Acordei com mais preguiça que de costume. O telefone tocou: minha irmã dizendo que já estava pronta e que sairia daí a dez minutos, ela e o marido indo de táxi para a praia. Não ia dar tempo. Não gosto de fazer ninguém me esperar. Disse que os encontraria mais tarde - vamos de ônibus daqui a pouco - retruquei. Leve o celular e nos encontraremos lá. A cidade anda meio vazia. Muitos viajaram já que é Carnaval. Ir de ônibus para a praia: programa de índio. Concordo. Mas fomos eu e minha filha e ainda passamos na farmácia para ela comprar um protetor solar. Consegui um lugar ao lado de um senhor negro, que segurava uma caixa grande ( presumivelmente, vendedor de picolés); ele parecia cochilar alimentado pelo calor e o balançar do carro. Já passava das dez horas. A filha de pé, ao meu lado e o ônibus ficando cada vez mais cheio em cada parada. Resolvemos ir a outra praia, próxima à de ontem mas onde as ondas não nos levassem até a África, num súbito mergulho forçado, em que atingíssemos as costas do outro continente. Desta vez, a água estava excelente e passei a maior parte do tempo, nadando, mergulhando ou boiando. Em verdade havia, além desse mar de águas generosas e limpas, um outro mar de gente. Quem tem preconceito não deve aparecer por lá. É o povo brasileiro, sofrido, moreno e negro na grande maioria. Os destoantes éramos nós, branquelos de meia tigela. Muito isopor com bebidas, muita farofada e muita gente de verdade. Simples, pobre e que representa o verdadeiro povo brasileiro. Vou te contar um segredo: o banho de mar de hoje, muito melhor que o de ontem. Pude entrar sem susto pelo mar adentro sem me sentir levada pela força do mar de ontem, onde a frequência é seleta. Na praia de hoje, havia mulheres gordas, mal vestidas, muitas crianças e todo o tipo de gente.
Puxei assunto com o homem da caixa de picolés, quando ainda no ônibus. - "É picolé?" Perguntei. Sim, respondeu ele. E continuamos a conversa, comentando que o ônibus já deveria estar equipado com ar condicionado, já que existe uma lei para isso. E ele emendou o papo e acabou contando que aos cinquenta e seis anos ainda cumpria aquela rotina. Um tempo atrás, tentara junto aos órgãos competentes se aposentar, tinha uma das pernas encurtadas muitos centímetros, resultado de uma paralisia infantil. Ele não conseguiu nada e teve que trabalhar. De verdade. Não é vereador, nem nada para receber a quantia "merecida" pelo esforço que faz. Coisas assim, histórias como esta nos fazem pensar... Antes de descermos ele me contou ainda que preferia vender seus picolés naquela praia. A outra, tem muita gente drogada, muito maconheiro, sublinhava. E desceu no final da linha, já a uns trinta metros da praia. Mancava, com a caixa de Isopor às costas... À noite, deve dormir cansado, muito. Faz parte do povo simples e ordeiro que trabalha, não tem propina, não tem nenhuma vantagem, não rouba a Nação. Ao contrário, independente de seu problema físico, luta bravamente pela sobrevivência. Senti muito orgulho de estar ali, ao lado de um homem pobre, negro e deficiente que carrega nos ombros o peso do trabalho honesto mas que, à noite, dorme o sono dos justos.
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