sexta-feira, 6 de outubro de 2017

De volta para casa.

As imagens se multiplicam. São tantas informações que fica difícil precisar a hora e em que situação aconteceram. Só sei que, em seis dias, pude avaliar de verdade o quanto é bom gozar de  boa saúde. A rotina de nossa vida passa a ter uma importância que não via antes. O fato de ter alta do hospital parecia ser meta inalcançável, quando você se percebe num emaranhado de fios, agulhas, soro, antibióticos, remédios para a dor, exames, furos de todos os lados para exames de sangue , na ponta dos dedos para glicose e  outras  coisas desagradáveis. O fato de não se ter os movimentos livres, de dormir na mesma posição ( se é que se dorme amarrada a um leito de Unidade de Terapia Intensiva)  é insuportável.Voltando, de quando tudo começou: a sugestão do médico  era que deveria procurar a Emergência do hospital para exames. Fui. Como eu, várias pessoas a espera de atendimento, numa sala que parecia o freezer de geladeira. Horas de angústia e apreensão. Finalmente, meu nome gritado pelo funcionário: tomografia. O soro já fincado numa das veias me espiava, incrédulo. Até que não foi tão desgastante, não demorou muito. Aí, a espera dos resultados. Depois, já passadas horas de friagem, fui chamada para a "sentença" final. Pelo menos era o que eu esperava; um laudo para me orientar e esclarecer o que me acometera de forma cruel.Não quero descrever. Nisso tudo, sempre há pessoas amáveis, solidárias; uma jovem que se encontrava na mesma "sala verde"e terminara sua avaliação e tomografia, me vendo tiritar de frio, ofereceu-me uma manta que usava, cobrindo-me gentilmente. Deu-me seu endereço para quando fosse devolver, sem pressa, simples assim. Aí, meu nome foi ouvido, já no final da fila. Fui para uma outra sala, muito bem equipada, computadores à frente dos jovens médicos, movimento de técnicos de enfermagem, algumas camas, separadas por cortinas. Fiquei ali, já com a atenção do cunhado médico e minha irmã. Ouvi o resultado: -" A senhora vai ter que ficar em observação. Há alguns problemas detectados pela tomografia. Tem que se manter no CTI por esta noite, para melhor avaliação e cuidados". Pareceu-me um pesadelo. Quando imaginei que ficaria retida!? Meu ex-marido e meu filho acabavam de chegar na Emergência. Conversaram com o técnico da enfermaria, um gentil homem que não media esforços para não me constranger. Mesmo depois de certa idade, há esse fator, não sei se de vaidade ou de pudor mesmo. Talvez, as duas coisas juntas. Mas me colocaram aquela vestimenta horrenda que declara: você virou uma paciente ( não é à toa essa denominação). Daí a algum tempo, subiram para o andar de atendimento intensivo. Deitada na maca, corri pelos corredores enormes, gelados. Depois de acomodada naquela cama que sobe e desce, ferramenta essencial para convalescentes ou incapacitados de se mexer. Aí, avistava, de um lado, o soro pingando devagar, de outro, aparelho que mediria a pressão, " enforcando" meu braço de tempos em tempos. Verdadeira armadilha. Ainda por cima, aliás, por baixo, uma fralda descartável que era trocada a cada precisão. Coisa horrível, gente!Humilhante para quem nunca havia passado por tal experiência. Médicos, enfermeiras, técnicos, ajudantes, todos eram vistos de onde eu estava. Eles falavam alto, falavam de tudo. Por um lado, sentia-me protegida. Entretanto, cedo demais, percebi que não estaria confortável diante daquela falação toda. Não nego que o atendimento era de primeira; a todo e qualquer chamado meu alguém acorria. Quando criança, fui ensinada, a duras penas, que na cama, não devia fazer minhas necessidades. Agora, diante de médicos ( alguns charmosos e bem jovens) teria que liberar minhas  fisiologias...Dá pra acreditar!? Dois dias, sem dormir, sem comer, só com o soro me sustentando e antibióticos, remédios pra dor. Toda hora, um apertão no braço direito, acoplado ao medidor de pressão.:Uma notícia alvissareira, finalmente:-" Hoje, a senhora vai para o quarto." Parecia animador. Pensei que, dali, seria liberada. Ledo engano, ainda permaneci mais quatro dias. O braço, em petição de miséria, com furos e furos. Uma enfermeira, preocupada em voltar para sua casa, longe, em Itaboraí, saía do seu plantão e me garantiu que tudo estava bem. Os dedos da mão apresentavam enorme inchaço. Resumindo, as substitutas do plantão detectaram que a veia estava sem o silicone que conduzia o soro e remédios. Outra Odisséia: procurar uma veia mais prestativa. Não foi fácil. Agora, a mão direita, comprometida, sem seus movimentos, ficou mais difícil. Foram mais três noites insones. Escovar dentes com a esquerda é tarefa para heroínas. Cada vez que ia a banheiro, uma confusão daquelas... Enfim, quando o doutor cirurgião que me daria alta adentrou o quarto, parecia a visão do Criador! Só ele poderia autorizar a saída. A notícia boa ele trouxe mais uma: não seria necessário cirurgia. No dia seguinte,  a libertação. Quando me foi tirado aquele fio da mão, senti-me liberta. Como era bom poder usar as duas mãos! Tomei um banho, agora normal, sozinha. Diferente daquele dado na própria cama, com um saco de água morna, álcool sem poder me mexer, quando estava na terapia intensiva. Sentia-me limpa. Liberta.Agora, em casa, conto com o auxílio da filha que me acompanhou o tempo todo. Verdade que, algumas vezes, teimando comigo. Mas ela ficou firme. Difícil ficar num quarto de hospital, trancafiada. Hoje, já em casa, continuo com muitos remédios, sim, ( substituídos por comprimidos ao invés da veia, por mais sete dias)o que me deixou muito enfraquecida. Mas um sonho, o caminho de volta. Chegar em casa foi um presente de Deus. Agradeço por cada momento usufruindo a rotina da minha vida, tendo contas a pagar, compras a fazer e tudo o mais. Só damos valor à saúde, de verdade, quando a vemos nos abandonar. Afinal ela também gosta de férias...Quero continuar sua amiga, sempre.
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