Saí de casa. Ia viajar. Meu filho me deu carona até a
Rodoviária. Coisa rara. Filho nunca tem tempo para a mãe. Conseguia não levar
uma bagagem enorme, como costumo fazer. A maturidade realmente nos transforma
um tantinho, ou talvez nos dê mais praticidade. Sentei-me diante da plataforma
que estava marcada na passagem de ônibus. Detesto avião. Não era o caso, felizmente.
A viagem era para um lugar não tão distante. Carregava apenas minha bolsa
nova, cheia de compartimentos, presente da filha; toda vez que precisava de
alguma coisa, necessário abrir o zíper de um lado e depois do outro, até
encontrar o que queria. Intimamente, sentia saudades da velha bolsa vinho. A roupa, chinelos e outras utilidades, apenas
alojados numa mochila de listras brancas e azul-marinho, que a filha me
emprestara. Sentia-me moderna, prática.
Feliz por estar viajando sozinha. Feliz não é exatamente o termo mas me via satisfeita por estar ali. Todo o
ritual cumprido: a ida ao banheiro, principalmente, me deixava mais segura. Não
seria necessário equilibrar-me, rezando para não acontecer alguma curva e
também que não ficasse presa dentro do banheiro do ônibus. Muita gente não vai
entender a minha apreensão. Outros, sim. Finalmente, chegou o carro e
embarquei, não sem antes perguntar ao chofer sobre o horário certo da chegada à cidade para a qual me destinava. Estava
confortável, digamos assim. Não havia ninguém na cadeira ao meu lado. Melhor.
Não teria que conversar, se não
quisesse. Nem precisava ser gentil com ninguém. Comecei a pensar em fazer novas
viagens. Depois que me dediquei a escrever, fico observando tudo o que se passa
ao meu redor. Vou fazer uma crônica sobre o que estou vendo, logo imaginei.
Passei a fazer uma descrição detalhada de cada pedaço da estrada. As cores
normalmente me encantam. Acho que faço um estudo imaginário, pensando na
mistura que faria na paleta se fosse fazer um quadro, já que aprendo mais por
observação que outra coisa. Assim também dei em fazer, ao descrever uma
paisagem. A cor do barranco de nuances variadas, do marrom avermelhado, ao mais
opaco, dependendo da área e da vegetação. Os verdes então, tamanha era a profusão de tons que me
encontrava maravilhada. A natureza imponente. O céu não estava propriamente bonito.
Uma chuvinha fina tinha acabado de acontecer. Apesar disso, a claridade era
grande. As cores, vivas. Passei um bom tempo naquele esforço em fixar na
memória as imagens bonitas que iam desfilando através da janela larga, abrangente. Cansei-me depois de algum tempo e muitos
quilômetros. Pensei que as pessoas iriam achar enfadonho ler uma descrição,
como as que fazíamos nos tempos de escola, orientados pela professora de
Português. Cópia e ditado ou um cena a ser descrita, geralmente o que ela pedia
como exercício obrigatório em aula. Resolvi parar. E a viagem seguia, eu cheia
de orgulho por estar sozinha, empreendendo uma viagem que me deixara ansiosa
uma semana antes. Hoje, resolvi colocar aqui as impressões sobre a estrada,
sobre os riachos, morrinhos e montanhas azuladas pela distância, bois nos
pastos, planícies, com seus casebres ao
longe, pequenas florestas teimando em aparecer, apesar do contínuo desmatamento
e inconsciência dos homens. Alguns pássaros, galinhas, a majestosa ave branca,
nos alagados, flores em profusão, já que
estamos na primavera e gente também. Mas
o que me motivou mesmo foi a aventura em si. Eu, sem depender de companhia,
indo simplesmente, vencendo os obstáculos, os medos. Querendo ser mais
confiante. Querendo exercer mais a minha liberdade. Querendo ser feliz só de
olhar para a vida que se expõe diante de meus olhos, que passa rapidamente,
cada vez mais. Quero desfrutar meus momentos de paz. Aproveitar a solidão
calma, às vezes tão necessária...
Um comentário:
Amei! Mtas vezes me senti assim também, feliz por ser um pouquinho independente! Vc faz com que eu sinta exatamente essa emoção. bjs
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