quarta-feira, 31 de julho de 2013

MOCINHO DE CINEMA


Cinco e vinte e três da manhã, mostrava  o relógio. Acordei com a tosse incessante da minha filha. Levantei-me, fui à cozinha e lhe trouxe um chá bem quente, camomila, maracujá e erva-cidreira, “Boa noite”, escrito na caixinha. Recomendei-lhe que aproveitasse os vapores, para desobstruir as narinas. Surtiu efeito. Em alguns minutos, a tosse se acalmou. Voltei a me deitar e olhei pela janela. Nuvens brancas se misturavam com o negror da noite, que já se despedia, dando lugar ao amanhecer. E eu fitava com tristeza aquele céu, cheio de mistérios. E chorei. Fiz uma oração, pedindo à Virgem Maria que intercedesse junto a seu Filho por minha filha, pensei em como ela estaria só, quando eu não mais estiver aqui. As lágrimas corriam soltas. Pensei em como ela gostaria de um companheiro, de ter filhos e, como as mocinhas do meu tempo, constituir a sua própria família e da dificuldade de se realizar esse desejo nos dias que correm. Aí, pensei também em minha prima, que entre risos de galhofa e vontade de fazer graça, nos dizia que abandonara seu último companheiro, cansada que estava de seus arroubos sexuais ( isto dito em termos bem mais instigantes). Naquele momento, rimos disso, todas nós. Agora, não sei porque, me lembrei dela. E continuava olhando o céu, com o coração pesado.  Inevitável pensar no meu “ mocinho de cinema”. Deveria ele estar com algum novo amor. Isso não me fez ter ciúmes, apenas muita tristeza. E me dei conta de que sua figura se apagava,  com o acender das luzes, como na sala do cinema. Permanecia na tela branca, se desvanecia junto, tanto quanto meus sonhos. Fitava ainda o céu, agora mais claro. As nuvens se dissipando. Uma pequena estrela teimava em brilhar. Ou seria um satélite? Prefiro acreditar que era uma estrela. E não era só uma. Mais uma e mais outra agora brilhavam. Deviam ser estrelas, sim. É que preciso do seu brilho; como preciso das estrelas nesse momento! O moço dos filmes dorme satisfeito, sem se preocupar com os sentimentos da mocinha. Ela se perdeu no tempo e no espaço. Só sobraram seus sonhos. Esses, ela não os perderá jamais.

2 comentários:

ARTIGOS & IDEÍAS disse...

Adorei sua crônica,são escritas com o coração. E sempre me emociono ao lê-las.
Parabéns!! Continue escrevendo.

verinha.com disse...

Amei! Simples assim.