sinal abrir, pude contar: nove a dois, o placar. Só dois jovens se misturavam ao grupo que ia atravessar a rua. Uns com bengalas, outros com o desleixo dos cabelos brancos, assumindo a idade. Ou o desencanto pela vida, quem sabe... O fato é que me pego sempre nesta observação, querendo adivinhar atrás de cada rosto uma história, uma vida. A jovem senhora, nos seus quarenta e poucos (presumo) sorria para a conhecida, sem vontade de parar, com pressa. Não era um encontro, era um gesto afável, um cumprimento gentil mas apressado, repito . Segui junto com todos que atravessavam a rua, imaginando descrever esses acontecimentos fugazes, diários, sem nenhum compromisso. Apenas olho, analiso. Estou meio viciada em fazer isto: guardar na memória algumas cenas para depois escrever sobre elas. A banca de jornais na esquina, fazendo a calçada mais estreita. As pessoas se amontoando, as revistas enfileiradas no ressalto da parede. Homens conversando, outros fumando. Passo por alguém com um cigarro, prendo a respiração. O cheiro da nicotina dá uma sensação ruim. Sinto um misto de pena e irritação. Pena de quem se arruína pela droga e irritação por perceber que, apesar dos malefícios já tão propalados na mídia, em cada canto, há pessoas dispostas a se arriscarem. Tantas vidas, tantos olhares, uns tristonhos, outros cansados e eu misturada a essa gente. São meus irmãos, segundo Cristo, e com os quais deveria me importar. Às vezes, ando por estas mesmas ruas e o ânimo que sinto é diferente. Hoje, estava sem alma, sem viço. Amanhã, quem sabe, meu caminhar vai ser outro, vou sorrir para os passantes, vou admirar a criança bonita no colo da mãe, vou ser mais feliz. Condescendente com os fumantes. Cada dia, uma nova realidade. O que me faz mais ou menos feliz, animada, não tem explicação lógica. Não quis comprar roupas, nem sapatos, achei tudo inútil, sem sentido. Mal olhei para as vitrines que, em outros momentos, me atraem tanto. Passei por uma loja de produtos naturais, entrei. Comprei um pastel recheado com frango e requeijão. Quis dar uma rasteira na tristeza e fadiga. Em casa, abri o pacote. O sabor do salgadinho não foi o premio esperado: satisfação zero. Hoje estou assim. Amanhã, como será, não sei. Pensei na letra da música “ Como será o amanhã, responda quem puder...”


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