domingo, 2 de junho de 2013

Palmadas da vida e viagens indesejáveis.


Parece que ainda sou aquela menina que tinha medo de pito, de ficar de castigo e de palmadas também. Só que o tempo passou e fiquei velha. Estou bem idosa, sim. Que me perdoem os que querem assumir a velhice como premio.  Eu, não. Acho um saco ter ficado velha. Tudo dói. O corpo não acompanha o ritmo da cabeça que continua querendo coisas, que quer melhorar, que quer ser feliz, afinal. Ando em total descompasso com a nova realidade que, de nova, não tem nada. E aí? Me pergunto.   E aí, nada. Respondo eu mesma, sem ter justificativa para esse período da vida, tão alongado e tão cheio de decepções, de desilusões e todos esses “ões”. Ontem, fui ver um espetáculo de circo. Isso mesmo. Era o Cirque du Soleil. Sempre adorei assistir a esses mirabolantes shows circenses, desde criança. Os circos armados no alto do morrinho, em frente ao Ginásio Rio Branco, eram a tradução literal de simplicidade.   O que vi ontem era, completamente, diferente. Pudera! Com toda a tecnologia a serviço daquele grandioso espetáculo. Antes, havia mais risco. Apesar de toda  proficiência, hoje não existe o verdadeiro salto mortal do meu tempo de garota. Tudo é milimetricamente organizado e funciona. O frio na barriga ainda continua, vendo aquelas pessoas se arriscando. Os corpos se jogando no espaço, do alto de fios estendidos, parecendo um tênue fio de linha, são de arrepiar. A capacidade dos artistas, inegável. Mas faltou alma, talvez. Quem sabe não será a minha alma que anda fragilizada? Falta graça. Falta  tesão.  E me vejo num microônibus,  indo para o passeio, acompanhada de pessoas, a maioria delas velhas, como eu. Havia algumas crianças, sim. Um garoto, acompanhado da bisa, que dizia ter incríveis noventa e quatro anos, já que tão viva e animada. Parecia mais jovem  que  eu pois  se aventurava em entrar naquele ônibus, acompanhando o bisneto. Evito viajar, quando me convidam, até mesmo para a Europa (sonho de qualquer viajante de carteirinha), ou qualquer outro lugar que dependa de avião. Não que tenha medo mórbido da “condução” aérea. Pois é, fiquei assim covarde, cheia de manias... Na verdade, nem sei direito o que me aflige e me impede e desanima de viajar. Tenho receio (palavra que serve para camuflar o medo) de ter uma dor de barriga súbita, quando sei  que há tão poucos banheiros para tantos passageiros. Que horror! Mas posso explicar: uma vez, viajava de volta ao Brasil, numa viagem que fizemos eu e meu ex-marido (na época, ainda marido) e, do nada, apareceu a terrível, famosa, incontrolável dor de barriga, a qual me referia antes. Então. Comecei a suar frio. Corri atrás de um “toilete” desocupado. Recorri às comissárias de bordo (todas americanas), além do único comissário de bordo brasileiro, que me deixou inibida de  falar, por isso, recorri à elas e no meu parco inglês exclamava, numa tentativa de me fazer entender: “I need!” E como existe realmente uma linguagem universal... Elas me entenderam, sim. Ofereceram-me um na primeira classe, mas também tinha dono. De que adiantou se não havia banheiros suficientes? Finalmente, avistei alguém saindo do banheiro, lá no final e desabalei numa carreira, entre as fileiras  da  “ nave”. Quero mudar alguma coisa para justificar o que me acontece, mas mudar o que? Outra pergunta que deixo sem resposta.

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