segunda-feira, 7 de outubro de 2013

VIVENDO A PAISAGEM


Saí de casa. Ia viajar. Meu filho me deu carona até a Rodoviária. Coisa rara. Filho nunca tem tempo para a mãe. Conseguia não levar uma bagagem enorme, como costumo fazer. A maturidade realmente nos transforma um tantinho, ou talvez nos dê mais praticidade. Sentei-me diante da plataforma que estava marcada na passagem de ônibus. Detesto avião. Não era o caso, felizmente. A viagem era para um lugar  não  tão distante. Carregava apenas minha bolsa nova, cheia de compartimentos, presente da filha; toda vez que precisava de alguma coisa, necessário abrir o zíper de um lado e depois do outro, até encontrar o que queria. Intimamente, sentia saudades da velha bolsa vinho. A  roupa, chinelos e outras utilidades, apenas alojados numa mochila de listras brancas e azul-marinho, que a filha me emprestara. Sentia-me moderna,  prática. Feliz por estar viajando sozinha. Feliz não é exatamente o termo  mas me via satisfeita por estar ali. Todo o ritual cumprido: a ida ao banheiro, principalmente, me deixava mais segura. Não seria necessário equilibrar-me, rezando para não acontecer alguma curva e também que não ficasse presa dentro do banheiro do ônibus. Muita gente não vai entender a minha apreensão. Outros, sim. Finalmente, chegou o carro e embarquei, não sem antes perguntar ao chofer sobre o horário certo da chegada  à cidade para a qual me destinava. Estava confortável, digamos assim. Não havia ninguém na cadeira ao meu lado. Melhor. Não teria que conversar,  se não quisesse. Nem precisava ser gentil com ninguém. Comecei a pensar em fazer novas viagens. Depois que me dediquei a escrever, fico observando tudo o que se passa ao meu redor. Vou fazer uma crônica sobre o que estou vendo, logo imaginei. Passei a fazer uma descrição detalhada de cada pedaço da estrada. As cores normalmente me encantam. Acho que faço um estudo imaginário, pensando na mistura que faria na paleta se fosse fazer um quadro, já que aprendo mais por observação que outra coisa. Assim também dei em fazer, ao descrever uma paisagem. A cor do barranco de nuances variadas, do marrom avermelhado, ao mais opaco, dependendo da área e da vegetação. Os verdes então,  tamanha era a profusão de tons que me encontrava maravilhada. A natureza imponente. O céu não estava propriamente bonito. Uma chuvinha fina tinha acabado de acontecer. Apesar disso, a claridade era grande. As cores, vivas. Passei um bom tempo naquele esforço em fixar na memória as imagens bonitas que iam desfilando através da janela larga,  abrangente.  Cansei-me depois de algum tempo e muitos quilômetros. Pensei que as pessoas iriam achar enfadonho ler uma descrição, como as que fazíamos nos tempos de escola, orientados pela professora de Português. Cópia e ditado ou um cena a ser descrita, geralmente o que ela pedia como exercício obrigatório em aula. Resolvi parar. E a viagem seguia, eu cheia de orgulho por estar sozinha, empreendendo uma viagem que me deixara ansiosa uma semana antes. Hoje, resolvi colocar aqui as impressões sobre a estrada, sobre os riachos, morrinhos e montanhas azuladas pela distância, bois nos pastos, planícies, com seus  casebres ao longe, pequenas florestas teimando em aparecer, apesar do contínuo desmatamento e inconsciência dos homens. Alguns pássaros, galinhas, a majestosa ave branca, nos alagados,  flores em profusão, já que estamos na primavera e  gente também. Mas o que me motivou mesmo foi a aventura em si. Eu, sem depender de companhia, indo simplesmente, vencendo os obstáculos, os medos. Querendo ser mais confiante. Querendo exercer mais a minha liberdade. Querendo ser feliz só de olhar para a vida que se expõe diante de meus olhos, que passa rapidamente, cada vez mais. Quero desfrutar meus momentos de paz. Aproveitar a solidão calma, às vezes tão necessária...

Um comentário:

verinha.com disse...

Amei! Mtas vezes me senti assim também, feliz por ser um pouquinho independente! Vc faz com que eu sinta exatamente essa emoção. bjs