Hoje, lembrei-me de minha avó. Amanheceu um dia bonito, sol brilhando lá fora. Mas eu não me via muito bem. Sentimento indefinível, meio parecido com tristeza. E lembrei-me dela, minha avó; sua figura chegou de repente, e imaginei suas dores e seus rancores. Por que seria tão difícil para ela o simples fato de viver? Era corpulenta, gorda mesmo, seus braços cobertos por celulite e as pernas que tinham dificuldade para carregar todo o peso daquele corpo que, antes, deveria ter sido o de uma mulher muito bonita, já que seu rosto ainda mantinha traços de beleza inconfundível. Era culta, falava francês e um conto seu fora publicado numa revista que não me lembro o nome. O tempo me distanciou das lembranças. Mas por que a sensação de desconforto me invadiu enquanto preparava o café e arrumava um resto de louça que ficou de ontem? Revivi muito de perto a agonia da avó, tão robusta e tão magoada com a vida. Sentia um certo receio em desagradar minha avó, devo dizer. Quantas vezes a vi agitada, brava, falando alto e, em muitas outras, ficava sabendo que ela havia sido internada com problemas neurológicos. Mas foi ela quem me deu a primeira aula de tricô. Lidar com as duas agulhas que, num passe de mágica, transformava a lã em um bonito pulôver ou numa echarpe ou em sapatinhos de bebê. Nunca consegui fazer nenhuma dessas coisas com habilidade. Apenas dá pro gasto, e algumas investidas, resultaram em uma blusa não muito bem acabada. Enfim, o propósito é dizer sobre a mistura de admiração e medo que sentia por minha avó. Eram vizinhos dela dois rapazes muito bonitos. Um, moreno de praia, cabelos de um louro exagerado em contraste com a pele, seu nome acho que era Marcos e o do irmão não me lembro. Quando coincidia na descida do elevador estar um dos dois, era motivo de um comportamento meio sapeca e de timidez. Devia ter quinze anos ou menos nessa época. Meu avô comprara dois apartamentos e os ligara num só. Ficava de frente ao mar da praia do Saco de São Francisco. A visão dos moços queimados, com shorts me deixava inebriada. Era uma realidade diferente da minha, de menina-moça do interior, que não prendia o riso, no elevador. Situação constrangedora, infantil, mas inevitável. Muitos fatos aconteciam, as danças em casas de família ou no play de um apartamento vizinho. Nós íamos, eu e minha irmã, um pouco mais velha que eu, acompanhadas da amiga carioca que fizemos, no mesmo edifício do meu avô. Minha irmã se encantara com um jovem que conhecera na praia e frequentava a Academia Militar das Agulhas Negras, chegaram a trocar cartas. Eu me apaixonei por um lindo moreno, que tinha o nome mais estranho que nunca ouvira falar: Berilo. Agora, escrevo e me vem tantas outras lembranças. Dançava com o meu príncipe, com nome de pedra preciosa e ele me perguntava se eu não falava. E eu continuava mais quieta ainda. Foi bom. Preciso espantar esse sentimento traiçoeiro que às vezes me acomete. O passado deve ser deixado onde está, lá atrás, até porque não volta mais. Só que veio hoje, pra me fazer reagir, pensar no que aconteceu e relembrar alguém que foi jovem, envelheceu, sofreu e como todos nós enfrentou momentos tristes. Saudades da minha avó Tatau...
2 comentários:
Estou testando pra ver se deu certo o que fiz nas Configurações.
Testando
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