CINEMA
EM BOTAFOGO - 10 de julho, de 2010.
O rapaz tocava violino em frente ao
Cinema, na calçada; no chão, estendido, um pedaço de pano, onde as pessoas mais
sensíveis depositavam moedas, notas de
dois, de cinco, de dez. E ele tocava bonito; entre outros, Vila Lobos –“ O
trenzinho caipira”. Perguntei sua idade. Tenho dezessete, respondeu. Aprendeu
violino com quem? Insisti. No Morro Santa Marta, vai lá u´a moça me ensinar. E
agradecia a cada um que depositava qualquer quantia. Esse o Rio de Janeiro
bonito, sem violência. Cheio de afetos. De almas sensíveis como a do menino que
foi chegando com sua mãe. Menos de dois anos – fiquei sabendo. Parecia
maravilhado. Apontava o dedinho para o jovem músico e sacudia a cabeça para
acompanhar o ritmo da música. E continuava olhando e olhando... e não se
cansava de olhar. A expressão mais linda no rostinho infantil. Fiquei extasiada com a cena. Agachou-se, sem tirar
os olhos e fazia meneios de cabeça. Não há idade para a emoção. São momentos
como este que nos fazem sentir que ainda vale a pena viver. Eram sabor e cheiro
de amor. Parecia um anjo se deliciando com o som do violino: seus olhinhos
vivos não se despregavam do jovem negro, favelado, que ganhava seu dinheiro com
dignidade, com beleza, espargindo notas harmoniosas, mostrando que a humanidade
é viável, não está completamente
perdida.
Queria ter o privilégio de outros momentos como aquele,
vivido hoje: nada foi planejado, não era uma cena de novela, de cinema, de
teatro. Não havia roteiro, não havia ator. Era cena real. Era vida.
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