domingo, 19 de maio de 2013

companheiros de jornada


 

 Está sendo construído um edifício bem em frente ao meu. Desde a demolição dos três pequenos prédios e mais uma casa, observo da minha varanda o passo a passo daquela obra. Vi a base sendo  construída, o trânsito enorme de caminhões que traziam o material:  cimento, pedra, areia e ferro. Vi também o guindaste imenso sendo montado. Ele ainda está lá. É controlado por um operário que com um simples botão faz com que as coisas pesadíssimas subam e desçam, não importa se ferro,  aço, tijolos. Já me acostumei a vê-lo nessa tarefa rotineira. Hoje, domingo, até a máquina-gigante tem folga. Mas, incrivelmente, sinto falta, não sei explicar. Há, ao mesmo tempo,  certo alívio em não ouvir tanto barulho, os gritos dos homens se comunicando uns com os outros, o trânsito ainda mais tumultuado pelo excesso de carros mal estacionados, entregando o material , outros recolhendo o lixo que desce barulhento por tubos  azuis. Cada detalhe eu observo. Acabou a privacidade, a liberdade que  eu tinha de andar à vontade, sem ser vista por ninguém. Acabou  (isto me deixa incomodada e bem triste) a minha visão do  por do sol. Dos inconvenientes, este, o maior. Como era bom admirar aquelas cores mágicas. Como era bom pensar no Criador de tanta beleza. Como era bom largar tudo que estava fazendo para ficar olhando as luzes vermelhas, azuis, alaranjadas, douradas irem se desvanecendo aos poucos à medida que a nossa Terra gira. Isso acabou. Hoje, apesar da invasão, sinto falta de ver aquele homem que (já disse) controla o guindaste. Acordo com a imagem daquele uniforme e capacete que fazem parte  de sua indumentária. Não sei se ele me vê. Mas eu o vejo com certeza. Já faz parte do meu dia o movimento, o trabalho daquele monte de operários. Há  um certo aconchego com a presença deles. Não sei explicar. Sinto-me  acompanhada, mais viva, mais olhada, mais acarinhada, quem sabe? São meus companheiros de jornada, nessa vida incerta, descabida, arbitrária.




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