sábado, 8 de junho de 2013

SOBRE FILAS


SOBRE FILAS  – enviando dinheiro e outras histórias.

 

O ônibus custou a passar. Saí do shopping, atravessei a rua junto com outras pessoas, apressadas como eu. Todos andam assim, ultimamente, apressados. Correm contra o tempo. Expressões preocupadas. Parecemos um bando de formigas.  Às vezes, quando me dou conta, procuro desacelerar, mas dura  pouco. E entro naquele ritmo frenético novamente.

Peguei o ônibus, eu dizia, que logo se entupiu de pessoas afobadas, querendo achar o melhor lugar. Sentei-me ao lado de um rapazinho mulato; com fones nos ouvidos parecia alheio ao que se passava. Diferente de todos,  calmo.  Meu lugar era bem atrás. Em pouco tempo formou-se uma enorme fila de gente se apertando, carregando bolsas, uns incomodando outros e todos incomodados, no final das contas. Pensei preocupada em como sairia já que, logo,  entraríamos na rua em que deveria descer.Senti-me desconfortável. Achei que o chofer não perceberia que eu estava descendo e esse pensamento me angustiou. Passei a estudar a melhor maneira de resolver aquele “impasse”. O ponto final se aproximando. Uma bobagem. Por que me preocupar, com uma coisa tão sem importância, refletia. Quando entramos na avenida, pedi ao rapaz alto que se segurava no banco em frente ao meu que puxasse a cordinha para mim e me levantei. Saí, pedindo licença e  esbarrei em uma senhora que se virou, dizendo: -“ Também vou descer aqui”. Foi um alívio, ela abriria caminho para mim. Desci do ônibus  satisfeita.  Acabava de depositar algum dinheiro para minha irmã que mora na América Central. Quando cheguei ao shopping, onde tem a casa de câmbio e de remessa de dinheiro, enfrentei uma  fila de mais ou menos oito pessoas. Contei-as, já prevendo o quanto teria que esperar. Atrás de mim, aproximou-se uma mulher negra, usando um boné de crochê,  uma blusa estampada, calças compridas. Sua pele era muito negra; tinha lábios bem torneados que a faziam bonita, apesar da aparência maltratada. Perguntou-me se eu era a última. Respondi que sim. Logo se formava uma enorme fila depois dela. Não me lembro como começamos uma conversa. Ela dizia que morava  na Suíça e resolveu contar sobre o marido suíço. Casaram-se no Brasil. Ele não falava português, mas se  entenderam bem, através de gestos, mímica, dizia ela sorrindo. Moradora de favela, com quatro filhos, trabalhava como manicura, e vivia de pequenos expedientes, na época. Fora a primeira mulher dele, que já contava seus quarenta anos, ela um ano mais velha. Foram morar na terra fria  e civilizada, levando os quatro filhos dela. Hoje, fala alemão e me disse uma frase para comprovar (ainda que eu não fale uma vírgula da língua de Hitler, pude reconhecer o idioma). Falou ainda que o filho mais novo é jogador de futebol e vem em dezembro, passar o Natal, pelo que entendi. Aprendi na marra, contava ela, com ar divertido. Fiquei sabendo de intimidades da vida daquela mulher que não conhecia. Ajudou a passar o tempo. Alguém atrás de Mary ( esse era seu nome), gritou para a moça que entrava pela porta da loja para ser atendida: -“ Espera, aí, a fila é aqui atrás!” Foi um pequeno incidente, logo esclarecido porque a colombiana que gritara não havia percebido a presença da moça, que já estava bem antes dela aguardando. Logo chegou minha vez. Mais parecia uma torre de Babel aquela pequena fila para o envio e troca de dinheiro. Brasileiros, colombiana, o marido suíço, só presente pela fala da mulher, já que se suicidara sete anos depois de casado, confidenciou-me a mulher brasileira, negra, que   sofria todo o tipo de preconceito nas terras geladas da Suíça. E não falei ainda do português, com forte sotaque, dizendo alto ao celular: É o “Jaíre”, quando sabemos que queria dizer Jair.

A vida é como aquela fila do shopping. Uns, mais felizes, outros, com pior sorte, alguns ainda, tentando sobreviver. Pequenos e grandes encontros. Todos na expectativa de que sua vez vai chegar. Passei a valorizar mais esses relacionamentos, que nos fazem pensar. Que nos trazem informações de como se processam as coisas, de como acontecem,  independente do que planejamos. O que alcançamos é algum conhecimento quando aprendemos com a experiência do outro. Acasos existem? Uns dizem que sim. Ou tudo já está esquematizado por um poder maior que nos lançou nesse infinito cosmo? Não há como saber...

 

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