sábado, 22 de junho de 2013

Cinema em Botafogo


                           CINEMA EM BOTAFOGO - 10 de julho, de 2010.

O rapaz tocava violino em frente ao Cinema, na calçada; no chão, estendido, um pedaço de pano, onde as pessoas mais sensíveis depositavam  moedas, notas de dois, de cinco, de dez. E ele tocava bonito; entre outros, Vila Lobos –“ O trenzinho caipira”. Perguntei sua idade. Tenho dezessete, respondeu. Aprendeu violino com quem? Insisti. No Morro Santa Marta, vai lá u´a moça me ensinar. E agradecia a cada um que depositava qualquer quantia. Esse o Rio de Janeiro bonito, sem violência. Cheio de afetos. De almas sensíveis como a do menino que foi chegando com sua mãe. Menos de dois anos – fiquei sabendo. Parecia maravilhado. Apontava o dedinho para o jovem músico e sacudia a cabeça para acompanhar o ritmo da música. E continuava olhando e olhando... e não se cansava de olhar. A expressão mais linda no rostinho infantil. Fiquei  extasiada com a cena. Agachou-se, sem tirar os olhos e fazia meneios de cabeça. Não há idade para a emoção. São momentos como este que nos fazem sentir que ainda vale a pena viver. Eram sabor e cheiro de amor. Parecia um anjo se deliciando com o som do violino: seus olhinhos vivos não se despregavam do jovem negro, favelado, que ganhava seu dinheiro com dignidade, com beleza, espargindo notas harmoniosas, mostrando que a humanidade é viável, não  está completamente perdida.

Queria ter o  privilégio de outros momentos como aquele, vivido hoje: nada foi planejado, não era uma cena de novela, de cinema, de teatro. Não havia roteiro, não havia ator. Era cena real. Era vida.

Nenhum comentário: