Cinco e vinte e três da manhã, mostrava
o relógio. Acordei com a tosse
incessante da minha filha. Levantei-me, fui à cozinha e lhe trouxe um chá bem
quente, camomila, maracujá e erva-cidreira, “Boa noite”, escrito na caixinha.
Recomendei-lhe que aproveitasse os vapores, para desobstruir as narinas. Surtiu
efeito. Em alguns minutos, a tosse se acalmou. Voltei a me deitar e olhei pela
janela. Nuvens brancas se misturavam com o negror da noite, que já se despedia,
dando lugar ao amanhecer. E eu fitava com tristeza aquele céu, cheio de
mistérios. E chorei. Fiz uma oração, pedindo à Virgem Maria que intercedesse
junto a seu Filho por minha filha, pensei em como ela estaria só, quando eu não
mais estiver aqui. As lágrimas corriam soltas. Pensei em como ela gostaria de
um companheiro, de ter filhos e, como as mocinhas do meu tempo, constituir a
sua própria família e da dificuldade de se realizar esse desejo nos dias que
correm. Aí, pensei também em minha prima, que entre risos de galhofa e vontade
de fazer graça, nos dizia que abandonara seu último companheiro, cansada que
estava de seus arroubos sexuais ( isto dito em termos bem mais instigantes).
Naquele momento, rimos disso, todas nós. Agora, não sei porque, me lembrei
dela. E continuava olhando o céu, com o coração pesado. Inevitável pensar no meu “ mocinho de cinema”.
Deveria ele estar com algum novo amor. Isso não me fez ter ciúmes, apenas muita
tristeza. E me dei conta de que sua figura se apagava, com o acender das luzes, como na sala do
cinema. Permanecia na tela branca, se desvanecia junto, tanto quanto meus
sonhos. Fitava ainda o céu, agora mais claro. As nuvens se dissipando. Uma
pequena estrela teimava em brilhar. Ou seria um satélite? Prefiro acreditar que
era uma estrela. E não era só uma. Mais uma e mais outra agora brilhavam.
Deviam ser estrelas, sim. É que preciso do seu brilho; como preciso das
estrelas nesse momento! O moço dos filmes dorme satisfeito, sem se preocupar
com os sentimentos da mocinha. Ela se perdeu no tempo e no espaço. Só sobraram
seus sonhos. Esses, ela não os perderá jamais.
2 comentários:
Adorei sua crônica,são escritas com o coração. E sempre me emociono ao lê-las.
Parabéns!! Continue escrevendo.
Amei! Simples assim.
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