terça-feira, 21 de maio de 2013

A Zé e outras histórias.


A  Zé e outras histórias.

 

            Alzira morreu. Levou um choque elétrico, quando passava roupa. Fora um relâmpago. Alzira atingida por um raio que caiu do céu. Só sei que, com essa lembrança, puxei  uma  outra:  a figura da Zé, que era irmã da Alzira. Seu nome Maria José. Claro, ninguém se chama Zé.

            Não era uma pessoa comum. Não sei se de nascença, o fato é que seu rosto era deformado: sua boca parecia subir em direção à orelha atrofiada, também defeituosa. A Zé era feia. Quando falo do físico, sim, devo descrever uma pessoa desprovida de beleza. Mas, se me refiro à bondade, ao caráter, ao espírito simples e afável, então sim, este é o perfil da Zé. De uma beleza incrível.

            Era outra época. Outra vida. Não se corria contra o tempo. Apenas se vivia, deixando as coisas acontecerem sem pressa, sem ansiedade, sem o afã de viver com o fim exclusivo de se obter bens materiais, isto considerado fundamental, nos dias de hoje, muito mais importante do que o ser.

            Atividade febril. Histeria coletiva. Vemos  pessoas, e me incluo nessa, correndo, se agitando num frenético ir e vir. As voltas do planeta já não dão conta do tempo. Este virou um senhor lerdo,  envelhecido, “démodé”. Ninguém tem mais tempo para o tempo.

            A  Zé trabalhava em nossa casa; desde que passei a me entender por gente, contava com sua zelosa companhia. Companheira que me viu desabrochar da meninice para a adolescência. Ela carregava o peso de uma deformidade. Não quero registrar sua imperfeição. Ao contrário, preciso exortar sua condição de ser humano revestido de coragem. Ela não se deixou vencer. Simplesmente, de maneira inconteste, se resignou com o que a lhe coube nesta vida. Cultivava a vaidade de mulher, sim. Como qualquer outra que tivesse tido melhor sorte, que tivesse sido dotada de beleza exemplar, a Zé tentava disfarçar sua fealdade com recursos de que dispunha: por exemplo, colorir os cabelos, com uma mistura de água oxigenada e cebolas, encobrindo aquele seu lado defeituoso.

             Zé cozinhava e fazia outros serviços da casa, incluindo a roupa que lavava e passava.

            Meu pai, amante inveterado do futebol, era o “técnico” do Olímpico, um dos poucos times da pequena cidade, que dividia os dois estados do Rio e Espírito Santo.

            Algumas vezes, chegou  a abrigar em nossa casa jovens jogadores, que vieram de Minas. A Zé cuidava da roupa deles também. Acontece que um dos rapazes, o Fábio,  que mais tarde se tornou goleiro reserva da Seleção, querendo fazer-lhe um agrado, em retribuição ao favor que ela lhe prestava, comprou-lhe um singelo par de brincos. Que infeliz idéia! Logo ela que não contava com as duas orelhas...

            Mas ela era feliz. Contentava-se com pouco. Chegou a ter alguns namorados, lembro-me disso.

            Minha mãe foi uma mulher moderna. Já naquela época, lidava com as empregadas de maneira delicada, com humanidade. Muitas costumavam visitá-la. Uma delas, Maria Amélia se casou, tendo ido embora por esse motivo;  lembro-me bem dela: moça bonita, cabelos louros, compridos, olhos verdes, corpo bem feito. Ficou grata à minha mãe, que sabia cativar as pessoas. Não se importava, quando a Zé ralhava com um de nós, se invadíssemos sua cozinha para roubar batatas fritas, antes do almoço.

            - “Foge daí, menina!”- gritava ela, enquanto nos aplicava  um tapinha nas pontas dos dedos... sem  machucar.

            Nasci na fazenda do meu avô. Mas, na verdade, as minhas mais tenras recordações  são da outra fazenda, a São Tomé, onde vivi até os dez anos de idade.Meu avô, homem de  muitas terras, de lavouras de café, deu ao meu pai uma fazenda para administrar. Fui acostumada a conviver com os colonos, que trabalhavam lá e viviam em casas simples, espalhadas ao nosso redor. Íamos, sempre, eu e meus irmãos à casa deles. Dona Ana – a quem todos chamavam de Inhana – senhora de cabelos brancos, amarrados pra trás, sempre em desalinho, usava saias compridas, franzidas. Sua aparência era um tanto misteriosa; vivia com seu filho, “Sodira,” não sei  se  era a junção de senhor com Dira. Era velho  também. Faltavam-lhe os dentes. Lá, na casa deles, havia colméia. Havia favo de mel. Galinhas correndo soltas pelos terreiros, bananeiras.

            Havia também dona Chica. Devo confessar que tinha medo quando íamos à casa dela. Existia um paiol, onde eram guardados cachos de bananas, para madurar. Havia ratos também.

            Colhíamos folhas de taioba ( ou de inhame, não sei bem ) que nos serviam de aparo para bebermos água da mina que brotava nos fundos do quintal. Dona Chica era negra, magra, desdentada. Usava um lenço branco na cabeça: era feia. É a imagem que guardo dela. Parecia uma bruxa, daquelas saídas das histórias que minha  mãe costumava ler para nós.

             Mas a Zé também era feia. Muito feia: tinha uma orelha atrofiada e a boca repuxada para um lado só, num constante esgar. No entanto, sua feiúra nunca me causou medo. Ao contrário, nada impediu que ela fosse a minha grande amiga. Morava em nossa casa e ajudava nos serviços. Sua mãe, dona Maria, às vezes aparecia para nos visitar e ver a filha, a Zé. Lembro-me bem dela: baixa estatura, cabelos curtos, ondulados artificialmente, brincos de argola e rouge, muito rouge; duas rodas vermelhas, mal espalhadas pelo rosto. Sentia  um  certo nojo ( Deus me perdoe), quando ela sorria: a gengiva enorme sobressaía na dentadura mal feita.

A Zé nos acompanhava nas pequenas excursões pelas estradas da São Tomé, quando resolvíamos visitar os colonos ou, simplesmente, andar pelas trilhas no meio do mato, para recolher da paineira o recheio dos nossos travesseiros. E debulhávamos a paina, que fazia  meu nariz coçar.

            A escola, sediada na fazenda, não ia além da 4ª série primária. Meu pai então, viu-se forçado a  se mudar para a cidade. Precisávamos estudar. Quando isto aconteceu, a Zé nos acompanhou. Viu nascer meu primeiro sobrinho, filho da irmã mais velha que se casara cedo demais. Ela escolheu a Zé como madrinha. Justa homenagem para a grande companheira de quase onze anos, vivendo com nossa  família.

Lembro-me da Zé cozinhando angu, no fogão aceso por palha de café. A tarde, ainda visitada pelos últimos raios de sol, deixava-nos meio sonolentos, preguiçosos. A vida na fazenda começava cedo. E, àquela hora já nos preparávamos para o jantar. Não havia luz elétrica em nossa casa. A geladeira funcionava a querosene. O rádio era à pilha, uma dessas enormes; não me esqueço do desenho de um gato preto e uma imitação de raio, também preto, desenhados na superfície vermelha. Eu, na minha mais pueril inocência, ficava imaginando que os personagens moravam lá, dentro daquela pilha grande, escondida atrás do rádio. São fragmentos da infância.

            Um dia, ficamos sem a nossa querida Zé, quando ela resolveu vir embora para o Rio. Ficava no alto, Santa Teresa,  bairro em que morava Teresa, a irmã da Zé. Seu marido piloto,  lhe conferia importância. Afinal, avião era sinônimo de status. Foi a primeira vez que comi angu à baiana. Gentileza paga com gentileza. Meu pai fizera questão de  levar de carro,aquela que passara um bom tempo de sua vida entre nós. Considerada pessoa da  família...Teresa, que tivera melhor sorte, situação financeira definida, acolheu a irmã do interior. Fomos todos, em comitiva recebidos com fidalguia pela dona da casa. São percepções impregnadas em nossa alma. Não saberia  explicar o porquê de acorrerem tais lembranças. O que me teria motivado a escrever sobre ela? Uma indagação que vem se juntar  a muitas outras. Daquelas que não mudam em nada nossa vida. Não sei se ela ainda vive. Prefiro conservá-la num  lugar mágico, onde as pessoas ficam eternizadas. Porque para mim a Zé é imortal.

            Não teria como saber por anda a Zé. Talvez, já tenha morrido. Mas não quero pensar assim. Dentro da minha caixinha para pessoas especiais, há um lugar reservado para ela.  Dali  não vou tirá-la. È uma jóia rara que guardarei para sempre.

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