quinta-feira, 18 de setembro de 2014

CAMINHOS

Eram recheadas de muita alegria e animação as idas à casa de meu avô. A mesa grande de refeições,  com muitos lugares,  farta, era separada da cozinha por um degrau  que ocupava todo o vão daquele espaço enorme. Havia  também mais duas portas: uma dava para uma despensa, onde eram guardados mantimentos. A outra parecia um quarto de empregada, com uma cama e armário pintado de azul. Dali, se avistava pela janela larga, um outro espaço que chamávamos de "Cimentinho". Era o lugar que costumávamos nos sentar para comermos o almoço ou o jantar. A mesa grande era reservada  aos adultos, que eram muitos. Nas ocasiões especiais, tios e tias acorriam à  comemoração acompanhados dos filhos. Família grande. Alegria maior. Os gatos, muitos, passeavam ao redor da mesa, esbarrando seus rabos longos nas nossas pernas, o que me causava nojo e tirava o apetite. Enormes panelas fumegavam no fogão à lenha. Frangos ensopados ao molho pardo, carne de porco, de boi, angu e muita, muita verdura. O melhor eram as sobremesas, doces de compotas variadas: figo,mamão, abóbora com coco, pudins, feitos pela tia Darcy, mais doce que qualquer uma das iguarias preparadas por ela.
Havia a sala de jantar, que era pouco usada, só em ocasiões de festa, casamento, batizado ou aniversário. Dali os corredores longos eram caminho para os quartos, muitos quartos. Só havia um banheiro bem grande, com banheira, bidê, chuveiro, com janelinha envidraçada, que dava para os fundos da cozinha.. Ali, um pé de figo e o pessegueiro, plantados antes da imensa horta, no terreno mais abaixo. À noite, umas das empregadas passava pela sala com uma pilha enorme de urinóis, rajados de azul e branco e os colocava em cada quarto. Naquela idade,  eu ainda não controlava completamente meus rins, enquanto dormia. Tragédia para mim quando percebia, ao acordar, que estava molhada. Sentia vergonha. Ganhei por isso um apelido que me acompanhou por toda a infância e que me deixava inferiorizada: Maria mijona. Não se preocupavam com complexos e coisas que tais os adultos daquela época. Nem havia psicólogos, com certeza, não. Lembro-me do outro apelido que ganhei: "Dez anos". Por que? Aconteceu assim: nós fazíamos parte do fã clube da Emilinha. Eram as mais famosas cantoras do rádio, Emilinha e Marlene. Então, naquele dia, eu cantava alegremente a música que tocava em todas as rádios - Dez anos - E meu tio Chico, muito brincalhão, me interrompeu os versos e completou a frase: ..." assim se passaram dez anos, sem mijar
 na cama..." Daí o apelido.
Houve uma noite, não me esqueço, aconteceu uma coisa bizarra. Dormíamos eu, minha irmã e a prima Branca, na mesma cama larga. Acordei, no meio da noite, com vontade de  fazer xixi. Chamei-as, aliviada por ter despertado a tempo. O assoalho do quarto era de tábuas largas, com grandes frestas, por onde passava vento. Vê se tem um "pinico" embaixo da cama. Disse uma delas. Não sei quem teve coragem de olhar mas vimos que não havia nenhum. Azar. Então, sem coragem de atravessar a enorme sala, às escuras, que dava ao único banheiro, nós três decidimos encarar o fato. Não havia outra solução. Elas então: - " pode fazer"... Inundei-as com o meu xixi quente.

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