Da janela, podia avistar o sol se
indo, não antes de mostrar uma
luminosidade amarela, brilhante, por trás dos edifícios altos. Tudo se
transformando em sombra, para receber a noite que traz consigo um sentimento de
tristeza muito grande. Observava aquela
paisagem bonita sem poder olhar para tanta luz que me cegava. É o momento do
dia que mais gosto de apreciar. Não são
poucas as vezes, que deixo o que estou fazendo para me deleitar com o por do sol. Nas tardes de
outono então são de tirar o fôlego. E me transporto. Deixo a alma flutuar entre
as cores mágicas no céu. Entretanto,
todo esse esplendor, misturado às mais belas emoções, me levam a uma comparação
inevitável. A minha vida atingiu um momento de finalizações. A Terra dá voltas,
em círculos infinitos que causam os dias
e as noites. As pessoas, não. Apesar de fazerem parte de um planeta que gira
sem parar, têm um tempo finito. É o ocaso que acontece, inexorável. É como se
estivéssemos da janela de um trem veloz, que nos deixa vislumbrar paisagens, as
mais intrigantes e mutáveis, mas que apreciamos tão rapidamente. É como a vida
que, costumamos dizer, passa tão depressa. Mas, na verdade, não é assim. Os
minutos, as horas estão sempre no mesmo compasso. Nós é que não conseguimos
cultivar o hábito saudável, de vivenciarmos apropriadamente, cada momento que nos é dado. Se pudesse cavalgar
num daqueles clarões coloridos eu me reportaria a um tempo de felicidade,
melhor dizendo, de esperança. Do porvir instalado em frente à mim, quando era a
menina sonhadora, cheia de gosto pela vida. Não que eu não sorria mais, não.
Mas é tão diferente. O riso de antes era aberto, descontraído, irresponsável.
Hoje, é um riso temperado, mais valorizado até. E me dou conta de que tenho a
graça infinita de possuir um bom humor invejável. Como os negros escravos
acostumei-me com as chicotadas da vida e, como eles, ainda consigo cantar e dançar, apesar das marcas
deixadas pela chibata, ao redor da fogueira, que acendiam, para queimar suas
frustrações e zombar da má sorte que lhes fora dada. Também eu quero atiçar o fogo que queimará
minha amargura, e que, pretensamente transformará em cinzas todo o sofrimento e
decepções que me atingirem. Quero me valer das coisas boas que andam paralelas,
disputando lado a lado com o tristeza e
a dor. É uma luta feroz, onde os soldados do bem não se acovardam, mesmo
sabendo que as armas inimigas são mais poderosas. Ainda há alguma luz, ainda
vejo o ouro e púrpura flamejando no
horizonte. Além do mais, sempre haverá um novo dia e, enquanto eu puder, farei
parte daquele exército que ainda acredita em dias melhores e que valorizam pequenas vitórias, porque é delas que, se
somadas, extrairemos a vitória e, aí, sim, entendemos que vale a pena viver.
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