Parece que ainda sou aquela menina
que tinha medo de pito, de ficar de castigo e de palmadas também. Só que o
tempo passou e fiquei velha. Estou bem idosa, sim. Que me perdoem os que querem
assumir a velhice como premio. Eu, não.
Acho um saco ter ficado velha. Tudo dói. O corpo não acompanha o ritmo da
cabeça que continua querendo coisas, que quer melhorar, que quer ser feliz,
afinal. Ando em total descompasso com a nova realidade que, de nova, não tem
nada. E aí? Me pergunto. E aí, nada. Respondo eu mesma, sem ter
justificativa para esse período da vida, tão alongado e tão cheio de decepções,
de desilusões e todos esses “ões”. Ontem, fui ver um espetáculo de circo. Isso
mesmo. Era o Cirque du Soleil. Sempre adorei assistir a esses mirabolantes shows
circenses, desde criança. Os circos armados no alto do morrinho, em frente ao
Ginásio Rio Branco, eram a tradução literal de simplicidade. O que vi ontem era, completamente,
diferente. Pudera! Com toda a tecnologia a serviço daquele grandioso
espetáculo. Antes, havia mais risco. Apesar de toda proficiência, hoje não existe o verdadeiro
salto mortal do meu tempo de garota. Tudo é milimetricamente organizado e
funciona. O frio na barriga ainda continua, vendo aquelas pessoas se
arriscando. Os corpos se jogando no espaço, do alto de fios estendidos,
parecendo um tênue fio de linha, são de arrepiar. A capacidade dos artistas,
inegável. Mas faltou alma, talvez. Quem sabe não será a minha alma que anda
fragilizada? Falta graça. Falta tesão.
E me vejo num microônibus, indo
para o passeio, acompanhada de pessoas, a maioria delas velhas, como eu. Havia
algumas crianças, sim. Um garoto, acompanhado da bisa, que dizia ter incríveis
noventa e quatro anos, já que tão viva e animada. Parecia mais jovem que eu
pois se aventurava em entrar naquele ônibus,
acompanhando o bisneto. Evito viajar, quando me convidam, até mesmo para a
Europa (sonho de qualquer viajante de carteirinha), ou qualquer outro lugar que
dependa de avião. Não que tenha medo mórbido da “condução” aérea. Pois é,
fiquei assim covarde, cheia de manias... Na verdade, nem sei direito o que me
aflige e me impede e desanima de viajar. Tenho receio (palavra que serve para
camuflar o medo) de ter uma dor de barriga súbita, quando
sei que há tão poucos banheiros para
tantos passageiros. Que horror! Mas posso explicar: uma vez, viajava de volta
ao Brasil, numa viagem que fizemos eu e meu ex-marido (na época, ainda marido)
e, do nada, apareceu a terrível, famosa, incontrolável dor de barriga, a qual
me referia antes. Então. Comecei a suar frio. Corri atrás de um “toilete”
desocupado. Recorri às comissárias de bordo (todas americanas), além do único
comissário de bordo brasileiro, que me deixou inibida de falar, por isso, recorri à elas e no meu parco
inglês exclamava, numa tentativa de me fazer entender: “I need!” E como existe
realmente uma linguagem universal... Elas me entenderam, sim. Ofereceram-me um
na primeira classe, mas também tinha dono. De que adiantou se não havia
banheiros suficientes? Finalmente, avistei alguém saindo do banheiro, lá no
final e desabalei numa carreira, entre as fileiras da “
nave”. Quero mudar alguma coisa para justificar o que me acontece, mas mudar o
que? Outra pergunta que deixo sem resposta.
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