Nasci na fazenda do meu avô. Depois, nos mudamos para a fazenda São Tomé. Não me lembro bem quando foi. Só sei que, da minha infância, as lembranças mais fortes são onde vivi, das primeiras letras aprendidas na escola, das tabuadas, contas de somar, de dividir de 2 números...
Foi a escola que serviu de sede para nossos teatros. Usávamos a mesa da professora como palco e os dois longos bancos de madeira para separar-nos, as "artistas", da plateia que era acomodada nas carteiras. Confeccionávamos nossas fantasias e roupas, enfeitadas com lantejoulas e babados. Minha avó, Doninha, selecionava pessoas do lugarejo, próximo da fazenda das Areias e enchia um ônibus para nos assistir. Junto a elas, latas de sonhos, balas e outras delícias que eram distribuídas entre os convidados. Esperávamos ansiosas pelas férias, quando as primas que viviam da cidade vinham para participar do teatro. Uma alegria sem tamanho.
Minha irmã mais velha, já com ares de mocinha, era cobiçada pelo primeiro namorado, o Wandick, filho de médico, rapazinho bonito, alto e, ainda por cima, tocava acordeon. Uma maravilha. Ele costumava se hospedar na fazenda do meu tio Modesto, afastada da nossa uns poucos quilômetros.
Íamos, às vezes, jogar baralho na casa deles. Minha prima, Regina, tinha uma boneca linda, vestida de noiva. Em comparação com a minha pequena Fifi - nome que dei à minha bonequinha de borracha - era uma verdadeira rainha. Boneca de louça, bem feita. Minha preocupação maior era quando nos aproximávamos da casa e o Jagunço, cachorro vira-lata, vinha nos pular, fazendo festa. Tinha muito medo que ele me mordesse e me escondia atrás de quem estivesse mais próximo para me acudir. A proximidade com animais sempre me causou medo, ainda que convivesse entre eles. Não era capaz de segurar nem mesmo uma galinha, se fosse preciso. Teresa, a irmã mais velha, tinha uma vaca, a Pratinha e um cavalo com o nome de Preto. Minha outra irmã, a que teve seus cabelos incendiados por mim na procissão, ganhara um bezerrinho do seu padrinho. E eu, por que tanto medo dos animais? Não sei.
Quando chovia, o pequeno córrego que atravessava nossa fazenda, enchia, transbordando. Era um verdadeira aventura o que fazíamos: colocávamos umas tábuas na entrada das manilhas, um pouco à frente da ponte e dali saltávamos, aproveitando a profundidade maior. Não sei como ninguém quebrou o pescoço, pois eram saltos de cabeça. Deus olhava.
Neste mesmo córrego, morreu um menino, o Ruy. Afogou-se no açude, atrás da casa de seu Cosme, um dos colonos, pai da Alice, Judite, Joãozinho, Dario. Não sei se me lembrei de todos os filhos. Eram muitos, disso me lembro.
Minha avó, mãe de meu pai, vinha nos visitar, morava na fazenda das Areias, onde nasci. Numa dessas vezes, não me esqueço, minha vó Doninha fazendo curativo na perna da Alice, negra bonita, alta , de dentes brancos perfeitos. Ela levara um tombo e seu joelho se abrira até o osso. Sentia enorme gastura vendo-a tratar da moça. Minha avó era valente, brava. Diziam que andava com um pequeno revólver prateado, na bolsa. Não sei se foi verdade ou imaginação de criança.
Sempre gostei de ler e de ouvir histórias. Havia uma estante na sala da avó, que continha um pequeno livro de capa dura, cor de vinho. Adorava quando minha tia Irma se dispunha a lê-lo para nós. A Pituchinha, o Polichinelo, o Pompom eram personagens inesquecíveis: quando iam roubar doces, a lata caia-lhes em cima, lambuzando-os de doce de leite e eles eram surpreendidos. Sentia a mesma aflição toda vez que ouvia isso.
Coisa alegres, coisas tristes. Memórias infantis. Sonhos, desejos, tudo fundido numa história só.
Um comentário:
Delícia ler o q vc escreve...
Parece q conheço a todos...
Fico aguardando a próxima com ansiedade.
Um bj.
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