SOBRE
FILAS – enviando dinheiro e outras
histórias.
O ônibus custou
a passar. Saí do shopping, atravessei a rua junto com outras pessoas,
apressadas como eu. Todos andam assim, ultimamente, apressados. Correm contra o
tempo. Expressões preocupadas. Parecemos um bando de formigas. Às vezes, quando me dou conta, procuro
desacelerar, mas dura pouco. E entro
naquele ritmo frenético novamente.
Peguei o ônibus,
eu dizia, que logo se entupiu de pessoas afobadas, querendo achar o melhor
lugar. Sentei-me ao lado de um rapazinho mulato; com fones nos ouvidos parecia
alheio ao que se passava. Diferente de todos, calmo. Meu
lugar era bem atrás. Em pouco tempo formou-se uma enorme fila de gente se
apertando, carregando bolsas, uns incomodando outros e todos incomodados, no
final das contas. Pensei preocupada em como sairia já que, logo, entraríamos na rua em que deveria
descer.Senti-me desconfortável. Achei que o chofer não perceberia que eu estava
descendo e esse pensamento me angustiou. Passei a estudar a melhor maneira de
resolver aquele “impasse”. O ponto final se aproximando. Uma bobagem. Por que
me preocupar, com uma coisa tão sem importância, refletia. Quando entramos na
avenida, pedi ao rapaz alto que se segurava no banco em frente ao meu que
puxasse a cordinha para mim e me levantei. Saí, pedindo licença e esbarrei em uma senhora que se virou, dizendo:
-“ Também vou descer aqui”. Foi um alívio, ela abriria caminho para mim. Desci
do ônibus satisfeita. Acabava de depositar algum dinheiro para minha
irmã que mora na América Central. Quando cheguei ao shopping, onde tem a casa
de câmbio e de remessa de dinheiro, enfrentei uma fila de mais ou menos oito pessoas.
Contei-as, já prevendo o quanto teria que esperar. Atrás de mim, aproximou-se
uma mulher negra, usando um boné de crochê, uma blusa estampada, calças compridas. Sua
pele era muito negra; tinha lábios bem torneados que a faziam bonita, apesar da
aparência maltratada. Perguntou-me se eu era a última. Respondi que sim. Logo
se formava uma enorme fila depois dela. Não me lembro como começamos uma
conversa. Ela dizia que morava na Suíça
e resolveu contar sobre o marido suíço. Casaram-se no Brasil. Ele não falava
português, mas se entenderam bem,
através de gestos, mímica, dizia ela sorrindo. Moradora de favela, com quatro
filhos, trabalhava como manicura, e vivia de pequenos expedientes, na época. Fora
a primeira mulher dele, que já contava seus quarenta anos, ela um ano mais
velha. Foram morar na terra fria e
civilizada, levando os quatro filhos dela. Hoje, fala alemão e me disse uma
frase para comprovar (ainda que eu não fale uma vírgula da língua de Hitler,
pude reconhecer o idioma). Falou ainda que o filho mais novo é jogador de
futebol e vem em dezembro, passar o Natal, pelo que entendi. Aprendi na marra,
contava ela, com ar divertido. Fiquei sabendo de intimidades da vida daquela
mulher que não conhecia. Ajudou a passar o tempo. Alguém atrás de Mary ( esse
era seu nome), gritou para a moça que entrava pela porta da loja para ser
atendida: -“ Espera, aí, a fila é aqui atrás!” Foi um pequeno incidente, logo
esclarecido porque a colombiana que gritara não havia percebido a presença da
moça, que já estava bem antes dela aguardando. Logo chegou minha vez. Mais
parecia uma torre de Babel aquela pequena fila para o envio e troca de
dinheiro. Brasileiros, colombiana, o marido suíço, só presente pela fala da
mulher, já que se suicidara sete anos depois de casado, confidenciou-me a
mulher brasileira, negra, que sofria
todo o tipo de preconceito nas terras geladas da Suíça. E não falei ainda do
português, com forte sotaque, dizendo alto ao celular: É o “Jaíre”, quando
sabemos que queria dizer Jair.
A vida é como
aquela fila do shopping. Uns, mais felizes, outros, com pior sorte, alguns
ainda, tentando sobreviver. Pequenos e grandes encontros. Todos na expectativa
de que sua vez vai chegar. Passei a valorizar mais esses relacionamentos, que
nos fazem pensar. Que nos trazem informações de como se processam as coisas, de
como acontecem, independente do que
planejamos. O que alcançamos é algum conhecimento quando aprendemos com a
experiência do outro. Acasos existem? Uns dizem que sim. Ou tudo já está
esquematizado por um poder maior que nos lançou nesse infinito cosmo? Não há
como saber...
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