Hoje, queria ser criança. Comemora-se o dia da Mãe de Deus,Nossa Senhora Aparecida e das crianças: a pureza representada em todas as medidas. Aí, me lembrei de dois presentes que minha mãe me deu. Um árvore da felicidade, que trouxe num pequeno saco de plástico com muita terra molhada, meio barrenta e que resiste ao tempo, há quase dezessete anos.Plantei-a num vaso grande e já alcança o teto da sala. No Natal, coloco, ali, bolas coloridas para comemorar o nascimento de Jesus. O outro presente ela me deu para a casa de Búzios. São pratos e uma bandeja com o desenho de um peixe azul. Guardo-os como relíquia. Mas a melhor lembrança da minha mãe, seu exemplo. Mulher dócil, de fácil convivência, amante dos livros, de cinema, de arte, enfim. Da infância na fazenda, veio-me a imagem da janela de madeira, pintada de vermelho, quando aproveitando a luz do dia que se apagava, ela lia contos de fadas para mim. Eu olhava o contorno dos morros que rodeavam a casa e voava alto com as histórias. Acho que, pela idade, eu era a companhia mais constante quando íamos a Bom Jesus, de ônibus. Andávamos mais ou menos um quilômetro da casa até o ponto de ônibus, à beira da estrada. Para mim, uma alegria; mas tinha o lado ruim: eu sentia enjoo: o cheiro do combustível, misturado à poeira da estrada me faziam mal. Costumava levar um limão pra ir cheirando. Diziam ser bom. Mesmo assim, chegava "mareada" ao destino final. Ainda que a condução não fosse um navio. Três vestidos de minha mãe ficaram das mais tenras recordações. Um estampado de azul e branco, saia godê mangas curtas, outro bege com um tipo de bainha enfeitada, em toda a volta e ainda o verde claro. Todos de muito bom gosto, que assentavam lindamente na mulher elegante e bonita que foi. Lá na cidade, ela me comprava sandálias brancas na loja do Zé Cabeça. Era a melhor hora...eu saía pisando como se fosse a gata borralheira no sapatinho de cristal. As sessões de cinema, no Cine Monte Líbano, eram indescritíveis. O sonho maior. Como eu e as irmãs, nos regalávamos com os filmes românticos, as séries de domingo! Era um tempo mágico. Minha mãe recebia as nossas amigas com muito carinho, ouvia os assuntos e confidências como ninguém. Numa época em que as mães não eram tão participativas, ela tinha um comportamento diferenciado. Nossas roupas ela as costurava. Aprendi a fazer bainhas, arremate tudo com ela,vendo-a cortar os moldes sobre a mesa da copa. Tenho saudades, sim. Sou nostálgica ao extremo. Agradeço a minha mãe o fato de gostar de novelas ( naquela época, do rádio.) Não herdei dinheiro dos pais. A maior dádiva é pensar que, se me fosse dado escolher, seriam eles os escolhidos - seus defeitos irrelevantes, diante de tanta alegria que souberam me proporcionar. Liberdade. Ela, principalmente, soube dar sentido a esse substantivo nada abstrato, visto que posto em prática e concretizado pela mãe excelente que Deus me deu.
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