segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Realidade e surrealismo.

Fui cobrada. Alguém pediu que eu continuasse a contar o resto da aventura. É bom, serve de estímulo a  continuar. Descemos do ônibus e já se formava uma fila de estudantes, acompanhados da balbúrdia que é normal entre jovens, junto à porta de entrada do magnífico edifício do CCBB. Aproveitando as benesses da terceira idade  ( o que não é muito ) entramos já com os tíquetes na mão. Viva a velhice! Pareço mais um revolucionário  francês dando vivas ao seu país! Vive la France! Não sei nada dessa língua maravilhosa, o francês. Que me deem um desconto. Dela só me lembro do  nosso professor, lutando para nos ensinar alguma coisa. E lá se vão longos anos...Subimos as escadas, enquanto eu observava as enormes janelas e portas, o piso antigo, paredes com seus arabescos incríveis e tudo o mais. Logo me deparei com todo o tipo de gente e de todas as idades. Uma mulher carregava seu pequerrucho, atrelado a um tipo de bolsa moderna, como se fosse um canguru. Eu os olhei e fiz um comentário, que ele, claro, não entendeu. Visualizei alguns quadros que, debaixo de fraca luminosidade, pareciam se defender da claridade e do que ela poderia causar, foi o que imaginei. Algumas pessoas fotografavam, para minha surpresa. Achei que seria proibido. Logo percebi o valor daquela genial obra. A arte estampada em cada risco, em cada detalhe. Criação de um talento admirável. Numa das paredes pude ler  do, não menos genial, Alfred Hitchcock, que os sonhos deveriam ser expressos assim, como a arte do grande Salvador Dali. Não com essas palavras, claro. Havia trabalhos que nunca imaginei, criações de verdadeiro artista, e me dei conta de quanto não sabia nada sobre o autor. Projeções, vídeos e outros artifícios deliciavam a todos. Deixo a cargo de quem tiver a bela idéia de estar ali, contemplar aquela rica exposição. Vale a pena. Descemos por outras escadas em detrimento de elevador antigo de grades pintadas de verde-escuro, daqueles bem antigos. Alcançamos a rua que já se esvaziava. Sábado, o comércio já quase totalmente fechado. Minha irmã me ligou pelo celular, se dizendo livre do compromisso em Niterói. Convidei-a a se juntar a nós. A travessia pela barca foi bem rápida e ela nos alcançou logo, quando estávamos na Casa Granado, bem próxima à igreja belíssima que eu e minha amiga tínhamos acabado de visitar. Era outra visão da mais pura arte, anjos e santos, paredes majestosas, decoração digna da casa de Deus. A outra companheira, ansiosa por um cigarro, não nos acompanhou, esperando na entrada. Minha irmã se juntou a nós e feitas as apresentações, nos encaminhamos em direção ao Paço Imperial. Havia ali uma exposição sobre Zuzu Angel. Uma grande e movimentada feira de artesanatos, móveis e tudo que se pode imaginar e um pouco mais estava ali. Uma desordem alegre. Antes, visitamos uma livraria, quase no meio do caminho. Um charme. Para quem gosta de livros, CDs, revistas, DVDs, um café charmoso, salgadinhos finos, mesinhas dispostas de modo a receber quem gosta de ler e de frequentar um bom lugar como aquele, um prato feito. Passamos agradáveis momentos ali. Saímos e olhamos algumas barracas da feira. Minha amiga comprou um pequeno bijou a preço baixinho e, de repente, me bate alguém às costas. Diz um nome feminino que não me lembro e imediatamente se desculpa, percebendo o erro. Homem simples, mas educado. Eu retruquei: -Sua amiga era bonita como eu? E tudo virou brincadeira descontraída. Zuzu Angel foi uma mulher admirável, criativa, elegante, inovadora e, antes de tudo, lutadora. Fotos do filho espalhadas entre moldes e revistas da época. A filha, a família, enfim retratando uma época de terror ao mesmo tempo misturada ao glamour da criadora de moda. A hora já era perto de três e resolvemos voltar. Desta vez, de barca. Fomos em direção ao píer. Todas portando cartões relativos à gratuidade das passagens, com suas fotos macabras e feias. Culpa do fotógrafo, deve ser. Menos minha irmã que se recusa a ter tal documento "desabonador". Esperamos com ela que comprasse seu bilhete na fila grande  que já se formava. Conversa vai, conversa vem, me cai algo sobre os cabelos, desce pelo ombro e acaba se alojando no decote pequeno da blusa. Que nojo! Titica de pombo, com certeza, já que as aves davam alguns rasantes sobre nós. Não era. A prestimosa amiga me ofereceu um lenço de papel, passando-o com uma porção de álcool que trouxera na bolsa. A cor era entre vinho e roxo. Uma fruta da enorme árvore que nos dava sombra, antes isso. Pegamos a barca na tarde ensolarada, quente ( o que me agrada - detesto frio) e seguimos para casa.  O papo de quatro mulheres, naquele momento, deslizava por assuntos variados, tanto que nos esquecemos de descer. Corremos, ao perceber que a sala com aquele monte de cadeiras, se encontrava quase vazia.

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