A Zé e outras histórias.
Alzira morreu. Levou um choque
elétrico, quando passava roupa. Fora um relâmpago. Alzira atingida por um raio
que caiu do céu. Só sei que, com essa lembrança, puxei uma outra:
a figura da Zé, que era irmã da Alzira.
Seu nome Maria José. Claro, ninguém se chama Zé.
Não era uma pessoa comum. Não sei se
de nascença, o fato é que seu rosto era deformado: sua boca parecia subir em
direção à orelha atrofiada, também defeituosa. A Zé era feia. Quando falo do
físico, sim, devo descrever uma pessoa desprovida de beleza. Mas, se me refiro
à bondade, ao caráter, ao espírito simples e afável, então sim, este é o perfil
da Zé. De uma beleza incrível.
Era outra época. Outra vida. Não se
corria contra o tempo. Apenas se vivia, deixando as coisas acontecerem sem
pressa, sem ansiedade, sem o afã de viver com o fim exclusivo de se obter bens
materiais, isto considerado fundamental, nos dias de hoje, muito mais
importante do que o ser.
Atividade febril. Histeria coletiva.
Vemos pessoas, e me incluo nessa,
correndo, se agitando num frenético ir e vir. As voltas do planeta já não dão
conta do tempo. Este virou um senhor lerdo, envelhecido, “démodé”. Ninguém tem mais tempo
para o tempo.
A Zé trabalhava em nossa casa; desde que passei
a me entender por gente, contava com sua zelosa companhia. Companheira que me
viu desabrochar da meninice para a adolescência. Ela carregava o peso de uma
deformidade. Não quero registrar sua imperfeição. Ao contrário, preciso exortar
sua condição de ser humano revestido de coragem. Ela não se deixou vencer.
Simplesmente, de maneira inconteste, se resignou com o que a lhe coube nesta
vida. Cultivava a vaidade de mulher, sim. Como qualquer outra que tivesse tido
melhor sorte, que tivesse sido dotada de beleza exemplar, a Zé tentava
disfarçar sua fealdade com recursos de que dispunha: por exemplo, colorir
os cabelos, com uma mistura de água oxigenada e cebolas, encobrindo aquele seu
lado defeituoso.
Zé cozinhava e fazia outros serviços da casa,
incluindo a roupa que lavava e passava.
Meu pai, amante inveterado do
futebol, era o “técnico” do Olímpico, um dos poucos times da pequena cidade,
que dividia os dois estados do Rio e Espírito Santo.
Algumas vezes, chegou a abrigar em nossa casa jovens jogadores, que
vieram de Minas. A Zé cuidava da roupa deles também. Acontece que um dos
rapazes, o Fábio, que mais tarde se
tornou goleiro reserva da Seleção, querendo fazer-lhe um agrado, em retribuição
ao favor que ela lhe prestava, comprou-lhe um singelo par de brincos. Que
infeliz idéia! Logo ela que não contava com as duas orelhas...
Mas ela era feliz. Contentava-se com
pouco. Chegou a ter alguns namorados, lembro-me disso.
Minha mãe foi uma mulher moderna. Já
naquela época, lidava com as empregadas de maneira delicada, com humanidade.
Muitas costumavam visitá-la. Uma delas, Maria Amélia se casou, tendo ido embora
por esse motivo; lembro-me bem dela:
moça bonita, cabelos louros, compridos, olhos verdes, corpo bem feito. Ficou
grata à minha mãe, que sabia cativar as pessoas. Não se importava, quando a Zé
ralhava com um de nós, se invadíssemos sua cozinha para roubar batatas fritas,
antes do almoço.
- “Foge daí, menina!”- gritava ela,
enquanto nos aplicava um tapinha nas
pontas dos dedos... sem machucar.
Nasci na fazenda do meu avô. Mas, na
verdade, as minhas mais tenras recordações
são da outra fazenda, a São Tomé, onde vivi até os dez anos de idade.Meu
avô, homem de muitas terras, de lavouras
de café, deu ao meu pai uma fazenda para administrar. Fui acostumada a conviver
com os colonos, que trabalhavam lá e viviam em casas simples, espalhadas ao
nosso redor. Íamos, sempre, eu e meus irmãos à casa deles. Dona Ana – a quem
todos chamavam de Inhana – senhora de cabelos brancos, amarrados pra trás,
sempre em desalinho, usava saias compridas, franzidas. Sua aparência era um
tanto misteriosa; vivia com seu filho, “Sodira,” não sei se era
a junção de senhor com Dira. Era velho
também. Faltavam-lhe os dentes. Lá, na casa deles, havia colméia. Havia
favo de mel. Galinhas correndo soltas pelos terreiros, bananeiras.
Havia também dona Chica. Devo
confessar que tinha medo quando íamos à casa dela. Existia um paiol, onde eram
guardados cachos de bananas, para madurar. Havia ratos também.
Colhíamos folhas de taioba ( ou de
inhame, não sei bem ) que nos serviam de aparo para bebermos água da mina que
brotava nos fundos do quintal. Dona Chica era negra, magra, desdentada. Usava
um lenço branco na cabeça: era feia. É a imagem que guardo dela. Parecia uma
bruxa, daquelas saídas das histórias que minha
mãe costumava ler para nós.
Mas a Zé também era feia. Muito feia: tinha
uma orelha atrofiada e a boca repuxada para um lado só, num constante esgar. No
entanto, sua feiúra nunca me causou medo. Ao contrário, nada impediu que ela
fosse a minha grande amiga. Morava em nossa casa e ajudava nos serviços. Sua
mãe, dona Maria, às vezes aparecia para nos visitar e ver a filha, a Zé. Lembro-me
bem dela: baixa estatura, cabelos curtos, ondulados artificialmente, brincos de
argola e rouge, muito rouge; duas rodas vermelhas, mal espalhadas pelo rosto.
Sentia um certo nojo ( Deus me perdoe), quando ela
sorria: a gengiva enorme sobressaía na dentadura mal feita.
A Zé nos acompanhava nas pequenas excursões pelas estradas da São Tomé,
quando resolvíamos visitar os colonos ou, simplesmente, andar pelas trilhas no
meio do mato, para recolher da paineira o recheio dos nossos travesseiros. E
debulhávamos a paina, que fazia meu
nariz coçar.
A escola, sediada na
fazenda, não ia além da 4ª série primária. Meu pai então, viu-se forçado
a se mudar para a cidade. Precisávamos
estudar. Quando isto aconteceu, a Zé nos acompanhou. Viu nascer meu primeiro
sobrinho, filho da irmã mais velha que se casara cedo demais. Ela escolheu a Zé
como madrinha. Justa homenagem para a grande companheira de quase onze anos,
vivendo com nossa família.
Lembro-me da Zé cozinhando angu, no fogão aceso por palha de café. A
tarde, ainda visitada pelos últimos raios de sol, deixava-nos meio sonolentos,
preguiçosos. A vida na fazenda começava cedo. E, àquela hora já nos
preparávamos para o jantar. Não havia luz elétrica em nossa casa. A geladeira
funcionava a querosene. O rádio era à pilha, uma dessas enormes; não me esqueço
do desenho de um gato preto e uma imitação de raio, também preto, desenhados na
superfície vermelha. Eu, na minha mais pueril inocência, ficava imaginando que
os personagens moravam lá, dentro daquela pilha grande, escondida atrás do
rádio. São fragmentos da infância.
Um dia, ficamos sem a
nossa querida Zé, quando ela resolveu vir embora para o Rio. Ficava no alto, Santa
Teresa, bairro em que morava Teresa, a irmã da Zé. Seu marido piloto, lhe conferia importância. Afinal, avião era
sinônimo de status. Foi a primeira vez que comi angu à baiana. Gentileza paga
com gentileza. Meu pai fizera questão de
levar de carro,aquela que passara um bom tempo de sua vida entre nós.
Considerada pessoa da família...Teresa,
que tivera melhor sorte, situação financeira definida, acolheu a irmã do
interior. Fomos todos, em comitiva recebidos com fidalguia pela dona da casa.
São percepções impregnadas em nossa alma. Não saberia explicar o porquê de acorrerem tais
lembranças. O que me teria motivado a escrever sobre ela? Uma indagação que vem
se juntar a muitas outras. Daquelas que
não mudam em nada nossa vida. Não sei se ela ainda vive. Prefiro conservá-la
num lugar mágico, onde as pessoas ficam
eternizadas. Porque para mim a Zé é imortal.
Não teria como saber por
anda a Zé. Talvez, já tenha morrido. Mas não quero pensar assim. Dentro da
minha caixinha para pessoas especiais, há um lugar reservado para ela. Dali
não vou tirá-la. È uma jóia rara que guardarei para sempre.
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